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Como Dilma venceu a eleição

01 de novembro de 2010 0

Em 16 de junho de 2005, o presidente Lula demitiu o então chefe da Casa Civil, José Dirceu, eminência parda da Esplanada. Com o governo sangrando na crise do mensalão, Lula disse ao secretário-geral da Presidência, Luiz Dulci: – Temos um grande problema para resolver.
– Pois é, presidente, quem vai para a Casa Civil? – indagou Dulci.
– Não, o problema não é esse. O problema é quem vai ser o nosso candidato em 2010 – rebateu o presidente.
Começava ali, sobre as cinzas do mais poderoso ministro do governo Lula, a montagem de uma inesperada articulação política que, 1.963 dias depois, resultaria na eleição de Dilma Vana Rousseff como a primeira mulher presidente do Brasil.
Em 2005, Lula sequer cogitava tornar Dilma candidata. O presidente dispunha de Antonio Palocci, mas logo o ministro seria sugado pela onda de escândalos que rondavam o Planalto. Lula lamentou as perdas, mas considerou a faxina providencial, poupando-o de mediar uma luta visceral entre os dois postulantes à candidatura.
Com a reeleição, em 2006, Lula flertou com o terceiro mandato. Não havia um sucessor natural, e a febre do continuísmo assolava a América Latina. O petista incentivou o debate, mas recuou. Na busca por um sucessor, sabia que, se a escolha recaísse sobre um novato, precisaria de tempo. Em conversas com assessores, desejou que a eleição tivesse um valor tão simbólico como a própria chegada de um metalúrgico ao poder, deixando escapar que poderia ser uma mulher. A vinculação foi imediata: Dilma. Lula comentou a hipótese com dois confidentes:
– O senhor está louco? Dilma não tem nenhuma condição – ouviu dos interlocutores.
Ensimesmado, Lula telefonou para o ex-governador Olívio Dutra, convidando o ex-colega de apartamento na Constituinte para uma conversa em Brasília. O gaúcho foi o primeiro a apoiar a escolha.
Em abril de 2007, a possibilidade de Dilma ser a candidata apareceu na imprensa. Mesmo sem comunicá-la do plano, o presidente dava sugestões:
– Dilma, você precisa perder essa cara de escritório.
Por orientação de Lula, ela passou a participar dos principais eventos do governo. Anunciou a descoberta da megajazida de petróleo na Bacia de Santos, foi fotografada envergando uma mochila militar na Amazônia e abastecendo um carro de Fórmula-1. Era um teste para medir a aceitação popular, a reação do PT e a da oposição. Lula, no entanto, não conversava abertamente sobre a candidatura com a ministra.
– Ela estava angustiada. O presidente fazia insinuações, brincava, mas jamais ia direto ao ponto – conta um servidor da Casa Civil.
No início de 2008, Lula enfim chamou Dilma a seu gabinete. De inopino, avisou que ela seria candidata à Presidência.
– O senhor só pode estar brincando – reagiu Dilma.
– Nunca falei tão sério na minha vida. Você vai ser a próxima presidente do Brasil – devolveu Lula.
Lula foi se surpreendendo com a simpatia de Dilma para com a empreitada. Em março de 2008, discursando no Rio, o presidente cunhou a expressão “mãe do PAC”.
Em 2009, surgia uma nova Dilma
A repercussão foi imediata e selou o início da metamorfose de gestora burocrática em candidata popular. Lula fez das eleições municipais um laboratório para a auxiliar. No debut – o lançamento da candidatura de Maria do Rosário (PT) à prefeitura de Porto Alegre, escolhido justamente pela atmosfera caseira –, o resultado não foi animador.
A mando do marqueteiro João Santana, o discurso de Dilma foi filmado. O diagnóstico, implacável: feições carregadas, falava mal em público e era desprovida de carisma. Dilma tirou os óculos. Não bastou. Santana reclamou das olheiras, sugeriu uma intervenção cirúrgica. Na virada do ano, a petista telefonou à amiga gaúcha, a psiquiatra Vera Stringuini, pedindo o telefone do cirurgião plástico Renato Vieira. Em 2009, uma Dilma repaginada surgia em Brasília.
Em março, Lula levou Dilma aos Estados Unidos. Ao final de reunião com Barack Obama, ao perceber os jornalistas, virou-se para a pupila, que aguardava numa sala:
– Dilma, vem aqui. Você não vai ficar atrás de mim, vai?
– Não, presidente, vou ficar ao seu lado.
Ela estava pronta, pensou Lula.
Submetida à oratória de palanque, em 22 de abril, horas antes de inaugurar uma planta industrial da Braskem, em Triunfo, a ministra recebeu um telefonema. Soube que um nódulo extraído de sua axila esquerda representava o primeiro estágio de um câncer nos gânglios linfáticos. Para Dilma, a candidatura havia acabado. De volta a Brasília, informou Lula da doença.
– É no pulmão? – perguntou ele.
– Não, presidente, é um linfoma. É no sangue – Dilma respondeu.
