À frente da mais importante embaixada do Brasil no Exterior, Antônio Patriota está atualizando a agenda. A partir de janeiro, o perfil de seus contatos em Washington muda radicalmente, dos republicanos de George W. Bush para os democratas de Barack Obama. Junto com a alternância no poder, renasce a esperança do governo brasileiro de avançar em temas considerados cruciais, como o fim das barreiras à entrada do etanol e uma política mais amigável em relação aos imigrantes.
Carioca, 54 anos, Patriota sucumbiu ao clima da campanha eleitoral americana. Viajou ao Colorado e a Minnesota para conferir de perto os discursos dos candidatos e a repercussão entre os eleitores. No dia da eleição, preferiu acompanhar a movimentação pela TV e, vencido pelo frio, não foi às ruas testemunhar as comemorações. Foi ele quem intermediou o telefonema de Obama para Lula e agora aguarda do futuro presidente um retorno sobre o convite para uma eventual visita ao Brasil.
– Ainda estou me recuperando das emoções – admite Patriota à coluna.
Como ficam as relações entre Brasil e Estados Unidos com a chegada de Barack Obama à Casa Branca?
Antônio Patriota – Nossa relação está muito bem posicionada. Tivemos um período de aproximação, o comércio aumentou, assim como os investimentos de parte a parte. O Brasil passou a ser um investidor importante nos Estados Unidos. Isso permite a confiança de que o relacionamento seguirá uma trilha construtiva, ainda mais com essa afinidade da trajetória do presidente Obama, que estabelece um paralelo com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O fato de um afro-americano se tornar presidente dos Estados Unidos talvez seja tão extraordinário quanto o fato de um operário se tornar presidente do Brasil. Ambos, inclusive, usaram até o mesmo slogan na campanha, de que a esperança venceu o medo.
A América Latina ficou em segundo plano na campanha. Isso também não pode se repetir durante a gestão de Obama?
Patriota – Mas não é melhor assim? O que está em primeiro plano é crise econômica, Iraque, Afeganistão e Paquistão. Ou seja, só problemas. Não é vantagem estar em primeiro plano. A Europa também não é mencionada. A América Latina é uma região com regimes democráticos, fazendo progresso econômico e social. Pode aparecer aqui e ali uma tensão episódica, mas que é resolvida com diálogo. Não devemos nos preocupar com isso.
O governo Obama também pode ser mais tolerante com o etanol brasileiro, reduzindo tarifas de importação?
Patriota – O presidente Bush já era muito favorável à eliminação da tarifa, mas não conseguia. Há uma resistência no Congresso, ainda não contornada, por pressão dos produtores rurais. O interessante é que muitas das companhias que investiam pesado no etanol de milho estão começando a se interessar pelo etanol de cana-de-açúcar do Brasil. Há empresas planejando investir US$ 1 bilhão no Brasil, o mesmo tipo de companhia que fazia pressão pela tarifa aqui nos EUA. Se eles estão acordando para essa realidade, é possível imaginar que essa resistência gradualmente vá perder apoio.
O presidente Lula defendeu o fim do embargo a Cuba. O senhor acredita nessa possibilidade?
Patriota – Essa questão de Cuba permanece muito emocional, porque é de política interna e há um grande contingente de imigrantes cubanos nos EUA. Cuba é singular, ao contrário de outros governos de regimes comunistas, como China e Vietnã, que mantêm relações normais com os EUA. Obama ganhou na Flórida sem pender para nenhum lado, sem se curvar às exigências de uma parcela mais conservadora, talvez apostando nos jovens que têm uma posição mais aberta. É possível que Obama tenha uma posição mais independente em relação a Cuba, até pelo fato de sua administração pender mais para o multilateralismo.
O governo Obama pode dispensar o visto de entrada para brasileiros ou a necessidade de se ir a São Paulo ou Brasília para a entrevista? Vocês têm pressionado por alterações nas regras?
Patriota – Existem conversas em curso e uma série de iniciativas. Vamos ver, com base na reciprocidade, se podemos facilitar também o visto para os americanos. Eles estão incorporando funcionários no Brasil para agilizar a concessão de vistos.
O presidente Lula disse que o presidente Obama não pode fracassar e que ele tem mais capital político que o presidente Bush. Essa é sua visão também?
Patriota – Não vou comentar uma frase do presidente Lula. Se ele disse, está dito.
Postado por Klécio Santos
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