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Posts na categoria "Túnel do Tempo"

Túnel do tempo: O melhor amigo

23 de maio de 2013 10

Esse meu amigo tinha um cachorro. Não era cachorro de raça nem nada. Não passava de um vira-latinha malhado, o corpo todo manchado de preto e branco, a cara preta, só a ponta do focinho branca, assim como o contorno dos olhos. Parecia que usava óculos, aquele guaipequinha.

Meu amigo encontrou o cachorro na rua, ainda filhote. Afeiçoou-se a ele e levou-o para casa. Conviviam havia já mais de dois anos em seu pequeno apartamento. O cachorrinho era relativamente obediente e espaçosamente alegre, como em geral são os cachorrinhos.

Um dia, meu amigo encontrou uma namorada nas lides noturnas. Afeiçoou-se a ela e levou-a para casa também. Passaram a viver juntos, os três.

A mulher, porém, não gostava do cachorro. O apartamento ficava com cheiro de bicho e cheio de pelo, os latidos a incomodavam. Essas coisas que mulheres dizem de cachorros. Passaram-se meses, ela sempre reclamando,meu amigo sempre evitando o assunto. Adiando a solução. Quando o cachorrinho roeu as tiras da sandália preferida dela,ela deu um ultimato: ou ele ou eu!

Mais tarde, meu amigo confessou que, naquela hora, vacilou. Ela ou ele? Ela? Ou ele? Mas a disputa era entre um animal e um ser humano. Nesses casos, o humano quase sempre sai ganhando.

Ela ganhou.

Uma manhã,meu amigo,com o peito confrangido, o coração do tamanho de uma ervilha, a alma pesada, meu amigo colocou o cachorrinho no carro.Teria de livrar-se dele. O cachorrinho estava feliz. Gostava de passear de carro. Meteu o focinho branco para fora da janela e ficou sentindo os odores que passavam pela rua, sentindo o vento bater na cara preta e branca. Meu amigo dirigiu até Canoas. Enveredou pelos bairros da cidade. Parou em um descampado. Desceu. Deu a volta no carro. Abriu a porta do carona. O cachorrinho pulou para fora, o rabo abanando, faceiro com a atenção que o dono lhe despendia.

Meu amigo caminhou uns 30 metros. O cachorrinho o seguiu, como sempre. Meu amigo olhou para ele, pesaroso.

– Senta! – ordenou.

Ele obedeceu.

– Fica aí!

Ele obedeceu outra vez.

O cachorrinho ficou parado, enquanto ele voltava para o carro. Sentou-se atrás do volante. Arrancou. Antes de engatar a segunda marcha, parou. Olhou para trás. Viu, nos olhos do cachorrinho, a compreensão conformada, a lealdade triste. Os olhos do cachorrinho mostravam que ele sabia que seria traído. Que seria abandonado.

Como foi.

Meu amigo dirigiu uma quadra pensando naquele olhar. Então,num repente,se arrependeu. Pisou no freio. Fez o retorno, apressado. Voltou num tzin para seu companheiro. Ansiava por abraçá-lo e afagá-lo, por dar-lhe um osso novo, por pedir desculpas. Mas não o encontrou mais. Rodou por mais de duas horas pelas imediações, e nada. Voltou para casa abatido, desencantado da vida. Até hoje ele lembra daquele olhar desapontado. Daquele olhar que expressava amizade, fidelidade e um coração partido. Até hoje ele sonha com seu cachorrinho.

A mulher continua morando no apartamento.

Túnel do Tempo: Guiomar não existe mais

22 de maio de 2013 0

Hoje dificilmente você encontrará uma Guiomar. Se encontrar, será bem velhinha. As mulheres não se chamam mais Guiomar, nem Dagmar, como a daquela música de João Bosco & Aldir Blanc, "O Rancho da Goiabada”, que diz que os boias frias, quando tomam uma birita, espantando a tristeza, sonham com bife a cavalo e batata frita.

A verdade é que a mulher do Didi chamava-se Guiomar, e era uma linda mulher – nos anos 50, mulheres lindas podiam se chamar Guiomar. Essa em questão era uma cantora de certa fama. Trabalhava vestida de odalisca num programa apresentado pelo Ary Barroso, que, naturalmente, tinha uma queda por ela. Quando Didi casou-se com Guiomar, Ary compôs um samba, “Risque”, pedindo, despeitado, que ela riscasse o nome dele de seu caderninho de endereços.

O Didi a que me refiro é o jogador, não o amigo do Dedé.

Acontece que Didi já era casado e tinha filhos, quando enamorou-se de Guiomar. Deixou a primeira família, constituiu uma segunda e causou escândalo no país. Mas ninguém o incomodou muito, porque ele era craque. Meia-direita de passe escorreito e lançamentos de 50 metros, bicampeão do mundo em 58 e 62,estava um único nível abaixo dos imbatíveis Pelé e Garrincha. Nelson Rodrigues chamava-o de “Príncipe Etíope", tal a sua elegância. Neném Prancha disse sobre ele:

– Quem vê o Didi na rua, sem nem saber de quem se trata, logo pensa: “Aquele crioulo deve ser um troço na vida”.

Era.

Em 59,Didi foi contratado pelo Real Madri, que pretendia montar o melhor time de todos os tempos com ele mais o argentino Di Stéfano e o húngaro Puskas, que já estavam lá. Mas Didi fracassou no Real e, um ano depois, já vestia de novo a camisa listrada do Botafogo. Puskas disse que Didi não deu certo no Real por ter engordado com a boa comida europeia,mas,lá da Espanha, Guiomar escrevia artigos para os jornais brasileiros acusando Di Stéfano de boicotar o seu marido, tudo por inveja vulgar. Foi tão enfática,Guiomar,que vingou essa versão. Di Stéfano tornou-se persona non grata para os brasileiros da época. Muitos até o acusavam de ser um simpatizante do ditador Franco, o que,aliás,era verdade.

Seja como for, o fato é que Guiomar sempre cuidou dos interesses de Didi. Era ela quem negociava os seus contratos e fazia eventuais reivindicações aos dirigentes dos clubes em que o marido jogava. Era correspondida. Na Copa de 1954,os jogadores ficaram confinados à concentração. Naquele tempo, não havia celular nem internet. Didi queria ligar para Guiomar, os dirigentes da então CBD não deixavam. Didi fez greve de fome. Meio fajuta, é verdade, porque Nilton Santos levava-lhe comida escondido, mas fez.

Em 1958 a coisa foi mais grave. A Seleção estava treinando no Maracanã, quando, de repente, Didi deu um grito de horror:

– Perdi minha aliança!

O treino parou. Ele caiu de quatro na grama:

– Ninguém se mexe! A Guiomar vai ficar uma fera!

Num instante,todos,Pelé,Garrincha, Nilton Santos,Zito,Belini,Zagallo,todos aqueles craques num instante puseram-se de gatinhas e passaram a vasculhar cada palmo do campo de cem metros de comprimento. Não acharam. À noite, Didi pediu:

– Acendam os refletores!

E os refletores se acenderam para que ele seguisse na busca.Vã.A aliança não foi encontrada. Mas o desespero de Didi parou nas páginas dos jornais e, no dia seguinte, alguém foi avisá-lo:

– Dona Guiomar está lá fora, querendo falar com o senhor.

Didi foi, não sem algum temor a lhe amolecer as pernas. Encontrou a mulher sorridente e emocionada:

– Te vi de quatro no jornal, procurando pela nossa aliança. Achei lindo. Vamos comprar uma mais bonita ainda!

Mandava muito, a Guiomar. Lembrei dela quando soube das notícias do casamento do Damião. Como ele reagirá ao matrimônio? Já vi jogadores falindo por causa de um casamento mal assestado, assim como vi outros se tornando muito maiores do que eram graças a uma esposa atenta e amorosa. O que se dará com Damião? Já marcou um gol pós-enlace. Marcará outros? Não parará mais de marcar, enquanto durar a felicidade conjugal?