– Então não tem problema. Se não é no pulmão, vai dar tudo certo e você vai ficar mais forte ainda – confortou Lula.
Dilma foi operada, fez sessões de quimioterapia e se recuperou. Começava o polimento da candidata. Em novembro, a necessidade de uma preparação intensa revelou-se urgente. Uma falha na operação da usina de Itaipu deixou parte do país às escuras. Cobrada pela imprensa, a ministra foi rude.
– Você está confundindo duas coisas, minha filha. Uma coisa é blecaute. Racionamento é barbeiragem – vociferou.
No início de 2010, Lula convocou Dilma para uma reunião noturna no Alvorada. Diante da equipe de Santana, foi enfático:
– Infelizmente, quem elege presidente é a TV, são os marqueteiros. Eu já me irritei muito com essa gente, mas foram eles que me fizeram presidente. Então, quero que você faça o que eles te pedem porque esses cabras aqui entendem das coisas.
Dilma aquiesceu, deixando Lula com a missão de atrair o PMDB para a aliança. Para tornar a chapa competitiva, ele sabia que precisava do tempo de TV do partido. Nomeando cargos e liberando emendas, Lula intensificou o assédio, mas as relações entre Dilma e o indicado a vice, Michel Temer, eram protocolares.
Ela jamais simpatizara com Temer, a quem considerava obsequioso demais à gula por cargos do PMDB. Em 4 de maio, entre garfadas de peixe ao molho de maracujá, servido por Dilma a um aristocrático interlocutor, eles selaram a aliança.
O início da campanha foi desastroso. Nos discursos, Dilma trocava os nomes de cidades e de aliados. Para os estrategistas do PT, a virada se deu no dia 9 de agosto, em entrevista ao Jornal Nacional. Apesar das perguntas ásperas, Dilma se saiu bem. Quatro dias antes, já passara incólume pelo primeiro debate. Em 13 de agosto, pela primeira vez o Datafolha mostrava a petista à frente de Serra. A partir dali, até mesmo as reuniões dominicais com o presidente Lula foram diminuídas.
PT despreparado para o 2º turno
Na última semana de campanha, Dilma sofreu um revés inesperado. Em meio ao otimismo que contagiava o comitê, na segunda-feira, 27 de setembro, a candidata soube que estava perdendo votos entre católicos e evangélicos. Encontros de emergência com líderes religiosos foram insuficientes para estancar a sangria. A polêmica em torno do aborto, somada ao escândalo de tráfico de influência na Casa Civil, provocaram o segundo turno. No domingo da eleição, como se estivesse pressentindo o golpe, Dilma desabafou em Porto Alegre.
– Quem combate o bom combate sai mais forte do que entrou, seja no primeiro, seja no segundo turno.
À tarde, a petista acompanhou a contagem dos votos com Lula, em Brasília. O ambiente ficou tenso com a possibilidade cada vez mais escassa de uma vitória no primeiro turno. Lula tentou tranquilizar a candidata:
– Calma. As coisas nunca foram fáceis para nós. Vamos ganhar no segundo turno.
De imediato, Lula traçou a estratégia para a próxima etapa da campanha. Governadores e senadores eleitos da base deveriam estar em Brasília no dia seguinte. Era hora de mobilização total nos Estados.
O PT, contudo, não estava preparado para um segundo turno. Na maioria dos comitês, não havia mais material de propaganda. A previsão de gastos cresceu em R$ 15 milhões e Dilma mudou o comportamento, evitando arestas com jornalistas e agregando mais aliados à coordenação de campanha.
A crise se ampliou com a primeira pesquisa do segundo turno, apontando um crescimento vertiginoso de José Serra. Dilma engordou, caminhava com dificuldade após torcer o pé na esteira e perdia a voz com frequência. No primeiro debate, porém, partiu para o ataque, com um discurso ensaiado para motivar a militância.
– Como era um contra o outro, a ideia era colocar o Serra na defensiva, forçar uma rejeição citando escândalos e a volta das privatizações – diz um membro da campanha.
Nas semanas seguintes, Dilma voltou a recuperar vantagem nas pesquisas. Faltava, porém, o último debate da eleição, na Globo, no qual 80 eleitores indecisos fariam perguntas aos candidatos. O confronto foi morno, sem grandes provocações. Ao final, Dilma foi surpreendida com pedidos de autógrafos dos indecisos. Posou para fotografias em meio à plateia e, nos bastidores, recebeu um telefonema de Lula. Da conversa, só se sabe a resposta da candidata.
– Deus te ouça.
Tão logo se encerrou a ligação, Dilma foi abraçada por assessores eufóricos, aos gritos de “nós ganhamos, nós ganhamos”. No camarim, o presidente do PT, José Eduardo Dutra, o governador de Sergipe, Marcelo Déda, e o ator global José de Abreu cantavam Arueira, de Geraldo Vandré:
“E a gente fazendo conta,
Pro dia que vai chegar
Marinheiro, marinheiro
Quero ver você no mar
Eu também sou marinheiro
Eu também sei governar”

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