Pular a barra do clicRBS e ir direto para o cabeçalho.
clicRBS
Nova busca - outros

CPMF: crônica de uma morte anunciada

13 de dezembro de 2007 1

Para quem acompanhou pela TV Senado a batalha de discursos em torno da aprovação da CPMF, a veemência de oposicionistas como Arthur Virgílio (PSDB-PR) ou o traquejo de Pedro Simon (PMDB-RS) resumiram o embate que marcou a derrota histórica do Palácio do Planalto.

Aos que tiveram a chance de presenciar os movimentos de dentro do acarpetado plenário azul, porém, a troca de farpas verbais foi só um dos elemento no conturbado cenário que avançou madrugada adentro nesta quinta-feira. Envoltos em um clima tenso, aguçado pelo ar abafado do plenário, cujo sistema de refrigeração não suportou o volume de pessoas no ambiente, 80 senadores — Mozarildo Cavalcanti (PTB-RR) foi ao enterro do governador de Roraima, Ottomar de Sousa Pinto, e não participou — travaram uma das mais tumultuadas sessões na gestão do governo Lula.

À frente dos governistas, Romero Jucá (PMDB-RR) e Ideli Salvatti (PT-SC) faziam a ponte entre o Planalto e o Congresso, passando aos ministros Guido Mantega (Fazenda) e José Múcio (Articulação Política), a todo momento, a temperatura do plenário com o avançar da hora e dos debates. O líder do governo na Câmara dos Deputados, Henrique Fontana (PT-SC), negociava — visivelmente sem sucesso — ao fundo com o presidente do DEM, deputado Rodrigo Maia. Discretos, Jucá e Ideli tratavam de circular.

Ora com Demóstenes Torres (DEM-GO), ora com Sérgio Guerra (PSDB-PE), os governistas lançavam propostas que variavam de prorrogação por apenas um ano e a realização da reforma tributária à aprovação por quatro anos e destinação total dos recursos à saúde. Tudo antes de a carta assinada pelos ministros da Fazenda, Guido Mantega, e da Articulação Política, José Múcio, cair como uma bomba no plenário.

Quando Jucá usou a tribuna para abrir as propostas do governo e lançar, assim, a última jogada do Planalto à mesa, os copos de água dos senadores começaram a esvaziar com maior velocidade. Ânimos à beira do descontrole. Jornalistas agitados em busca do documento. O calmo senador Tião Viana (PT-AC) quase saindo aos tapas com Papaleo Paes (PSDB-AP), bem ao centro do plenário.

Arthur Virgílio batendo boca com o presidente Garibaldi Alves (PMDB-RN) e um falatório geral que formava uma massa ruidosa e caótica em plena 22h30 de quarta-feira. O ambiente piorava gradualmente com o avançar do relógio. A sessão, que começara ainda na parte da tarde, chegava ao fim do dia com todos os argumentos esgotados e os limites de tolerância à míngua. E o anúncio de uma proposta de acordo assinado por Lula, às vésperas da votação, poderia significar o começo do consenso ou da rebelião.

Com mais da metade dos senadores de pé, batendo boca ou pedindo a palavra, o líder Jucá descobriu rápido a tendência ao caos. A intenção de Jucá, que utilizou Simon como diplomata entre a oposição, era atestar se a carta de Lula teria chance de abrir um diálogo de última hora. Pendurado ao telefone ou caminhando pelo plenário, Simon reuniu argumentos para tomar coragem de propor o adiamento da votação por 12 horas, para que a carta de Lula fosse analisada.

- Está complicado, mas vamos permanecer em observação. Dependendo da temperatura, deixamos tudo para amanhã – dizia Jucá aos jornalistas.

Observando de perto, Torres zombava das esperanças do líder govenista.

- Finalmente o governo vai perder. Essa proposta não tem chão. É um monólogo do governo – provocava o democrata.

- Gostaria de saber quantas páginas tem a carta, para precisar de 12 horas para ser lida — alfinetava Heráclito Fortes (DEM - PI).

Temendo que a sessão descambasse para o ridículo, com os deboches da oposição frente ao governo esperneante, Jucá apressou-se a apelar pela manutenção do nível do debate.

— Fizemos uma proposta. Se não há possibilidade de acordo, então vamos votar sem descuidar com o nível — apelou o líder.

Aos jornalistas, Jucá já tinha explicado a estratégia: “dar carne para a onça” entregando a CPMF à derrota, para depois aprovar a prorrogação até 2011 da Desvinculação das Receitas da União (DRU). Entre um ou outro pronunciamento evasivo de senadores periféricos, o presidente Garibaldi Alves ergueu a voz lançando excitação no plenário.

— Em votação — anunciou Alves.

Todos os votos do governo estavam no plenário e, mesmo assim, eram insuficientes. O Planalto calculava em 46 os votos favoráveis. Para prorrogar a CPMF eram necessários 49. Até Roseana Sarney, em uma cadeira de rodas, apareceu diretamente do hospital para votar. Como a discussão continuava tensa, a senadora se retirou do plenário logo após chegar. Foi levada por uma assessora à sala do cafezinho do Senado, onde dormiu até o momento da votação.

Jornalistas e senadores agitados. Os seguranças, até então recostados com visíveis sinais de cansaço, retomaram os postos. Câmeras e máquinas fotográficas preparadas. Na parte superior, repórteres transmitiam ao vivo o cada vez mais provável resultado, terminando com a derrocada do imposto e do governo que conseguiu 45 dos 49 votos que precisava. Tudo quando o relógio já marcava 1h37 de quinta-feira e ao centro do plenário democratas e tucanos festejavam os 34 votos obtidos contra a prorrogação do imposto do cheque.

Postado por Robson Bonin

Comentários (1)

  • Ricardo Wegrzynovski diz: 13 de dezembro de 2007

    Boa reportagem, a história continua, no entanto. O bom repórter, no meu ponto de vista deve estar nas ruas, diante dos fatos, olhando, sentindo. Repórter de cadeira tem uma visão menor dos fatos. Essa descrição do cenário na decisão sobre a manutenção ou não do imposto foi desse tipo de reportagem, nos dá a impressão que, como leitor estávamos lá também. Viva os repórteres das ruas. Parabéns.

Envie seu Comentário