A eleição foi inclemente com três dos mais experientes parlamentares gaúchos. Derrotados nas urnas, desde 1º de fevereiro Eliseu Padilha (PMDB), Luciana Genro (PSOL) e Pompeo de Mattos (PDT) estão sem mandato. Até então colegas na bancada gaúcha na Câmara, os ex-deputados agora tentam se acostumar à vida longe do poder.
Embora não tenham abandonado as atividades políticas, o ritmo e o tempo antes dedicado às articulações partidárias diminuiu bastante. Pompeo retornou ao Banco do Brasil, onde é servidor de carreira. Padilha voltou a administrar as próprias empresas, e Luciana retomou os estudos como aluna e professora.
De volta à sala de aula
Há cerca de duas semanas, Luciana Genro (PSOL) participou de um debate em Porto Alegre para discutir a revolução árabe no Oriente Médio. Apesar do entusiasmo com os protestos que derrubaram o ditador egípcio Hosni Mubarak, o que tem alegrado mesmo a ex-deputada é o convívio diário com os quatro cães, dois gatos e um coelho que tem em casa.
– Agora, tenho mais tempo para eles – ressalta Luciana.
Nos últimos 16 anos, Luciana pouco se dedicou à família e aos animais de estimação. Os compromissos políticos em dois mandatos de deputada estadual e dois de federal a obrigaram a sonegar até mesmo a formação profissional.
Estudante de Direito, cursava apenas duas disciplinas por semestre. Agora, planeja se formar no final do ano e, aos poucos, retoma a paixão pelo magistério. Além de voltar a dar aulas de inglês (já tem três alunos), Luciana está organizando um curso preparatório para o Enem. As aulas, gratuitas e abertas a alunos da rede pública, serão ministradas no colégio Júlio de Castilhos.
Luciana obteve 129.501 votos na última eleição. Mesmo com cem mil votos a mais que Alexandre Roso (PSB), o menos votado na bancada gaúcha, a deputada não se reelegeu porque o PSOL não atingiu o quociente eleitoral de 190 mil votos. Disposta a recuperar o espaço político, Luciana pretende voltar a concorrer a vereadora no próximo ano, apesar das restrições da Justiça Eleitoral. Como a legislação veda a eleição de parentes até o segundo grau, a vitória de Tarso Genro ao governo pode afastá-la das urnas pelos próximos três anos.
Enquanto a política não volta a dominar sua agenda, Luciana aproveita para descansar. Em janeiro, passou férias na praia da Guarda do Embaú (SC) com o marido, o jornalista Sérgio Bueno.
– Ele ficou com medo de que o casamento não resistisse ao convívio cotidiano, mas está até melhor – brinca a ex-deputada.
Do plenário à colmeia
Em 12 anos em Brasília, Eliseu Padilha (PMDB) ganhou fama por antecipar com precisão o comportamento das bancadas em votações polêmicas. Na última eleição, falhou na contabilidade dos próprios eleitores. Faltaram 900 votos para a reeleição.
Padilha credita a derrota à distância que manteve de suas bases eleitorais e à crise de identidade do PMDB, aliado do PT no país e adversário do mesmo partido no Estado.
O ex-deputado agora se dedica à formação de novos quadros do PMDB. À frente da Fundação Ulysses Guimarães, Padilha firmou uma parceria com a UFRGS para ministrar cursos de política e administração aos candidatos do partido nas eleições municipais de 2012. Para tanto, ele tem percorrido o país.
Padilha ainda gravita na órbita do poder. Todas as semanas, ele passa dois dias em Brasília, quando almoça no restaurante do Senado com parlamentares e ministros. Amigo do vice-presidente Michel Temer, logo após a eleição ele foi questionado se iria reivindicar algum espaço na máquina do governo. Acabou declinando:
– Atendi ao ditame das urnas. Eu sou político. Posso fazer política com ou sem mandato.
Padilha agora pretende voltar a atuar como advogado e empresário. Uma das suas apostas é a produção de mel – já possui mais de mil colmeias. Sem mandato, ele perdeu o foro privilegiado e foi indiciado pela Polícia Federal por crime em licitações e formação de quadrilha. Ele é alvo de inquérito referente a supostas irregularidades em licitações das barragens dos arroios Jaguari e Taquarembó.
A angústia do bancário
Em 1º de fevereiro, de terno, gravata e exibindo o broche de deputado, Pompeo de Mattos (PDT) se apresentou na Diretoria de Gestão de Pessoas do Banco do Brasil, em Brasília. Depois de 22 anos e seis mandatos consecutivos de vereador, prefeito, deputado estadual e federal, o pedetista voltava a cumprir expediente na instituição na qual ingressou por concurso em 1978.
Acostumado a passar o dia em negociações políticas e recebendo dezenas de pessoas em seu gabinete na Câmara dos Deputados, Pompeo foi instalado em uma sala do banco e passou o resto do dia conversando com os colegas. Sem função definida, acabou trabalhando apenas uma semana, das 12h às 18h.
– Eles me anteciparam 20 dias de férias para resolver a minha situação. O banco não sabe o que fazer comigo, e eu não sei o que fazer no banco – admite Pompeo.
Por resolver a situação, entenda-se conseguir um cargo de confiança na burocracia estatal. Desde outubro, quando foi candidato a vice-governador na chapa derrotada de José Fogaça (PMDB), Pompeo está na lista de indicações do PDT. Chegou a ser convidado a integrar o governo de José Fortunati na prefeitura da Capital, mas resolveu esperar por um aceno do Planalto.
Um dos principais problemas de retomar a rotina de bancário, confessa o ex-deputado, é a baixa remuneração. Como teve a carreira interrompida por causa das licenças para exercer mandatos eletivos, Pompeo não ascendeu profissionalmente dentro do banco. Atualmente, recebe R$ 2,8 mil brutos.
– Juntei dinheiro para ficar três meses nessa situação. Ainda bem que estou solteiro – brinca.
Nas últimas semanas, Pompeo tem conversado com dirigentes do partido na tentativa de acelerar sua nomeação. O comportamento rebelde do PDT na votação do salário mínimo, contudo, pode atrapalhar suas pretensões. Pompeo sonha com uma das 26 diretorias do Banco do Brasil, mas aceita uma assessoria parlamentar – um cargo de representante da estatal no Congresso.
– É uma situação angustiante, mas não vou me apavorar na primeira adversidade – diz o pedetista.









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