
Um homem nunca deve sentar no colo de uma mulher. Nunca! Porque a mulher quer que o homem tenha autoridade, ela anseia por um homem superior e altivo, a quem possa admirar e que seja seu protetor. Tudo que a mulher deseja é um homem poderoso o suficiente para submetê la, mesmo que viesse a desprezá-lo se ele tentasse isso. Autoridade, não autoritarismo. Segurança. Firmeza. Decisão. Ela quer miar em seu regaço no final do dia e suspirar, gatinha:
– Meu homem...
Por isso, nada de sentar no colo dela, entendeu?
O homem precisa pensar como pensa um zagueiro. Certo domingo de Gre-Nal, nos longínquos anos 70, aconteceu um fato bastante ilustrativo do que digo: antes da partida, alguns jogadores foram se cumprimentar no centro do gramado. Tarciso estendeu a mão para Figueroa:
– Boa sorte e bom jogo – desejou o jogador do Grêmio. Figueroa nem lhe deu a mão.
– Vou te quebrar – rosnou, em portunhol rascante.
– Que é isso? – espantou-se Tarciso. – Tu és um grande jogador, gringo.
– Grande jogador coisa nenhuma, eu só dou porrada. E hoje vou te quebrar ao meio!
Isso tudo antes de a bola rolar. Quer dizer: Figueroa já começava o jogo em vantagem psicológica. Porque zagueiro que é zagueiro não ri, não brinca, não ganha Belford Duarte, como uma vez disse o zagueirão Moisés, que segunda passada foi à festa do Bosco, na Sogipa.
Ah, Figueroa também estava lá. E dezenas de outros becões. A festa do Bosco, em sua 15ª edição, homenageou os zagueiros do passado. Tudo gente de mais de metro e oitenta. Tudo gente séria. De León, por exemplo. Uma vez, logo depois que o Grêmio conquistou o Mundial Interclubes, em 83, o veeelho repórter Emanuel Mattos foi entrevistar o De León em Rivera para a Revista Placar. A ideia era fazer um perfil do “herói de dois mundos”, aquela coisa. Terminada a entrevista, De León pediu carona até Porto Alegre. Tudo bem, sem problemas. O motorista e o fotógrafo no banco da frente, De León e Emanuel no banco de trás. De Livramento a Porto Alegre, 488 quilômetros. Bem umas seis horas. E De León não falou nada. Nada! Nenhuma frase, nenhuma observação, nenhum comentário. Permaneceu mudo, ouvindo o Emanuel tagarelar como uma caturrita.
Isso é um zagueiro! Sim, senhor!
O De León nunca deu uma gargalhada na vida dele. Nunca!
Outra: um dia antes da festa do Bosco, o Bosco reuniu alguns convidados na casa dele. Lá estavam o Figueroa, o Baidecão e o Luiz Felipe. Uma hora, o Luiz Felipe falou:
– O Figueroa não era zagueiro. Ele jogava demais para ser zagueiro.
Zagueiros éramos eu e o Baideck, aqui!
De fato, de fato, mas o Figueroa, como já contei, sabia ser duro, quando tinha de ser duro. Uma vez o Figueroa me contou:
– Antes dos primeiros 10 minutos de jogo, sempre dou um soco na cara do centroavante. Juiz nenhum expulsa antes dos primeiros 10 minutos.
Um soco! O cara dava soco nos centroavantes! Que zagueiro.
E o Baidecão. Jesus Cristo! Se a Brigada tivesse 200 soldados do tamanho do Baidecão, não haveria mais crime em Porto Alegre. Pegava no time do Grêmio hoje, o Baidecão. Por Deus que pegava.
Mas os lídimos representantes da estirpe dos zagueiros eram os irmãos Pontes. Estavam lá também: Daison, Bibiano e João Pontes. Jogavam no Gaúcho de Passo Fundo. Daison pela direita, Bibiano pela esquerda, João à frente deles. Mas esse negócio de bola e tal, isso não era muito com eles. Eles gostavam mesmo era de bater. Se o incauto atacante conseguisse passar pelo João, não entraria na área sem conhecer as afiadas travas de metal de seus irmãos. João, Daison e Bibiano. Cruzcredo.
Havia muitos outros, lá na festa do Bosco: Oberdan, o homem que jurou que Escurinho não cabecearia mais na área do Grêmio. E cumpriu. Mauro Galvão, o sábio, o maior zagueiro brasileiro dos tempos modernos. Ancheta, tão elegante como quando foi eleito o maior zagueiro do mundo, em 70. E o maior deles: Aírton Ferreira da Silva, o Pavilhão, zagueiro de nome e sobrenome, tido e havido como o melhor camisa 3 do Rio Grande do Sul em todos os tempos e que, para a desgraça da minha tese, jamais deu um pontapé em um adversário.
Pois é. Que côsa. Aírton não dava botinada, era uma ladie jogando. Podia usar sapatilhas, em vez de chuteiras. Talvez até risse, de vez em quando. E foi insuperável. O Pelé da zaga. Que fazer? Essas coisas acontecem. Alguns zagueiros podem jogar sem bater. Mas você sentar no colo dela, não. Isso, de jeito nenhum!
