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Posts na categoria "Túnel do Tempo"

Túnel do Tempo: A bola na avenida

17 de abril de 2014 0

Arte ZH
Conduzia meu veículo automotor pela Padre Cacique, nas imediações do Beira-Rio, quando uma bola branca voou por cima de um muro de colégio. Ouvi o vozerio das crianças angustiadas pela interrupção da brincadeira. Correram, dependuraram-se na tela estendida na parte superior do muro, gritaram:

- A bola! A bola!

Por sorte, a bola havia pingado perto de um ponto de ônibus, e no ponto de ônibus estava parada uma senhora de idade provecta, ela e seu guarda-chuva.

- A bola, vó! – pediram as crianças. – A bola!

Vinha em marcha reduzida, já que lá adiante a sinaleira encontrava-se fechada. Parei a poucos metros do ponto de ônibus. Fiquei observando a cena.

- Vó, vó! A bola! – esganiçava-se a gurizada.

A velha não parecia ouvi-los. Continuava imóvel, nem olhar para a bola olhava.

As crianças urravam em uníssono, a bola, a bola, a bola! A velha nem aí. Era impossível que não estivesse ouvindo, com todo aquele barulho. Só que ela não se dignava sequer a virar-se para a bola ou para trás, para as crianças no muro do colégio. A bola estava muito próxima. Bastava a mulher avançar dois ou três passos, descer o cordão da calçada, abaixar-se e colhê-la, feito uma petúnia do asfalto. Mas ela não fazia menção de que iria se mover. Ao contrário, levava uma expressão enfarruscada no rosto, parecia de mal com o mundo. Não vai pegar a bola, pensei. A essa altura, as crianças imploravam:

- Por favor, vó! A bola! Por favor!

Senti o peito se comprimir. Por que ela não lhes devolvia a bola? O que é que custava? Será que eu devia saltar do carro, correr até a bola e chutá-la muro acima? Mas o carro não estava tão perto assim, o sinal poderia abrir, aquela rua é cheia de azuizinhos. Não podia abandonar o carro, daria a maior confusão.

- A bola! – suplicavam as crianças. – A bola, vó!

As velhas têm problemas com bolas e crianças, já vi. Contei dia desses daquela que fatiava as bolas que caíam no quintal dela, não contei? Pois é. Uma bruxa. Aquela velha ali, na parada de ônibus, provavelmente era do tipo que cortava bolas de futebol desgarradas. Na certa, em vez de atirar a bola de volta às crianças, a jogaria para o outro lado da rua, debaixo dos pneus de algum ônibus. Maldita!

Esse é um dos grandes dramas da infância. Bolas são instrumentos que volta e meia fogem ao controle de quem lida com eles, rolam para longe, para lugares inóspitos, como quintais de velhas amargas e pistas de avenidas movimentadas. Uma tarde, quando jogávamos pelada na Rua da Tendinha, nos fundos da Gráfica Pallotti, o Raimundão deu o popular %22bago%22 e a bola foi parar no terreno da empresa. Ninguém queria buscá-la – havia uma lenda de que o terreno da gráfica era guarnecido por cães ferozes. Alguém aventou de obrigar o Raimundão a pegá-la. Afinal, a lei universal da peladinha é: quem chuta, busca. Mas o Raimundão negava-se a ir, dizia ter medo pânico de cachorro, não ia de jeito nenhum. Além disso, é preciso ressaltar que o Raimundão media metro e noventa de altura e era brabo feito um boi. Acabamos convencidos pelos argumentos racionais do Raimundão. Alguém deveria se sacrificar em seu lugar.

Percebi que, se dependesse dos meus amigos, o jogo não continuaria. Como estava numa boa fase, fazendo gols e tudo mais, ofereci-me em holocausto. Tudo por uma atuação consagradora.

Existia um rombo na tela de arame que protegia o terreno. Entrei por ali. Dezenas de árvores e arbustos enchiam o lugar de sombras. Não conseguia ver onde a bola caíra. Do outro lado da tela, meus amigos ajudavam:

- Mais pra esquerda! Debaixo daquela árvore grande!

Fui me esgueirando para lá, olhando para os lados, tentando adivinhar algum movimento, procurando os cachorros. Caminhava meio agachado, passo a passo. Passo a passo. Vi a bola (David viu a bola). Sorri. Apressei-me. Cheguei ao local onde a bola repousava. Recolhi-a. Coloquei-a sob o braço e… de repente…

COM MIL WOLFREMBAERS, os cachorros!!!

Três deles. Ou seriam quatro? Podiam ser até cinco. Na verdade, era uma matilha. Jesus Cristo, saí no que se chama desabalada corrida. Os cães atrás de mim, rosnando e latindo, eu correndo e correndo e correndo, os guris gritando:

- Corre! Corre!

Naquele momento, eu realmente não precisava dos conselhos deles. Corri, corri, já estava vendo o buraco na tela por onde pularia para a salvação. Corri, corri, corricorricorricorri muito, saltei para o buraco e, no instante em que estava no ar, ouvi um NHAC! e senti uma fisgada na panturrilha. Na ruazinha, os guris me cercaram, excitados. Olhei para trás e vi, por Deus que vi: um cachorro de pêlo branco-sujo, grande, tendo entre os dentes um naco de carne do tamanho de um ovo de galinha, a gordura branca projetando-se para fora do focinho. Oh, pedaço de mim!, como diria o Chico Buarque.

É por essas que um guri passa, atrás de uma bola. Por isso, decidi que sairia do carro e devolveria a bola para os guris do colégio da Padre Cacique. Puxei o freio de mão, levei a mão ao trinco, ia saindo, e então alguém mais chegou. Um homem de uns 30 anos, de jeans e camiseta branca. Caminhava sem pressa e ouviu o pedido da criançada:

- A bola, tio! A bola!

Fiquei aliviado. Um homem seria solidário, nessas questões futebolísticas. Ele devolveria a bola! O sinal abriu. Havia uma fila grande de carros a minha frente, teria tempo de testemunhar a devolução. De fato, ele apanhou a bola da rua. Mas não a devolveu. Ficou olhando-a, sopesando-a, examinando-a.

- Tio! Tio! – gritavam as crianças. – Tio!!!

Ele olhou para elas, olhou para a bola e para a bola ficou olhando, sentindo-a com a mão. Arregalei os olhos ao compreender o que aconteceria. Ele queria ficar com a bola! Queria roubá-la!!! Os carros andavam. A pista vazia se alargava diante de mim. Os carros detrás buzinavam. Eu tinha de ir! Arranquei. Mas, antes de sair, consegui abrir a janela e gritar:

- A bola, pô! A bola!!!

O homem olhou para mim. Olhou para as crianças. Olhou para a bola.

E mandou-a para o outro lado do muro.

Um ponto a favor da Humanidade!

*Texto publicado em 7/5/2008

Túnel do Tempo: O rei que não gostava de dançarinas

14 de abril de 2014 2

Tenho dois elevados motivos para escrever agora sobre o rei Ludwig II, além do de narrar sua singular história. Poderia discorrer sobre o avô dele, Ludwig I, e talvez até devesse. Era um pândego, o velho Ludwig. Apaixonou-se pela fogosa dançarina espanhola Lola Montez, e por ela perdeu sua fortuna e seu reino. Um homem que é arruinado por uma mulher merece respeito — trata-se de um homem movido por valores sólidos.

Ludwig II, como o avô, tornou-se rei da Baviera, abençoado estado da Alemanha que inventou a Oktoberfest e a cerveja Paulaner. Mas, ao contrário do avô, não era um apreciador de dançarinas, nem de bailarinas, nem de quaisquer fêmeas da espécie. O jovem Ludwig gostava era de rapagões espadaúdos. Um deles em especial, certo escudeiro com quem manteve relacionamento bastante amistoso por mais de duas décadas. Quando esse escudeiro se casou (com uma mulher), o rei confessou a amigos que o casamento estava-lhe sendo mais doloroso do que a Guerra Franco-Prussiana.

Mas ninguém recebeu tanto amor do rei quanto um homem mais velho: o compositor Richard Wagner. Ludwig protegeu Wagner, quitou-lhe as contas, deu-lhe uma casa onde morar, inaugurou um teatro para representar as óperas de sua autoria e escrevia-lhe cartas abrasadoras, como se estivesse se correspondendo com uma amante. Tipo:

“Inquebrantável é o laço que nos une. Firme, sagrado, eterno e profundamente encantador o amor que por ti arde na minha alma”.

O rei era homossexual, óbvio. Porém, é provável que não tenha perdido a virgindade durante seus parcos 41 anos de vida. Chegou a anunciar o casamento com uma linda priminha, mas desistiu pouco antes da cerimônia, alegando que preferia se afogar num lago dos Alpes a partilhar o leito com uma mulher.

Ludwig sublimou sua repressão sexual de uma forma que só um rei pode fazer: construindo castelos. Consumiu todos os marcos do tesouro real erguendo castelos em meio às nuvens do alto das montanhas da Baviera. São construções de questionável gosto arquitetônico, mas de inegável imaginação infantil, o que é um mérito, afinal, toda imaginação é infantil. Hoje, mais de 120 anos depois da morte de Ludwig, seus castelos encantam o mundo. Um deles tornou-se célebre ao servir de modelo para a Disney criar o castelo da bruxa arqui-inimiga da Cinderela.

Construir castelos nababescos não foi o suficiente para aplacar as angústias do rei. Aos poucos ele foi se isolando do mundo. Dormia durante o dia e acordava à meia-noite para cavalgar pelos campos reais. Abraçava ternamente certa coluna de certo castelo, conversava com determinada árvore de determinada floresta, ouvia vozes. Lideranças alemãs cogitaram de declará-lo impedido de governar, mas teriam que passar a coroa para seu irmão mais novo, Otto, e Otto vinha se comportando de maneira ainda mais estranha do que Ludwig nos últimos dias: vez em quando, o príncipe Otto latia para as visitas.

A solução foi transferir o governo para um tio de Ludwig que era mais velho, não falava com árvores e não latia nem rosnava. Um psiquiatra diagnosticou que o rei estava perturbado e Ludwig foi aprisionado em seu próprio castelo. Um dia, ele e o psiquiatra passeavam pelos jardins e não mais retornaram. Depois de horas de buscas, os corpos de ambos foram encontrados num lago das imediações. Ludwig morreu afogado; o psiquiatra tinha marcas de ter sido agredido. Ninguém jamais descobriu o que aconteceu. Ludwig foi um mistério até na hora da morte.

Eis o resumo da vida de Ludwig II. Fi-lo por dois motivos, como já disse. O primeiro é pelo imeil que recebi de uma leitora, e que reproduzo abaixo:

“Sou sua leitora, ou leitorinha, como costuma definir. Leio o blog, livros, adoro as historias da Jô. Hoje, dia 3 de outubro, assisti ao Café TVCOM. Me encantei com a história que tu tentaste contar sobre o rei Ludwig II, da Baviera. Peço, humildemente, que faças uma crônica sobre esse rei, pois achei interessante demais a história dele. Usando da psicologia benéfica, argumento que já morei no IAPI e foram os anos mais felizes da minha vida. Se não adiantar, confesso que estou partindo para uma jornada de radioterapia e quimioterapia, após a retirada de um nódulo na mama esquerda. Chantagem emocional maior que essa acho que não há.

Silvia Kuchta”

Sou sensível a chantagens emocionais, como se vê. Mas o segundo motivo pode ser comportado nas páginas esportivas. É que, como se percebe pela história de Ludwig, o problema não é o país ter dinheiro; o problema é como o gasta. Na Baviera de Ludwig não havia corrupção, mas o rei dissipava os fundos do tesouro em castelos de sonho. Antes que sejam dissipados em ginásios, estádios, metrôs, avenidas, estacionamentos e segurança pública. Sou a favor da realização da Olimpíada no Rio.

Texto publicado em 7/10/2009

Túnel do Tempo: A trágica primeira transa do Amilton Cavalo

12 de abril de 2014 0

HISTÓRIA FALADA

 

Era conhecido como Cavalo por causa do tamanho do seu… do seu, ahn, bem… do seu instrumento, digamos assim.

 

Quando fez sexo pela primeira vez na vida, a turma inventou que a tal menina tinha gonorréia. Coitado do Amilton…

 

Assiste aí:

*Texto publicado em 28 de janeiro de 2008

TÚNEL DO TEMPO: a tática infalível de Mariana

20 de março de 2014 3

Fraga
Mariana nunca havia se sentido tão nua. Mas estava vestida, o corpo bem coberto: calças jeans justas como se tivesse nascido dentro delas, botas de cano alto até os joelhos e uma blusa tão leve quanto a consciência do Wianey Carlet. Ainda assim, sentia-se nua. Os olhares dos homens do lugar arrancavam suas roupas às fatias. Mariana recém chegara ao clube no qual seu marido trabalhava como treinador. Havia estacado à margem do campo de treino, e os olhares dos jogadores a lambiam como se ela estivesse coberta de leite condensado.

Julião, chamava-se o marido técnico. Um durão. Havia sido zagueiro tosco no passado, e o estilo de jogar se lhe infiltrara na alma. Julião era um ser humano tosco que se dizia sincero. Orgulhava-se da sua franqueza, de falar sem subterfúgios, de olhar no olho do interlocutor, aquela coisa. Julião era áspero com todos, era sempre rude. Menos com Mariana. Na frente de Mariana, ele virava suflê. Ela era 30 anos mais jovem, era loira, magra, alta, linda e sorridente. Tratava-o por “Ju”, e só ela podia tratá-lo dessa forma.

