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Som de Sexta

23 de outubro de 2015 1

A própria Terra

23 de outubro de 2015 11

Estava lendo sobre um cara chamado Richard Lee Armstrong. Um cientista. Ele passou muitos anos estudando a crosta terrestre, que, você sabe, é a camada externa do nosso amado planeta azul. É como se fosse a pele da Terra. É bem fina, se você pensar em todo o corpo, mas nós, que sobre ela vivemos, ainda não conseguimos atravessá-la com nossos equipamentos, apesar de toda a tecnologia concebida pela civilização. A crosta tem dezenas de quilômetros de profundidade, e o buraco mais profundo que já cavamos não alcançou 15 quilômetros.

Há muito chão debaixo de nossos pés, essa a verdade. Imagine que, se você realizar aquela fantasia de infância e perfurar um túnel em linha reta até o Japão, os japoneses perplexos só verão sua cabeça emergir do solo de Tóquio depois de 12.700 quilômetros. É uma longa viagem. Pense que de Boston a Porto Alegre são pouco mais de 8.300 quilômetros, e é longe…

Então, o que estava dizendo é que nós sabemos muito pouco sobre a Terra, e esse geólogo, esse Armstrong, concluiu que a crosta foi formada num processo que ele denominou de irrupção prematura, um evento mais ou menos rápido, que ocorreu quando o planeta estava sendo criado, há uns 4 bilhões de anos, talvez um pouco mais.

Certo.

O problema é que vários outros cientistas discordavam de Armstrong. Eles achavam que a crosta da Terra foi preparada lentamente, numa espécie de fogo brando.

O que você acha disso tudo?

Coisa nenhuma, não é? Você está pouco ligando para a maneira como a crosta da Terra se formou, desde que continue respirando alegremente acima dela e abaixo do sol. E você está muito certo. Não há nenhuma razão lógica para você se inquietar com isso. Mas, para Armstrong, havia. Ele consumiu seus últimos 30 anos de existência discutindo ferozmente com os outros geólogos a respeito. Foi um debate tão amargo, tão pessoal, tão visceral, que arruinou a vida de Armstrong. Ele morreu infeliz, usando seus últimos suspiros para vociferar contra os adversários.

Valeu a pena?

Não. Não valeu a pena, porque, apesar da grande causa, a vida se tornou pequena.

E a causa era grande mesmo, era a própria Terra, o planeta em que vivemos e ao qual somos tão apegados. Poucas coisas no mundo são maiores do que o próprio mundo.

Mas é assim que é. Não importa o tamanho da causa: se você ficar amargo por causa dela, perderá, ainda que ganhe. Nenhuma bandeira, nenhuma luta, nenhuma ideologia vale uma alma ressentida. Um homem importante já disse, e Richard Armstrong não aprendeu: de nada adianta ganhar o mundo inteiro se você perder a própria alma.

 

Maria

22 de outubro de 2015 7

Marias importantes voltarão. Falo de Maria do Carmo, de Maria da Paixão. Nomes bonitos. Bem sei que essas são coisas da moda. Cada época e lugar tem seu estilo de nome. Classe social também influencia. O rico pode botar nome simples no filho. João. Não tem problema. Quando crescer, o rapaz será dono daquela firma ali. Já o pobre passa mais trabalho. Ele não quer que o filho seja qualquer um, que é o destino da maioria dos pobres. Então, precisa ser inventivo. Donde, os complexos nomes dos meninos de pé no chão do Brasil, em geral com sotaque americano. Muito ipsilone, muito cá, muito dábliu. Welklerson.

Quero dizer que isso, de estrangeirizar o nome do filho, é uma estratégia bastante inteligente de pais pobres. Eu, se minha mãe não tivesse amarrado o segundo dê no i do meu nome e eu fosse um desses Davis com pouco elã e pouca consoante que andam por aí, eu teria, agora, muita dificuldade, aqui nos Estados Unidos. O dê extra me dá naturalidade intercontinental. Aí sou Davi; aqui, Dêividi. Tudo bem lá e cá.