Didi seguiu casado e feliz até o fim da vida. Quando morreu, aos 72 anos de idade, Guiomar murchou de tristeza e morreu um mês e meio depois. Belo exemplo de casal de sucesso. Embora haja quem diga que a história da aliança fosse um golpe do Didi. Teria sido uma trama armada para justificar a perda da aliança em outras circunstâncias, menos explicáveis. Se foi isso mesmo, não diminui o amor que ele tinha por Guiomar, mas aumenta sua capacidade criativa.Gênio.Didi era capaz de lances de gênio.

* Texto publicado na Zero Hora de 28/01/2012.

Túnel do Tempo: Como ser feliz

20 de maio de 2013 1

A felicidade não é o sucesso.
Nem a realização.
Não é o reconhecimento.
Nem mesmo o amor romântico, tão consagrado pela música popular e pelo cinema.
A felicidade é a ausência de sofrimento.
Mas, se a vida é uma sequência de perdas e sofrimentos, às vezes físicos, às vezes morais, como alcançar a felicidade? Pela resistência.
Pela capacidade de suportar o sofrimento.
Você sofre, porque todos sofrem, espera, tem paciência, espera, espera, paciência...
e o sofrimento passa.
Então, você se sente feliz.
Sempre achei que os boxeadores são especialmente dotados dessa capacidade.
Porque, no boxe, mais do que bater, o lutador deve saber apanhar.
Muhammad Ali detinha esse poder como nenhum outro, e era assim que vencia seus combates.
Chegou a suportar 12 rounds com o maxilar quebrado, nos anos 70.
Não por acaso, muitos o consideram o maior pugilista de todos os tempos.
Mas a história pessoal de muitos boxeadores mostra o contrário.
Mike Tyson, Jake LaMotta, Carlos Monzon e vários outros foram bem- sucedidos no ringue e nem tanto na vida – os três passaram algum tempo na cadeia.
O que mostra que a dor física não é o principal tipo de sofrimento.
O sofrimento espiritual de Tyson, LaMotta e Monzon era maior do que os castigos que os adversários seriam capazes de lhes infligir entre as cordas.
Isso me faz admirar ainda mais os grandes jogadores de futebol do Brasil.
A pressão a que eles são submetidos não é pequena.
Cada gesto deles, cada palavra, cada movimento é avaliado e julgado todos os dias.
Ninguém, no Brasil, é tão criticado, alvejado e, não raro, espezinhado como eles.
E eles resistem.
Não todos, é claro.
Refiro- me aos grandes.
Que capacidade eles têm de absorver os golpes e seguir em frente! Como um Muhammad Ali resistindo 12 assaltos com o queixo quebrado.
Só que eles são maiores, porque a dor psicológica é maior.
Os grandes jogadores de futebol do Brasil.
Parecem homens pueris, mas eles têm algo a nos ensinar.

*Texto publicado na Zero Hora de 21/08/2012

Túnel do Tempo: Velhas noites de sexta

18 de maio de 2013 4

Havia um bar bem ao lado do Teatro Presidente, teatro que, aliás, também havia, não há mais, foi-se o teatro, foi-se o bar, muito se foi naquela região da cidade. Edelweiss chamava-se o bar, nome de uma flor e de uma música da Noviça Rebelde.

Bem.

Todas as sextas-feiras íamos ao Edelweiss. Não precisava marcar, era certo: sexta, a partir da última esquina das 11, Edelweiss. O pedido não variava: uma pizza à xadrez que o dono do bar, o Tio Beto, fazia na manteiga, ficava crocante e macia, e não grudava no fundo da forma, uma delícia. E cerveja, claro. Lembro que um dia cheguei por volta da meia-noite, cansado, sedento, precisando tirar a poeira da garganta, como diria o Tex Willer, e o Tio Beto fez aterrissar aquela garrafa branquinha de tão gelada na minha frente, declarando:

— Esta é melhor maneira de dizer boa noite a um amigo.

Lágrimas de emoção subiram-me aos olhos.

O Chico Trago levava o violão para o Edelweiss e cantávamos madrugada adentro. Mão, violão, canção, estrada e viola enluaradaaaaa...

O pessoal do Taranatiriça também ia tocar lá, e às vezes juntávamos as mesas.

Na hora de ir embora, abríamos a porta da rua e, Cristo!, a luz do sol nos cegava por instantes. Como a luz do sol é deprimente no fim da festa.

De qualquer maneira, era um belo bar, o Edelweiss, desses que não há mais na cidade.

Uma noite, cheguei antes da turma, sentei-me, eu com minha cerveja, e vi três moças que ainda não conhecia, na mesa ali adiante. Estavam entretidas numa conversa audível, não tive como não prestar atenção. Mas não lembro de nenhum dos assuntos que tratavam, lembro apenas de uma única frase dita pela mais magrinha, a mais sequinha, a mais murchinha, quando a mais exuberante delas levantou-se para ir ao banheiro. Tratava-se, a exuberante, de uma morena magra, porém curvilínea, de cabelo reluzente e olhos d’água. Deslizou cheia de graça para o extremo sul do bar, enquanto as duas amigas a observavam. Aí a tal magrinha, a sequinha, a murchinha falou para a outra, num suspiro:

— Queria saber como é ser bonita como ela...

Foi como se me tivessem sacudido na cadeira. A singeleza triste da observação me enterneceu. Ela dizia, a murchinha, que queria saber como é ser bonita. Ou seja: sabia que não era. Que nunca seria. Mas desejava experimentar a sensação de ser. Sua vida de feia de nascença decerto ensinara-lhe que, ao contrário do que a literatura e o cinema pregam com tanta generosidade, a beleza faz, sim, diferença. Mais: que alguns simplesmente vêm ao mundo privilegiados. São mais belos, mais inteligentes, mais ricos, têm mais sorte, e isso não significa que sejam menos bondosos, menos decentes, menos dignos.

O que a murchinha certamente sabia é que o mundo não é justo. Às vezes é até cruel. Cabe ao ser humano atenuar essas injustiças, corrigir as distorções da Natureza e dar mais a quem tem menos. Se a vida é torta, o homem tem de lutar pela retidão. Portanto, nada deste injusto e desigual campeonato de pontos corridos. Em nome da justiça e da suspirante murchinha do Edelweiss, que o campeonato volte a ter uma final.

* Texto publicado em 25/11/2009

Túnel do Tempo: O carreteiro perfeito

18 de maio de 2013 2

FragaJá houve algum dia um homem que jamais foi rejeitado por uma mulher? Ou um que nunca tenha se decepcionado com um amigo, ou se aborrecido no trabalho, ou sentido dor? Algum dia viveu sobre a Terra um homem que atravessou a existência sem que em nenhum momento tivesse vontade de simplesmente sumir?

Pois existiu um homem que era como se fosse um desses homens.

Soube dele tempos atrás, quando cobria a Seleção Brasileira em uma dessas viagens pelo estrangeiro. Ronaldinho Gaúcho, então no zênite da carreira, chegou para mim e perguntou:

– Sabe quem de nós aqui é o que melhor bate na bola?

Hesitei. Olhei em volta. Era uma Seleção de virtuoses. Lá estavam todos eles, equilibrando a bola na ponta da chuteira. Seria o próprio Ronaldinho? Ou Ronaldão? Talvez Romário?

– Nenhum desses – sentenciou Ronaldinho. – É ele.

E apontou para um senhor de cabelos brancos e barriga bem fornida de jantares copiosos que arrastava sua pachorra pela grama perfeita da grande área. Era Valdir de Moraes, o treinador de goleiros. Valdir de Moraes?, perguntei de mim para mim. Não pode! Passei a observá-lo. O velho Valdir dominava a bola com a naturalidade de quem boceja e anunciava para um jogador lá na ponta-direita, a 60 metros de distância:

– Pé direito!