Pois um dia Mariana pediu para vê-lo trabalhar. Julião não recusou – não lhe negava nada. Levou-a ao campo.

E foi aí que ela se sentiu nua.

No começo, ficou incomodada. Mas, com o correr do treinamento, os olhares dos jogadores foram cevando-lhe o orgulho de mulher bonita. Era bom ser desejada, era bom saber que os homens cobiçavam seu corpo. Sentiu-se uma pantera, uma cavala, uma cachorra, tudo ao mesmo tempo.

Depois daquela tarde, suas visitas ao clube se tornaram frequentes. Gostava de experimentar a sensação de ser alvo da concupiscência masculina. E cada dia Mariana ia com uma roupa mais ousada. Deixava que antevissem uma faixa de carne dourada de seus ombros redondos, ou um pedaço das suas longas pernas, ou o delicado piercing que lhe feria o umbigo. Eles ensandeciam de desejo. Eles a queriam, como a queriam.

Um dia, de todos, foi o mais especial. Mariana se encostara à porta fechada do vestiário. De repente, ouviu o diálogo entre dois jogadores que estavam parados do outro lado. Um disse:

– O que eu mais queria era ver aquela mulher nua.

Mariana estremeceu. Supunha que falavam dela. Mas seria mesmo? Sentiu palpitações. Apurou o ouvido. O outro jogador como que arfou, e o que disse entre dentes quase a fez desfalecer de contentamento:

– Cara, tudo o que eu quero na vida é ver essa mulher do treinador nuinha! Nuinha em pelo!

E o outro:

– Dou todo o meu salário só para ver aquela mulher sem roupa!

Mariana como que flutuou pelo pátio do estádio. O maior desejo daqueles homens era vê-la nua! O corpo dela suscitava todos aqueles desejos, todas aquelas ânsias. Era maravilhoso. Era um sonho.

Depois disso, Mariana passou a ir ao clube todos os dias. O problema é que o time começou a perder. O grupo de jogadores apresentava dissensões, o vestiário estava desunido. O emprego de Julião entrou em risco. Foi o que ele disse uma noite para Mariana.

– Acho que vou perder o emprego – suspirou, enquanto vestia o pijama de sapinhos que ela lhe dera.

Mariana ficou apreensiva. Não queria que ele trocasse de clube. Não queria perder o contato com os olhares quentes dos jogadores. Mas o time não vencia mais. As brigas no vestiário se sucediam. Ninguém se entendia no clube, e Julião não conseguia mais impor sua autoridade. Até que chegou o dia decisivo.

– Se perdermos domingo, estou na rua – comunicou Julião à sua jovem esposa durante o café da manhã de sexta-feira.

Mariana dormiu mal aquela noite. O sábado ela passou casmurra, em sofrimento silencioso. Na manhã de domingo, resolveu tomar uma atitude. Foi até o hotel onde todos estavam concentrados. Chamou Julião. Ele desceu até o saguão. Antes de lhe dar um beijo de saudação, pegou em seus cotovelos e perguntou:

– Você confia em mim?

Julião estranhou, mas sabia que a mulher falava a sério.

– C-confio – gaguejou.

– Então me deixa falar a sós com os jogadores. Reúna todos em uma sala e depois saia. Preciso de 10 minutos com eles, e nós vamos ganhar o jogo.

Julião quis saber o que ela faria, o que ela diria, mas ela respondeu que não podia contar.

– Dez minutos – repetia, sem cessar. – Preciso apenas de dez minutos para explicar a minha tática.

Julião topou. Não lhe negava nada. Poucos minutos depois, Mariana entrou na sala em que os jogadores foram reunidos. Estavam sentados em cadeiras de ferro. Ela usava um vestidinho de alças e sapatos de salto alto. Parou de pé diante deles. Falou:

– Vou dar agora o que vocês sempre quiseram de mim.

E, com a mão direita, baixou a alça esquerda do vestido, expondo um seio firme de tamanho standard. Com a esquerda, removeu a outra alça, e ambos os seios se mostraram aos jogadores. Formavam um lindo par. Aí ela empurrou o vestido para além da cintura fina, das ilhargas sinuosas, das coxas fortes, dos joelhos redondos, das canelas lisas. O vestido pousou nos escarpins. Os jogadores estavam sem fôlego. Mariana continuou ali parada, só de calcinha, escarpins e piercing. Levou as mãos às tiras das calcinhas. O meia-esquerda começou a gemer baixinho.

– Se nós vencermos hoje – miou ela. – Tiro o resto antes do próximo jogo.

E entrou no vestido outra vez. E foi-se embora.

As preleções de Mariana tornaram-se célebres no clube. O time ganhou o campeonato. E Julião jamais descobriu qual era, afinal, a tática revolucionária concebida por sua mulher.

* Texto publicado em 6/6/2009.

Postado por David

Túnel do Tempo: Canibais - Capítulo 26

07 de março de 2014 1

“Uma lufada pútrida”

Emiliana desceu com dificuldade a escadaria de madeira que levava ao porão. Um degrau. Depois outro. Um. E outro. Apoiava as mãos nas paredes. Experimentava cada degrau com a ponta do pé antes de sustentar o peso do corpo nele. Os degraus rangiam acusadores, de uma forma que, Emiliana achou, bem poderia despertar a cidade inteira. Suspirou, resignada. Agora ia prosseguir. Chega de covardia!

A escadaria não tinha fim. Quantos degraus já teria descido? Vinte? Quarenta? Devia ter contado. Seus olhos já estavam acostumados à escuridão, ela se sentia mais segura a cada passo. Enfim, a descida terminou. Havia uma outra porta antes de ela chegar ao porão propriamente dito. Se estivesse trancada, Emiliana voltaria para seu quartinho. Isso era certo!

Experimentou o trinco da porta. Estava aberta. O que a aguardaria?

Ao dar o primeiro passo para dentro do porão, Emiliana foi recebida de golpe por uma lufada pútrida. Chegou a cambalear. Levou a mão à boca. Tossiu. A náusea quase a fez vomitar.

– Jesus Cristo! – exclamou.

Devia ir em frente? Teria condições? Claro que teria. Claro. Não ia recuar agora. Mas precisava de algo que lhe iluminasse o caminho. O porão era muito escuro, muito atulhado de objetos, ela certamente iria tropeçar em algo se não tivesse um lampião. Olhou em volta. Havia uma mesa, alguns metros à frente. Caminhou até ela.

Um passo.

Outro.

Mais um passo, cuidando de experimentar o terreno com o pé. Outro. Apoiou-se nas bordas da mesa. Uma mesa grande e retangular, pesada, de madeira espessa. Emiliana sentiu algo que passou diante de seu rosto. Moscas. O local estava infestado de moscas. Cristo, o que acontecia naquele lugar imundo?

Sobre a mesa havia cutelos, facas, facões, um machado. A madeira do tampo estava manchada e um pouco úmida. Emiliana entendeu que era ali que Ramos preparava os cortes de carne que vendia. Por que não fazia o trabalho nos fundos do açougue, como qualquer outro açougueiro? Na ponta da mesa, um objeto quase a fez sorrir: uma vela! Emiliana acendeu-a. A luz da chama revelou bem mais do lugar. O chão de terra batida estava lodoso. O cheiro terrível se tornava cada vez menos suportável. Emiliana respirava pela boca. Compreendeu que não conseguiria ficar ali por muito mais tempo. Encostado à parede, um grande baú açulava sua curiosidade. Caminhou até ele. Levantou a pesada tampa com alguma dificuldade. O conteúdo a fez estremecer.

Sapatos. Sapatos de homem. De todos os tamanhos. Um par de coturnos pequenos, já usados. Chinelas. Tamancos. Camisas de homem pequenas demais para serem de Ramos, pares de calças, uma sobrecasaca. Dois chapéus de pano preto, copa baixa; um chapéu de cor parda; um freio de metal com rédeas e cabeçada com prata; sete pães de sabão; dois pares de suspensórios.

O coração de Emiliana batia forte. Ajoelhada no chão de terra, a mão esquerda segurando a vela, a direita remexendo no baú, ela tentava compreender. Aqueles eram pertences de outras pessoas. Outros homens. Onde estariam os homens apartados de seus bens? Lembrou do tonel com ácido no pátio. Da caveira humana. Sentiu uma rápida vertigem. Jesus Cristo! Jesus Cristo!

Tinha de sair dali. Tinha de fugir imediatamente daquele porão infecto, daquela casa maldita. Era o que ia fazer. Sim! Nem voltaria para o seu quarto. Sairia imediatamente pela porta da rua. Não fazia ideia de onde passaria a noite, mas não seria ali, naquele inferno. Procuraria o sapateiro. Bateria à porta da casa dele, contaria o que viu, pediria guarida. Se o sapateiro não lhe ajudasse, sairia pela noite, se enfiaria num canto qualquer, dormiria debaixo de uma árvore, qualquer coisa, mas ali não continuaria. Iria embora já. Levantou-se, decidida.

E viu a figura imponente de Ramos observando-a com interesse, a dois metros de distância.

Túnel do Tempo: Canibais - Capítulo 25

05 de março de 2014 0

“Um conto de duas cidades”

“– Patriotas! – clamou Defarge, com determinação. – Estamos prontos?

“Os homens, terríveis na ira sanguinária com que olhavam pelas janelas, municiaram-se de todas as armas que possuíam e acorreram ao chamado. As mulheres, contudo, constituíam uma visão capaz de gelar o sangue dos mais audaciosos. Abandonaram as tarefas domésticas que a extrema pobreza lhes impunha, deixaram os filhos, os pais velhos e os enfermos, que jaziam nus e famintos no chão duro, e precipitaram-se, com os cabelos desgrenhados, apressando umas às outras e a si mesmas, beirando a loucura com seus gritos e modos selvagens…”

A descrição de um dos atos da Revolução Francesa feita por Charles Dickens era um primor, mas Walter não conseguia se concentrar no livro recentemente traduzido para o português. Fechou o volume. Deitou-o na mesa de madeira. Afastou com o braço o lampião a óleo de baleia sob cuja luz lia Um conto de duas cidades. Olhou em volta da sala, inquieto demais para ler.

Catarina.

Só pensava em Catarina. Por que ela sumira? Era evidente que sentia algo por ele. Evidente, também, que não se tratava de amor o que a ligava ao açougueiro Ramos. Estranho… Algo terrível estava acontecendo na casa ao lado, ele tinha certeza disso. Precisava descobrir o quê. Precisava! No dia seguinte, chamaria um mandalete. Enviaria um bilhete a Catarina, pedindo que ela entrasse em contato com ele. Uma operação arriscada, ele tinha consciência de que era arriscada. Mas tinha também necessidade quase física de ver Catarina, de esclarecer aqueles mistérios todos de uma vez. Se o açougueiro interceptasse o bilhete… Bem, teria que enfrentar esse perigo. Valia a pena. Por Catarina, tudo valia a pena. O que será que ela estava fazendo naquele momento? Dormindo, certamente. Embora… Walter não compreendia exatamente por que, mas algo lhe dizia que Catarina continuava acordada àquela hora. Talvez até pensando nele.

Túnel do Tempo: Canibais - Capítulo 24

27 de fevereiro de 2014 0

“Um vulto saiu de trás de um grande plátano”

O anspeçada maldito nunca mais vai voltar a falar com o Walter, prometeu Catarina a si mesma, enquanto enviava a Brasiliano o sorriso mais cativante do seu estoque. Notou que o sorriso surtiu efeito. Teve até a impressão de que o bigodão do outro chegou a tremer. Ficava a cada dia mais enojada com a tolice dos homens. Só pensavam em fornicar. O único homem realmente diferente que havia encontrado era Walter.

Por Walter, deixaria aquela vida. Jurara que só ia enviar mais uma única vítima para Ramos. Por ironia, a vítima seria um dos amigos do seu Walter. Catarina suspirou. Walter sentiria a perda, claro, mas era necessário. Como ficar com ele se o maldito anspeçada começasse a contar histórias a respeito dela? Liquidar o anspeçada tornara-se indispensável. Para arrematar, pediria a Ramos que carneasse o cachorro também. Cachorro alcaguete, desgraçado.

Já estavam perto da rua do Arvoredo. Mais um tantinho, e seria o fim do anspeçada fofoqueiro. Nesse meio tempo, resolveu aproveitar para saber um pouco mais a respeito do seu Walter.

– O senhor é muito amigo do sapateiro, não é?

Brasiliano a encarou, surpreso. Teria ele desconfiado de algo? Bem, que desconfiasse. Não iria ter muito tempo para fazer conjecturas mesmo.

– É meu melhor amigo, de fato.

– Hmmm… E que tipo de homem ele é?

– Como assim?

– É boa pessoa? É honesto? Pergunto isso porque estou sempre levando sapatos para o conserto. Não sei se posso confiar no preço dele ou se devo procurar outro sapateiro.

– Aaaah… – o anspeçada pareceu aliviado. – A senhora pode ter toda a confiança. Não existe nenhum sapateiro como ele na cidade, ninguém é tão competente e honesto. Pode confiar!

Catarina sorriu, encantada com a ingenuidade de Brasiliano. Dobraram a esquina da rua do Arvoredo, enfim.

Então, um vulto saiu detrás de um grande plátano plantado a alguns metros da esquina e avançou na direção deles.

Túnel do Tempo: Canibais - Capítulo 23

26 de fevereiro de 2014 0

“Entravam nus nas águas do oceano”

Cheirosa. Ela provavelmente tomava banhos. Não era um hábito muito comum. Todos sabiam que banhos faziam mal para a pele, eliminavam a oleosidade natural que protegia a epiderme. Muitas doenças eram atribuídas ao excesso de banhos.

