Por Fábio Schaffner
Na liturgia da política, a regra é sempre chamar um homem público pelo posto mais alto que ele ocupou na carreira. Assim, Fernando Henrique Cardoso e Lula, por exemplo, sempre são tratados como presidente, mesmo que já não estejam mais no exercício do cargo. Em relação ao petista, contudo, a forma de tratamento nunca foi tão apropriada. Nenhum outro inquilino do Planalto influiu tanto no governo do sucessor como o ex-metalúrgico que se tornou o mais popular chefe de Estado brasileiro. Dez meses após transmitir a faixa presidencial a Dilma Rousseff, Lula segue se envolvendo em questões da burocracia federal, ao sabor das conveniências eleitorais que assegurem ao PT um projeto de 20 anos de poder.
Na manhã do dia 4 de agosto, uma inusitada fila se formou num dos corredores do Club El Nogal, um luxuoso resort de 35 mil metros quadrados encravado no centro financeiro de Bogotá. O burburinho à saída do elevador conduzia ao local mais concorrido por autoridades e empresários latino-americanos presentes ao 1º Fórum de Investimentos Colômbia-Brasil: a suíte ocupada pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Assunto não falta a Lula. Tampouco tempo livre para desfrutar do prestígio que acumulou em oito anos à frente do governo. Na noite anterior, ele havia ficado até as 2h30min conversando com o governador de Pernambuco, Eduardo Campos.
– O homem não para – comentou no café da manhã o governador.
A ausência da faixa presidencial não inibiu nem aquietou Lula. Desde o derradeiro compromisso no Palácio do Planalto, ao transmitir o cargo para Dilma Rousseff em 1º de janeiro, ele já percorreu 20 países, sendo recebido com honrarias por 14 chefes de Estado. Transitando por plateias humildes e sofisticadas, nesse período ele esteve com Bono, Ronaldo Fenômeno e Fidel Castro, catadores de lixo, blogueiros e mineiros que sobreviveram a um soterramento no Chile, o presidente francês Nicolas Sarkozy, o príncipe Albert II, de Mônaco, e o primeiro-ministro da Espanha, José Zapatero, entre dezenas de outros encontros.
É com Dilma, contudo, que Lula exercita com maior frequência sua aptidão predileta: dar palpites sobre a condução do governo e a articulação política do Planalto.
Eles conversam por telefone todos os domingos à tarde. A cada 15 dias, despacham pessoalmente no Palácio da Alvorada, geralmente à noite. Naquela madrugada insone em Bogotá, Lula já havia acertado por telefone com Dilma a queda do então ministro Nelson Jobim, demitido da Defesa por conta das críticas às ministras Ideli Salvatti (Relações Institucionais) e Gleisi Hoffmann (Casa Civil).
– Lula inclusive já sabia, na véspera da saída do Jobim, que Celso Amorim seria o substituto – confidencia um ministro de Dilma.
O acesso franqueado a informações exclusivas do governo e a influência sobre a Esplanada fazem de Lula o político mais assediado do país. Durante suas rotineiras passagens por Brasília, a cena do El Nogal se repete no Royal Tulip Alvorada – onde o ex-presidente se hospeda quando está na cidade, estrategicamente localizado a 850 metros da residência oficial de Dilma. Numa manhã abafada de maio, Gleisi, que à época ainda estava no Senado, visitou o petista acompanhada do marido, o ministro das Comunicações, Paulo Bernardo.
Enquanto o trio conversava durante uma hora sobre as eleições municipais no Paraná, na antessala aguardavam pacientemente por um tête-à-tête com Lula o presidente da CBF, Ricardo Teixeira, e o secretário-geral da Fifa, o francês Jérôme Valcke. Em pauta, os preparativos para a Copa e a relação conflituosa das duas entidades com Dilma. Como a presidente nunca recebeu Teixeira para uma audiência particular, é por intermédio de Lula que o cartola tenta se aproximar do governo.
O desembaraço com que Lula gravita na órbita do poder às vezes incomoda Dilma.
Embora jamais tenha manifestado esse desconforto diretamente ao antigo chefe, ela envia recados pelo ministro da Secretaria-Geral, Gilberto Carvalho, principal interlocutor de Lula no governo. Esse incômodo ficou latente na crise que culminou na demissão de Antonio Palocci, quando o ex-presidente desfilou por Brasília orientando aliados e reclamando da postura débil do governo diante do episódio.
Alvejado por suspeitas de enriquecimento ilícito, Palocci permaneceu 23 dias na mira da oposição. Em 24 de maio, a pretexto de discutir a reforma política, Lula desembarcou na Capital Federal para dois dias de extensas reuniões. O objetivo primordial, porém, era blindar o chefe da Casa Civil, o principal e mais poderoso ministro de Dilma. O primeiro compromisso seria um almoço com a bancada do PT no Senado, na casa de Marta Suplicy (SP). Dois dias antes, contudo, o líder do PT, Humberto Costa (PE), telefonou para Gleisi dizendo que precisava mudar o local da reunião.
