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“O Brasil não jogará no terreno dos EUA”

07 de janeiro de 2012 1

Entrevista         Mohsen Shaterzadeh, embaixador do Irã no Brasil

Por Fabiano Costa

Presa e torturada durante a ditadura, a presidente Dilma Rousseff incomodou o regime teocrático do Irã ao condenar as supostas violações contra os direitos humanos no país persa. Apesar de descartar um mal-estar entre os dois países, o chefe da chancelaria iraniana no Brasil, Mohsen Shaterzadeh, enfatizou em entrevista a Zero Hora, na última sexta-feira, que o Planalto saiu do eixo de parceiros prioritários de Teerã. Para o diplomata, Venezuela, Cuba, Bolívia, Equador e Nicarágua constituem hoje o rol de aliados estratégicos do país do Oriente Médio na América Latina. A seguir, a síntese:

Zero Hora – Qual é o objetivo da visita do presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, à América Latina?
Mohsen Shaterzadeh – A viagem é basicamente uma visita a amigos. Temos muitos projetos a serem firmados com alguns governos da América Latina. Uma comitiva de empresários iranianos acompanha o presidente Ahmadinejad. Pretendemos renovar e fortalecer as relações políticas e econômicas com Cuba, Nicarágua, Equador e Venezuela.
ZH – As relações entre Brasil e Irã esfriaram após a posse da presidente Dilma Rousseff?
Shaterzadeh – Não. O atual governo brasileiro é uma continuação da gestão Lula. Apesar do embargo dos EUA e da União Europeia ao petróleo iraniano, em 2011, o comércio bilateral entre Brasil e Irã ultrapassou US$ 2,3 bilhões. Além disso, temos outros US$ 2 bilhões atrelados a projetos em andamento.
ZH – Teerã se incomodou com o voto do Brasil no Conselho de Direitos Humanos da ONU a favor da nomeação de um relator especial para o Irã?
Shaterzadeh – O governo iraniano demonstrou um pouco de insatisfação. No entanto, consideramos o voto brasileiro característico de um país independente. Temos certeza que o Brasil não jogará no terreno dos EUA.
ZH – As reiteradas críticas de Dilma contra o apedrejamento de mulheres desagradaram o governo iraniano?
Shaterzadeh – Em uma tentativa de promover uma propaganda contra o regime de Teerã, os meios de comunicação ocidentais venderam outra imagem desta mulher iraniana condenada à morte por adultério, a Sakineh Ashtiani. Após as declarações de Dilma contra a condenação, esclarecemos o assunto com as autoridades brasileiras. Acredito que essa questão está sanada. As críticas da presidente não comprometeram a amizade entre os dois países.
ZH – Em uma entrevista durante o governo Lula, o senhor disse ver afinidades políticas entre o ex-presidente brasileiro e Ahmadinejad. O senhor considera que há afinidades entre Dilma e o chefe de Estado do Irã?
Shaterzadeh – O eixo de cooperação entre Brasil e Irã não se alterou no governo Dilma. Os dois países acreditam em justiça social, eliminação da pobreza e são contra atos cruéis e opressivos pelo mundo. As duas nações também pedem a reforma do Conselho de Segurança da ONU e têm propostas inovadoras para a paz no Oriente Médio. É óbvio que temos nossas diferenças, como nos aspectos culturais, mas os pontos de convergência são maioria.
ZH – No entanto, os dois países têm visões distintas em torno dos direitos humanos.
Shaterzadeh – Brasil e Irã enxergam o tema com o mesmo olhar. Ambos países acreditam que essa pauta não deve servir de instrumento político. O conceito de direito humanos tem de considerar a cultura e os costumes de cada povo. É natural que os costumes no Brasil sejam diferentes dos nossos, assim como são dos japoneses e dos italianos. A visão sobre os direitos humanos não deve ser a mesma dos EUA. É fundamental que a cultura de cada país seja respeitada.
ZH – Atualmente, quem são os parceiros prioritários do Irã na América Latina?
Shaterzadeh – Temos um intercâmbio comercial maior com o Brasil. Porém, nossos principais projetos de cooperação hoje estão vinculados a cinco países: Venezuela, Cuba, Bolívia, Equador e Nicarágua, nesta ordem. Investimos nessas nações aliadas em fábricas de automóveis, cimento, tratores e produção petroquímica, entre outros setores.
ZH – O governo iraniano ainda defende um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU para o Brasil?
Shaterzadeh – Claro. Não mudamos nossa opinião, enfatizada durante a visita do presidente Ahmadinejad ao Brasil, em 2009. Nós enfrentamos as mesmas dificuldades que o governo brasileiro no sistema político multilateral.
ZH – Na sua avaliação, houve uma guinada na política externa brasileira no governo Dilma?
Shaterzadeh – Seria melhor fazer essa pergunta para os analistas brasileiros. O Irã, entretanto, está convencido de que a política externa de Dilma é uma continuação da do ex-presidente Lula.
ZH – Como Teerã vê a reaproximação do Planalto com a Casa Branca?
Shaterzadeh – Respeitamos as políticas de qualquer país. O Brasil tem de seguir sua trajetória conforme seus interesses. No entanto, o governo iraniano é contra as políticas expansionistas e repressoras dos EUA ao redor do mundo. Teerã é contra a política repressiva e cruel imposta pela Casa Branca.