E mandava um lançamento macio como as canelas da Luana Piovani, que ia se aconchegar precisamente no pé direito do jogador. Sempre assim, tranquilo e infalível como Bruce Lee.

Fui falar com ele. Queria saber de onde vinha tamanha habilidade, ainda mais que Valdir de Moraes não atuava na linha em seus tempos de jogador, mas no gol. Valdir contou-me que, quando jogava no Renner, time pelo qual foi campeão gaúcho em 1954, ele e o 10 do time, Ênio Andrade, passavam horas ensaiando chute a gol e lançamento. Com o pé direito, com o pé esquerdo, e de novo e de novo e de novo, sem parar. Donde, os dois amigos desenvolveram um talento para bater na bola que jamais os abandonou. Ênio, por exemplo, nunca, nunca (eu disse: nunca!) errou um pênalti.

Certo. Contei essa história durante um debate de que participamos eu e o Professor Ruy, segunda-feira, na Saraiva do Praia de Belas. Nossa conversa ocorreu durante o lançamento do livro do Maurício Noriega, colega paulista que escreveu sobre os 11 maiores técnicos da história do futebol brasileiro. Pois bem. Falei que Ênio Andrade nunca, nunca (falei: nunca!) havia errado um pênalti, e ilustrei essa lenda com um conhecido caso ocorrido em 1981. Ênio trabalhava no Grêmio. Leão pegava no gol. Em meio a um treinamento, Leão, com sua habitual imodéstia, arrostou:

– Aí, velho: bate um pênalti. Se acertar, pago uma cerveja.

Ênio redarguiu:

– Vamos fazer assim: vou bater dez pênaltis. Se você defender um, pago um engradado.

Leão pagou a cerveja.

Quer dizer: era verdade, Ênio Andrade nunca errou um pênalti. E, assim que pinguei um ponto final nessa frase, ergueu-se um senhor da plateia e, espetando o indicador no ar, acrescentou:

– Nem em treino! Ele batia com o peito do pé – simulou o chute de Ênio colidindo as costas da mão direita na palma da esquerda. – E nunca errava. Nunca. Nem em treino.

Nem em treino! Era o que eu dizia. Um homem que nunca errou um pênalti, nem em treino, é como um homem que jamais foi rejeitado por uma mulher, um homem que nunca se decepcionou com um amigo, que em nenhum momento sentiu vontade de simplesmente sumir.

Depois do encontro na Saraiva, fomos provar o carreteiro da Dona Tereza, no Jazz Café, ali em frente à caixa d’ água. Trata-se de um carreteiro minucioso. O filé é cortado em pedaços mínimos, menores que a unha do minguinho. O molho é o da própria carne, denso, quase capitoso. Junto vem uma travessa de batatas portuguesas, delgadas como asas de borboleta, mais uma salada de tomate e alface para fazer o contraponto ao sabor quente do arroz. Perfeito. Tal qual um pênalti um dia cobrado por Ênio Andrade.

*Texto publicado na Zero Hora em 20/05/2009

Túnel do Tempo: Quando descobri a internet

16 de maio de 2013 1

Internet é coisa de jovem, mas a primeira pessoa que me falou sobre sua existência foi um cara que respira neste Vale de Lágrimas pelo menos uma década antes de mim: o velho lobo da imprensa Carlos Wagner. Isso se deu lá nos albores dos anos 90. Wagner, o repórter mais premiado do Brasil, me pegou na redação e contou, entusiasmado, que estava participando de uma rede virtual entre universidades que, em algum tempo, transformaria o mundo. O mundo! Ouvi, algo distraído, e saí para fazer minha pauta. Transformar o mundo. Sei.

Veja você como a gente deve prestar atenção no que diz um velho lobo da imprensa.

Li outro dia que apenas 18% das pessoas com 50 anos ou mais usam a internet. Coisa de jovem. Compreensível. As pessoas, depois das aventuras e desventuras da juventude, adotam uma forma de viver, cultivam hábitos, aferram-se a eles. Aí, quando tudo está bem posto, surge uma novidade que lhes exige o esforço do aprendizado. Mais trabalho. Exatamente no momento em que elas planejavam, tão somente, fruir a existência.

Sacanagem.

Eu aqui não cultivo preconceitos em relação à internet. Não tenho tuíter, não tenho Facebook, estou reduzindo a leitura de e-mails a menos de meia hora, e só nos dias úteis, mas não faço tais restrições por achar a internet algo ruim. Ao contrário, é algo bom. Mas toma tempo. Trata-se de uma questão de prioridades.

A internet é uma ferramenta, nada mais. Pode ser bem ou mal usada, como qualquer ferramenta.

Tempos atrás, discuti por e-mail com um estudante de Letras. Ele foi arrogante, e decidi dar-lhe uma resposta no mesmo tom. Ele postou minha resposta nas chamadas “redes sociais”. Quer dizer: tornou pública uma correspondência pessoal. Depois disso, reavaliei meu relacionamento virtual com leitores.

Também aprendi que, às vezes, o que está na internet só tem importância na internet. Fora dali, no mundo real, aquilo que pulsa e freme na internet inexiste. É zero. Torna-se verdadeiro apenas quando o mundo real o reconhece. Por que 1 milhão de pessoas acessam uma besteira no YouTube, tipo “Luísa está no Canadá”? Resposta: porque 1 milhão de pessoas acessaram a besteira no YouTube, tipo “Luísa está no Canadá”. O troço faz sucesso porque faz sucesso, sem mérito algum. Vira realidade quando vai para a TV, para o jornal, para a rua. Se fica restrito à internet, evapora.

Porém... algo que só deveria existir na internet pode transformar-se em realidade distorcida. O tal filmeco que ofende o Islã não passa disso: de um filmeco malfeito e mal-intencionado, feito por um picareta, com 14 minutos de duração, algo de péssimo gosto que deveria se esfarelar no YouTube sem que ninguém lhe desse importância. Mas, por razões diversas, os radicais lhe deram importância, e tem gente matando e morrendo por causa disso. Matando e morrendo, graças às facilidades da internet. O mundo mudou, como havia vaticinado o Wagner, e ainda não aprendemos a lidar com essa mudança. Dá trabalho aprender. E é preciso aprender. Sempre.

* Texto publicado em 28/09/2012

Túnel do Tempo: Coração selvagem

13 de maio de 2013 4

Esse senhor de basto bigode que zanzou feito um fantasma por Porto Alegre dias atrás, Belchior, esse senhor estranho é um símbolo. Belchior é uma estátua viva à juventude, à inconformidade, à contestação reflexiva e, também, à imaturidade.

Você pode aprender muito, se conhecer Belchior, se prestar atenção no que ele escreveu e no que ele se transformou. Belchior foi um poeta inexcedível. Repare neste verso:

“Meu bem, guarde uma frase pra mim dentro da sua canção.

Esconda um beijo pra mim sob as dobras do blusão”.

Não é uma bela imagem, o beijo que ela leva escondido nas dobras do blusão?

Em outro poema, Belchior tomou emprestada a verve de Olavo Bilac:

“Ora, direis, ouvir estrelas! Certo perdeste o senso. Eu vos direi, no entanto: enquanto houver espaço, corpo, tempo e algum modo de dizer não, eu canto”.

Bonito.

Mas o importante de Belchior não é a beleza das suas composições. O importante é quando ele confessa que a sua alucinação é suportar o dia a dia. É a alucinação de todos, certo, mas Belchior não está exagerando sobre si mesmo. Em outra canção ele diz a um parceiro:

“Se você vier me perguntar por onde andei

No tempo em que você sonhava,

De olhos abertos lhe direi:

Amigo, eu me desesperava”.

