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Posts na categoria "Política"

O salário público dos servidores

13 de julho de 2012 167

Os servidores públicos, em geral, não são recepcionistas que ganham 24 mil por mês. Em geral, os servidores públicos recebem salários compatíveis com seus cargos ou menos do que isso, como a maioria da população brasileira. E, como a maioria da população brasileira, os servidores públicos levam seus filhos à escola, empurram carrinho no supermercado, compram remédio na farmácia, conversam com o vizinho e se irritam no trânsito. Os servidores públicos são idênticos à maioria da população brasileira, mas, com a lei que pretende divulgar- lhes os nomes e os salários, levarão uma vida diferente de todos, levarão uma vida igual ao seu trabalho: pública. Posso imaginar uma roda de mulheres num bar passando de mão macia para mão macia a lista dos salários de seus amigos, e quiçá pretendentes, que trabalham no serviço público.

– Prefiro sair com este, que ganha R$ 928,52 a mais do que esse outro. – Olha aqui esse chinelão: me convidou para beber um vinho na casa dele, mas só ganha R$ 950. Vai ver é vinho de garrafão.

Ou quem sabe a faxineira de um servidor, discutindo com ele:

– O senhor pode me dar mais 20 por faxina: o seu salário é R$ 3.269,88.

Ou o vizinho na reunião de condomínio:

– Uma vez que o seu salário é de 10.974, você pode aumentar a contribuição mensal, já que nós ganhamos muito menos.

A relação de nomes e salários também será muito útil para operadoras de telemarketing, vendedores e eventuais golpistas, mas ninguém se beneficiará mais do que os sequestradores que abundam debaixo dos semáforos das cidades. Eles poderão estabelecer com minúcias de centavos quanto pedir de resgate por algum familiar de um servidor público. Muito prático.

Eu aqui, eu já precisei de inúmeros servidores públicos, ao longo da vida: sempre estudei em escola pública, e, como qualquer cidadão, já tive de me socorrer da saúde pública, da Justiça, da polícia, dos bombeiros, de diversos prestadores de serviço. Pois quando esses funcionários estavam me atendendo, se porventura pensasse no salário deles, sabe do que eu gostaria? Que eles fossem muito bem remunerados. Que aquele professor, que aquele médico, que aquele escrevente, que aquele delegado, que aquele juiz, que aquele brigadiano ganhasse muito bem, que estivesse satisfeito com seu trabalho, a fim de me prestar assistência de qualidade, a melhor assistência possível.

A divulgação dos salários vinculados aos nomes dos funcionários talvez diminua distorções como a da recepcionista que ganha R$ 24 mil por mês. Mas talvez também afaste os bons do serviço público. Porque, se é verdade que o que é caro não é necessariamente bom, também é verdade que o bom vale mais. O serviço público, por atender a toda a população, tem de ser composto pelos melhores, e os melhores têm de ser bem remunerados. Com merecimento, sim. Com transparência, claro que sim. Não com constrangimento.

* Texto publicado na Zero Hora desta sexta-feira, 13/07/2012

Refugiados de Chávez

25 de janeiro de 2011 2

Aí vai mais um artigo da correspondente do blog na Venezuela, a minha amiga Yelitza Linares, competente jornalista de Caracas.

Como se fossem dois apresentadores de um programa de televisão, o vice-presidente da Venezuela, Elias Jaua, recebe por um sinal de microondas, o Presidente da República, Hugo Chávez. A transmissão oficial passa por rádio e TV. Hora? 18h.

“Obrigado, presidente”, disse Jaua. “Aqui estamos no quarto andar, sede da Vice-Presidência, onde construímos alguns apartamentos para abrigar 29 famílias.”

Chávez, do outro lado, mostra as 25 “casas-abrigo” que foram construídas na Praça Bicentenária do Palácio de Miraflores para receber um número igual de famílias desabrigadas, que perderam suas casas em consequência das fortes chuvas em Caracas no início de dezembro.

Mais de 130 mil pessoas abandonaram suas residências porque estavam em perigo. Oito estados declararam situação de emergência devido aos danos causados pela chuva.