Então, concordo com todos os Washingtons dos morros do Rio e os Jeffersons das vilas de Porto Alegre e os Lincolns das periferias tantas. Se no futuro eles trocarem de hemisfério, não haverá estranhamento. Eles têm nomes de presidentes. Eu, de rei.

Mas falava das Marias. De minhas relações, lembro-me de uma única Maria do Carmo: a colega apresentadora de TV, uma das mulheres mais sorridentes e encantadoras que conheci. O que talvez prove a graça do nome. Aliás, algumas Marias são, exatamente, da Graça, o que acho quase tão bonito quanto do Carmo e da Paixão.

Há miríades de Marias no Brasil. Minha mãe, mesmo: Maria. Mas não usa. É sempre só Diva, nunca Diva Maria. É que, quando Maria entra em segundo, fica meio clandestino. Silvia Maria, Alice Maria e Luísa Maria são apenas Silvia, Alice e Luísa, o Maria elas omitem.

Por isso, Maria tem de estar lá na frente. Com toda a razão: trata-se do maior nome da cristandade, a mãe de Jesus, a Deusa substituta de todas as deusas antigas. A nossa Cibele. A nossa Ísis. A nossa Magna Mater. Um símbolo da maternidade até para os descrentes. É ela a Lacrimosa. É ela a Pietà. E, sendo Lacrimosa, sendo Pietà, ela é da Paixão.

Maria da Paixão.

Uma vez, conheci uma. Ontem, um velho colega do segundo grau enviou-me um e-mail e citou-a de passagem. Então, lembrei. Estávamos no pátio, eu nunca tinha conversado com ela e, depois de uma troca de frases, perguntei-lhe o nome. Ela respondeu:

_ Meu nome é Maria da Paixão.

Aquilo me fez estremecer. Ela me olhava firme com seus olhos que talvez fossem negros ou verdes ou meio azulados, não duvido até que fossem castanhos. Seus cabelos, possivelmente loiros, ou não, provavelmente esvoaçavam. E é certo que era atraente, isso, sim, é certo. Mas o que importou mesmo foi a forma como ela disse o que disse. “Meu nome é Maria da Paixão.” Considerei algo poderoso. Não pensei na Paixão de Cristo, admito. Pensei na paixão de ardores. Uma Maria que inspirava paixão. O que mais ela falou? O que falei para ela? O que houve com Maria? Não sei. Só sei que ainda hoje recordo o jeito como ela pronunciou aquele nome. Era mais do que uma apresentação. Era um título. Quase uma afronta.

_ Meu nome é Maria da Paixão.

Salve, Maria, eu devia ter dito. Ave, Maria.

 