Ele se desesperava com o dia a dia, ele se desesperava ao perceber que a juventude do seu coração era perversa, uma juventude que só entendia o que era cruel, o que era paixão, porque assim é a juventude.

Belchior sabia que a felicidade é uma arma quente, mas isso não lhe serviu de consolo. A fama, o sucesso e o dinheiro não foram suficientes para aplacar a dor existencial de Belchior. Ele não se conformou. Prova-o o seu futuro, que o futuro dele está acontecendo hoje. Prova-o esse ser humano enigmático que vaga pelo sul do continente meio que sem rumo, hospedando-se em hotéis sem ter dinheiro para pagá-los, doce e arredio ao mesmo tempo, parecendo ora aflito, ora sereno, sendo hoje o que foi sempre.

Belchior ficou congelado nos anos 70. Jamais saiu de sua própria juventude e, suponho, jamais sairá. Em uma de suas grandes composições há uma frase que diz tudo sobre ele, uma frase que resume o que é o coração selvagem de quem começa a se conhecer:

“Ainda sou estudante da vida que eu quero dar”.

É isso. Belchior sabia que a vida de uma pessoa é dada a outras pessoas. Mas que vida ele queria dar? Para quem? Essas eram as perguntas que o inquietavam, e que inquietam a quem quer que pense. Olhando para o Belchior pálido de hoje fico pensando se ele, enfim, descobriu as respostas.

* Texto publicado em 30/11/12

Túnel do tempo: Uma polonesa ardilosa

11 de maio de 2013 0

Nenhuma mulher queria Napoleão quando ele ainda não era Napoleão, era só um generalzinho de 1m60cm de altura que, segundo seus colegas de farda, ficava ridículo dentro das botas de cano longo do exército francês. O próprio Napoleão relatou em seu diário que nada menos do que seis damas parisienses rechaçaram seus pedidos de casamento nessa época. Inclusive algumas muito feias. Inclusive uma que tinha 60 anos de idade (ele, 20).

Mas depois Napoleão ficou famoso, rico, poderoso e, pelo jeito, muito mais bonito, porque as mulheres passaram a desejá-lo com ardor. As mais lindas não apenas da França, do mundo inteiro, ansiavam por ser conquistadas pelo conquistador da Europa. Napoleão teve austríacas, alemãs, russas e egípcias.

Quando Napoleão fez sua entrada triunfal em Varsóvia, uma bela jovem polonesa rompeu o bloqueio da soldadama para se apresentar diante dele, o peito arfante mal contido pelo decote profundo como uma tese de Wittgenstein, dizendo-se uma patriota que queria reivindicar em favor de seu país.

Napoleão resolveu ouvir as reivindicações com calma, em particular. À noite, um zeloso oficial francês conduziu a moça ao recôndito de seus aposentos. Ela entrou, tímida feito uma colegial, esfregando as alvas mãos. Napoleão começou a salivar. Maria Waleska, esse o nome da polaquinha, era loira, formosa e uma cabeça mais alta do que o imperador. Ostentava o título de condessa. Confessou que seus compatriotas, inclusive o conde seu marido, pediram que ela usasse seus encantos para intervir pela independência da Polônia.

– O país todo está me atirando em seus braços – gemeu, e recuando um passo, como se estivesse entre temente e indefesa, acrescentou: – E eu sei que o senhor sempre toma o que pretende tomar.

Napoleão, claro, adorou aquilo. Pulou em cima da condessa como se ela fosse um naco de Camembert e a possuiu durante toda a noite, fazendo o que bem quis, como quis e onde quis. Foi um tanto violento, de acordo com o relato posterior da própria Maria Waleska. Mas ela gostou. Apaixonou-se pelo imperador, e ele por ela. Tiveram até um filho. Dizem que foi a mulher que Napoleão mais amou, e há indícios escritos de tanto sentimento. Depois de sua passagem pela Polônia, na aridez do campo de batalha, as cartas que ele lhe endereçava pulsavam de paixão carnal.

Maria Waleska venceu, portanto. Como conseguiu? Empregou os ardis das mulheres novas, bonitas e carinhosas, que sempre fazem os homens gemer sem sentir dor. Waleska se ofereceu a Napoleão como uma presa. Entregou-se a ele alegando que não podia fazer mais nada, a não ser se entregar. Era inevitável, ciciava Waleska: se Napoleão quisesse tomá-la, tomá-la-ia. Como a tomou. Só que, na verdade, era ela que o tomava.

Em resumo, Maria Waleska jogou no contra-ataque. Esperou que Napoleão atacasse, ele atacou e ela o conquistou. Esse o ensinamento da bela polonesa: quando se lida com os grandes, há que se jogar no contragolpe. É assim que se vence um campeonato como o Brasileiro, em que há uma dúzia de grandes: negaceando, dissimulando e simulando. Jogando no contra-ataque. É como se forma um campeão. Ou, no caso de Maria Waleska, uma campeã.

Agora, antes de concluir, faz-se necessário citar outra poderosa concorrente ao coração de Napoleão: a velha Josefina. Essa definitivamente adotava uma postura ofensiva. Josefina traiu Napoleão com método e devoção. Traiu-o inclusive depois que ele tirou a tiara real das mãos do Papa e a coroou imperatriz no púlpito da Notre-Dame. Mesmo assim, Napoleão era louco por ela. Dizem que por suas artes de alcova. Sempre que ia começar uma viagem de volta a Paris, Napoleão escrevia para Josefina e pedia: “Não tome banho nos próximos dias, estou retornando”. Josefina obedecia. Como se vê, jogar no ataque às vezes também dá resultado.

Texto publicado em 14/06/2009.

Túnel do tempo: Jamais faça isso!

11 de maio de 2013 0
Um homem nunca deve sentar no colo de uma mulher. Nunca! Porque a mulher quer que o homem tenha autoridade, ela anseia por um homem superior e altivo, a quem possa admirar e que seja seu protetor. Tudo que a mulher deseja é um homem poderoso o suficiente para submetê la, mesmo que viesse a desprezá-lo se ele tentasse isso. Autoridade, não autoritarismo. Segurança. Firmeza. Decisão. Ela quer miar em seu regaço no final do dia e suspirar, gatinha:


– Meu homem...

Por isso, nada de sentar no colo dela, entendeu?

O homem precisa pensar como pensa um zagueiro. Certo domingo de Gre-Nal, nos longínquos anos 70, aconteceu um fato bastante ilustrativo do que digo: antes da partida, alguns jogadores foram se cumprimentar no centro do gramado. Tarciso estendeu a mão para Figueroa:

– Boa sorte e bom jogo – desejou o jogador do Grêmio. Figueroa nem lhe deu a mão.

– Vou te quebrar – rosnou, em portunhol rascante.

– Que é isso? – espantou-se Tarciso. – Tu és um grande jogador, gringo.

– Grande jogador coisa nenhuma, eu só dou porrada. E hoje vou te quebrar ao meio!

Isso tudo antes de a bola rolar. Quer dizer: Figueroa já começava o jogo em vantagem psicológica. Porque zagueiro que é zagueiro não ri, não brinca, não ganha Belford Duarte, como uma vez disse o zagueirão Moisés, que segunda passada foi à festa do Bosco, na Sogipa.