A maioria dos afetados foram transferidos inicialmente para escolas, onde permaneceram até 10 de janeiro, quando as aulas recomeçaram.

Mas o seu destino não foi o habitual. No final de 2010, Chávez surpreendeu mais uma vez quando pediu a ministros que sigam seu exemplo e abram espaço para os desabrigados, por tempo indefinido, nos escritórios do governo.

Desde então, funcionários compartilham escritórios com flagelados, muitos deles crianças.

Ministérios, o Banco Central da Venezuela, a Assembleia Nacional, museus, centros esportivos, hospitais, estações ferroviárias, entre outros, cederam os locais em que antes estavam computadores e arquivos para abrigar camas ou colchões, instalar banheiros, banheiras e cozinhas.

O setor privado também deve colaborar. Proprietários de redes hoteleiras foram intimados pelo governo a destinar uma parte de seus quartos aos desabrigados.

Alfredo Urbano foi um dos beneficiados pela medida, junto com sua família e vizinhos. Em 27 de novembro, teve que deixar sua casa, localizada na parte mais alta de Carapita (periferia do estado de Miranda), porque o morro cedeu e várias propriedades do local desmoronaram.

Logo depois de recorrer a abrigos por vários dias, sua família foi recebida no 7º andar da sede do Banco de Venezuela, na avenida Urdaneta, onde funciona uma agência bancária. Nos outros seis andares estão escritórios administrativos.

Por ser funcionário da instituição, Urbano tem o privilégio de compartilhar a unidade, mais segura, com outras 17 famílias.

“Aqui estamos mais tranquilos. No abrigo anterior, não tínhamos nenhuma privacidade e tínhamos que lidar com pessoas violentas e armadas”, comenta.

A vida conjunta os levou a se organizarem em comissões, que eram responsáveis por alimentos, limpeza, segurança, logística, entre outros.

Esse também é o caso de Carlos May e sua família, que dormem desde 10 de janeiro em camas improvisadas no quinto andar do Ministério da Educação.

Nos corredores do mezanino e em outros três níveis do prédio, acomodações foram instaladas para 120 pessoas que tiveram que abandonar residências na antiga estrada Petare-Guarenas.

“Nada como ter uma casa própria, mas aqui nos sentimos melhor”, expressa May.

Os flagelados se diferenciam dos trabalhadores por braceletes e cumprem normas de segurança impostas pelos departamentos de governo: eles têm horários restritos para sair e entrar, para tomar banho e não podem circular pelos corredores durante o expediente. Isso não impede que se cruzem com funcionários públicos.

Entre os trabalhadores dessas unidades foram criados, por ordens de seus superiores, comitês de apoio que se encarregam de organizar a distribuição de comida e de materiais de higiene pessoal (que na maioria das vezes são doados pelo governo ou pelos próprios funcionários).

Mas a implantação desta população afetada na rotina da administração pública tem provocado conflitos em algumas unidades.

Na semana passada, os funcionários do Ministério das Relações Exteriores protestaram porque foram descontados 10% de seus salários para ajudar as vítimas, em um ato de “solidariedade forçada”, como eles mesmo chamaram. O dinheiro finalmente foi devolvido, ante a manifestação que tomou as ruas.

O arquiteto Marco Negrón questiona a improvisação com que se está enfrentando o problema e a qualifica de “absurdo”. Em um programa da rádio Circuito Unión, argumentava que a resposta oficial é apenas um reflexo da falta de previsão para resolver os casos e que se evidencia a falta de abrigos e moradias.

O governo só construiu 290 mil casas em 12 anos de gestão, segundo dados do Centro de Pesquisas Econômicas, e precisa de, pelos menos, 2,5 milhões.

Somado a isso está o mercado de aluguel de imóveis, cujas ofertas diminuiram oito vezes durante o mandato de Chávez, como consequência do congelamento da renda.

Negrón disse que o país não tem capacidade para construir um conjunto habitacional prometido agora pelo governo, porque o setor está desmantelado.

Chávez anunciou esta semana que irá erguer, com a ajuda dos russos, 40 mil casas na base militar de Fuerte Tiuna, em Caracas.