O maior assassino do Brasil

21 de outubro de 2015 9

Pedrinho Matador é o maior serial killer brasileiro. Assassinou mais de cem pessoas, a maioria a facadas, que a peixeira é sua arma favorita, talvez por ser mais pessoal.
Pedrinho matou o primeiro quando tinha 14 anos. Foi um primo seu, com quem se desentendeu por algum motivo. O primo estava moendo cana-de-açúcar, e Pedrinho o empurrou moedor adentro. “Achei que ele ia passar todo no moedor, mas passou só o braço”, lamentou Pedrinho. Enquanto o primo urrava de dor, os outros trabalhadores correram para buscar ajuda. Pedrinho, então, aproveitou para tomar do facão, retalhar o primo e terminar o serviço.
Ainda aos 14 anos, Pedrinho matou o vice-prefeito da cidade em que morava, porque ele havia demitido seu pai, acusado de roubar merenda escolar de uma escola onde trabalhava como vigia. Dias depois, Pedrinho descobriu quem era o verdadeiro ladrão, um outro vigia, e o matou também.
Seguiu matando quem o ameaçava ou fazia mal a alguém de quem gostava, até ser finalmente preso. Na cadeia, um dia um guarda veio lhe falar:
– Pedrinho, tenho uma má notícia para te dar: mataram tua mãe.
Ele ficou arrasado. Foi levado até o necrotério, a fim de identificar o corpo. Agarrado à borda do caixão, jurou vingança, de dentes rilhados. Foi quando descobriu que o assassino havia sido seu próprio pai. Bem, o juramento fora feito, não havia como voltar atrás.
Convenientemente, tinham colocado o pai na mesma cadeia em que ele estava. Pedrinho dominou o carcereiro, tirou-lhe o revólver e o trancou numa cela. Em seguida, procurou pelo pai. Antes que ele pudesse reagir, desferiu-lhe 22 punhaladas, uma a mais do que as que feriram o corpo da mãe. Com o pai exangue no chão, abriu-lhe um buraco no peito, arrancou-lhe o coração, mastigou um pedaço, cuspiu para o lado e saiu. Caminhou mansamente até a cela em que trancara o carcereiro. Devolveu-lhe o revólver. E sentou-se para descansar da lida.
Pedrinho Matador não se arrepende de nenhum homicídio cometido. “Matei só lixo”, diz. Nos presídios pelos quais passou, eliminou 47 homens. Detesta, em especial, estupradores. Um dia, foi colocado na traseira de um camburão junto com um estuprador. Ambos iam para o tribunal. Na chegada, os policiais abriram a porta do camburão e encontraram o estuprador morto. Pedrinho o estrangulara com a corrente das algemas.
Pedrinho prometeu matar o Maníaco do Parque, mas ainda não conseguiu.
Ninguém ficou mais tempo preso do que ele, no Brasil: 34 anos.
Se você vir um depoimento de Pedrinho, se espantará com sua serenidade. Ele vive repetindo:
– Sou muito sossegado…
E parece, de fato, o próprio sossego. Assisti a uma entrevista dele ontem, e percebi que ali está um homem com a consciência tranquila. Porque acredita ter feito justiça. Matou estupradores, assassinos, traficantes, gente que considera má, que não merecia viver. Que ele decidiu que não merecia viver.
Pedrinho Matador é movido pela mesma lógica de qualquer um que acredita que a justiça está acima da lei. A população lincha o bandido, porque, se a polícia prendê-lo, um juiz o soltará. Vinte manifestantes fecham uma estrada, porque sua reivindicação é legítima. O governo comete ilegalidades fiscais, porque diz precisar de dinheiro para o Bolsa Família. Ninguém acha que fez errado e, se acha, dá de ombros: foi por uma causa justa. Como há causas justas no Brasil… Só que uma nação de verdade não se faz com causas justas. Faz-se com leis justas.