Ah, Figueroa também estava lá. E dezenas de outros becões. A festa do Bosco, em sua 15ª edição, homenageou os zagueiros do passado. Tudo gente de mais de metro e oitenta. Tudo gente séria. De León, por exemplo. Uma vez, logo depois que o Grêmio conquistou o Mundial Interclubes, em 83, o veeelho repórter Emanuel Mattos foi entrevistar o De León em Rivera para a Revista Placar. A ideia era fazer um perfil do “herói de dois mundos”, aquela coisa. Terminada a entrevista, De León pediu carona até Porto Alegre. Tudo bem, sem problemas. O motorista e o fotógrafo no banco da frente, De León e Emanuel no banco de trás. De Livramento a Porto Alegre, 488 quilômetros. Bem umas seis horas. E De León não falou nada. Nada! Nenhuma frase, nenhuma observação, nenhum comentário. Permaneceu mudo, ouvindo o Emanuel tagarelar como uma caturrita.

Isso é um zagueiro! Sim, senhor!

O De León nunca deu uma gargalhada na vida dele. Nunca!

Outra: um dia antes da festa do Bosco, o Bosco reuniu alguns convidados na casa dele. Lá estavam o Figueroa, o Baidecão e o Luiz Felipe. Uma hora, o Luiz Felipe falou:

– O Figueroa não era zagueiro. Ele jogava demais para ser zagueiro.

Zagueiros éramos eu e o Baideck, aqui!

De fato, de fato, mas o Figueroa, como já contei, sabia ser duro, quando tinha de ser duro. Uma vez o Figueroa me contou:

– Antes dos primeiros 10 minutos de jogo, sempre dou um soco na cara do centroavante. Juiz nenhum expulsa antes dos primeiros 10 minutos.

Um soco! O cara dava soco nos centroavantes! Que zagueiro.

E o Baidecão. Jesus Cristo! Se a Brigada tivesse 200 soldados do tamanho do Baidecão, não haveria mais crime em Porto Alegre. Pegava no time do Grêmio hoje, o Baidecão. Por Deus que pegava.

Mas os lídimos representantes da estirpe dos zagueiros eram os irmãos Pontes. Estavam lá também: Daison, Bibiano e João Pontes. Jogavam no Gaúcho de Passo Fundo. Daison pela direita, Bibiano pela esquerda, João à frente deles. Mas esse negócio de bola e tal, isso não era muito com eles. Eles gostavam mesmo era de bater. Se o incauto atacante conseguisse passar pelo João, não entraria na área sem conhecer as afiadas travas de metal de seus irmãos. João, Daison e Bibiano. Cruzcredo.

Havia muitos outros, lá na festa do Bosco: Oberdan, o homem que jurou que Escurinho não cabecearia mais na área do Grêmio. E cumpriu. Mauro Galvão, o sábio, o maior zagueiro brasileiro dos tempos modernos. Ancheta, tão elegante como quando foi eleito o maior zagueiro do mundo, em 70. E o maior deles: Aírton Ferreira da Silva, o Pavilhão, zagueiro de nome e sobrenome, tido e havido como o melhor camisa 3 do Rio Grande do Sul em todos os tempos e que, para a desgraça da minha tese, jamais deu um pontapé em um adversário.

Pois é. Que côsa. Aírton não dava botinada, era uma ladie jogando. Podia usar sapatilhas, em vez de chuteiras. Talvez até risse, de vez em quando. E foi insuperável. O Pelé da zaga. Que fazer? Essas coisas acontecem. Alguns zagueiros podem jogar sem bater. Mas você sentar no colo dela, não. Isso, de jeito nenhum!

Texto publicado em 11/05/2005.

Um homem nunca deve sentar no colo de uma mulher. Nunca! Porque a mulher quer que o homem tenha autoridade, ela anseia por um homem superior e altivo, a quem possa admirar e que seja seu protetor. Tudo que a mulher deseja é um homem poderoso o suficiente para submetê la, mesmo que viesse a desprezá-lo se ele tentasse isso. Autoridade, não autoritarismo. Segurança. Firmeza. Decisão. Ela quer miar em seu regaço no final do dia e suspirar, gatinha:

– Meu homem...

Por isso, nada de sentar no colo dela, entendeu?

O homem precisa pensar como pensa um zagueiro. Certo domingo de Gre-Nal, nos longínquos anos 70, aconteceu um fato bastante ilustrativo do que digo: antes da partida, alguns jogadores foram se cumprimentar no centro do gramado. Tarciso estendeu a mão para Figueroa:

– Boa sorte e bom jogo – desejou o jogador do Grêmio. Figueroa nem lhe deu a mão.

– Vou te quebrar – rosnou, em portunhol rascante.

– Que é isso? – espantou-se Tarciso. – Tu és um grande jogador, gringo.

– Grande jogador coisa nenhuma, eu só dou porrada. E hoje vou te quebrar ao meio!

Isso tudo antes de a bola rolar. Quer dizer: Figueroa já começava o jogo em vantagem psicológica. Porque zagueiro que é zagueiro não ri, não brinca, não ganha Belford Duarte, como uma vez disse o zagueirão Moisés, que segunda passada foi à festa do Bosco, na Sogipa.

Ah, Figueroa também estava lá. E dezenas de outros becões. A festa do Bosco, em sua 15ª edição, homenageou os zagueiros do passado. Tudo gente de mais de metro e oitenta. Tudo gente séria. De León, por exemplo. Uma vez, logo depois que o Grêmio conquistou o Mundial Interclubes, em 83, o veeelho repórter Emanuel Mattos foi entrevistar o De León em Rivera para a Revista Placar. A ideia era fazer um perfil do “herói de dois mundos”, aquela coisa. Terminada a entrevista, De León pediu carona até Porto Alegre. Tudo bem, sem problemas. O motorista e o fotógrafo no banco da frente, De León e Emanuel no banco de trás. De Livramento a Porto Alegre, 488 quilômetros. Bem umas seis horas. E De León não falou nada. Nada! Nenhuma frase, nenhuma observação, nenhum comentário. Permaneceu mudo, ouvindo o Emanuel tagarelar como uma caturrita.

Isso é um zagueiro! Sim, senhor!

O De León nunca deu uma gargalhada na vida dele. Nunca!

Outra: um dia antes da festa do Bosco, o Bosco reuniu alguns convidados na casa dele. Lá estavam o Figueroa, o Baidecão e o Luiz Felipe. Uma hora, o Luiz Felipe falou:

– O Figueroa não era zagueiro. Ele jogava demais para ser zagueiro.

Zagueiros éramos eu e o Baideck, aqui!

De fato, de fato, mas o Figueroa, como já contei, sabia ser duro, quando tinha de ser duro. Uma vez o Figueroa me contou:

– Antes dos primeiros 10 minutos de jogo, sempre dou um soco na cara do centroavante. Juiz nenhum expulsa antes dos primeiros 10 minutos.

Um soco! O cara dava soco nos centroavantes! Que zagueiro.

E o Baidecão. Jesus Cristo! Se a Brigada tivesse 200 soldados do tamanho do Baidecão, não haveria mais crime em Porto Alegre. Pegava no time do Grêmio hoje, o Baidecão. Por Deus que pegava.

Mas os lídimos representantes da estirpe dos zagueiros eram os irmãos Pontes. Estavam lá também: Daison, Bibiano e João Pontes. Jogavam no Gaúcho de Passo Fundo. Daison pela direita, Bibiano pela esquerda, João à frente deles. Mas esse negócio de bola e tal, isso não era muito com eles. Eles gostavam mesmo era de bater. Se o incauto atacante conseguisse passar pelo João, não entraria na área sem conhecer as afiadas travas de metal de seus irmãos. João, Daison e Bibiano. Cruzcredo.

Havia muitos outros, lá na festa do Bosco: Oberdan, o homem que jurou que Escurinho não cabecearia mais na área do Grêmio. E cumpriu. Mauro Galvão, o sábio, o maior zagueiro brasileiro dos tempos modernos. Ancheta, tão elegante como quando foi eleito o maior zagueiro do mundo, em 70. E o maior deles: Aírton Ferreira da Silva, o Pavilhão, zagueiro de nome e sobrenome, tido e havido como o melhor camisa 3 do Rio Grande do Sul em todos os tempos e que, para a desgraça da minha tese, jamais deu um pontapé em um adversário.

