A emoção do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao beijar a face de seu vice José Alencar impôs um silêncio solene no salão nobre do Palácio do Planalto, ontem à noite.
Com a face coberta de lágrimas, o petista, um metalúrgico forjado politicamente no sindicalismo, se despedia do industrial com o qual havia partilhado oito anos de governo.
A chegada de Lula e da presidente Dilma Rousseff ao velório de Alencar, às 21h26min, foi o momento mais aguardado do dia. Lula e a presidente chegaram a Brasília após mais de oito horas de viagem desde Lisboa. No país lusitano, Lula havia sido condecorado com o título de doutor honoris causa pela Universidade de Coimbra.
Assim que irromperam no salão, Dilma e Lula foram confortar o filho do amigo, Josué, e a viúva, Mariza. Após abraços calorosos, Lula foi conduzido por Mariza ao caixão. Emocionado, usou dois lenços brancos para enxugar as lágrimas.
Coberto pela bandeira do Brasil e sob os estrondos de 21 tiros de canhão, o esquife com o corpo de Alencar subiu a rampa do Planalto às 11h03min de ontem carregado por seis soldados da Guarda Presidencial. No salão nobre, as mais importantes autoridades da República homenagearam com aplausos, por mais de um minuto, o político mineiro.
Reconhecido como um conciliador político e celebrado pela abnegação na luta pela vida, Alencar foi velado com honras de chefe de Estado durante 12 horas na sede do Executivo. Foi a segunda vez em que o prédio acolheu um velório – em 1985, havia sido outro mineiro ilustre, o ex-presidente Tancredo Neves.
Em meio aos 80 passos cadenciados dos militares que trouxeram o caixão nos ombros, o Congresso e o Supremo Tribunal Federal paralisaram suas atividades e o primeiro escalão do governo Dilma ficou enfileirado para receber o corpo de Alencar. A emoção tomou conta do palácio assim que a tampa do caixão foi aberta. Chorando, a viúva de Alencar, dona Mariza Gomes da Silva, acariciou a testa do marido. Com a ausência de Dilma, naquele instante retornando de viagem a Portugal, o vice Michel Temer prestou as condolências à viúva.
Após os familiares mais próximos se aproximarem para se despedir do patriarca, o secretário-geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), dom Dimas Lara, e o núncio apostólico do Brasil, dom Lorenzo Baldisseri, deram início à primeira missa do dia em homenagem a Alencar.
– Ele viveu intensamente, no compromisso dedicado e generoso com sua família e com a nação brasileira – recordou dom Lourenzo.
Em uma iniciativa inédita, o cerimonial da Presidência permitiu que populares ingressassem no palácio pela rampa. Até o início da noite, mais de 7 mil pessoas haviam passado pelo local ornamentado por 132 coroas de flores.
O corpo do ex-vice deixa o Planalto às 6h30min de hoje e segue para Belo Horizonte, onde será velado no Palácio da Liberdade. À tarde, em uma cerimônia restrita à família, será cremado, como era seu desejo.







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