Dilma está sozinha

20 de outubro de 2015 29

Talvez nos falte, a nós, brasileiros, um tanto de profundidade na avaliação da personalidade de Dilma Rousseff. É falha grave, porque se trata de algo importante, num país presidencialista, a personalidade do presidente. Entrevistei-a algumas vezes, antes de ela se eleger presidente e depois também. De uma coisa tenho certeza a seu respeito: ela não é burra, como muitos querem fazer acreditar.
É claro que a oratória não é a melhor qualidade de Dilma. Ela se atrapalha quando verbaliza o que pensa _ o que não significa que pense errado. O famoso discurso do estoque de vento, por exemplo. Seus defensores descobriram que existem tecnologias futuristas que viabilizam o tal estoque de vento e argumentaram que isso prova o acerto de Dilma. Por favor! Esse é um argumento infantil, de discussão de boteco. Dilma não fez um pronunciamento à frente do seu tempo, graças aos seus avançados conhecimentos tecnológicos. E tampouco pretendia falar em “estoque de vento”, propriamente dito. Queria falar em estoque “da energia produzida pelo vento”, e se expressou mal. Para usar um termo amado pela minha amiga Cláudia Laitano: simples assim.
Outro discurso de Dilma que roçou o ridículo, o da saudação da mandioca, também tem fundamento, se o ouvinte usar da boa vontade. Os índios brasileiros que vivem como índios, em ocas no meio do mato, sobrevivem por causa do cultivo da mandioca. Era isso que ela queria dizer. Agora, é evidente que algum assessor um pouco mais esperto poderia ter-lhe advertido que “saudar a mandioca”, no Brasil, pegaria mal.
E o que me intriga. Não há ninguém com ascensão suficiente sobre Dilma para lhe dizer que ela só deve se manifestar de público em discursos escritos previamente? Seus assessores são tão ruins? Ou as pessoas sentem medo dela?
As respostas a essas perguntas diriam muito sobre o futuro do Brasil. Porque agora Dilma parece estar sozinha, ela e suas deliberações. É a mais densa solidão do poder que enfrentou um presidente brasileiro desde Getúlio em 1954. Os aliados se voltam contra ela. Os maiores críticos da condução econômica do governo são, incrivelmente, os petistas. Os líderes do PT pedem a saída de Joaquim Levy da Fazenda, alegando que a contingência de gastos proposta por ele não se coaduna com as crenças do partido.
Isso é uma falsidade e uma traição. Lula foi eleito em 2002. Até ele de fato começar a governar, essa entidade sensível que é “O Mercado” ficou nervosíssima, o dólar inflou-se aos R$ 4 de hoje, o desemprego pulsou, a inflação lambeu os dois dígitos, era uma condição muito parecida com a de agora. A reação de Lula não foi a de fazer um ajuste como Dilma propõe: o ajuste dele foi muito mais rigoroso. Foi ortodoxo, conservador, neoliberal de raiz. E, entre os condutores, lá estava ele: Joaquim Levy. Sim: Joaquim Levy foi secretário do Tesouro Nacional de 2003 a 2006.
Por que, então, os petistas atacam Dilma?
Por causa da conveniência política.
Os petistas querem ficar associados aos anos de fartura, não aos de escassez. Dilma, assim, se torna alvo da oposição, que ambiciona tomar o seu lugar, e do seu próprio partido, que almeja se distanciar da imagem da presidente, sem se distanciar dos cargos no governo.
Dilma está isolada. E tem resistido com bravura. Apesar de seus discursos confusos, apesar do seu primeiro mandato irresponsável, apesar da irritante tolice de querer ser chamada de presidenta, ela está sendo sensata em meio a tanto desvario. Sensata e sozinha. E, espero, firme.

O Muro Sem-Vergonha

19 de outubro de 2015 6

O Muro da Mauá, que já foi chamado de Muro da Vergonha, esse muro, eu o transformaria no Muro Sem-Vergonha. Porque seria para trás dele que transferiria toda a chamada “noite forte” de Porto Alegre, com seus ardores e seus sem-pudores.

Toda a gente da noite, que não liga para preconceito, que tem as estrelas na alma e a lua dentro do seu peito, toda essa gente escorreria para trás do muro, e lá eles se refocilariam, se repoltreariam e espadanariam, como doces vampiros, do deitar ao levantar do sol.

Esses bares e boates da Cidade Baixa, essa gente da vida cansada, que ergue seu mundo na madrugada e que vive às turras com os moradores pais de família, que precisam do silêncio para repousar a fim de acordar cedo no dia seguinte, esses bares e boates, eu, se fosse prefeito, ofereceria algumas isenções a eles para que aceitassem a transferência, e creio que aceitariam de bom grado.

Que bela noite seria, a da capital de todos os gaúchos.

O muro protegeria os noctívagos. Porque, havendo apenas dois ou três acessos, ficaria fácil de fazer a segurança. Meia dúzia de brigadianos e mais dois ou três agentes da EPTC manteriam facilmente a paz. E, como não há ninguém residindo na vizinhança, a noite se estenderia até que a Estrela D’Alva no céu despontasse e a lua tonteasse com tamanho esplendor.

Mais: o número de acidentes com motoristas bêbados diminuiria drasticamente, porque seria quase impossível alguém sair de lá dirigindo alcoolizado sem ser visto pelos azuizinhos.

A melhor noite do Brasil, é no que se transformaria a noite à beira do rio que não é rio.