Pois é. Que côsa. Aírton não dava botinada, era uma ladie jogando. Podia usar sapatilhas, em vez de chuteiras. Talvez até risse, de vez em quando. E foi insuperável. O Pelé da zaga. Que fazer? Essas coisas acontecem. Alguns zagueiros podem jogar sem bater. Mas você sentar no colo dela, não. Isso, de jeito nenhum!

Túnel do tempo: Os horrores do vento encanado

09 de maio de 2013 4

Vento encanado é um perigo, todo mundo sabe disso. Você toma um banho quente e, ao sair do banheiro, pega um vento encanado. Como diria Conrad, o horror, o horror. Porque o vento encanado é solerte, é um pé-de-vento que, por algum motivo, entrou na sua casa e se infiltrou pelos corredores. Encanou-se. Aí, quando você sai do banho, desprevenido e limpinho, PÁ!, o vento encanado o acerta em cheio. E é essa a qualidade mais assustadora do vento encanado: trata-se de um vento particular, danosamente exclusivo, que atinge uma única pessoa, você, e justamente no momento em que você está saindo do banho, maldição!

Quando isso acontece, quando um vento encanado o atinge após o banhinho, você, é claro, fica todo torto. Boca torta, nariz torto, orelha torta, olho torto, às vezes, inclusive, a vítima fica renga para o lado em que o vento bateu. Para toda a vida! Jesus Cristo. Nunca se soube de alguém que alguma vez tenha ficado bom depois de ter sido retorcido por um vento encanado. Em contrapartida, há dezenas, quiçá centenas de casos de pessoas que se tornaram enviesadas para o resto da vida só porque foram pegas por um desses ventos malignos depois do banho. Minha vó, que foi quem me contou tudo a respeito do vento encanado, relatou-me um a um esses exemplos.

Até tinha uma vizinha dela, lá na Rua Dona Margarida, que, nossa!, era uma vizinha muito torta. Eu olhava para essa vizinha andando como se tivesse uma perna mais curta do que a outra, falando como se tivesse sempre um cigarro pendurado num canto da boca, observando o mundo com o olho direito bem redondo e o esquerdo bem fechado, eu olhava para ela e via que, apesar de toda aquela sinuosidade, havia traços de uma beleza antiga na vizinha, e isso me intrigava, e eu questionava o que lhe teria acontecido. Um dia, à passagem claudicante dela, cheguei para a vó e:

– Essa sua vizinha...

– Vento encanado! – a vó confirmou minhas suspeitas.

Estremeci.

– Sério?

– E foi do pior jeito – acrescentou, em tom lamentoso.

Pedi que contasse tudo, que não escondesse nada, por pior que fosse. Ela contou. E foi mesmo terrível. Essa vizinha, ela não havia sido torta por toda a vida. Não nascera torta. Ao contrário, era uma bela moça que rodava pelos bailes do Quarto Distrito e encantava os rapazes e acumulava pretendentes. Embora fosse moça e inexperiente, sabia, a então linda vizinha, tudo, mas tudo mesmo, acerca do vento encanado e seus perigos. Por isso, prevenia-se. No enregelante inverno gaúcho, no outono chuvoso, nas primaveras ventosas e em quaisquer outros dias medianamente frios, só saía do banho se a casa estivesse hermeticamente fechada, sem uma única fresta por onde pudesse se esgueirar um vento encanado.

Certo.

Mas um dia... Um dia fazia calor. Era verão, desses verões que tornam a vida lenta e pastosa. A tarde se esvaía no Guaíba. E a vizinha tomava banho. Como fosse delicada feito uma folha de madressilva, tomava banho quente – não suportava banhos frios, mesmo no verão. Banhos frios davam-lhe coceira por toda a pele de seda.

Daquela vez, e somente daquela vez, saiu do banheiro sem tomar precauções. Não achou que devesse, afinal, o calor era tão intenso que até respirar causava suores. Pois ela foi pega por um vento encanado. De algum canto da cidade, quem sabe produzido por uma marola mais fria do rio, talvez pelo encontro de duas correntes de ar fresco, sabe-se lá, de algum ponto veio aquele vento encanado que serpenteou pelos corredores da casa da vizinha da minha vó, fez campana até que ela saísse do banho e, no momento em que ela abriu a porta do banheiro, CHUF!, abalroou-a inapelavelmente.

Foi assim que a vizinha da minha vó perdeu a beleza e ficou torta para o resto de seus dias.

Triste.

A vida é cheia de perigos. A maionese estragada, a lata com botulismo, a carne de porco malcozida, o leite com melancia. E um jogo desses, desta noite, um jogo em que não se pode perder, não se pode empatar, só se pode vencer, oh, Inter, quantos perigos há nesta vida.

Túnel do tempo: Uma festa com 33 aeromoças

08 de maio de 2013 3

James Hunt era alto, loiro e devotava-se ao sexo oposto com fervor. Uma vez, ele estava no Japão, concentrado para participar da corrida que decidiria se seria ou não campeão mundial de Fórmula 1, e notou que em seu hotel também se hospedavam dezenas de formosas aeromoças da British Airlines. Isso deu a Hunt uma ideia: chamou um amigo, abasteceu a geladeira da sua suíte com muita cerveja e algumas substâncias estimulantes, e convidou as aeromoças para um convescote. Elas toparam, Hunt era um cara convincente. E durante duas semanas ele e o amigo ficaram se repoltreando com as 33 aeromoças. Eles bebiam e fumavam e tudo mais, principalmente tudo mais.

Depois da festinha, James Hunt foi para a pista, enfiou-se no macacão, esgueirou-se para trás dos boxes e vomitou – ele sempre fazia isso antes de cada corrida, para espantar a ressaca e atrair eflúvios positivos. Em seguida, cambaleou até o alambrado, abriu o zíper e fez um xixizinho em frente à torcida japonesa, que o aplaudiu, entusiasmada. Em retribuição, Hunt acenou, sorridente. Aí foi correr. E ganhou o campeonato do mundo.

A história, e outras tantas, é contada numa biografia que está sendo lançada este mês. O título em inglês é um trocadilho com o apelido de James Hunt,“shunt”, que significa "desvio”. Como Renato, do Grêmio, James Hunt contava ter se refestelado com cinco mil mulheres. Um dia, casou-se com uma única. Mas já na lua de mel percebeu seu erro. Passou a relacionar-se com outras mulheres e a incentivar sua ilustríssima a ter o mesmo comportamento liberal. Certa feita ela conheceu Richard Burton, o ator, que vivia uma de suas crises matrimoniais com Elizabeth Taylor, a Cleópatra dos olhos lilases. Burton se encantou com a mulher de Hunt. Tanto que queria casar com ela. Hunt disse que tudo bem, podia casar, ele até apressaria os trâmites do divórcio, o problema era o custo do cartório rápido. Burton foi compreensivo e ofereceu um milhão de dólares para que Hunt contratasse o melhor despachante da Inglaterra. Hunt topou, entregou a mulher e pegou o milhão.

Meu ídolo, esse James Hunt.

Túnel do tempo: Dramas da evolução

08 de maio de 2013 5

A sua vida podia ser diferente. Olhe bem para a sua mulher. Observe a carne pendente sob os braços dela. Veja com que sofreguidão ela come aquele quindim. Ela está engordando a cada dia.

Pense nas manhãs em que ela está inspirada para falar. Ela fala. Falafalafalafala. E mais: fala.

Lembre-se das vezes em que ela o obrigou a ir a aniversários de crianças, a jantares na casa da tia-avó dela. Lembre-se dos Natais! Como você sofre a cada Natal, tendo que contentar a sua família e a família dela.