O amigo Walter tinha o costume de se banhar todos os sábados. Contara-lhe inclusive que na Europa os médicos receitavam banhos de mar, que coisa tão estranha. Fazia uns dez anos que esses banhos esquisitos eram moda no Velho Continente. Os europeus branquelas chegavam à areia, tiravam a roupa e entravam nus nas águas do oceano. Os homens numa praia e as mulheres em outra, claro. Se bem que, segundo Walter, os franceses, sempre eles, haviam inventado recentemente trajes especiais para banhos de mar. O das senhoras se constituía em uns calções de lã e uma blusa negra que lhes descia abaixo dos joelhos, apertada por um cinto de couro; o dos cavalheiros se resumia a uma espécie de macacão listado de marinheiro. Assim, franceses e francesas podiam compartilhar dos banhos marítimos, algo que Brasiliano julgava apenas modismo passageiro.

Já Walter estava realmente habituado aos banhos. De tina, não de mar. Mas Walter era um homem diferente, Brasiliano sabia. Walter gostava de ler, de ficar em casa, não procurava as chinas nem em caso de extrema secura. Um homem diferente. Porém, amigo exemplar. Não existia amigo como Walter. Por ele, Brasiliano matava ou morria. Banhos, no entanto, se situavam acima da sua capacidade de sacrifício. Banho, uma vez por mês, quando muito. Mas aquela loira, ah, ela era adepta de banhos, com certeza. O cheiro que emanava dela era cheiro de banho. Podia não ser saudável, mas era agradável, Brasiliano precisava admitir. Dava vontade de agarrá-la ali mesmo, na rua do Arroio, quem sabe valer-se da escuridão de algum beco próximo. Brasiliano imaginou-se possuindo-a de pé mesmo, ela encostada na parede, ele forcejando, penetrando-a, rasgando-a ao meio.

Mas não. O melhor mesmo era ir para a casa dela. Fazer a coisa com calma. Refocilar-se naquelas carnes brancas, de preferência na cama do casal. Esse era um detalhe indispensável: na própria cama do casal. Oh, como Brasiliano ia ficar feliz de cornear o açougueiro.

Não gostava nada de Ramos. Um tipo belicoso. Sabia que havia sido policial, algo assim. Um mal-encarado, mal-humorado. Como descobrira aquela pedra preciosa no meio do pedregulho da província, isso é que Brasiliano não conseguia explicar. Bem, agora estava prestes a se transformar num cornudo clássico, e isso é que importava.

Olhou mais uma vez para Catarina. Sorveu o cheirinho fresco dela. Como havia sido fácil… Sempre cobiçara essa mulher. Os amigos Walter e Antunes volta e meia também elogiavam o andar dela, seus olhos claros, seus lábios carnudos, seu cabelo fino. O que ela estaria fazendo ali? Seria a primeira vez que percorria a rua dos Pecados Mortais? Teria ela saído de casa especialmente para chifrar o açougueiro? Brasiliano chegou a se empertigar de contentamento ao conceber essa ideia. Tinha lógica. O açougueiro a tratava mal, e, numa noite em que ele ia pousar fora, ela resolveu sair para se vingar. Quem sabe até… Brasiliano levantou as sobrancelhas. Quem sabe até ela o seguira, a ele, Brasiliano! Claro! Olhou para Januário, que caminhava ao seu lado. Era isso que Januário pressentira no jardim lá embaixo, na rua do Arvoredo: ela estava escondida entre as árvores, esperando Brasiliano passar para segui-lo! Era isso! Sim! Era isso! Ela sempre o desejara, e nessa noite teve a oportunidade. Estava decidida a trair o açougueiro com ele! Lembrou-se da teoria do amigo Antunes a respeito das loiras, que, segundo ele, transformariam a província num continente de cornos irremediáveis. Por Deus, Antunes tinha razão. Quem poderia confiar numa alemoa dessas? Olhou para ela. Enviava-lhe um sorriso cativante, de fazer eriçar todos os pelos do seu basto bigode. O recado do sorriso era claro: pecado! Ela queria pecar. Que noite o aguardava! Que noite! Precisava contar aquilo ao Walter. No dia seguinte, a primeira coisa que faria seria ir à sapataria do amigo para relatar sua aventura.

Túnel do Tempo: Canibais - Capítulo 22

20 de fevereiro de 2014 1

“O Robin Wood dos Pampas”

Um, dois, três, quatro, cinco.

Meia-volta.

Um, dois, três, quatro, cinco.

Meia-volta.

Um, dois, três, quatro, cinco.

Ramos cobria a distância do quarto em cinco dos passos de suas longas pernas. Andava de um lado para outro, ansioso, mãos às costas. Gostava de caminhar enquanto pensava. Quanto tempo fazia que Catarina havia saído? Hora e meia, talvez duas. O açougue precisava se reabastecer para uma encomenda feita pelo novo clube da cidade, o Leopoldina Juvenil. Haveria uma grande festa no próximo mês. Ramos teria de produzir muita linguiça, trabalhar duro durante semanas, mas ganharia um bom dinheiro.

Dinheiro.

O dinheiro se tornava cada vez mais importante em sua vida. Ramos sempre fora pobre. Seu pai, Manoel Ramos, havia nascido na Província de São Pedro e servira na cavalaria de Bento Gonçalves durante a Guerra dos Farrapos. Em meio à luta, porém, desertou, cansado que estava das degolas, do sangue, dos sacrifícios impostos aos combatentes. Fugiu para Santa Catarina e montou uma venda de secos e molhados na ilha do Desterro, lugar tão belo quanto precário.

A venda mal permitia o sustento de Manoel, a mulher e os três filhos, o mais velho deles batizado de José. As privações eram muitas. A casa onde viviam não passava de uma choça imunda. Suas roupas, de tão velhas, se reduziam a trapos. José e seus irmãos andavam descalços. Nos rigorosos invernos da ilha, tiritavam de frio.

À noite, Manoel contava histórias da guerra para os meninos. José se encantava com as descrições das degolas dos inimigos capturados, pedia que o pai as repetisse e, ao dormir, sonhava com as cenas de sangue e crueldade.

Foi certamente para suportar a vida insossa naquela ilha esquecida por Deus no sul do Brasil que Manoel passou a beber. Todos os dias exagerava na canha, batia nos filhos, batia na mulher, gritava impropérios e ameaças. Uma noite, furibundo, avançou contra a mãe. Espancou-a com violência. José assistia à cena. Pedia ao pai que parasse com aquilo. O pai não parava. José pulou sobre ele. Lutaram. O filho deu de mão numa faca de churrasco e enfiou quinze centímetros da lâmina afiada no corpo do pai. Passados dois dias, Manoel morreu. O filho parricida fugiu para a Província de São Pedro.

Em Porto Alegre, José Ramos sentou praça como soldado da polícia. Dono de grande força física e alguma argúcia, saiu-se bem na função. Tornou-se homem de confiança do chefe de polícia da província, o nordestino Dario Callado. Executava as funções consideradas de risco. E sempre a contento. Além disso, era um dos poucos policiais da cidade perenemente atento aos movimentos dos negros, pormenor deveras apreciado por Callado. Ramos não permitia que negros ou pardos andassem nas calçadas ao lado dos brancos. Exigia que os cadáveres dos cativos fossem logo retirados das ruas para serem sepultados, o que se tratava de uma medida higiênica – amiúde, quando um escravo morria, seu relapso proprietário se livrava do corpo simplesmente rojando-o em algum terreno baldio perto de casa, como se fosse lixo. Orientado por Callado, Ramos procurava o dono, pedia que recolhesse o defunto, que lhe providenciasse um sepultamento cristão.

A carreira policial de Ramos trilhava por um caminho ladeira acima, até que ele deparou com Domingos José da Costa, o célebre Campara, chamado “o Robin Wood dos Pampas”. Como Ramos, Campara nascera em Santa Catarina. Assaltava o grande comércio e as casas dos nababos da região serrana de Lages. Depois, distribuía parte da féria entre os pequenos agricultores dos altos da serra do rio do Rastro. Sua fama se espalhou pelo Sul do país. Caçado sem tréguas pela polícia catarinense, homiziou-se na Província de São Pedro, onde continuou a trajetória de filantropo fora da lei. Foi então que o nome de Campara se transformou em lenda.

Ao entardecer de cada dia, os moradores das cidades da província se reuniam nas calçadas com suas cadeiras. Sentavam-se a sorver chimarrão. Para se distrair, contavam histórias uns para os outros. De preferência, histórias de terror.

Como as da voz misteriosa.

Um caixeiro havia chegado cansado a um lugarejo do interior. Ao pedir pouso, o dono da única estalagem do lugar lhe informou que não havia mais vagas. Só restara um quarto tido e havido na região como mal-assombrado. O viajante sentia mais cansaço do que superstição. Arrostou:

– Não tenho medo de assombração.

O estalajadeiro tornou a advertir:

– Muita gente se assusta.

– Não tenho medo!

Pois bem. O estalajadeiro cedeu o quarto ao caixeiro. Minutos depois, o viajante entrou no quarto, asseou-se e se preparou para dormir. Estava se deitando quando uma voz tenebrosa brotou de algum lugar no teto:

– Olha que eu caaaaio…

O caixeiro, assustado, procurou quem falava. Não havia ninguém. A voz repetia:

– Olha que eu caaaaio…

Ao que o caixeiro replicou:

– Então cai!

E, de algum ponto indistinto do teto, caiu um braço. O caixeiro olhou para o braço inanimado no assoalho de madeira, mas não fez sequer menção de afastar as cobertas aconchegantes. Nenhum fantasma iria lhe roubar o sono aquela noite. Assestou a cabeça no travesseiro. Já ia dormir, indiferente ao braço no chão do quarto, quando a voz, de novo:

– Olha que eu caaaaio…

– Pois cai! – desafiou o caixeiro desassombrado.

E de algum lugar desabou uma perna.

Nem assim o homem se deixou levar pelo pânico. Relaxou. Tentou dormir. Então:

– Olha que eu caaaio!

– Cai, desgraçado! Cai!

Outra perna veio sabe-se lá de onde.

Assim prosseguia a história. O narrador gesticulava, os ouvintes sorviam o mate em silêncio. As crianças captavam nesgas do conto sentadas no chão, em volta das cadeiras, os olhos redondos de espanto. Para elas, os adultos sempre reservavam os casos da Mão Preta.

À noite, a Mão Preta se arrastava pelas casas feito uma tarântula, subia nos peitos das crianças, esganava adultos que haviam praticado maldades. De onde vinha a Mão Preta, o que era, por que fazia o que fazia, isso ninguém explicava.

Havia ainda o famoso caso da serpente que mamava leite humano. Um caso verdadeiro, juravam. Ocorrido numa dessas colônias alemãs. A jovem dona da casa dera à luz recentemente. Depois do almoço, o marido voltava para a roça, ela tirava a mesa e amamentava o nenê. Amamentava sempre sentada na varanda, encostada confortavelmente na parede da casa. Enquanto o nenê se alimentava, ela aproveitava para tirar a sesta. Mal sabia que, acampanada em algum desvão do pátio, a serpente a observava. Assim que a mulher dormia, a serpente se movimentava. Rastejava solertemente até ela. Contraindo os poderosos músculos do corpo, escalava os degraus, alcançava a mãe adormecida. Com todo o cuidado, a cobra afastava a criança do seio, abocanhava ela própria o mamilo e enfiava seu rabo na boca do nenê. A criança ficava mamando no rabo, a serpente no seio. Essa operação se repetiu por semanas. A criança emagrecia sem que os pais entendessem o porquê. Uma tarde, o homem voltou mais cedo para casa, por um motivo qualquer. Deparou com a cena horrenda: a serpente enroscada entre sua mulher e seu filho, sorvendo o leite que seria da criança, logrando a mãe adormecida. Pé ante pé, ele foi para dentro da casa. Retornou com um facão. A cobra, pressentindo o perigo, tentou saltar para a segurança do mato. Mas o homem foi mais rápido em sua fúria para proteger a família. De um golpe, dividiu a cobra em duas. Do corpo ondulante espirrou leite em quantidade suficiente para amamentar um bezerro, molhando tudo e todos em volta.

Incrível, incrível.

Agora, ninguém podia duvidar do ocorrido com aquele sujeito que caminhava solitário por uma dessas estradas poeirentas do interior. Chovia e trovejava, o homem estava encharcado até a medula. Lá adiante, numa curva distante do caminho, surgiu um carroção funerário, negro e sombrio, puxado por uma parelha de cavalos baios. O caminhante fez sinal para que o carroção parasse. Havia dois homens na boleia.

– Bons dias. Podiam me dar uma carona?

– Só tem lugar lá atrás – e o condutor apontou com o dedo para a carroceria.

– Não tem problema.

O homem foi para a parte de trás do carroção. Aboletou-se. Lá encontrou um grande, negro e acolchoado caixão de defunto vazio. Como estava frio e ele se sentia cansado, pensou ser aquele um local quente e confortável o suficiente para ele repousar, embora reconhecesse que era também um tanto funesto. Acomodou-se no caixão e dormiu profundamente.

Meia hora depois, novo caminhante fez sinal na estrada. O carroção parou.

– Carona?

– Só tem lugar com o outro, lá atrás – respondeu o condutor.

Com o outro. O caminhante considerou um tanto sinistro ter que viajar na companhia de um morto. Mas não havia alternativa. A estrada era erma, o carroção fora o primeiro veículo que passara em horas.

Aceitou.

Embarcou nos fundos do carroção e seguiu viagem. Durante longos quinze minutos, ficou observando o corpo do outro, assaltando-lhe de vez em quando a desagradável impressão de que ele se mexera, ou que respirava. Aquilo lhe dava arrepios.