Os que querem shopping no cais e os que querem lojinhas de artesanato e os que não querem nada, todos seriam contemplados e estariam sorridentes, como convém a uma autêntica Cidade Sorriso.

E o Muro… ah, o Muro, que uns acham útil por temerem cheias, que outros acham inútil por considerá-lo devassável, que mais alguns, por fim, querem atorá-lo ao meio para contentar a estes e aqueles, o Muro poderia ser decorado e suavizado pelos nossos talentosos grafiteiros e, ao raiar do sol, quando raiam também as desilusões, quando os amores rotos se mostram inconsúteis, quando o remorso sucede ao arroubo, ao raiar do sol, o Muro Sem-Vergonha serviria como Muro das Lamentações, e, em vez de preces, agradecimentos e pedidos à Divindade, seria tapado por cartas de amor, e seria lindo, que até um muro pode ser lindo.

 

Coitado do Roger

18 de outubro de 2015 27

Coitado do Roger.
Bastou seu bom time de futebol vacilar durante 45 minutos para que começassem a questionar seu trabalho.
Como diria o Tom Jobim, trata-se de uma insensatez.
No primeiro tempo, o Grêmio fez uma partida de Grazi Massafera: competente e linda de se ver.
Jogou com a bola no chão, envolvendo o adversário, trocando passes, com infiltrações inteligentes e sabedoria.
No segundo tempo, o técnico da Chapecoense mudou o time e deu velocidade ao meio-campo. Tornou sua equipe mais agressiva.
O Grêmio, com 2 a 0, deveria se fechar um pouco mais. Não conseguiu porque havia em campo três jogadores sem força de marcação: Douglas, Bobô e Luan.
Roger tinha poucas opções no banco. Tanto que teve de colocar… Brian Rodriguez.
Aí fica difícil.
Roger faz um trabalho melhor do que o de Tite, que será campeão. Porque Roger não tem os recursos de Tite e seu time joga tão bem quanto o de Tite.
A direção do Grêmio também faz um bom trabalho, é preciso que se ressalte.
Rui Costa, muitas vezes criticado, foi às sombras e de lá trouxe Geromel, o melhor zagueiro do Brasil, além de Galhardo, Marcelo Oliveira, Maicon, Ramiro e outros tantos.
Contratar com dinheiro é fácil. Sem dinheiro, precisa conhecimento. Rui Costa tem conhecimento.

Inter: um pouco de regularidade rende o G-4

18 de outubro de 2015 10

Pouco importa a atuação do Inter contra o Flamengo.
Importa é a vitória.
Até porque o Inter não conseguia vencer fora do Beira-Rio.
Agora há um certo alívio para montar o time.
D’Alessandro, obviamente, tem de ser titular.
É em torno dele que o time tem de jogar.
Com Valdívia e Vitinho, o Inter tem alguma velocidade no ataque.
D’Alessandro pode jogar armando, tendo, atrás dele, três homens de marcação.
O G-4 não está tão longe assim.
O problema é que o Inter ganha uma e perde a outra.
Com um pouco de regularidade, dá para chegar lá.

Grêmio: a falência do segundo tempo

18 de outubro de 2015 5

O Grêmio fez um primeiro tempo de Barcelona de Guardiola, de Flamengo de Zico.
E um segundo tempo de Próspera de Criciúma.
No primeiro tempo, jogou com a bola rente à grama, como pregava Neném Prancha, que lembrava a seus jogadores que a bola era feita de couro e que o couro vem da vaca e que a vaca come grama.
Jogando assim, o Grêmio envolveu a Chapecoense, fez 2 a 0 e controlou o jogo com autoridade.
No segundo tempo, a Chapecoense decidiu atacar.
E aí faltou ao Grêmio concentração, esforço e número.
Número, sim, porque Bobô e Douglas não conseguiam acompanhar os avanços dos volantes da Chapecoense, e Luan fazia uma partida um degrau abaixo do sofrível.
O Grêmio estava inferiorizado no meio-campo.
Times modernos não conseguem resistir, se apenas sete dos dez jogadores de linha estão dispostos a combater o adversário. Porque, no momento em que um deles é driblado, restam muito poucos atrás da linha da bola.
A derrota talvez tenha sido uma punição dura demais para o desencontro do segundo tempo. Mas serve de alerta para o ótimo técnico Roger e a direção: o Grêmio é bem treinado e tem alguns bons jogadores, mas ainda falta um pouco para ser um grande time de futebol.