– Lula não quer que seja na Marta. Ele acha que é uma arapuca, pois é um apartamento funcional, e a imprensa vai ficar lá embaixo de tocaia. Pode ser na sua casa? – indagou Costa.
A contragosto, Gleisi assentiu. A residência da senadora, um sobrado aconchegante no Lago Sul, não dispunha de estrutura para um almoço para 20 talheres. Na véspera, uma assessora sugeriu a contratação de um bufê, chamado às pressas. A refeição foi preparada ao ar livre, num espaço contiguo à área de serviço, e servida em duas salas conjugadas, separadas por uma escada de seis degraus. De terno azul e gravata listrada, Lula foi o primeiro a chegar, por volta do meio-dia. Tão logo finalizou uma bateria de fotos ao lado dos cozinheiros e garçons, sentou-se com os anfitriões.
– Essa situação é absurda. Os ataques são para enfraquecer o governo, e nós temos o dever de proteger o Palocci – pregou.
Conforme os senadores chegavam, aumentava o teor das reclamações contra o ministro e a escassa interlocução com o Planalto. Entre taças de vinho argentino e após degustarem rondelli com molho rosé, arroz à grega, filé grelhado e peixe com molho branco, Gleisi fez um desabafo ao ex-presidente.
– Estamos mobilizando todo o governo, a bancada na Câmara e no Senado, o PT, tudo por causa de uma questão pessoal do Palocci. E nem ele mesmo se defende. Não tenho problema em botar a cara a tapa, mas ele tem de se explicar – argumentou a senadora.
Lula disse que também se incomodava com a inércia de Palocci e encarregou-se de transmitir a insatisfação da bancada à Dilma, com quem jantaria mais tarde, mas exigiu dos senadores uma defesa intransigente do ministro.
– Quem acusa que prove. A Dilma precisa do Palocci do lado dela e o nosso papel é preservá-lo – pontuou.
Na saída, um Lula sorridente se deixou fotografar ao lado dos convivas. A imagem estampou a capa de sites e jornais, provocando a ira de Dilma. A presidente não se opôs ao encontro com os senadores, mas discordou do método, considerado exibicionista demais. Para ela, a imagem do petista reunido com a bancada passava a impressão de que era ele quem presidia o país. O desgosto se ampliou no dia seguinte, quando Lula repetiu a pose para fotos, desta vez ao final de uma reunião com líderes do PMDB na casa de José Sarney (AP).
– Ela ficou injuriada, p... da vida com esse troço. Ali, Lula deu a entender que Dilma não tinha autoridade ou que era incompetente para administrar a crise – diz um senador do PT.
Ao final do almoço com os peemedebistas, no mesmo 25 de maio, o ex-presidente voltou a São Paulo e retomou os conchavos. Na sede do seu Instituto Lula, despachou com dois ministros de Dilma. Enquanto Maria do Rosário (Direitos Humanos) aguardava para ser atendida, o petista conversava com José Dirceu. Ao final da audiência com a gaúcha, quem entrou foi Edison Lobão (Minas e Energia). Desta vez, quem esperava por uma brecha na agenda de Lula era Frei Chico, irmão do ex-presidente.
– Chico, você não é ministro, então espera mais um pouco – brincou o petista.
Embora mantenha restrições ao comportamento de seu antecessor, Dilma jamais brigou com o tutor político. Depois da intromissão exacerbada no caso Palocci, Lula fez um mea culpa e submergiu. No congresso do PT, em setembro, fez um discurso curto – de 11 minutos e 10 segundos – e considerado vazio pela militância. Logo no início, resumiu o motivo para o freio verbal.
– Pela primeira vez, estou diante de um grupo de companheiros do PT e sem saber o que falar. Primeiro porque não posso me meter nas coisas do partido, meu presidente já falou, e não posso entrar nas coisas do Brasil, porque a minha presidente vai falar.
No congresso do PT, Lula tentava adotar uma postura que ele mesmo havia preconizado como exemplar. Em 2008, incomodado com críticas desferidas por Fernando Henrique Cardoso, o petista afirmou que “o papel de um ex-presidente é ficar quieto e não dar palpites”. Fora da ribalta, contudo, Lula não consegue se conter. Em 22 de agosto, ele recebeu em São Paulo o ministro da Educação, Fernando Haddad, e o advogado-geral da União, Luís Inácio Adams. Aos ex-subordinados, cobrou explicações para a demora do governo no pagamento do piso nacional do magistério, promulgado por ele em 2008.