Então, o primeiro viajante despertou.

Piscou os olhos, sentou-se no caixão, olhou para seu companheiro de viagem e cumprimentou:

– Como vai?

O homem não esperou o carroção parar. Saiu correndo pela estrada, aos berros, e só parou para contar o caso na cidade mais próxima.

Histórias da Província de São Pedro. Entre essas, poucas eram tão apreciadas quanto as do Campara, o justiceiro dos oprimidos, o Robin Wood dos Pampas. O Campara caminhava pelos telhados das casas, silencioso como se tivesse os pés almofadados do gato; o Campara iludira um pelotão inteiro da Força Policial que o cercara quando do assalto a uma fábrica de chapéus; o Campara escapara por milagre dos soldados depois de preso e bem-manietado. O Campara distribuíra o produto de um roubo milionário numa vila paupérrima. O Campara salvara uma família da fome com a doação de uma carga surrupiada de uma caravana de carreteiros. O Campara era o herói dos descamisados da Província de São Pedro.

Mas um dia o Campara foi enfim preso, em Santa Maria, e mandado para Porto Alegre.

Uma noite em que estava só, cuidando da cadeia, Ramos decidiu conhecer o preso famoso. Queria olhá-lo na cara, ver de onde vinha toda aquela esperteza. Reconhecia que talvez a celebridade do outro o incomodasse. Um fora da lei, um ladrão vulgar, era amado pelo povo. Por que aquilo?

Ramos parou diante da porta gradeada. Levantou o lampião, iluminou a figura sentada no fundo da cela. Campara ergueu a cabeça, os olhos piscos. Ramos se deteve alguns segundos, observando. Não conseguia distinguir com clareza o rosto do outro, imerso na escuridão. Enfiou a chave na porta da cela. Abriu, fazendo retinir a grande chave contra a fechadura. Entrou. Campara se aprumou no catre, na defensiva. Ramos parou à soleira. Caminhou dois passos. Descansou o lampião no assoalho da masmorra.

– Então você é o famoso Campara – comentou, mãos à cintura. – Não parece grande coisa.

Campara suspirou, como se a frase do carcereiro o tivesse desanimado. Não disse palavra.

O silêncio do preso irritou Ramos.

– Pra mim você é um bosta! – berrou.

Campara se encostou na parede, tenso, procurando demonstrar serenidade. Nem sequer olhou para o policial.

– Um bosta! Está ouvindo?

Olhos fechados, Campara dava a impressão de estar dormindo.

– Estou falando com você, seu bosta! Está me ouvindo? Seu bosta! – Ramos agora estava quase que sobre o Campara, gritava a meio metro do ouvido do bandido, os perdigotos lhe saíam da boca e respingavam no outro, que não mexia um músculo.

– O que você acha disso? – berrou ainda mais Ramos, sacando a adaga da cintura, brandindo-a diante do rosto do preso. Queria fazê-lo reagir. Queria que o Robin Wood da província mostrasse o quanto era covarde. Que implorasse por sua vida. – Que tal se eu te abrisse a garganta agora, seu bosta?

Nada. Nenhuma reação.

O desdém do assaltante foi-lhe aumentando a raiva, de tal forma que logo Ramos já estava em estado de fúria absoluta.

– Desgraçado! – urrava. – Desgraçado!

Tomou os cabelos de Campara com a mão canhota, derrubando-o do catre, colocando-o de joelhos no chão da cela. Puxou a cabeça para trás, como faziam os degoladores na Guerra dos Farrapos, preparou-se para lhe rasgar um talho de orelha a orelha. Campara agora não estava mais indiferente. Olhos arregalados, a boca muito aberta, em pânico, antevendo a morte certa, sentindo já a lâmina que se lhe encostava no pescoço e lhe dilacerava a carne, sentindo o sangue que brotava. Campara não hesitaria em suplicar por clemência se desconfiasse que isso seria o suficiente para deter o carcereiro. Ia realmente gritar, ia se humilhar, quando uma mão salvadora segurou o braço do verdugo.

– O que é isso, Ramos???

Dois policiais tinham ouvido os berros do lado de fora do prédio. Na porta da cela, um grupo de populares assistia à cena, olhos arregalados de pavor. Campara ficou caído ao solo, em estado de choque, com o pescoço sangrando, mas vivo.

Havia testemunhas demais. Ramos foi banido da Força. Continuou fazendo bicos como informante de Dario Callado, submeteu-se a prestar servicinhos de segunda categoria, como espancar negros desobedientes ou dar lições em adúlteros. Até conhecer Catarina. Ela mudou sua vida. Com Catarina, Ramos ingressou num mundo completamente novo. Um mundo de perigo, de prazer e também de dor. Foi Catarina quem lhe apresentou o açougueiro Carlos Claussner, na época seu amante. Em dois meses, Ramos aprendeu o ofício de açougueiro e passou a se cevar ardentemente nas carnes tenras de Catarina. Que fêmea! Cada vez mais, Claussner estava sobrando naquela história. Foi nele que Ramos usou pela primeira vez o machado, seguido da degola a facão. Um fim rápido e preciso. Ramos tomou posse do açougue. E de Catarina.

A questão do corpo de Claussner, como dar sumiço no cadáver do açougueiro, foi que lhe inspirou a preparar a linguiça especial. Ramos havia esquartejado o cadáver e pensava na maneira de se livrar das partes quando lhe veio a ideia de transformá-las em linguiça. Era genial. Perfeito. Além disso, saber que toda aquela chamada gente bem da cidade comeria carne humana e se transformaria em canibal lhe dava enorme prazer. Ramos finalmente se vingava de todas as privações que havia passado em sua vida. Descarnou o cadáver de Claussner, fez a linguiça e a expôs no açougue. Para sua imensa surpresa, a linguiça foi um sucesso. Ramos a oferecia às pessoas, elas levavam para casa e voltavam ao açougue, comentando a delícia que era a linguiça, perguntando onde eram criados os porcos abatidos para confeccioná-la. Porcos, agora veja. Ramos considerou interessante essa informação. Provou ele próprio da linguiça, depois de fritá-la com banha. Cortou um naco de três dedos de largura, espetou-o no garfo e provou, de pé, na cozinha, assistido pela curiosidade verde-azulada do olhar de Catarina.

– Que tal? – ela quis saber.

E Ramos, olhando para o teto, saboreando:

– Parece porco mesmo…

O que mais haveria de comum entre porcos e seres humanos?

Enfim, Ramos percebeu que poderia amealhar um lucro bem razoável com aquele novíssimo negócio. E estava ganhando dinheiro mesmo. Tudo com relativa segurança. Não havia corpos. A carne era comida pela cidade, os ossos ele punha a diluir lentamente em ácido fosfórico. Nas vezes em que o ácido lhe faltou, ele enterrou os ossos no quintal, mas assim que tivesse tempo os desenterraria e os dissolveria no tonel.

Para o sumiço de Claussner, Ramos deu a explicação de que o açougueiro se mudara para o Uruguai. Explicação perfeita: o próprio Claussner andara comentando pela cidade que tinha vontade de se mudar para Montevidéu. Os outros, ninguém os tinha visto entrando na casa número 27. Os únicos problemas eram o tal alemão Rech e o magricela Duarte. Alguém os vira perambular pela rua do Arvoredo. Ruim. Péssimo. Mas o pior era o caso do tal Rech. Um alemão. O consulado da Prússia devia ter pressionado o chefe de polícia. Menos mal que Dario Callado confiava nele. Pediu que ele, Ramos, ficasse atento a qualquer movimentação estranha nas imediações. Teria de tomar mais cuidado. Justamente agora… agora poderia enriquecer. Aquela Rosa, a mulher do padeiro Antunes, ela é que lhe franquearia os salões da burguesia porto-alegrense, ela é que lhe encheria a bolsa de contos de réis. Com o rendimento da padaria de Antunes, somado ao do seu açougue, Ramos poderia enfim frequentar os saraus requintados e apreciar a música que tanto amava, a música que o levava às lágrimas nos espetáculos do Theatro São Pedro. A música, sim. Quem sabe Ramos pudesse comprar um piano inglês, incrustá-lo no meio da sala, como já tinha visto nas casas dos ricos. Quem sabe ele até aprendesse a tocar. Sorriu com a ideia. Imaginou-se músico, participando de uma das apresentações do maestro Mendanha no São Pedro.

Mas, para isso, teria de dar cabo do padeiro gordo. Não seria difícil. Tinha tudo planejado. Atrairia Antunes para a sua casa, lhe fenderia a testa com o machado, o converteria em linguiça da boa. Passados alguns dias, casaria com Rosa. Também essa parte do plano estava bem amanhada. Meses antes, conseguira se aproximar de Rosa, valendo-se da ganância da mulher. Toda vez que ela ia ao açougue, Ramos comentava acerca de sua própria prosperidade, de como o açougue ia bem, das oportunidades que surgiam. Rosa se deliciava com assuntos financeiros. Falava da padaria, sobre os progressos que também ela e Antunes faziam, apesar da natureza pouco ambiciosa do marido.

Ramos não alimentava a menor dúvida: se providenciasse o desaparecimento do padeiro, em breve casaria com ela e tomaria conta da padaria. Catarina? Sem problemas. Continuaria morando na casa da rua do Arvoredo sob seus auspícios, seria sua teúda e manteúda. Estava tudo muito bem-alinhavado na sua cabeça.

Aliás, Catarina. Quem será que Catarina traria para alimentar o fio de seu machado? Quem seria o boi daquela noite? Ramos achou que ela demorava demais. Mantinha os ouvidos atentos a qualquer movimentação na casa. Assim que percebesse Catarina entrando com o gado, se enfiaria no armário e ficaria esperando. Sabia que, minutos depois, assistiria à loira sendo possuída por um estranho. Após a sessão de luxúria, Ramos desceria ao porão pelo compartimento secreto que ficava atrás do armário. A partir daí, era só esperar o sinal de Catarina, a batida do garfo contra o vidro do copo. E o alçapão seria acionado. A ideia já lhe rendia uma certa excitação.

Então ouviu um ruído estranho, vindo de dentro de casa. Parou de andar pelo quarto. Aguçou o ouvido. Prestou atenção. Não tinha dúvida. Alguém abrira a porta que levava ao porão.

Túnel do Tempo: Canibais - Capítulo 21

19 de fevereiro de 2014 2

“A porta proibida” 

Emiliana abriu cuidadosamente a porta do quartinho. Desde que tivera seu nenê, Catarina não a encerrava mais. Seria algum tipo de solidariedade feminina? Ou apenas descuido? De qualquer forma, sua nova liberdade serviria para descobrir o que acontecia na casa e se vingar do açougueiro. Fechou a porta devagar. Não fez ruído algum. Desceu os três degraus altos de tijolo que ficavam à porta do quarto. Ganhou o quintal. Avistou, na outra ponta do terreno, o sinistro tonel que agora a enchia de terror. Seguiu em frente, pé ante pé, desviando-se dos arbustos, do mato que jamais fora cortado, do lixo todo que os patrões relaxados deixavam atulhando o caminho. Chegou à porta da cozinha. E se estivesse trancada? Teria de voltar e esperar nova oportunidade. Isso a afligia. Nos dias seguintes, Catarina talvez voltasse a passar a chave na porta do seu quartinho. Então ela seria obrigada a proceder suas investigações durante o dia, o que seria muito mais perigoso. Não tinha a menor dúvida de que algo muito ruim aconteceria com ela se Ramos a flagrasse no porão. Além do mais, não queria prolongar sua estada naquela casa. Não, não, a porta tinha de estar aberta.

Experimentou o trinco.

Aberta.

Emiliana sorriu. Levou a mão ao peito, satisfeita e nervosa. O coração ribombava no peito, furioso. Entrou na cozinha. Encostou a porta com o máximo de suavidade. A casa estava às escuras. Depois da cozinha, ela teria de atravessar o corredor, que levava a novos corredores, onde ficavam os quartos. Calculava que os patrões estivessem ali. Chegaria, então, à sala de estar e, finalmente, à porta que conduzia ao porão.

Foi em frente devagar, experimentando cada passo, deixando que seus olhos se acostumassem à escuridão. Ao passar pelo corredor que dava para os quartos, ouviu som de passos. Passos pesados, nervosos. Ramos. Acordado, ainda. Devia desistir? Devia voltar para o seu quarto? Parou, hesitante. O coração lhe batia na garganta. Chegou a girar a cintura para retornar à segurança de seu quartinho, mas no mesmo instante censurou-se pela covardia. Não! Não seria mais covarde. Desta vez, agiria. Seguiria em frente.

Seguiu.

Tateando no escuro, usando a parede como referência, ela atravessou o corredor, entrou na sala, passou pela grande mesa de jantar, caminhou mais alguns passos vacilantes e chegou ao seu objetivo.

A porta proibida.

Levou a mão ao trinco de bronze, um trinco em forma de pata de leão. Abriu a porta. Piscou. Diante dela, uma comprida escada de madeira que descia até a escuridão. Suspirou. A angústia lhe oprimia o peito. Mas tinha decidido. Seria corajosa. Agora que estava lá, não teria motivo para voltar atrás. Desceria aquelas escadas. Virou-se. Levou a mão trêmula ao trinco. Empurrou a porta para fechá-la. E, desta vez, achou que fez algum ruído. Não teve o mesmo cuidado de antes. Sobressaltou-se. Levou a mão ao peito. Ficou alguns segundos escutando, angustiada. Só ouvia seu sangue latejando na cabeça. Virou-se novamente. Desceu o primeiro degrau.