O infeliz do pepino

17 de outubro de 2015 15

Sinto a maior simpatia por pessoas que tiram fotos da própria comida. O sujeito está prestes a jantar uma macarronada com vinho tinto, cessa tudo, registra e, orgulhoso, coloca a foto nas redes sociais. De certa forma, ele está partilhando aquela refeição conosco.

Compartilhar uma refeição é dos maiores atos de congraçamento, senão o maior. Quando você come na companhia de outra pessoa, está dividindo com ela algo que fará parte de ambos. Haverá um pouco do mesmo em vocês dois, ainda que vocês estejam comendo pratos diferentes. Porque aquele é um momento de intimidade fisiológica, de consórcio de organismos na idêntica e suprema função de sobrevivência da espécie.

Jesus sabia disso. Quando queria reforçar a união das pessoas em torno dele, o fazia durante um repasto. Não por acaso, a Última Ceia foi, bem, uma ceia. Não por acaso, a liturgia da comunhão se dá no ato de comer e beber. O pão é o corpo de Cristo, o vinho é seu sangue.

Pessoas que comem e bebem juntas realizam, exatamente, uma comunhão. Por isso, comer na companhia de uma pessoa desagradável faz mal.

Então, o sujeito que manda fotos de um churrasco suculento não está só querendo se exibir; está querendo dizer que gostaria que você estivesse comendo aquilo também, que estivesse lá com ele.

Uma pessoa que admira comida, em geral, é uma pessoa de bem com a vida. E admirar, que digo, é no sentido de apreciar com encantamento, como você se comove com o olhar doce de uma mulher.

Coisa linda é ver um gordo olhando para a comida. Uma vez escrevi sobre um gordo da Redação que, todos os dias, precisamente às quatro da tarde, ia comer um Chokito. Ele pegava aquele Chokito no bar e voltava para a mesa dele, imagino que para aproveitá-lo sozinho, concentrado, sem ter de ficar conversando com ninguém. Então, ele descascava o Chokito como se estivesse descascando uma banana. Dava-lhe uma mordida. E, enquanto mastigava, ficava olhando para o Chokito em sua mão, rodando-o de um lado para outro, analisando-o como se fosse uma joia. Ali estava um homem na plenitude de seu próprio ser. Ele não precisava de mais nada na vida, além daquele Chokito. Um gordo e sua comida também realizam uma comunhão.

Entendo todas as questões de saúde e tal, mas lamento um pouco a progressiva extinção dos gordos na nossa sociedade. Não estou falando de pessoas “acima do peso”. Estou falando dos gordos autênticos. Os que são chamados de “gordinhos”.

Um gordo, se ele está comendo, não fará mal a ninguém, não planejará nenhuma solércia, não será movido pela malícia. Ele só quer comer.

Mas outro dia alguém postou uma foto de um pepino no Facebook. Não era um pepino inteiro, que algum gaiato dirá ter conotação fálica. Não. Era um pepino cortadinho em rodelas do tamanho de moedas de um real. Não estava nem temperado, aparentemente. Estava apenas fatiado melancolicamente sobre um prato. Aquilo me deixou intrigado. Um pepino em fatias. Alguém estava convidando outras pessoas para comer pequenos círculos de pepino sem tempero. Como a vida é vasta e variada. Como as pessoas são diferentes.

