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Vamos falar sobre cerveja

27 de julho de 2010 0

O cervejólogo Ronaldo Morado é um dos profissionais que participam do Festival de Inverno do Balneário Camboriú Shopping – nesta quarta, ele comandará na Livrarias Catarinense um bate-papo com degustação de cervejas Eisenbahn.
Morado entende como poucos da bebida mais degustada no país e é autor de uma das raras publicações em português sobre o tema: a Larousse da Cerveja. Em entrevista por e-mail, o cervejólogo dá uma verdadeira aula sobre a bebida e defende que a cerveja deve ocupar espaço na alta gastronomia, mas sem perder o espírito alegre e descompromissado.
Clique aqui para conferir a programação do festival.


A cerveja é a bebida alcoólica mais consumida no Brasil e todo mundo acredita entender dela um pouco. Nestes inúmeros cursos e palestras já ministrados, o que de mais importante o senhor diria que os brasileiros deveriam saber sobre cerveja?
O mais importante é que todos saibam que a cerveja popular que todos conhecem _ a famosa loura Pilsen _ é apenas um dos estilos entre outros 80 existentes. Isso é relevante porque ajuda a desmistificar a bebida. Poucos sabem que a cerveja pode apresentar aromas excepcionais, sabores incríveis, riqueza, complexidade e sofisticação. A grande maioria dos brasileiros conhece apenas a letra P de um alfabeto composto de tantas letras quanto três alfabetos inteiros de A a ZZZ.

Como avalia a qualidade da produção das microcervejarias no Vale do Itajaí, em comparação à fabricação artesanal no resto do mundo?

Em primeiro lugar quero dizer que a qualidade da cerveja brasileira é excelente, seja produzida pelas megaindústrias ou pelas microcervejarias. O termo “artesanal” é usado apenas para diferenciar as cervejarias que produzem poucas quantidades e oferecem maiores opções ao publico consumidor. Eu diria que a diferença principal é no comando da cervejaria: enquanto nas microcervejarias manda o mestre-cervejeiro, nas mega cervejarias manda o departamento de marketing.
As microcervejarias do Vale do Itajaí (Zehn, DasBier, Schornstein, Bierland, Borck, Heimat, Wunder, Eisenbahn) são muito boas. Alguns produtos se comparam aos melhores exemplos estrangeiros.

Depois de conhecer e entender tanto de cerveja, há ainda produções que supreendem?
A cerveja é como uma criança, sempre é capaz de nos surpreender. A criatividade dos mestres cervejeiros é capaz de descobrir e propor variações, novidades e aventuras deliciosamente interessantes. E sempre será assim.

A harmonização entre cerveja e gastronomia pode ser tão complexa quanto a harmonização do vinho?
A harmonização gastronômica, seja entre pratos ou entre comida e bebida é uma universo fantástico e ilimitado. Mas depende muito da pessoa, de sua cultura gastronômica, de seu paladar e de sua sensibilidade sensorial. É uma experiência individual e única. Dizer que entre vinho e cerveja um combina mais com comida do que o outro é tentar reduzir a experiência sensorial individual a uma regra incompatível com a riqueza da cada casamento bebida-comida. Aritméticamente é possível afirmar que cerveja tem mais probabilidades de combinação gastronômica do que o vinho; afinal são mais de 80 estilos de cerveja. Mas o que dizer da tradição, dos hábitos e mesmo da própria cultura enóloga fortemente inserida na nossa cultura ocidental ?
Apesar disso, acredito que a cerveja ocupará – e muito bem – um bom espaço na alta gastronomia. Isso só depende de quebrarmos alguns paradigmas, principalmente de diminuirmos a falta de conhecimento sobre a bebida.

A cultura cervejeira deve ser mesmo mais informal que os rituais de apreciação do vinho?

A cultura cervejeira é informal por natureza. Sempre foi uma bebida popular, do povão, ligada a festas, celebrações e comemorações; desde sempre. Durante mais de 5 mil anos fez parte da dieta doméstica, como alimento. Só se tornou uma “bebida alcoólica” no final do século 19, ou seja, apenas nos últimos 130 anos. O vinho sempre foi mais ligado a rituais e cerimônias e, por isso, era a bebida presente na mesa quando a alta gastronomia nasceu. A cerveja é cosmopolita, alegre, descontraída, confraternizante, descompromissada e irreverente. Que assim continue.

Para os absolutamente leigos, que dicas daria para avaliar a qualidade de uma cerveja?
1º – Considere que a loira gelada é apenas um cartão de visita; conheça os outros estilos.
2º – Cerveja estupidamente gelada é cerveja estupidamente sem graça.
3º – Espuma é parte importante da cerveja; exija-a.
4º – Leia o livro Larousse da Cerveja.

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