Túnel do Tempo: Canibais - Capítulo 20

13 de fevereiro de 2014 0

“Primeiro, a machadada”

O cachorro. Por que o maldito cachorro resolvera incomodá-la essa noite? Catarina suspirou, vendo Brasiliano e Januário atravessarem a rua inapelavelmente, caminhando na sua direção. Havia uma hora, o cachorro já percebera sua presença, no jardim da casa da rua do Arvoredo. Catarina tinha se refugiado atrás de uma árvore. Ficara esperando alguns minutos, até que o anspeçada e o cachorro tivessem se afastado. Não queria que Brasiliano a encontrasse na rua àquela hora. Sabia que ele e Walter eram amigos. Se Brasiliano a visse, ia contar para Walter, e o que Walter pensaria? Que ela era uma mulher da vida, como as outras que por ali transitavam? Seria o fim de todos os seus sonhos. Estava decidida a mudar, a começar nova vida. E Walter havia sido incluído nessa nova vida. Não podia permitir que ele descobrisse sobre suas aventuras noturnas.

Aquela noite seria a última que atrairia carne para o açougue de Ramos. Prometera isso a si mesma. Havia se fartado do desgraçado. Ele estava fora de controle. Era sempre assim. Com o homem que tivera antes de Ramos, o açougueiro alemão Carlos Claussner, havia sido igual. No começo, Claussner era apaixonado, lhe fazia as vontades, tratava-a como uma princesa. Catarina lhe apresentara um mundo de prazer que ele jamais conheceria com outra mulher, disso ela tinha absoluta certeza. De repente, Claussner começou a achar que poderia tomar decisões por ela. Que mandava nela. Que poderia, inclusive, se repoltrear com outras mulheres. Idiota. Claussner não passava de um fraco. Catarina havia ficado com ele só por causa do açougue, que rendia um bom lucro e poderia lhe garantir um futuro sem as atribulações de seu doloroso passado.

Um dia, Claussner chegou em casa embriagado e metido a valente. Catarina preparava-se para dormir. Cheirando a suor e a cachaça barata, ele a procurou. Catarina se esquivou, disse que ia se deitar. Claussner insistiu, tentou levantar a camisola dela. Catarina o afastou mais uma vez, insultou-o, mandou que fosse chafurdar com as vagabundas com quem ele andava nas últimas semanas. Furioso, endemoniado pelo álcool, Claussner a espancou. Moeu-a a socos e pontapés. Catarina ficou uma semana de cama e mais quinze dias coberta de hematomas. Durante esse período, Claussner, torturado pelo remorso, cobriu-a de atenções e mimos. Catarina aceitou as desculpas dele em silêncio ressentido. Mas estava resolvida. A história com Claussner havia acabado naquela noite.

Ao conhecer Ramos, viu ali um homem decidido. Um forte. Ramos fora policial e, pelo que ela compreendia, ainda tinha ligações com o chefe de polícia. Isso o tornava o homem mais poderoso que ela conhecera até então. Além disso, Ramos estava acostumado a submeter os outros homens à sua vontade, fosse unicamente pela ameaça velada que havia em seu olhar de fogo, fosse pelo peso de seu braço. Para arrematar, ele era destituído de qualquer barreira feita de escrúpulos. Nada que Catarina propusesse parecia escandalizá-lo. Foi fácil fazê-lo se apaixonar. Depois, foi ainda mais fácil instigá-lo a matar Claussner e tomar o açougue. Ramos procedeu de uma maneira que, depois, se tornaria método: primeiro, a machadada fendendo a cabeça da vítima ao meio; depois, a degola a facão. Por que insistia em lhes abrir a garganta? Não era necessário. Era nojento. Era pessoal demais. Ramos precisava tocá-los para fazer aquilo, o que deixava Catarina arrepiada de asco. Catarina detestava as degolas.

A ideia de converter o corpo de Claussner em linguiça, quem teve foi ele, essa maldade não poderia ser debitada na conta de Catarina. A princípio, parecia nada mais do que uma solução engenhosa e até debochada de se livrar do corpo. A carne seria consumida pelos fregueses, os ossos ele os diluiria no ácido usado para a limpeza do açougue. Mas Ramos se deixou enfeitiçar por aquilo. Catarina admitia que sentia prazer em ver os habitantes de Porto Alegre comendo-se uns aos outros e ainda elogiando o sabor da linguiça, sobretudo os abastados, a gente da alta classe, os políticos, os padres. Só que Ramos ficara obcecado com a coisa. Catarina não tinha certeza se devido ao prazer que ele sentia em sacrificar os homens que chamava de seu gado, ao gosto com que praticava toda a operação, ou se por causa da simples e vulgar ganância. O dinheiro o enlouquecia. Ramos gastava com luxos que jamais tivera. Comprara duas sobrecasacas, alfinetes de prata para enfeitar as gravatas, chapéus, charutos, bengalas e perfumes, muitos perfumes. De quando em quando, saía de casa vestido como se fosse o próprio conde D’Eu, que meses atrás contraíra núpcias com a princesa Isabel. E ia aos espetáculos do Theatro São Pedro. Às peças, aos concertos de flauta e harpa, às óperas. Ramos era louco por música. Dizia que a música o purificava. Fazia questão de ir ao São Pedro sobretudo depois de executar um de seus bois. A todo momento pedia que Catarina caçasse mais homens, mais e mais. No começo, ela sentia prazer em se entregar à luxúria do gado de Ramos, enquanto ele apreciava tudo do compartimento secreto. Depois cansou. Todo o sangue. Toda a violência. Toda a ostentação inútil. Não suportava mais.

Homens… Catarina não tinha boas experiências com os homens. Era filha de alemães. Nascera na Transilvânia, na época território húngaro. Durante a invasão russa, completara quatorze anos. Era bela, começava a ter consciência da própria beleza, de seu efeito sobre os homens. E a despertar para o sexo, para o poder que o sexo lhe conferia.

A chegada dos russos mudou tudo. Aquele dia se tornou brumoso em sua lembrança. A soldadesca arrombando as portas das casas da aldeia, destruindo o que encontrava pela frente. De repente, estavam dentro da sua casa. Seus pais e seus irmãos sumiram numa nuvem de violência, de punhos fechados, solas de botas, baionetas caladas.

Catarina foi arrastada para o quarto. Teve as roupas arrancadas. Gritava e gritava, implorava por piedade. Os soldados a estupraram, um depois do outro, metodicamente. Os gritos de Catarina os excitavam ainda mais, ela percebeu. E percebeu, também, que havia sobrevivido graças a sua beleza, ao prazer que podia proporcionar aos machos. Isso lhe deu uma sensação de poder, de prazer, de orgulho, até. Mas também lhe infiltrou na alma grande dose de culpa. Ela sobrevivera. Todos que amava morreram num único dia.

Durante dois anos, Catarina vagou pelas ruas, catando comida do lixo, dormindo nos montes de feno. Só pensava nos pais e nos irmãos mortos, sentia raiva de si mesma por estar viva. Mas, aos poucos, o instinto de sobrevivência foi se mostrando mais forte. Catarina compreendeu que o sexo era seu grande trunfo. E que precisava de um homem para seguir em frente.

Aos dezessete anos, casou-se com o cardador de lã Peter Palse, um rapaz tímido, trabalhador e perenemente angustiado. A vida de Catarina melhorou, mas não o suficiente. Não tanto quanto desejava. Convenceu o marido a emigrar para o Brasil. Queria tentar a sorte na América. Ter uma casa sua. Quiçá, enricar. Tomaram um navio cheio de outros alemães que também sonhavam com nova vida e novo mundo.

Durante a viagem, Peter atirou uma corda curta por cima de uma porta, subiu em um banquinho e se enforcou. Catarina jamais descobriu a razão que levou seu atormentado marido a suprimir a própria vida. Talvez ele não estivesse pronto para suprir as exigências dela. Talvez ele fosse simplesmente um covarde.

Chegou à Província de São Pedro sozinha.

Houve outros homens antes de Ramos, claro, mas nenhum com tanto ímpeto e tanta energia. Ímpeto e energia que agora se tornaram inconvenientes. Devia se livrar dele. Devia ficar com Walter. Walter era o homem por quem procurava. Um homem diferente de todos os outros. Com Walter, ela poderia ter prazer sem culpa. Com Walter, poderia construir um lar, uma família, poderia dar-lhe filhos, viver uma vida normal. Walter era seu futuro e sua redenção.

Olhou para Brasiliano, que se aproximava encarando-a febril de curiosidade. Maldito anspeçada, maldito cachorro. Não antipatizava com Brasiliano, mas agora teria de dar um fim nele. Nada iria estragar sua nova vida ao lado de Walter.

– Dona Catarina! – Brasiliano a saudou com ar inocente, um meio sorriso que devia parecer infantil, mas por trás do qual Catarina antevia toda a malícia. – A senhora por aqui?

Catarina controlou a raiva momentânea. Sorriu de volta.

– Olá, querido.

Brasiliano cofiou o bigode.

– Querido? A senhora nunca me chamou de querido antes.

– Hoje é diferente. Querido.

– Diferente? Por quê? – Brasiliano estava à vontade. Estava no seu ambiente.

– Hoje eu quero fazer coisas diferentes.

Catarina deu um passo na direção dele. Ficaram a dois palmos de distância.

– Que tipo de coisas, Catarina?

Ela notou que ele havia retirado o “dona” do tratamento. Já se sentia confiante, o otário. Como os homens são inocentes. Como é fácil iludi-los. Por sexo, fazem tudo, cometem qualquer loucura, se arriscam, perdem, literalmente, a cabeça.

A ironia de os homens perdendo a cabeça por ela a fez sorrir sutilmente. Desprezava esse tipo de homem. Submetê-los ao machado de Ramos era um prazer. Uma vingança suprema. Esse tipo, Brasiliano, não era distinto dos demais. Ali estava ele, à cata de sexo pago, ansioso para se refocilar nas carnes podres de alguma prostituta. Dentro de 24 horas, estaria bem temperado com sálvia e pimenta-do-reino. Catarina o observou de cima a baixo. Um homem grande. Renderia dezenas de quilos de linguiça especial.

– Digamos: coisas… – respondeu ela, caprichando no duplo sentido das reticências. – Estou sozinha hoje. Ramos foi a São Leopoldo fazer um negócio. O senhor quer me acompanhar até minha casa para conversarmos melhor, tomar um café?

Brasiliano cofiou o bigode. Sorriu.

– Vai ser um prazer.

– Então, vamos.

– Vamos, vamos.

Saíram os dois, lado a lado, rua dos Pecados Mortais abaixo, em direção às sombras da rua do Arvoredo.

Túnel do Tempo: Canibais - Capítulo 19

10 de fevereiro de 2014 1

“Rua dos Pecados Mortais”

Quando Brasiliano limpava as botas pretas, Januário já se assanhava todo. Balançava o rabo, arfava, saltitava em volta do dono, excitado. Sabia que botas sendo limpas significavam rua.

Terminada a limpeza, Brasiliano se ergueu. Sorriu, contemplando o trabalho reluzente. Olhou para Januário. Entoou seu grito de guerra de todas as noites:

– A la noche, guaipeca!

Januário latiu de volta, em assentimento. Foram-se os dois, marchando pela rua da Varginha. Caminharam um tanto, dobraram à direita. Mais um pouquinho e ingressaram na rua do Arvoredo. Foi bom a Câmara dos Vereadores ter feito aquela passagem, que ligava as ruas. Recurso inteligente. As cidades brasileiras não eram comandadas por prefeitos, como em outros países do mundo. O poder executivo ficava a cargo da Câmara de Vereadores, e Brasiliano achava que tudo ia muito bem assim.

A rua do Arvoredo era fartamente arborizada, como o nome sugeria. Para sorte dos moradores e transeuntes. Porque, nos dias de chuva, a água escorria da parte alta da cidade e transformava a rua em um lamaçal. A situação só não ficava pior porque as grandes raízes das árvores sugavam a água em profusão e tornavam o local razoavelmente transitável.

Fazia semanas que não chovia em abundância. Brasiliano, dentro de seu par de botas, e Januário, sobre suas quatro patas macias, ambos marchavam sem maiores dificuldades pela rua que ora se alargava, ora se estreitava. Chegaram ao costado da igreja Matriz, que ficava lá em cima, na praça. Brasiliano se benzeu. Sabia que ali estavam sepultados centenas de corpos de seus conterrâneos. O costume nacional de fazer cemitérios nos solos das igrejas começava a ser debatido em todo o país. Era insalubre, argumentavam os médicos e técnicos do governo. Em 1846, o conde de Caxias, então presidente da província, teceu um relato acerca do cemitério da Matriz:

“À porta da sacristia fechada, há cadáveres de escravos mal-amortalhados e fuçados pelos cães. O lugar está apinhado de cadáveres, cuja exalação, tão sensível ao olfato em dias calorosos, é quase suficiente para pejar o ar de partículas deletérias”.

Ainda assim, as famílias católicas insistiam em enterrar seus mortos nos campos-santos das igrejas.

O cemitério da Matriz fora fechado havia uns dez anos, substituído pelo novo, no Alto da Azenha. Mas Brasiliano continuava se benzendo.

À sua esquerda, ficava a casa do amigo Walter. Januário arfou, contente, e derivou para a sapataria. Brasiliano o chamou de volta:

– Agora nós não vamos visitar o Walter, Januário. Agora nós vamos pra perdição!

E riu da própria troça.

Alguns metros adiante, na frente da casa número 27, Januário estacou novamente. Apontou o focinho para o jardim. Começou a latir, furioso. Brasiliano parou.