Não precisava ser assim. Tornou-se assim por uma opção evolutiva. Quer prova? Recuemos um tantinho no tempo. Dois milhões de anos. Naquela época, um hominídeo de um metro e trinta de altura zanzava serelepe pelas savanas da África. Era o homo habilis, seu antepassado. O homo habilis andava sobre duas pernas, como você, e tinha um cérebro bem maior do que os cérebros de todos os outros animais, mas não tão grande quanto o seu. Para falar, como você fala, para ler a coluna do Wianey Carlet, como você lê, e para inventar instrumentos úteis, como o google, o controle remoto e o biquíni com lacinho, o homem precisava de um cérebro maior.

Foi neste ponto que a evolução chegou a um impasse.

Aconteceu o seguinte:

A abertura pela qual os nenês passam ao nascer, situada, como sabemos, no entrepernas das fêmeas da espécie, essa abertura tem de ser maior do que a cabeça do recém-nascido, senão o recém-nascido entala, o que é chato. Com o passar dos milhões de anos sobre a Terra, o cérebro do ser humano foi aumentando e, para acomodá-lo, a cabeça também foi aumentando. Logo, a abertura por onde passam os nenês também deveria aumentar. Só que, se aumentasse até ficar do tamanho de um cérebro adulto moderno, como, por exemplo, o cérebro da Carla Perez, a abertura por onde passam os nenês teria que se alargar muito. O afastamento da pélvis prejudicaria a nossa elegante postura ereta, teríamos de nos curvar. Em resumo, cair de quatro.

Eis o drama: para dispor um cérebro grande, capaz de bolar o piercing no umbigo, o homem teria de deixar de ser bípede. Mas, se deixasse de ser bípede, não poderia manusear instrumentos ou digitar o nome da Megan Fox no youtube.

E agora?

A Natureza resolveu o problema de uma forma muito engenhosa. Assim: ao nascer, o cérebro dos humanos ainda não tem o tamanho padrão. Logo, a cabeça do nenê é pequena, e passa por onde há de passar. Mas, nos anos seguintes, o cérebro cresce como o de nenhum outro animal, torna-se quatro vezes maior do que o volume que tinha no dia do nascimento. A desvantagem deste sistema é que um nenê bípede, que gasta a maior parcela da sua energia no crescimento do cérebro, não nasce com a desenvoltura de um quadrúpede. Um cavalo, tipo o Tragueado ou o Camelo Voador, que correram no Cristal esta semana, um cavalo como eles nasce, equilibra-se e sai trotando com a energia de um... bem, de um cavalo. Já um nenê humano, como o meu Pocolino, necessita de pelo menos seis ou sete anos de cuidados, atenções e mamadeira quentinha.

Foi uma troca, portanto. Uma escolha da Evolução. Que acarretou outra questão: como ficou tão complicado criar seus filhotes, a fêmea humana teve de requisitar a ajuda do macho. Para convencer o macho a auxiliá-la, ela lhe ofereceu o que ele queria: sexo. A fêmea humana, desta maneira, é a única que tem orgasmos o mês inteiro, desde que competentemente estimulada, é claro; é também a única que pode copular todos os dias, sem a necessidade de entrar no cio; e ainda é a única que usa minissaia e botas. Tudo isso para que o macho não se aventure por aí com outras fêmeas, mantenha-se com ela e ajude a cuidar dos pocolinos.

Logo, sua mulher aí ao lado, falando sem parar e engordando inexoravelmente, ela não tinha de estar aí. Você poderia ter um cérebro menor e viver caçando, pescando e coletando alegremente com seus amigos, trocando de fêmeas como quem troca de caverna, divertindo-se pela velha e aprazível savana africana. Mas, não. Você quis evoluir. Agora está em casa, tendo que aguentar o matrimônio e o campeonato de pontos corridos. Bem feito pra você.

Túnel do Tempo: Augusto sabia dar chutão

07 de maio de 2013 0

Há quem seja zagueiro na vida. Se Júlio César era o camisa 10 da Roma Antiga, o zagueirão foi seu sucessor, Otávio Augusto.

Como bom zagueiro, Augusto era um homem prudente. Ressalte-se: um zagueiro não teme o perigo, até porque amiúde o enfrenta. Mas um zagueiro jamais é temerário.

Um zagueiro não se arrisca.

Augusto, as guerras que travou foram calculadas para redundar em sucesso. Ele jamais empreenderia uma campanha contra os partos, por exemplo. Esses partos, eles nunca foram conquistados pelos romanos. Eram guerreiros ferocíssimos. Em combate, empreendiam a famosa “carga parta”: investiam com a cavalaria a todo galope contra as formações retangulares dos romanos. Quando os legionários se punham ao alcance de uma flechada, avançavam mais alguns metros e davam meia-volta com seus cavalos. Durante esse movimento semicircular, giravam o corpo em cima da sela e, fazendo pontaria por sobre o ombro, disparavam suas flechas, perfurando as armaduras e os escudos dos romanos, dizimando as legiões.

Foi assim que o general Crasso se transformou em adjetivo. Crasso tinha tudo na vida: dividia o poder máximo do império com Júlio César e Pompeu, havia sufocado a revolta dos escravos comandada por Spartacus, era um astro. Mas decidiu atacar os partos.

Tsc tsc.

Vinte mil de seus homens morreram em combate, outros 10 mil foram aprisionados e o próprio Crasso acabou tendo a cabeça separada do corpo por um golpe de espada, o que é bem ruim para a carreira de um general.

O fracasso de Crasso (rimou!) virou símbolo de erro estratégico. Donde o “erro crasso”. Imagine o seu nome tornar-se sinônimo de erro monumental.

– Você cometeu um erro wianey carlet,
por isso será demitido.

Erros que tais, Augusto não cometia. Tratava-se de um meticuloso. Um ser racional. Não se deixava embalar pelas paixões carnais, fraqueza de tantos próceres do império. Cleópatra se ofereceu a ele, como havia se oferecido a César e Marco Antônio e, ao contrário de César e Marco Antônio, ele a rechaçou.

Os escândalos da família ficavam por conta da filha Júlia, que, segundo os cálculos de certos historiadores, repoltreou-se com 80 mil homens, o que deve ser algum recorde. Não sei se acredito neste número. Porque, pense bem: Júlia viveu 54 anos, dos quais digamos que 30 tenham sido sexualmente ativos. Para alcançar a façanha de somar 80 mil amantes, teria de interagir com 2.666,666 amantes por ano, o que dá uma média de 7,3 amantes por dia. Sete homens grandes e um pequenininho, talvez. Sem repetir um só. Sem faltar nem nos feriados e dias santos.

Convenhamos, é muito homem.

De qualquer forma, é certo que Júlia se dedicava com afã à atividade, porque o próprio pai, o nosso zagueirão Augusto, a baniu de Roma sob a acusação de adultério. Quer dizer: Augusto não vacilava nem quando a família estava envolvida. Se tivesse que dar chutão, dava.

Mário Fernandes
, que está a caminho de ser o camisa 3 da Seleção, precisa desenvolver essas tão preciosas virtudes do comedimento e da prudência. Contra o Novo Hamburgo, cometeu um erro que, por pouco, não foi crasso: deixou de mandar pela lateral uma bola disputada entre ele e um atacante inimigo, quando não havia ninguém mais até o gol de Victor. Mário quis sair jogando, perdeu a bola, teve de fazer a falta e levou cartão amarelo.

Zagueirões não têm medo de dar chutão para a lateral. Zagueirões não têm vergonha de fazer tratado com a Pártia, como fez Augusto. Zagueirões evitam o erro, não se expõem a ele.

Túnel do Tempo: O vizinho de Bianca

06 de maio de 2013 0

Ninguém mais sozinha do que Bianca naquela noite de janeiro em Porto Alegre. Seguindo um rito anual, os habitantes da cidade haviam migrado para a orla. Até seu namorado, Homero, viajara para São Paulo, de onde só voltaria dali a quatro dias.