Tenho certeza de que o autor daquela foto é um magro, um triste magro. Ele deve passar os almoços contando calorias. Ele nunca come massa, come carboidratos. Ele nunca bebe, ele se hidrata. Aliás, ele provavelmente bebe só água. Um suquinho, quando muito. E ele come com talheres de plástico e em pratos de papelão. De pé. Não confie em alguém assim. Um amante de pepinos fatiados não ama a vida.

 

Som de Sexta - 4

16 de outubro de 2015 2

Som de Sexta - 3

16 de outubro de 2015 1

Som de Sexta - 2

16 de outubro de 2015 0

Som de Sexta

16 de outubro de 2015 1

Estamos mudando

16 de outubro de 2015 7

Aqui, no norte do mundo, o outono é marcado por um fenômeno que eles chamam de “foliage”. Trata-se da manifestação clássica da estação, o “fall”: as folhas verdes das árvores rapidamente vão se tornando amarelas, cor de laranja ou vermelhas, e se apartam dos caules, e flutuam até o solo, e o chão da terra fica coberto por um tapete colorido e macio. É muito, muito bonito.

Quanto mais para o Norte, mais característico é o foliage. Nos fins de semana, os bostonianos pegam seus carros e rodam duas horas e meia até as White Mountains, as Montanhas Brancas, no vizinho Estado de New Hampshire, só para ver a natureza exuberante dessa região em plena metamorfose, e suspirar de encantamento.

As mudanças das estações, por aqui, são marcantes, bem mais do que no lado de baixo do Equador.

Lavoisier disse que tudo na natureza se transforma. Eis uma poderosa verdade. Estamos sempre mudando, tudo está sempre mudando.

O próprio Lavoisier viveu num tempo e num lugar de duras transformações, a segunda metade do século 18, na França. Ele era um homem rico, que amava a ciência. Para sua sorte, casou-se com uma moça também rica e também amante da ciência. Ela estava no desabrochar dos 14 anos de idade quando lhe foi entregue em casamento, mas na época isso não rendia escândalo. O casal Lavoisier deu-se muito bem. Como tinham muitas atividades, o único dia que dedicavam inteiramente aos experimentos e estudos era o domingo, por eles chamado de Dia da Felicidade. Que bonito isso, um casal partilhar um dia da felicidade.

Mas, certa feita, uma ocorrência aparentemente corriqueira causou uma dessas mudanças bruscas e irreparáveis na vida da família. Lavoisier era conselheiro da Academia de Ciência e, nessa condição, analisou o trabalho de um jovem candidato a cientista. Não gostou do que viu e criticou o rapaz com alguma acidez. Lavoisier estava certo, mas o estudante ficou ressentido. Tudo bem, é da vida. O problema é que o rapaz se chamava Marat. Que, pouco tempo depois, se transformaria num dos chefes da Revolução Francesa, ficando conhecido como o Amigo do Povo.

Por instâncias de Marat, Lavoisier foi levado ao cadafalso e teve seu pescoço varado pela guilhotina do carrasco Sanson. Alguém disse então que, num único segundo, a Revolução destruiu uma cabeça que todo um século não seria capaz de produzir.

E não produziu.

Mas as mudanças continuaram. Marat padecia de uma feroz doença de pele que havia contraído ao fugir da polícia pelos esgotos de Paris. Para aliviar os ardores da coceira que o atormentava sem cessar, ele passava o dia inteiro mergulhado na banheira cheia d’água. Despachava na banheira, escrevia na banheira, recebia as pessoas na banheira. Na banheira, foi assassinado a facadas por uma opositora.

Marat e Lavoisier, nós sabemos, não se perderam: transformaram-se em história.
Tudo muda. O Brasil agora está passando por mudanças agudas, e mudanças agudas são traumáticas. Não são movimentos naturais, como o outono, que sucede o verão. São movimentos que causam dor e ressentimentos. Podem levar a tragédias, como as que sangraram Lavoisier e Marat. É preciso ter cuidado, nessa hora. É preciso evitar rompimentos definitivos e tudo que for brusco demais. Nunca os brasileiros foram tão amargos. Nunca, nem quando andamos para trás, um tempo de mudança foi tão perigoso.