– Que foi, Januário?

Olhou para o terreno penumbroso, os arbustos malcuidados, as árvores sinistras. Tudo escuro. Na frente do terreno, o açougue com as portas fechadas dando para a rua. Escuro também. Januário rosnava e latia. Teria alguém em meio às sombras do jardim? Brasiliano cofiou o bigode.

– Impressão – concluiu. – Vamos embora, Januário!

E seguiu adiante, com Januário desconfiado nos seus calcanhares.

Mais uma dúzia de metros e Brasiliano passou pelo antigo Beco do Cemitério, venceu uma elevação e enveredou à direita na rua dos Pecados Mortais. Que, oficialmente, se chamava rua do Arroio, devido a um estreito fio d’água que ali corria. O nome rua do Arroio, entretanto, só era usado pela Câmara de Vereadores. Aquela via, curioso, tinha três nomes. Na primeira quadra, ladeira acima, logo após a rua do Arvoredo, o povo a conhecia como rua do Nabos a Doze. Por causa do dono da quitanda diante da qual Brasiliano passava naquele momento. Brasiliano fitou a porta fechada da quitanda. Imaginou se o Nabos a Doze não estaria se refestelando numa das casas de tolerância, lá em cima. Resolveu que, na manhã seguinte, voltaria para comprar a famosa dúzia de nabos por um vintém. Brasiliano gostava muito de sopa de nabo.

No fim da quadra, chegou à rua Formosa. Que não levava esse nome em vão. Lá do alto, a vista era linda. Via-se o rio imponente, dominando a cidade. Brasiliano cruzou a Formosa e ingressou no trecho da Arroio chamado rua do Jogo da Bola. Havia sido a choldra que frequentava o boteco do Antônio do Jogo da Bola que dera tal nome àquele naco da rua. Esse jogo se constituía numa espécie de bocha, praticada todos os domingos no terreno do bar do Antônio, principalmente pelos descendentes de imigrantes alemães, apreciadores do esporte. Brasiliano era muito amigo do filho do bodegueiro, o Antônio Corneta. Provavelmente, ele o encontraria no beco do Céu, tomariam umas que outras e dariam gostosas risadas juntos.

Brasiliano agora descia a lomba da rua do Arroio, em direção à rua da Praia, a mais importante da cidade. Chegou, enfim, à região que o interessava, a rua dos Sete Pecados, uma referência às sete casinhas da quadra e aos hábitos mundanos das suas moradoras. As mulheres faziam o trottoir descarado entre as carroças, os cavalos e os transeuntes. Por alguns tostões, ofereciam seus corpos malcuidados, murchos, gastos devido às noites indormidas e ao excesso de álcool. Trajavam vestidos feitos de panos baratos, algumas usavam toucas na cabeça, as mais afortunadas calçavam sapatos com fivelas.

Brasiliano conhecia todas. Com quase todas já se deitara, de algumas contraíra doenças venéreas, como a terrível blenorragia. Isso apesar dos cuidados que tomava. Depois do sexo, procedia como o recomendado para expulsar do corpo a contaminação – urinava com três jatos fortes, às vezes quatro. Sentia-se limpo, então. Pena que nem sempre dava certo. Será que seu jato não teria sido forte o suficiente?

Sentia as virilhas comichando de desejo, queria uma morena grande, tipo a Bronze. Na verdade, queria a própria Bronze, mas não podia ser muito assíduo com ela. O acordo implícito entre os dois consistia em amizade leal e sexo ardente, o amor não entrava na pauta. Ou entrava? Brasiliano já não tinha muita certeza. Quanto a ele, pelo menos, não tinha. Se tivesse de ficar com uma mulher, que fosse a Bronze. Disso sabia. E quanto a ela? Será que sentia o mesmo por ele? É, pensando bem, Brasiliano não tinha muita certeza.

Seguia pensando nessas questões quando Januário começou a latir para o outro lado da rua.

– Que foi, Januário? – perguntou, lançando o olhar para onde o focinho do cachorro apontava. Viu uma figura conhecida. E surpreendente.

O que Catarina estaria fazendo naquele antro?

Túnel do Tempo: Canibais - Capítulo 18

05 de fevereiro de 2014 0

“Repoltreava-se nela, ia embora”

De volta ao seu quartinho nos fundos da casa do açougueiro, Emiliana jogou-se no catre e chorou baixinho. Não queria que Ramos ou Catarina suspeitassem do seu desespero. Poderia ser perigoso. O quarto em que vivia era em tudo simples, porém limpo como uma igreja. A mobília se limitava ao catre estreito onde ela agora abafava os soluços, um triste penico debaixo da cama, uma tina na qual se asseava com critério sempre que findava a tarde de seus sábados solitários, um pequeno baú de madeira com suas poucas roupas e um caixote que sustentava o lampião. Em cima do caixote, além do lampião, seus dois tesouros: o vidro de patchuli que lhe fora presenteado por Catarina e um belo espelho de cabo de madeira negra que ela, num arroubo de vaidade, comprara na Casa Pavão, famosa tabacaria instalada no térreo do não menos famoso edifício Malakoff, chamado orgulhosamente pela população de o arranha-céu da cidade.

Bem, considerar o prédio um arranha-céu talvez fosse certo exagero dos cidadãos porto-alegrenses. A não ser que o céu da capital no século 19 não se elevasse a uma altura maior do que quatro andares. O Malakoff possuía três pisos de pé-direito alto, além do térreo em que estava instalada a Casa Pavão. Ali também havia moradias e escritórios de aluguel. Erguido quase em frente ao local onde estava sendo construído o Mercado Público, o prédio ganhou o apelido por causa de uma torre existente na cidade de Sebastopol, na Rússia. Durante a guerra da Crimeia, a cidade russa de Sebastopol resistiu por quase um ano ao cerco da força inimiga formada por soldados ingleses, franceses e piemonteses. Finalmente, em setembro de 1855, os aliados conseguiram tomar a torre Malakoff, e a Rússia foi derrotada. A torre, até então considerada inexpugnável, foi o símbolo da vitória aliada.

Emiliana pouco se importava com as consequências da Guerra da Crimeia ou com a origem do nome do edifício onde comprara seu espelho. Emiliana apenas chorava em sua cama estreita. Chorava de raiva da própria covardia. Por que não conseguira falar com o sapateiro? Por quê? O medo a paralisara. Sabia que ele era um homem bom, sabia que talvez pudesse e até quisesse ajudá-la. Mas não conseguira sequer entrar na sapataria. Ela se odiava. Como ela se odiava!

Sua vida inteira havia sido assim, de covardia, de inação. Tinha as ideias, mas, na hora de colocá-las em prática, falhava. O medo a fazia desistir. Passara a infância assistindo à mãe trabalhando como escrava numa charqueada de Pelotas, longe de Porto Alegre. O pai, dono da charqueada, simplesmente a desconhecia. Jamais a olhara nos olhos. Mas presenteou-a com a liberdade quando ela veio ao mundo. Ao completar quinze anos de idade, Emiliana decidiu que não aguentava mais aquela vida. Que não suportava ver a humilhação da mãe escrava. Iria sair dali, trabalhar duro, ganhar dinheiro e, em alguns anos, voltar vitoriosa. Mil vezes sonhou com o dia em que apresentaria ao pai a bolsa com as moedas que comprariam a alforria da mãe. Tocou-se para a cidade. Em Pelotas, conseguiu emprego como criada na casa de um rico comerciante e seus dois jovens filhos. Arrumava a casa e ajudava na cozinha em troca de pouso e escassos réis. Vivia num cubículo sob a escada que levava ao segundo andar do sobrado.

Os filhos do comerciante eram conhecidíssimos em Pelotas pela vida boêmia que levavam. As confusões que arrumavam quase semanalmente bem poderiam lhes custar temporadas na cadeia se eles não fossem filhos de um pai rico e poderoso. Três, quatro vezes por semana, Emiliana acordava sobressaltada de madrugada pelas canções e gritos embriagados de um deles ou dos dois juntos.

Certa madrugada, não foram canções que a despertaram. Foi a escorregadia mão do mais velho, um moreno de traços delicados que fazia algum sucesso entre as damas da sociedade local. Ricardo, esse o nome dele, havia afastado as cobertas e enfiado a mão por baixo de sua camisola. Emiliana sentiu o toque, quis gritar, não conseguiu – a outra mão lhe cobria a boca com firmeza. A princípio, não entendeu o que acontecia. Era um sonho? Logo percebeu que, infelizmente, estava acordada e que era Ricardo quem a agarrava. Havia deitado sobre ela, pressionando-lhe as costas com seu peito. A mão direita lhe cobria a boca, a esquerda contornava as coxas e lhe empalmava o sexo. Pensou que fosse uma brincadeira de bêbado, que ele a soltaria em seguida, só que ele não a soltou. Ao contrário, a mão começou a explorar com cada vez mais decisão as suas partes íntimas. Emiliana gemeu, se debateu, mas ele era muito mais forte. Um dos dedos de Ricardo estava agora dentro dela, devastando-a, machucando-a. Emiliana tentou afastar a mão que a violava, mas suas próprias mãos estavam imobilizadas pelo corpo de Ricardo, que pesava sobre ela. Estava indefesa. Fez força. Queria gritar. Mal conseguia se mexer. Sentiu-se molhada por baixo. Seria sangue? Ricardo ofegava e gemia. Não falava nada, apenas ofegava e gemia. Sua respiração azeda de cachaça tornava quente o ar do quarto. Emiliana enjoou, achou que ia vomitar. Por um instante, o que mais a incomodava nem era a mão violadora, e sim o bafo de álcool de Ricardo e a impossibilidade de respirar com liberdade. Ele passou a se mexer, ia e vinha em cima dela. Tirou a mão de dentro de seu corpo. Emiliana ficou aliviada por um segundo. No entanto, ele só queria livrar a mão para baixar as calças. Emiliana entendeu o que ele queria.

Ricardo a possuiu rapidamente, acabando tudo em estocadas breves, fazendo Emiliana lembrar das vezes em que vira os touros cobrindo as vacas nas estâncias próximas à charqueada onde sua mãe trabalhava. Depois de se aliviar, Ricardo levantou-se, puxou as calças, afivelou o cinto. Emiliana continuou deitada de bruços, gemendo baixinho. Ricardo sentou-se na beirada da cama, recuperando a respiração. Deu-lhe dois tapas rápidos nas nádegas.

– Se você contar pra alguém, mato-a a paulada – advertiu, antes de ir-se embora.

Emiliana não contou para ninguém. No dia seguinte, Ricardo a olhou como se nada houvesse acontecido. Chamava-a badalando um sininho de bronze, como fazia todos os dias. Pedia um copo de licor. A caixa de charutos. Era o patrão dando ordens impessoais à serviçal.

Uma semana depois, Ricardo voltou. Emiliana acordou quando a porta se abriu. Não tentou reagir. Deixou que ele puxasse os cobertores, levantasse sua camisola e a penetrasse em silêncio, com a mesma brevidade da outra vez. Ricardo continuou visitando-a duas ou três noites por semana. Emiliana sentia vontade de se queixar para o patrão, mas o aviso de Ricardo a intimidava:

– Mato-a a paulada!

Ele nunca falava nada. Nem antes, nem durante, nem depois do ato. Chegava, repoltreava-se nela, ia embora. No dia seguinte, o silêncio.

Emiliana pensava em encontrar alguma alternativa, alguma saída, quando, num sábado, Ricardo entrou no quarto acompanhado do irmão, Alberto, um pouco mais baixo e encorpado do que ele. Era um homem peludo, forte, de mãos ásperas e dentes estragados. Emiliana tinha medo de Alberto.

– Hoje você vai ter que trabalhar em dobro – anunciou Ricardo, sorrindo com malícia.

Emiliana serviu aos dois e, daquela vez, a coisa durou muito mais tempo.

Nas noites seguintes, ela foi usada alternadamente pelos dois irmãos. Ora um, ora outro. Agora, as violações demoravam muito mais, talvez porque um se sentisse estimulado pela presença do outro. Os dois se sofisticavam nas sevícias. Obrigavam-na a tudo. A fazer de frente, de trás, a fazer de todas as formas. Quando chegava a noite, ela ia para o seu quartinho sob a escadaria e esperava. Sabia que eles viriam. Esperava-os já nua, porque uma vez, estando eles um tanto mais embriagados, quase lhe rasgaram a camisola. Eles vinham, possuíam-na, e só depois Emiliana conseguia dormir. Como chegassem de madrugada, às vezes de manhã, Emiliana dormia pouco. Passou a cambalear de sono pela casa. O patrão já começava a reparar.

Até que ela não aguentou mais. Uma tarde de domingo, quando os dois irmãos estavam fora e ela se achava sozinha com o patrão, foi procurá-lo. Estava decidida a denunciar os violadores. Ele se encontrava no escritório, fazendo a contabilidade de suas duas casas de fumo.

– Seu Felicíssimo, com licença? – achegou-se ela, de olhos baixos.

– Entra, Emiliana.

Emiliana tinha ensaiado aquela fala uma centena de vezes, mas agora tudo era diferente. A maldita covardia! Simplesmente não conseguia dizer o que queria. Ficou gaguejando:

– Eu… eu… eu…

Até que o patrão perdeu a paciência. Falou, alto, quase gritando:

– Desembucha, menina!

Assustada com o tom seco do patrão, ela realmente desembuchou. Falou tudo numa catadupa de palavras.