Quatro dias – tão pouco tempo, tanto ia acontecer.

Naquela noite, ao chegar em casa, oprimida por um dia suarento de trabalho, a primeira coisa que Bianca fez foi, vupt!, livrar-se dos sapatos. Suspirou de alívio ao sentir as plantas dos pés tocando o frio suave do parquê. Puxou a blusa pelo pescoço. Sacou o sutiã num clique. Sensação agradável, os seios nus. Espreguiçou- se. Saltou da saia. Ficou só de calcinha.

Era dona de um belo corpo. Orgulhava-se disso. Achava que o namorado não o valorizava o suficiente. Foi no que pensou ao admirar o próprio reflexo no vidro da janela. Apalpou os seios firmes. Virou-se de lado. Empinou as nádegas. Ergueu um pouco a cabeça. E viu.

No prédio em frente, na janela situada um andar acima do seu, um par de olhos a espreitava, no escuro. Um voyeur! O impulso de Bianca foi cobrir os seios com os braços, mas se conteve. Não queria demonstrar que o descobrira. Não lhe daria o prazer de vê-la assustada. Tentou agir de forma natural. Afinal, o homem já a vira seminua. Girou nos calcanhares. Foi até a segurança da cozinha. Pensou. Que tarado! Será que a observava todos os dias? Curioso, não sentiu medo dele. Seus olhos... eles transmitiam mais espanto do que ameaça. Será que se perturbava quando a via?

Bianca sorriu com a idéia de que a visão de seu corpo abalava um homem. Não deixava de ser um poder. Pensou: vou sacanear esse cara. Vou deixá-lo louco. Louquinho.

Ondulou de volta à sala. Firmou os pés. Espreguiçou- se, lânguida como uma gueparda, empinando os seios e as nádegas. Bianca era um S de carne tenra. Imaginou que, lá em cima, o outro suava e tremia. Aos 25 anos, sentia-se na melhor forma. Mais tarde, já no quarto, preparando-se para dormir, olhou para fora, e o que viu não a surpreendeu. O vizinho prosseguia na vigília. Observá-la-ia durante o sono? A idéia a excitava. Deitou-se com a sensação de que o olhar do outro se derramava sobre suas pernas nuas. Adormeceu macio.

No dia seguinte, não conseguiu se concentrar no trabalho. Pensava no voyeur. Se ele esperava que desse novo show. Queria voltar logo para casa.

À noite, entrou no apartamento, confirmou que ele já se postara à janela e correu para o chuveiro. Tomou um banho criterioso. Untouse com cremes. Enfiou-se em um pijama leve e deslizou até a sala. Sentou-se para ver televisão. Começou um pequeno teatro. Abanava-se, simulando sentir calor. Abriu dois botões da camisa do pijama. Mais dois. Os seios se esgueiraram para o ar livre, recebendo nos mamilos a luz azul da TV. Bianca fez um movimento com os braços e a camisa escorregou, deixando-lhe os ombros nus. Respirava com dificuldade pelos lábios entreabertos, nervosa, excitada com a brincadeira. Levantou-se, afinal, e arriou a calça do pijama até os tornozelos. Vestia uma calcinha sumária, tão pequena que jamais ousou usá-la com o namorado.

Assim, quase nua, Bianca troteou pelo apartamento, sentindo nas espáduas e nas ancas que o outro sofria no edifício em frente. Ele a venerava, ela sabia. Bianca foi para a cama decidida, sussurrando entre dentes:

– Amanhã eu tiro a calcinha. Eu tiro.

O dia de trabalho foi interminável. Bianca saiu mais cedo. Fez compras. Foi para casa. Vestiu o que comprara: um conjunto de lingerie branca com cinta-liga. Calçou escarpins. Botou um CD. Ao som da voz rouca de Joe Cocker, começou a dançar. Serpeava. Alisava as coxas e os seios. Vez em quando, levantava a cabeça para ver os olhos arregalados do seu vigia. Fez ali, no meio da sala, um strip-tease com o qual sempre sonhou ensandecer os homens. Deitou-se absolutamente nua. Era a mulher mais nua de Porto Alegre, naquela noite quente de janeiro. Dormiu escancarada ao olhar sôfrego do voyeur.

No dia seguinte... Homero chegou. Bianca andava tão absorta com o jogo com o vizinho que esquecera do namorado. Era ridículo, mas não queria que o vizinho a visse com Homero. Tentou fazer com que não se encontrassem no apartamento, mas o namorado insistiu tanto que não houve como evitar. Ao chegar à sala, percebeu de relance os olhos aflitos do outro, lá em cima, e sentiu-se uma traidora.

Um Homero ardoroso, de carícias velozes, a arrastou para o quarto. Bianca pensou em resistir. Não podia. Tinha vontade de chorar. Via, de relance, o vizinho do prédio em frente. A angústia batia-lhe no peito. Homero já desabotoara sua blusa. Atacava seu sutiã. Bianca olhava para fora, para o outro. Gritou:

– Não!

Homero parou, surpreso.

– Que foi?

– A janela está aberta – explicou, constrangida.

Levantou-se. Caminhou até a parede. Estacou. Olhou para cima. Fitou, pela primeira vez, os olhos tristes do vizinho do prédio em frente. Ele abriu a boca, como se quisesse dizer algo. Bianca fechou a janela, devagar. Voltou para a cama. Submeteu-se ao namorado. Minutos depois, correu ansiosa para a janela. Abriu-a de par em par. Mas lá em cima já não havia mais ninguém. A janela estava fechada. Bianca virou- se para Homero. Sorriu. Perguntou:

– Quando é mesmo que você vai viajar outra vez?

* Texto publicado em janeiro de 2002.

Túnel do tempo: Quando chega a malícia

06 de maio de 2013 5

Às vezes olho para o meu filhinho brincando com seu livro do castelo mal-assombrado e tento imaginar quando ele se tornará malicioso. Pois essa é a diferença fundamental entre a criança e o adulto: a malícia, a segunda intenção. A malícia é o que está escondido, é o subterfúgio, é o não dito por trás do dito. Agora, aos três anos de idade, tudo que meu filhinho faz é direto. Ele diz o que pensa e pensa o que diz. Não é à toa que fala o tempo todo – ele está falando o que está pensando. Mas sei que vai chegar um momento em que começará a premeditar suas ações, a esconder seus desejos e a jogar com os desejos dos outros. Quando isso vai acontecer? O que motivará essa mudança? Estou observando, curioso.

O mundo adulto é repleto dessas ações arrevesadas. É por isso que o adulto inventa atividades que imitam brincadeira de criança. Certos jogos são jogados só para se aplacar a nostalgia da infância. O  futebol é um caso clássico de homens se esforçando para voltar aos tempos de menino. O futebol é para ser uma brincadeira, é para ser direto. É um jogo: você ganha se fizer mais gols do que o adversário. Pronto. Simples como simples é qualquer guri.

Mas chega um momento em que o mundo adulto se apropria da brincadeira. É quando ela rende lucros. Quando o jogo faz dinheiro. Os senhores da FIFA e da CBF, os organizadores do futebol, eles são os adultos. Eles se apropriaram da brincadeira. O Inter já sentiu o peso da mão de ferro desses senhores em 2005, quando tentou protestar contra o campeonato que lhe foi tirado pela justiça. Agora, de certa forma, está sentindo de novo. Os senhores da FIFA impõem uma série de condições para que o Inter sedie jogos da Copa do Mundo. Cumpri-las pode fazer mal ao clube, mas não existe saída. É preciso obedecer. Porque eles são adultos e perigosos. Eles têm segundas intenções e malícia. E, muitas vezes, eles estragam a brincadeira.