Por toda a Esplanada, há relatos semelhantes de intromissão lulista. Em maio, o ex-presidente teria ligado para a ministra do Meio Ambiente, Izabela Teixeira, pedindo uma solução para o impasse em torno do Código Florestal. Mais recentemente, ele reclamou com o titular da Fazenda, Guido Mantega, do ajuste fiscal que elevou em R$ 10 bilhões a meta de superávit primário.
– No caso do Lula, parece que tudo é permitido. A ausência da Dilma na condução dos temas políticos acaba consolidando essa permissividade – critica um raro desafeto do ex-presidente na direção do PT.
Tema de samba-enredo no Carnaval de 2012, festejado por uma barulhenta multidão ao chegar em Paris para receber o sétimo título de doutor honoris causa, Lula ainda não se habituou à vida na planície. Nos últimos dias de Planalto, durante o tradicional uisquinho de final de expediente com Gilberto Carvalho, ele já previa a dificuldade para “desencarnar do cargo”. Devolvido a um cotidiano de problemas prosaicos, como o conserto de goteiras no apartamento de São Bernardo do Campo, Lula bem que tentou. Ou pelo menos foi o que prometeu à mulher, Marisa Letícia, ao garantir que iria trabalhar menos e viajar pouco.
– Dona Marisa está uma arara porque o Lula não para em casa – revela um indiscreto conhecedor da rotina do casal.
Quando está em São Paulo, o ex-presidente despacha com regularidade na sede do Instituto Lula, um sobrado bege de 300 metros quadrados e fachada de vidro fumê na zona sul da capital paulista. É ali que ele recebe políticos, dispara telefonemas e projeta os próximos movimentos, assessorado por dois ex-ministros e uma equipe de 12 funcionários.
Na principal gabinete do instituto, decorado com um retrato oficial de Dilma com a faixa presidencial, Lula se dedica a seu mais importante objetivo: viabilizar a candidatura de Fernando Haddad à prefeitura de São Paulo. Para tanto, avalizou a ida do ex-presidente do Banco Central Henrique Meirelles para o PSD. A estratégia é dividir o eleitorado tucano na cidade, um tradicional feudo do PSDB. Lula está convicto de que assim pode repetir com o ministro da Educação o sucesso obtido por Dilma.
A eleição de 2012 é considerada fundamental na consolidação do projeto de poder do PT. Pregando uma renovação dos rostos do partido e abertura de espaços para candidaturas aliadas em algumas das principais capitais, como Rio, Porto Alegre e Belo Horizonte, Lula espera assegurar a fidelidade do PMDB, PDT e PSB em torno da reeleição de Dilma. Isso, claro, se nada de errado acontecer ao atual governo. Neste caso, o próprio Lula poderá ser o candidato – o ás na manga do PT.
Para Lula, ele e Dilma formam uma perfeita simbiose eleitoral. A presidente é bem avaliada pela classe média e alta – condição que provoca ciúme no petista, que se considera vítima de preconceito social por conta da origem de operário. Já ele é adorado pelo povão. Lula acha que faltam marcas fortes ao governo Dilma, como ele tinha o Bolsa-Família, o ProUni e o Minha Casa, Minha Vida, agora transformados em produtos eleitorais cujo know-how ele está levando para Cristina Kirchner, na Argentina, e Hugo Chávez, na Venezuela. Nada disso, contudo, tampouco uma eventual candidatura do senador Aécio Neves (PSDB-MG) em 2014, assusta mais o petista do que o julgamento do mensalão.
O processo que levou ao banco dos réus a antiga cúpula do PT deve chegar ao plenário do Supremo Tribunal Federal no segundo semestre do ano que vem, na antevéspera das eleições municipais. Embora considere o partido o mais vigoroso do país, Lula teme que uma condenação carimbe definitivamente no PT o rótulo de agremiação corrupta e fisiológica.
Na tentativa de evitar quaisquer riscos, Lula busca interferir na composição do tribunal. Antes de deixar o governo, ele já havia nomeado para a corte um ex-advogado de campanhas do PT, José Antonio Dias Toffoli. Em fevereiro deste ano, avalizou a escolha de Luiz Fux, indicado a Dilma pelo governador do Rio, Sérgio Cabral. Agora, Lula tem se preocupado com a vaga deixada por Ellen Gracie. Discreto e precavido, ele não sugere nomes à presidente, mas tenta descobrir se os favoritos à Corte já manifestaram opinião sobre o mensalão.
– O Lula não indica, mas veta. Ele faz chegar aos ouvidos da Dilma quem não pode ser ministro. Afinal, o projeto é até 2022, com o PT 20 anos no poder – resume um petista com trânsito no Planalto.
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