Texto publicado em 11/05/2005.
Um homem nunca deve sentar no colo de uma mulher. Nunca! Porque a mulher quer que o homem tenha autoridade, ela anseia por um homem superior e altivo, a quem possa admirar e que seja seu protetor. Tudo que a mulher deseja é um homem poderoso o suficiente para submetê la, mesmo que viesse a desprezá-lo se ele tentasse isso. Autoridade, não autoritarismo. Segurança. Firmeza. Decisão. Ela quer miar em seu regaço no final do dia e suspirar, gatinha:
– Meu homem...
Por isso, nada de sentar no colo dela, entendeu?
O homem precisa pensar como pensa um zagueiro. Certo domingo de Gre-Nal, nos longínquos anos 70, aconteceu um fato bastante ilustrativo do que digo: antes da partida, alguns jogadores foram se cumprimentar no centro do gramado. Tarciso estendeu a mão para Figueroa:
– Boa sorte e bom jogo – desejou o jogador do Grêmio. Figueroa nem lhe deu a mão.
– Vou te quebrar – rosnou, em portunhol rascante.
– Que é isso? – espantou-se Tarciso. – Tu és um grande jogador, gringo.
– Grande jogador coisa nenhuma, eu só dou porrada. E hoje vou te quebrar ao meio!
Isso tudo antes de a bola rolar. Quer dizer: Figueroa já começava o jogo em vantagem psicológica. Porque zagueiro que é zagueiro não ri, não brinca, não ganha Belford Duarte, como uma vez disse o zagueirão Moisés, que segunda passada foi à festa do Bosco, na Sogipa.
Ah, Figueroa também estava lá. E dezenas de outros becões. A festa do Bosco, em sua 15ª edição, homenageou os zagueiros do passado. Tudo gente de mais de metro e oitenta. Tudo gente séria. De León, por exemplo. Uma vez, logo depois que o Grêmio conquistou o Mundial Interclubes, em 83, o veeelho repórter Emanuel Mattos foi entrevistar o De León em Rivera para a Revista Placar. A ideia era fazer um perfil do “herói de dois mundos”, aquela coisa. Terminada a entrevista, De León pediu carona até Porto Alegre. Tudo bem, sem problemas. O motorista e o fotógrafo no banco da frente, De León e Emanuel no banco de trás. De Livramento a Porto Alegre, 488 quilômetros. Bem umas seis horas. E De León não falou nada. Nada! Nenhuma frase, nenhuma observação, nenhum comentário. Permaneceu mudo, ouvindo o Emanuel tagarelar como uma caturrita.
Isso é um zagueiro! Sim, senhor!
O De León nunca deu uma gargalhada na vida dele. Nunca!
Outra: um dia antes da festa do Bosco, o Bosco reuniu alguns convidados na casa dele. Lá estavam o Figueroa, o Baidecão e o Luiz Felipe. Uma hora, o Luiz Felipe falou:
– O Figueroa não era zagueiro. Ele jogava demais para ser zagueiro.
Zagueiros éramos eu e o Baideck, aqui!
De fato, de fato, mas o Figueroa, como já contei, sabia ser duro, quando tinha de ser duro. Uma vez o Figueroa me contou:
– Antes dos primeiros 10 minutos de jogo, sempre dou um soco na cara do centroavante. Juiz nenhum expulsa antes dos primeiros 10 minutos.
Um soco! O cara dava soco nos centroavantes! Que zagueiro.
E o Baidecão. Jesus Cristo! Se a Brigada tivesse 200 soldados do tamanho do Baidecão, não haveria mais crime em Porto Alegre. Pegava no time do Grêmio hoje, o Baidecão. Por Deus que pegava.
Mas os lídimos representantes da estirpe dos zagueiros eram os irmãos Pontes. Estavam lá também: Daison, Bibiano e João Pontes. Jogavam no Gaúcho de Passo Fundo. Daison pela direita, Bibiano pela esquerda, João à frente deles. Mas esse negócio de bola e tal, isso não era muito com eles. Eles gostavam mesmo era de bater. Se o incauto atacante conseguisse passar pelo João, não entraria na área sem conhecer as afiadas travas de metal de seus irmãos. João, Daison e Bibiano. Cruzcredo.
Havia muitos outros, lá na festa do Bosco: Oberdan, o homem que jurou que Escurinho não cabecearia mais na área do Grêmio. E cumpriu. Mauro Galvão, o sábio, o maior zagueiro brasileiro dos tempos modernos. Ancheta, tão elegante como quando foi eleito o maior zagueiro do mundo, em 70. E o maior deles: Aírton Ferreira da Silva, o Pavilhão, zagueiro de nome e sobrenome, tido e havido como o melhor camisa 3 do Rio Grande do Sul em todos os tempos e que, para a desgraça da minha tese, jamais deu um pontapé em um adversário.
Pois é. Que côsa. Aírton não dava botinada, era uma ladie jogando. Podia usar sapatilhas, em vez de chuteiras. Talvez até risse, de vez em quando. E foi insuperável. O Pelé da zaga. Que fazer? Essas coisas acontecem. Alguns zagueiros podem jogar sem bater. Mas você sentar no colo dela, não. Isso, de jeito nenhum!
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