
Que a vida do retirante nordestino que chegou à presidência da República daria um filme, ninguém duvida.
O que não se esperava era que Lula, o Filho do Brasil, cuja pré-estreia se deu ontem, no Festival de Cinema de Brasília, fosse tão fraco.
Com R$ 12 milhões em caixa – nenhum centavo de recurso público, é bom frisar -, o produtor Luiz Carlos Barreto montou o filme mais caro do cinema nacional. Talvez seja também um dos mais frustrantes. Rui Ricardo Diaz, o ator que vive Lula dos 18 anos 35 anos, não cativa. Sequer convence com seu mindinho esquerdo encolhido e sua caricata tentativa de simular a voz rouca e a língua presa do operário-sindicalista.
Mas nem tudo é fracasso no longa. O filme começa bem, com a fuga da miséria no sertão pernambucano e a dura convivência com o pai alcoólatra em Santos. Aqui despontam as duas melhores interpretações: os pais de Lula, vividos por Milhem Cortaz como Aristides e Glória Pires como Dona Lindu. Dos cinco atores que vivem Lula, o melhor é Guilherme Tortolio, que faz o adolescente que orgulha a mãe ao se formar torneiro-mecânico no SENAI.
Lula, o Filho do Brasil, foi concebido para arrebatar multidões, fazer chorar como Dois Filhos de Francisco. Passa longe disso. A cena em que Lula é comunicado da morte do filho e da mulher, Lourdes, vítimas de negligência médica durante o trabalho de parto, carece de emoção e verossimilhança. Apenas duas passagens contagiam: a assembléia que reuniu 100 mil operários grevistas no estádio da Vila Euclides, em São Bernardo do Campo, vigiados por helicópteros do Exército, e a sequência final, cujo teor não vou revelar para não estragar a surpresa.
Na abarrotada sala do Teatro Nacional de Brasília, onde 2 mil pessoas se acotovelaram para a première do filme, ontem à noite, houve apenas duas manifestações da platéia. Risos, quando Lula corre do portão de casa um pretendente a sua então namorada, Marisa Letícia; e aplausos no final. Contudo, nada capaz de emular a recepção apoteótica com que o Lula de hoje é tratado pela população quando visita os confins do Brasil. O Lula petista, o Lula líder de massas, o Lula presidente com aprovação popular recorde, nada disso está no filme. Talvez venha daí a forma fria, de certa forma também frustrada, com que políticos de esquerda e ministros comentaram o longa ao final da sessão.
Se a oposição acredita que Lula, o Filho do Brasil é uma peça de propaganda, idealizada para alavancar a candidatura de Dilma Russeff em 2010, convêm que vá aos cinemas a partir de 1 de janeiro, data da estreia nacional. Verá um filme mediano, centrado na força de uma mãe para superar as dificuldades e criar os sete filhos. Dona Lindu é o grande personagem da cinebiografia de Lula. A vida do protagonista serve apenas de chamariz para atender as ambições da família Barreto, que sonha acumular a maior bilheteria do cinema nacional atraindo à sala escura mais de 20 milhões de espectadores.
Postado por Fábio Schaffner
Comentários