Também firmou o Decreto de Lei Especial para Abrigos Dignos, o primeiro aprovado no âmbito da Lei Habitante, que lhe dotou de amplos poderes para legislar nesta e outras matérias.

A Assembleia Nacional anterior (que era formada, em sua maioria, por deputados governistas) lhe cedeu em dezembro este poder, que poderá administrar por um ano e meio, quase o que lhe resta de mandato.

A lei lhe permite legislar para atender a tarefa urgente que tem o presidente de realocar os refugiados e oferecer-lhes a oportunidade de ter uma casa. Mas Chávez tem utilizado outras medidas que promovem a anarquia na capital.

“Aqui nos organizamos e criamos comitês de habitação”, explica Carlos May, refugiado no departamento de Educação. “Temos nosso projeto e terreno”. Quando questionado qual terreno, silencia.

A verdade é que obedece a uma ordem presidencial, dada na quinta-feira em emissoras de rádio e TV. “… todo aquele que busca suas casas, que Chávez os desapropriará”. Há 1 mil residências abandonadas, 2 mil em Caracas. Embora a burguesia diga o que diga, a revolução avança. O que queremos é que o povo seja o mestre do vale e não os burgueses.

Nessa mesma noite, houve duas tentativas de invasão na Paróquia de São Pedro por parte de grupos de pessoas que admitiram não ser flagelados, mas que tinham necessidade de ter uma casa própria, “porque vivemos na superlotação”, expressaram.

Na madrugada seguinte (sábado), houve ocupações massivas de 20 terrenos em Chacao – um bairro de classe média. Ao amanhecer, moradores protestaram nas ruas por causa dessas invasões, e o prefeito do departamento teve de negociar a retirada da população que tomou as terras, e o ministro do Interior e Justiça apareceu na mídia para “esclarecer” que a ordem do chefe de Estado foi “identificar os terrenos abandonados, não ocupados”.

Esta história agitada continuará…

Paguem bem aos políticos

19 de janeiro de 2011 22


Recebo e-mails furiosos de leitores comentando o post sobre os salários dos governadores.

Alguns acham que foi ironia. Outros que quis fazer polêmica.

Nada disso.

Os ex-governadores, realmente, merecem pensões gordas. Mais: um bom salário para um ex-governador é fundamental para a democracia.

Para que os mais afobados compreendam, peguemos o exemplo mais acabado de democracia, os Estados Unidos.

Nos Estados Unidos, o presidente pode concorrer à reeleição. Depois, não pode concorrer mais. No Brasil, Lula pode se candidatar de novo, daqui a quatro anos. Lá é impossível.

Nos Estados Unidos, um ex-presidente não pode trabalhar como funcionário, não pode ser contratado por uma empresa. Ele só pode ser professor ou palestrante, como é Bill Clinton, talvez o palestrante mais bem-sucedido do mundo.

Imagine Bill Clinton na pobreza, estendendo sua alva mão a esmolar pelas ruas. Os Estados Unidos jamais permitiriam isso. Porque Bill Clinton representa os Estados Unidos. Representa o povo dos Estados Unidos. Há respeito pelo cargo de presidente, nos Estados Unidos, porque lá eles sabem que aquele cargo é fundamental para o funcionamento da democracia, que lhes é tão cara.

Bill Clinton cumpriu sua missão durante oito anos. Estava gabaritado a isso por sua história. Agora vai para o remanso dos ex-presidentes, vai ser um magistrado político, um homem que pode ser chamado a colaborar e que vai colaborar, do alto de sua experiência.

Imagine Bill Clinton falido, tendo de pedir emprego em uma grande companhia americana. Os conhecimentos que Bill Clinton adquiriu em seus dois mandatos dariam uma vantagem desproporcional a essa empresa. Logo, para Bill Clinton não ser de alguma forma cooptado, os Estados Unidos pagam-lhe uma generosa pensão vitalícia.