– Os meninos, seu Felicíssimo, os meninos, o Ricardo e o Alberto. Não aguento mais, seu Felicíssimo, o senhor desculpe, seu Felicíssimo, desculpe, mas não aguento mais. Eles vêm todas as noites, todas as noites. Me ocupam. Fazem… aquelas coisas. Me obrigam a fazer coisas. Eu não posso mais, seu Felicíssimo, não posso mais. Tenho sono todos os dias, seu Felicíssimo, está me prejudicando no trabalho, ontem mesmo quebrei um vaso ali no corredor. Puro sono, seu Felicíssimo. Culpa deles, dos meninos, diz pra eles pararem, seu Felicíssimo, por favor…

Enquanto ela falava, Felicíssimo largou o charuto no cinzeiro. Levantou-se. Caminhou rapidamente até ela. Sem uma palavra, interrompeu-a com duas bofetadas. Emiliana calou-se, espantada. O patrão a tomou pelo braço, puxou-a com violência até a mesa e, sempre em silêncio, afastou com uma braçada os papéis que vinha analisando até então. Uma mão de aço pressionou a nuca de Emiliana e empurrou-a para a superfície da mesa, até que ela amassasse o rosto no tampo. A outra mão levantou-lhe o vestido, rasgou-lhe as roupas íntimas. O patrão a violou rápida e ferozmente como Ricardo fizera da primeira vez. Emiliana gritou. Gritou como nunca havia gritado. O patrão não se importou. Terminou o que fazia, levantou as calças. Emiliana escorreu até o chão, chorando, sentindo um gosto de sangue na boca – decerto uma das bofetadas lhe ferira o lábio, pensou, entre soluços. Depois de novamente instalado atrás da grande mesa, Felicíssimo levou o charuto à boca outra vez e sentenciou, calmamente:

– Nunca mais fale mentiras sobre os meus meninos – e, baixando a cabeça para os papéis contábeis das casas de fumo, ordenou: – Volta ao trabalho.

Emiliana não voltou ao trabalho. Arrastou-se até o seu quartinho sob a escadaria, reuniu seus parcos pertences e, com o dinheiro que havia ganho na casa do comerciante, tomou naquele dia mesmo o vapor para Porto Alegre.

Achou que tivera muita sorte quando, um par de dias após chegar à capital, conseguiu empregar-se como criada na casa do açougueiro Ramos. Mas não fora sorte, não. Ao contrário. Agora, Emiliana vivia aterrorizada. Algo de muito terrível acontecia naquela casa, ela sabia. Seu mal-estar começou com o hábito da patroa, dona Catarina, de fechá-la à chave todas as noites, no quartinho dos fundos. Emiliana achava estranho aquilo. Não era uma escrava. Queria dispor de suas noites, mesmo que fosse perigoso sair à rua, mesmo que não tencionasse sequer sair do quartinho. Não adiantava. A tarde se esvaía no rio escuro, e Catarina ordenava:

– Emiliana, vá para o seu quarto.

Ela ia, cabisbaixa. Mal entrava e já ouvia o ruído da chave na fechadura. Presa. Mesmo assim, ouvia os estranhos sons produzidos à noite naquela casa. Os gritos da patroa, vozes de homens desconhecidos, pancadas, atividades que se estendiam por toda a madrugada, invadindo a manhã. Às vezes, Catarina mandava que limpasse enormes manchas de sangue na sala de jantar.

– É de uma galinha mal morta, que saiu pela casa espirrando sangue – explicava, tão somente.

Emiliana tinha medo sobretudo do patrão. Embora Ramos jamais houvesse lhe lançado um olhar concupiscente, como os antigos patrões ou muitos dos homens que a viam carregando baldes d’água do chafariz da praça da Matriz, Emiliana se arrepiava cada vez que ele a olhava. Ramos era silencioso, sinistro. Seu porte formidável já era o suficiente para torná-lo ameaçador, mas ainda havia aqueles olhos. Olhos duros, olhos malignos. Emiliana não podia olhar para aqueles olhos. Foram aqueles olhos, mais do que quaisquer palavras, que a obrigaram a depositar seu filho na Roda dos Enjeitados. Emiliana não sabia, como podia saber? Chegara a Porto Alegre grávida. Por alguma razão, desenvolvera a certeza de que o pai era o próprio comerciante Felicíssimo.

Catarina ficara furiosa ao descobrir que sua criada estava prenha. Escondeu-lhe a barriga com roupas largas, afastou-a dos olhares da vizinhança. Depois, a própria Catarina encarregou-se de aparar a criança. O parto havia sido fácil, em poucos dias Emiliana já estava de pé, trabalhando. Então, Ramos parou diante dela, gigantesco, e ordenou:

– Hoje à noite, você vai à Santa Casa, colocar essa criança na Roda.

A ordem quase fez Emiliana desabar ali mesmo, diante do açougueiro, aos prantos. Verdade que ela mesma já havia cogitado da hipótese de levar o menino à Roda. Porque, ela sabia, não teria condições de criá-lo. Era sozinha no mundo, não possuía recursos, a criança passaria fome. O mais sensato seria depositá-lo na Roda. Mas era vasta a distância entre ter a ideia e ver-se forçada a executá-la. Naquele momento, Emiliana sentiu todo o amor pelo filho lhe queimar o peito, lhe fechar a garganta. Odiou o maldito açougueiro. Ia obedecer, não havia como não obedecer. Mas, silenciosamente, jurou vingança. Ramos continuava parado na frente dela, esperando por sua concordância. E ela concordou, muda, num triste aceno de cabeça. Em seguida, foi para o quartinho, com o filho apertado contra o peito. Não podia mais fitar os diabólicos olhos do açougueiro. Odiava e temia aqueles olhos. Sobretudo depois do que descobrira. Era isso que a deixava em pânico. Era isso que a fizera procurar o sapateiro.

A descoberta se deu nos dias em que ela se recuperava do parto. Catarina não trancara a porta, temendo que Emiliana necessitasse sair do quartinho para alguma emergência. Alta madrugada, Emiliana foi acordada por um barulho no pátio. Normalmente, talvez não despertasse, mas agora dormia em semivigília, por causa do bebê. Sem acender o lampião, ela escorregou até a janela. Pelas frestas da persiana, viu que o patrão abria um grande tonel que ficava no fundo do quintal, sob uma cobertura de madeira, uma espécie de galpão sem portas. Lá, Ramos depositava o conteúdo de um saco de aniagem. Emiliana ficou intrigada. Por que ele fazia aquilo de madrugada? Não dormiu mais. Esperou por uma hora, até ter certeza de que todos dormiam na casa. Abriu a porta do quartinho. Arrastou as chinelas até o pequeno galpão em que estava o tonel. Teve alguma dificuldade para abrir a pesada tampa de ferro, ainda mais no seu estado delicado. Bastou uma fresta, porém, para que ela recuasse, horrorizada. Emiliana deparou com uma esbranquiçada caveira humana mergulhada num líquido denso. Ácido. Certamente ácido fosfórico, como já vira na charqueada onde a mãe mourejava. Era um produto usado na limpeza pesada, mas que, com a concentração adequada, servia para dissolver qualquer coisa. Podia dissolver inclusive… ossos humanos.

Esforçando-se para não correr dali aos berros, Emiliana retornou ao quarto e passou a manhã abraçada em seu bebê, rezando. Não entendia exatamente o que significava aquilo, mas compreendia que era algo muito ruim. Algo criminoso. Algo que só podia estar relacionado com o porão ao qual ela não tinha acesso. Quando Catarina a contratou, advertira com seriedade, apontando para a porta do porão:

– Você não deve nunca entrar aqui. Entendeu? Nunca!

Emiliana nunca entrou. Mas agora ia entrar. Precisava. Queria descobrir tudo o que se passava naquela casa para poder, enfim, contar ao sapateiro. Primeiro, havia planejado ir à polícia. Até que testemunhou a visita do chefe Dario Callado ao açougue. Emiliana varria o chão e viu perfeitamente quando Callado cumprimentou Ramos com entusiasmo. Eram amigos, não havia dúvida. A cena a abateu. Achou que talvez o chefe de polícia viesse investigar o que acontecia na casa. Nada disso. Minutos depois, chegou a ouvir uma nesga de conversa:

– Você é o meu melhor informante. Conto com você.

Ramos, então, era informante da polícia. Não havia saída.

Emiliana já pensava em fugir novamente, em esconder-se em outra cidade, quando, algumas noites antes, foi acordada pela voz da patroa. Catarina falava com alguém na porta que dava para o pátio. E não era com o patrão. Estremunhada, Emiliana acendeu o lampião, achando que Catarina talvez precisasse dela. Espiou mais uma vez pela persiana e, após acostumar-se com a escuridão, reconheceu o sapateiro esgueirando-se pelo quintal, subindo o muro, fugindo. Emiliana sentou-se na cama, boquiaberta. Será que o sapateiro e a patroa eram amantes? Só podia. Essa novidade se convertia num trunfo para ela. O sapateiro parecia uma boa pessoa, todos na região gostavam dele, achavam-no honesto. Um homem direito. Ou seja: Emiliana poderia confiar nele. E se o sapateiro estava agora prevaricando com Catarina, isso queria dizer que ele era potencialmente um inimigo de Ramos. Logo, o sapateiro certamente a ajudaria. O pensamento havia inflado Emiliana de esperanças. No entanto, no momento de falar com o sapateiro, ela fraquejou. Pensou que ele não acreditaria nela, uma reles filha de escrava. Lembrou-se do olhar maligno de Ramos, de seu filho depositado na Roda dos Enjeitados, do antigo patrão que a violara, tudo isso lhe veio à cabeça num redemoinho de cenas de pesadelo, e ela, simplesmente, entrou em pânico. Por isso agora chorava de bruços no catre. Não aguentava mais ser covarde. Não suportava mais sentir medo. Decidiu que voltaria a procurar o sapateiro. Só que com mais provas. Iria ao porão proibido. Descobriria o que acontecia naquela casa. E então contaria tudo ao sapateiro. Sentou-se na cama. Enxugou as lágrimas. Suspirou. Não esperaria mais. Ainda essa noite, desceria ao porão da casa de José Ramos.

Túnel do Tempo: Canibais - Capítulo 17

03 de fevereiro de 2014 0

“Misteriosas feito fantasmas”

Uma martelada no dedão. Mas uma martelada furiosa no dedão. Doía. Latejava. Isso nunca lhe acontecia, Walter estava por demais acostumado a martelar o dia inteiro e manter seu dedão a salvo. Mas não conseguia se concentrar no trabalho, só pensava em Catarina, Catarina, onde estava Catarina, por que Catarina não aparecia na sapataria, Catarina, Catarina, aí, POF!, dedão amassado. Oh, como doía. Walter olhava para o dedão, magoado, e do dedão para a rua. Esperava ver Catarina entrando pelo retângulo da porta a qualquer momento, linda, os olhos verdes ainda mais verdes, a pupila pequeninha à clara luz do sol porto-alegrense. Mas, não. Nada de Catarina.

Em vez da sua amada, duas outras mulheres lhe apareceram, misteriosas feito fantasmas. A primeira foi a criada de Catarina, Emiliana. Walter estava de cabeça baixa, trabalhando, e percebeu que a luz que vinha da porta havia sido barrada por alguém. Levantou os olhos e lá estava a bela mulatinha, fitando-o com olhos arregalados de gazela assustada, os braços ao longo do corpo, as mãos torcendo a barra do rústico vestido de chita que usava. Walter esperou que ela entrasse. Ela não se moveu.

– Olá – disse ele, jovialmente. – Você quer entrar?

Ela continuou imóvel. Walter se levantou. Emiliana recuou um passo, como se fosse desatar a correr. Walter ergueu a mão direita.

– Calma. O que houve? Tudo bem?

– Não! – a voz da criada saiu rouca, desesperada. – Não!

E sem mais falar, virou-se e saiu correndo em direção à casa número 27. Walter ainda foi até a porta da sapataria, chamou-a, mas ela sumiu em definitivo. Por uns cinco minutos, ele permaneceu à soleira, as mãos à cintura, intrigado. O que queria dizer aquilo? Será que a menina tinha algum recado de Catarina? Nesse caso, por que não o repassou? Não!, ela havia gritado, quando ele perguntou se estava tudo bem. O que não estava bem? Ou quem não estava bem? Ela, Emiliana, ou Catarina? Ou ele, Walter? Ou o patrão dela, o açougueiro? Não entendia mais nada.

Não se passou uma hora, e a segunda mulher misteriosa parou diante do balcão. Bela, também. Mas diferente da loirice resplandecente de Catarina e da sensualidade de mulata menina de Emiliana. Morena, alta, busto farto, boca grande e carnuda, olhos… sim, o mais impressionante eram os olhos da morena. Havia inteligência naqueles olhos. Havia personalidade. Não devia ser nada fácil lidar com uma mulher como aquela. Toda a força daqueles olhos…
A morena apoiou as duas mãos no balcão.

– Meu nome é Felizarda – anunciou, a voz límpida e firme.

A Bronze!

Walter esqueceu o dedão ferido, largou o martelo e o pé de moleque no chão. Pôs-se de pé. Apoiou as duas mãos no balcão. Olhou-a com interesse e até com alguma reverência. Sempre quisera conhecer essa personagem. A cidade inteira falava dela, mas ninguém com maior admiração do que seu amigo Brasiliano. Suspeitava que Brasiliano fosse apaixonado pela Bronze.

– Prazer. Meu nome é Walter.

– Eu sei.

Walter levantou as sobrancelhas.

– O senhor é um homem bom – prosseguiu ela. – Mas está muito próximo do Mal. O senhor está invadindo o território do Mal, está mergulhando na maldade. E está arrastando os seus amigos para o Mal também. Eu lhe peço – ela se curvou sobre o balcão e espetou um olhar chamejante no fundo dos olhos amarelos de Walter. – Eu lhe peço, por favor: afaste-se do Mal. Há um homem que pode ajudá-lo.

