Publiquei este texto no Jornal de Santa Catarina, onde trabalho, por ocasião da visita do Metropolitano ao Pelotas. Depois de uma semana em Pelotas, concluo que romantizei a nossa força. Estou aturdido com o entusiasmo local em torno do Internacional. Ok, é final de Libertadores, mas não esperava tanto refestalamento por gente cujo estádio preferido dista 300 quilômetros de casa. Aos poucos, vai morrendo também o nosso orgulho, porque amamos mais a vitória e o sucesso do que a essência do futebol, que é unir as pessoas vindas do mesmo torrão. Abraço a todos.
Uma força centenária
Se alguém alimentava alguma dúvida sobre a força do Jornalismo na preservação do meio ambiente, tome este texto como uma certeza. Suspendi duas horas de férias diante da lareira onde, calculo, queimei seis hectares de acácias desde que esta onda de frio polar me calcificou as articulações. Sob 5 graus, percorri as duas quadras da casa do sogro, aqui em Pelotas, até o estádio da Boca do Lobo. E o que vi dilacerou meu coração de torcedor do rival, o Brasil, meu xavante.
O Pelotas, a quem mesquinhamente chamo de Pelotinhas, está radiante. Não só pela esplêndida campanha no Gauchão, onde peitou o Internacional por uma vaga na final, mas pela gangorra local. Embora esteja na Série D, uma divisão abaixo de nós, o Pelotas se deleita com a honraria de ser o único representante da cidade na primeira divisão do Estadual. Na Rua Anchieta, acesso às sociais, uma placa indica, em tom de provocação, o endereço do representante pelotense na elite do futebol gaúcho.
Às vésperas dos 102 anos, o clube mais antigo da cidade se cristalizou na alma de Pelotas. Tanto que nenhum protagonista pode ser maior do que a instituição, como prova a pintura em homenagem a Michel Bastos nos muros do estádio. Não há como reverenciar o lateral-esquerdo do time de Dunga sem reconhecer o clube. No futebol de Pelotas, não existe espaço ao vulgar culto à personalidade.
Na recém-concluída arquibancada da Rua Doutor Amarante, uma espécie de desterro atrás das traves às torcidas adversárias, o Pelotas delimita território. Pichações insultam como “torcedores de sofá” os pelotenses que se deixam seduzir pelos gigantes da capital. Não há maior traição aos valores da terra do que ver um tipo nascido aqui se refestelando pela dupla Gre-Nal. É uma adaga no coração pelotense.
Como xavante, torço em favor de todo adversário do Pelotas, tarefa que, domingo, com o Metrô, me será muito confortável. Mas jamais alguém me verá desejando uma torcida forasteira predominando num estádio pelotense. Se algum dia isto acontecer, esta cidade molestada há setenta anos por funerais, muitos de ordem econômica, terá testemunhado mais uma morte.
E é a força desta tradição, aliada ao frio glacial, que espera o Metrô.