Com um governador de Estado não é diferente. Um governador de Estado ter que procurar emprego na iniciativa privada é ruim para o RS e é ruim para o governador. Porque faz com que o emprego e o mandato fiquem sob suspeita. Os funcionários públicos, os trabalhadores da iniciativa privada, os empresários, a população do RS depende das ações do seu governador. Encerrado o seu mandato, o governador tem de se tornar uma entidade. Porque ele é uma entidade. Esteve nas entranhas do poder, conhece coisas que ninguém conhece.

Os políticos têm de ser bem remunerados, sim. Quando você paga um bom salário a um político, está pagando um bom salário a quem o representa.

Os políticos não são o problema do Brasil. São a solução.

O Brasil buscou esse caminho durante sua História. Buscou a democracia. Agora, não faz muito, a democracia foi alcançada. Ela tem de ser apurada, desenvolvida e aperfeiçoada. E isso só se faz com os políticos, não sem eles.

As pensões dos ex-governadores

19 de janeiro de 2011 40


Aqui da Orla acompanho a discussão sobre as pensões dadas aos ex-governadores.

Custam R$ 240 mil por mês ao Estado, li ontem em Zero Hora. Yeda Crusius, que deixou o governo mês passado, receberá R$ 24,1 mil mensais.

De fato, trata-se de um escândalo.

Pagam muito pouco aos ex-governadores. Esse salário deveria ser aumentado em, pelo menos, 50%.

Não é uma ironia. Um ex-governador tem que ganhar bem. Por vários motivos. Os dois principais:

  1. Porque ele precisa manter a dignidade de quem exerceu o cargo mais importante do Estado. Afinal, mesmo sendo ex-governador, ele ainda representa o Estado.

  2. Porque uma boa pensão evita que o governador faça negociatas durante o seu mandato para se locupletar depois de deixar o cargo.

Pagar uma pensão gorda aos ex-governadores é investimento.

A democracia não é barata. As coisas boas, em geral, não são.

Presidência da Assembleia

16 de dezembro de 2010 1

Confirmado: Adão Villaverde será o candidato do PT a presidente da Casa do Povo.

Novíssima da política

16 de dezembro de 2010 1

Adão Villaverde, do PT, deve ser confirmado ainda hoje como novo presidente da Assembleia Legislativa.

Trata-se de digno espécime de político. Interessado, atuante, atento. É uma das novas estrelas do futuro do PT.

O leitão à pururuca, o túnel, o velho amigo

12 de novembro de 2010 11

Vou contar meu dia de ontem no estilo “Querido Diário”. No caso, “Queridos Leitorinhos”.

Vamos lá.

Queridos Leitorinhos,

Ontem tive um dia agitado. Sabem onde almocei? Vocês não vão acreditar. Na ala residencial do Palácio Piratini! Melhor ainda: o lugar se chama “Salão de Banquetes”.

Fui ao almoço a convite da governadora Yeda Crusius. Não apenas eu e ela, claro. Lá estavam uns 18 jornalistas. Era uma espécie de prestação de contas de fim de governo.

Terminada a refeição (leitão à pururuca, ótimo), ela nos guiou pelas entranhas do palácio. Então realizei um sonho: conheci os famosos túneis de fuga do Piratini. A entrada é pelo jardim. Um buraco estreito, escuro e sinistro. Devia ser aberto à visitação pública. Seria uma atração turística.

À tarde, reuni-me com meu velho amigo Juremir Machado da Silva num debate na Sala dos Jacarandás, na Feira do Livro. Eu, ele, o Celito de Grandi e o Elmar Bonés conversamos sobre literatura, história e jornalismo.

O Celito escreveu o livro sobre o Caso Kliemann. Já li. Quem se interessa por Porto Alegre ou por crônica policial, deve fazê-lo.

Elmar Bonés, o “Bicudo”, é um velho lobo da imprensa. Foi quem mais falou, e falou bem, como sempre.

E o Juremir, nós nos conhecemos há 30 anos, fizemos faculdade juntos, somos mais do que bons amigos. Considero-o um dos grandes intelectuais da história do Rio Grande do Sul. Um dos grandes do Brasil. Hoje ele vai lançar mais um livro na Feira, “1930”, sobre o movimento que levou Vargas ao poder. Será a partir das 18h30. Não perca. Eu, depois do Pretinho Básico, estarei lá.