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Chega ao fim a Era Lula

27 de dezembro de 2010 0


Por Fabiano Costa

Ao descer pela última vez a rampa do Palácio do Planalto, no entardecer do próximo sábado, o presidente Lula deixa para trás um governo de aprovação popular sem precedentes, assentada na redução de uma desigualdade social endêmica.
Apesar dos avanços, a Era Lula também entra para a história por escândalos de corrupção, timidez na condução de reformas e parcos progressos em infraestrutura.
Especialistas ouvidos por ZH convergem em afirmar que o maior legado do petista é ter arrancado da miséria 28 milhões de brasileiros e fomentado o surgimento de uma nova classe média. Do início do mandato até agora, foram criados 14 milhões de empregos com carteira assinada. Até a dívida externa, tão questionada pelos petistas no passado, foi paga.
– Da mesma forma que atribuímos à década de 1970 o período do milagre econômico, podemos dizer que Lula promoveu um milagre social – opina o economista-chefe do Centro de Políticas Sociais da Fundação Getulio Vargas, Marcelo Neri.
Aliados e oposicionistas, no entanto, alertam sobre os riscos impostos ao crescimento sustentável do país por conta da ausência de reformas básicas. Mesmo ostentando uma popularidade inédita, Lula abriu mão de empenhar seu prestígio para promover reformas urgentes, como a tributária e a política.
Na Previdência, Lula só alterou as regras do funcionalismo público, deixando de lado a modernização do sistema de aposentadorias do setor privado e sem estancar um déficit bilionário nas contas da seguridade social.
– Lula deixa uma dívida com a sociedade. Sem as reformas de base, o Brasil não vai manter uma sustentabilidade – critica o teólogo Leonardo Boff, amigo do presidente.
Os paradoxos impressos nos dois mandatos, contudo, não prejudicaram a construção de um fenômeno político: o lulismo. Pragmático na relação com os aliados e com uma rara habilidade para se comunicar com o povo, mesmo longe do Planalto o petista mantém sua influência no poder com a eleição de Dilma Rousseff.

Se a bonança mundial e a estabilidade da moeda semeada por seu antecessor permitiram a Lula colher resultados exitosos na economia – como a redução do desemprego pela metade –, foi sua a opção de ampliar a distribuição da riqueza no país por meio de programas de transferência de renda e de reajustes acima da inflação para o salário mínimo.
Ao manter quase 13 milhões de famílias sob o Bolsa-Família, o pernambucano que passou fome na infância buscou cumprir promessa do primeiro pronunciamento como presidente eleito, em 2002:
– Se no final de meu mandato cada brasileiro puder comer três vezes ao dia, terei cumprido a missão de minha vida.
A oposição, porém, aponta a falta de uma porta de saída para o programa, ou seja uma política que capacite os beneficiários a sobreviver por conta própria. Os governistas rebatem dizendo que Lula aumentou em 50% o número de estudantes universitários. O fato é que o Bolsa-Família garantiu um séquito de eleitores, em especial no Nordeste, crucial em sua reeleição e no triunfo de Dilma Rousseff.
– A grande inovação de Lula é demonstrar que o Estado pode ser indutor do desenvolvimento ao mesmo tempo em que promove a inclusão social – destaca o religioso dominicano Frei Betto, que desfruta da intimidade do presidente.
O novo eleitorado substituiu parte da militância e da classe média que mantinha um voto cativo em Lula. Era o desencanto com os escândalos e a abertura do governo a partidos fisiológicos.
Enquanto conduzia uma política econômica que contentava o mercado, Lula distanciava-se dos movimentos sociais e das antigas bandeiras da esquerda, como a reforma agrária.
Para os críticos mais contundentes, entretanto, a maior herança deixada pelo petista é a complacência com a corrupção. Para o cientista político Ricardo Caldas, da Universidade de Brasília, o mensalão é a “herança maldita” do lulismo.
– Parafraseando o presidente, o mensalão é um fato nunca antes visto neste país – diz o ex-senador Jorge Bornhausen (DEM-SC).
Paulo Kramer, cientista político da UnB, também se mostra crítico do petista. Para ele, Lula foi um presidente que “dirigiu um governo aonde aquilo que é bom não é dele, e aquilo que é dele não é bom”.

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