Walter ouvia boquiaberto. O que ela queria dizer com tudo aquilo? Saberia de algo a respeito de Catarina? Sim, porque Catarina era a única novidade da sua vida pacata, o único fator que poderia, de alguma forma, destoar da absoluta normalidade da sua existência. Mas não era possível. Ele não havia contado a ninguém sobre sua incursão na casa número 27. O que ela queria dizer, então?

– Não entendo. Sobre o que a senhora está falando?

– O príncipe Custódio – falou como se não o ouvisse. – O senhor precisa procurar o príncipe Custódio. Vá à rua dos Venezianos. Diga que o enviei. Por favor. Faça isso. Rápido. Ou será tarde demais.

Walter ia falar, ela não deixou. Estendeu a mão num abano rápido, murmurou até logo e se foi, deixando na sapataria um cheiro doce e um Walter boquiaberto.

– Que coisa… – balbuciou ele, ainda de pé, olhando para a rua.

Sentou-se, enfim. Tentou relembrar o diálogo. O que estava acontecendo? O Mal, o príncipe Custódio. Quanta bobagem. Reconhecia que a presença poderosa da Bronze o havia impressionado, até esquecera da assustada criadinha Emiliana, mas não podia sequer admitir tamanha superstição, não ele, um racional, não ele, um homem do século das luzes e da ciência. Balançou a cabeça, sorrindo. Vai ver aquilo era coisa do Brasiliano. Só podia ser peraltice daquele finório do Brasiliano. Assestou o sapato no pé de moleque para recomeçar o trabalho. Olhou rapidamente para a rua, na ânsia de ver Catarina chegando. Fazia três dias que não a via. O que estaria fazendo? Da rua para o sapato. Outra vez para a rua. E desferiu uma nova e portentosa martelada no dedão.

Túnel do Tempo: Canibais - Capítulo 16

29 de janeiro de 2014 2

“Os homens se viciavam depois de uma sessão sexual com a Bronze”

Ao anoitecer, Brasiliano pulou dentro de sua melhor bombacha, encaixou o chapéu de aba larga na cabeçorra, olhou para Januário e gritou:

– A la noche, guaipeca!

Saiu de casa a passo largo, acompanhado de seu companheiro saltitante. Sorria ao pensar que encontraria a Bronze dentro de alguns minutos. Duas horas antes, um menino aparecera em sua casa, na rua da Varginha, dizendo que a Bronze precisava vê-lo ainda aquela noite. Brasiliano deu uma palmada de satisfação em Januário. Era a primeira vez que a Bronze o chamava. Todas as outras vezes ele é que fora visitá-la. Será que ela estava se apaixonando por ele? Gostar dele, Brasiliano sabia que ela gostava. Mas a Bronze não era mulher de se entregar. Não tinha marido, não tinha noivo; tinha homens. Tratava-se de uma mulher celebérrima na cidade. Tanto quanto a baronesa do Gravataí. Cada uma lá por suas razões. Distintas umas das outras, bem-entendido.

A baronesa fora casada com o barão do Gravataí, morto havia dezoito anos. O barão era português, chamava-se João Batista da Silva Pereira. Suas botinas pisaram em solo gaúcho pela primeira vez no começo dos anos 20. João Batista se instalou num terreno situado na Cidade Baixa, à beira do rio Guaíba. Lá construiu um pequeno estaleiro. Que logo cresceu, se tornou poderoso e tornou poderoso João Batista. Aos poucos, o diligente português foi comprando as terras em derredor. Sua propriedade ia até a rua da Margem, assim chamada porque costeava o rio. Estendia-se por uma área tão vasta que os escravos fugidos se homiziavam em seus matos, alimentando-se das frutas silvestres, da caça e da pesca abundantes. E atacando os eventuais passantes para lhes aliviar do peso de suas posses, o que rendeu ao local o sugestivo codinome de Emboscadas.

João Batista levantou um belo e imponente solar em seu terreno. Foi nele que recebeu, em 1845, a visita de ninguém menos do que o imperador Dom Pedro II e a imperatriz Thereza Christina. Tão distinto foi o tratamento dispensado ao casal real, que Dom Pedro decidiu outorgar ao português o título de barão do Gravataí.

As festas no solar continuaram animadas por mais um ano, até que o barão morreu de uma doença misteriosa, ninguém jamais soube precisar o que vitimara um homem tão forte, no vigor de seus 56 anos. Para consolar a viúva Maria Emília, o imperador lhe concedeu o título de baronesa. Desde então, o solar passou a ser conhecido na cidade como o Solar da Baronesa e a propriedade da viúva como o Arraial da Baronesa, sutilmente rebatizado pelo populacho, mais tarde, de Areal da Baronesa, em referência ao seu terreno arenoso.

Pobre baronesa, inexperiente nos negócios, dissipou aos poucos sua fortuna. Dizem que ela mesma mandou atear fogo ao solar, a fim de facilitar o loteamento da área, vendê-la aos poucos e, dessa forma, promover sua salvação financeira. O fato é que nos anos 60 a baronesa continuava ativa e famosa.

Tão famosa quanto a Bronze.

Brasiliano ria ao pensar no apelido da moça. Chamava-se Felizarda, na verdade. Muitos achavam que o Bronze do codinome era devido à sua tez acastanhada, aos seus olhos cor de mel. Brasiliano sabia que não. Sabia que o apelido completo da bela morena era Cu de Bronze, conferido graças aos dotes de suas belas nádegas que ela, aliás, sabia usar muito bem. Os homens se viciavam depois de uma sessão sexual com a Bronze.

Nenhuma cortesã da cidade se comparava a ela. Que não podia ser considerada exatamente uma cortesã. A Bronze escolhia os seus homens. Não eram tantos os que obtinham o privilégio de se cevar em suas carnes morenas, mas esses atingiam o suprassumo do prazer. A Bronze gozava da fama de ser insaciável na cama, além de usar de rara criatividade. Seus amigos íntimos, encantados, sempre lhe mimoseavam com alguma prenda, não raro uma prenda de bom valor. Era uma mulher de variadas artes e profunda ciência. Ciências ocultas, inclusive. Além de ser conhecida como a Messalina de Porto Alegre, a Bronze se tornou celebridade por seus predicados de vidente e cartomante. Assim credenciada, a Bronze via-se frequentada pelos abastados, pelos políticos, pelas damas da sociedade. Diziam que até a baronesa do Gravataí a procurava e lhe pedia conselhos. Havia sempre movimento em sua casa de madeira, na parte alta da cidade.

Quando podia, Brasiliano também passava lá. E era invariavelmente bem-recebido. Conquistara tal privilégio não graças ao seu poder ou volume da conta que tinha no Banco Mauá, mas com a sedução de sua risada franca, de seu bom humor perene e até com as tropelias de Januário. A Bronze adorava cachorros.

Brasiliano ainda não havia contornado o frade de pedra da esquina e já viu que a Bronze o aguardava com a porta aberta, o sorriso alvo cheio de dentes, o queixo erguido, as mãos de dedos longos na cintura.

– Me esperando, morocha? – gritou ele da calçada.

– Você está atrasado – ela riu de volta.

Antes de Brasiliano chegar ao terreno onde ficava a casa, Januário disparou, latindo. Ficou saltitando ao redor da morena, que se agachou para abraçá-lo.

– Januário, seu malandro – ciciou, voz rouca, enlaçando com os braços macios o pescoço do cachorro.

– Acho que tu só me recebes aqui por causa desse guaipeca – riu Brasiliano, agarrando a Bronze pelos ombros redondos, puxando-a para lhe dar um beijo.

– Você tinha alguma dúvida?

Entraram.

– Quer comer alguma coisa? Tomar uma canha? Um vinho?

– Tem aquela linguiça especial do açougue da rua do Arvoredo? Se tem coisa boa, é aquela linguiça. Ontem comi uma na casa do Antunes que até agora lambo os beiços quando lembro dela.

– Vou dizer uma coisa: me sinto mal quando como aquilo. Não sei por quê. Só sei que me dá uma ânsia, um enjoo. Todo mundo adora a tal linguiça, eu não posso ver aquele troço no prato. Mas tenho um queijo do bom. Pode ser?

– Mas bah!

– Então sente aí.

Brasiliano puxou a cadeira de palha trançada e sentou-se à mesa quadrada, de madeira. A Bronze ondulou até a cozinha pequena e de lá voltou carregada. Debaixo do braço esquerdo, um cesto com pão e queijo. Na mão direita, um garrafão de vinho tinto.

– Chamei você aqui porque aconteceram algumas coisas estranhas – a Bronze sentou-se, graciosa.

– Coisas estranhas? – Brasiliano olhava para o pão que cortava com as mãos. A seguir, serviu-se de vinho. – Que coisas?

– O príncipe Custódio me chamou.

Brasiliano levantou os olhos para ela, e em seus olhos agora brilhava um interesse genuíno. Com o príncipe Custódio envolvido, o assunto não devia ser brincadeira. O príncipe Custódio, ou o príncipe Negro, ou o príncipe de Ajudá pertencia a uma família real africana. Sua história era única na triste saga dos negros africanos na América escravagista. Para que sua nação, a nação de Ajudá, não fosse dizimada pelo conquistador branco, ele teria concordado com o exílio eterno. Em troca, os ingleses lhe forneceram remuneração pelo resto da vida. O príncipe se tornou um homem rico nas terras onde seu povo vivia cativo. Estabeleceu-se em Porto Alegre, numa mansão na rua dos Venezianos, e lá vivia com farta criadagem e mais de trinta parentes ou agregados. Expressava-se mal em português, mas falava inglês e francês com fluência. Possuía nove cavalos de raça, tratados com mais desvelo do que recebia a maioria da população da província. Chefe da religião africana, foi o príncipe Negro quem introduziu no Rio Grande a prática do batuque. A Bronze se cevava em seus conhecimentos. Quando ele falava, ela escutava. E aprendia.

– O príncipe… – repetiu Brasiliano, falando para si mesmo.

– Ele. Me falou daquele jeito meio arrevesado dele, ajudado por um intérprete, que algo de maligno está acontecendo nessa cidade. Que a cidade está sendo dominada pelo próprio demônio. Pela besta-fera.

– Nossa…

– Falou que a cidade está devorando a cidade.

Brasiliano cortou com a faca um pedaço do queijo e o levou à boca.

– E o que isso tem a ver comigo?

– Tem a ver que ele disse que um amigo meu corre grande perigo.

– Bueno, tu tens outros amigos, que sei…

– Só que sonhei com você depois de ter falado com ele.

– É? – riu, malicioso. – O que nós fazíamos no sonho? Alguma coisinha boa? Daquelas que só tu sabes fazer?

– Não foi um sonho bom – olhava-o séria, sem nem dar atenção à insinuação. – Quero pôr as cartas pra você.

– Aiaiai, pra que perder tempo? – Brasiliano tomou a mão macia da morena. – Vamos logo ali pro quartinho.

– Não – ela retirou a mão. Levantou-se. Caminhou até uma cômoda, no canto da sala. – Quero ver sua sorte. Não estou com bom pressentimento.

– Que bobiça…

Brasiliano olhou para Januário, ao seu lado. O cachorro estava sentado, olhando fixamente para a fatia de queijo que girava entre os dedos fortes do dono. Seu olhar pidão era comovente. Babava de desejo. Brasiliano estalou a língua. Atirou um naco de queijo para Januário.

– Toma, seu safado interesseiro.

A Bronze sentou-se de volta. Ofereceu-lhe um baralho.

– Embaralha bem – ordenou.

Brasiliano largou o queijo e começou a embaralhar. Januário olhou para o queijo sobre a mesa e suspirou, resignado.

– Pronto – Brasiliano apresentou o baralho de volta à morena.

– Agora corta três vezes na tua direção – ela continuava sisuda, concentrada.

Brasiliano obedeceu. A Bronze tomou as cartas e começou a espalhá-las sobre a mesa, viradas para baixo, em fileiras de sete.

– Vira uma – ainda séria.

Brasiliano virou uma carta da ponta. Ás de espadas.

– Vira outra.

Brasiliano hesitou um segundo. Depois virou a carta contígua ao ás de espadas. Valete de paus.

– Mais uma.

A dama de espadas.

– Mais uma.

Dois de espadas.

Ela levou a mão à boca:

– Virgem santíssima…

– Que é que foi?

Os olhos cor de mel da Bronze fixaram-se nos olhos pretos de Brasiliano.

– Eu sabia! Você é o amigo sobre quem o príncipe me alertou. Você corre grande perigo, Brasi! Grande perigo!

Brasiliano olhou para as cartas na mesa.

– Grande perigo – repetiu ela. – Vire mais duas cartas.

Brasiliano apanhou uma carta distante da fileira que havia escolhido antes, no meio do baralho espalhado. Sete de paus. A segunda carta foi o valete de espadas.

– Minha mãe do céu! – a mão morena da Bronze tomou a grande mão de Brasiliano como se quisesse impedir que ele continuasse.

– Você está no meio de algo muito ruim. Uma mulher. Dois homens. Um homem terrível. É ele. A besta-fera de quem o príncipe me falou. O demônio em pessoa – o olhar dela era aflito. – Cuidado, Brasi. Muito cuidado!

Brasiliano fitou-a por alguns segundos, pensativo. Cofiou o bigodão. Afagou a cabeça de Januário com a outra mão. Deu um tapa na própria coxa.

– Vou tomar cuidado. Prometo. Agora vamos para o quartinho?