Crédito: Fabiano Costa

Embaixador do Irã, Mohsen Shaterzadeh, diz a ZH que críticas de Dilma não alteram parceria com o Brasil








Comentários (1)

  • Francisco Bendl diz: 12 de fevereiro de 2012

    As informações que os jornais brasileiros nos passam sobre o que de verdade existe, sub-repticiamente, nos conflitos árabes é insuficiente para uma análise mais ampla, salvo por especialistas e esses não escrevem para jornais.
    As dificuldades com o idioma, modos e costumes daquele povo, seus hábitos, sua fé inquebrantável no Islã, a história repleta de acontecimentos ora registrando impérios ora comprovando seus nomadismo e pobreza, caracterizam o povo como diferente, mas dotado de uma vontade férrea quando em busca de seus objetivos e impulsionados pelas promessas de seu líder maior, Maomé.
    Entretanto, os árabes estão divididos, não formam mais um povo ligado pela mesma língua e religião.
    A última tentativa para que essa união se fortalecesse foi com Gamal Abder Nasser, que fundou a República Árabe Unida, tendo como participante a Síria.
    De 1.948 para cá, os árabes têm colecionado derrotas seguidas com os israelenses. Em 67, a Guerra dos Seis Dias; em 73, a Guerra do Yon Kipur, afora a questão palestina ainda sem solução.
    Além do mais é um povo que não está acostumado com a democracia, com partidos políticos verdadeiros.
    Justamente esta desorganização política fragmentou os árabes como um povo, havendo países que são reinos, outros com regimes ditatoriais e outros governados por uma nobreza que possibilita mais conforto à sua população que os demais, exemplo:
    Emirados Árabes Unidos, composto por sete regiões administativas, entre elas Abu Dhabi, Dubai e outras.
    Os árabes estão divididos.
    Desta forma, frágeis para enfrentar invasões ou mudanças de governos à força, claro, com exceção das revoltas domésticas.
    Portanto, qualquer interferência estrangeira na Síria não encontrará obstáculo algum, a começar que os rebeldes que querem destituir o governo e pensarão que estão sendo auxiliados em suas intenções.
    Ledo engano.
    Mesmo com a interferência da Liga Árabe no sentido do atual presidente, Baschar Al-Assad, passar o cargo para seu vice-presidente, e este reunir o país em torno de uma reforma política, a verdade é que interesses internacionais se voltam para o Oriente Médio com olhares de cobiça e domínio.
    Ora, como a política internacional está atrelada à economia, possíveis sustos de descontrole residem em guerras que podem se alastrar, aumentando o custo do petróleo, alimentos, queda do dólar, queda no valor ações de empresas importantes no contexto global, enfim a instabilidade político-econômica indesejável.
    Da mesma forma que Bush mentiu descaradamente para o mundo que a invasão no Iraque se devia a depósitos de armas químicas devidamente “comprovados”, que não se achou absolutamente nada, hoje se diz que o Irã está fabricando a sua bomba atômica!
    Um pretexto muito parecido com aquele do Iraque, que justificou os americanos a tomarem o país árabe.
    Israel está preparado – como sempre – para esta batalha.
    Aguarda apenas o desenlace com a crise síria e autorização do Obama.
    Entretanto, esta rede intrigante de interesses dos poderosos não é aceita unanimemente.
    A Rússia, que outrora rivalizava com os Estados Unidos o poder mundial, faliu, quebrou.
    Perdeu seu poder e influência, terminando com a Cortina de Ferro, Queda do Muro de Berlim e a união entre as duas Alemanhas.
    O Comunismo só persiste à força, e a Guerra Fria foi sepultada com a extinta União das Repúblicas Socialistas Soviéticas.
    No entanto, a Rússia tem seus interesses a defender.
    Sabe que a guerra entre Irã e Israel fará com que os israelenses – que vencerão mais este conflito com a ajuda americana -, tome conta do Oriente Médio e de uma região altamente estratégica e rica em petróleo, além de ser o caminho que leva os grandes petroleiros a levar o óleo para o resto do mundo.
    Justamente pela divisão árabe, conflitos internos entre eles mesmos, o caminho está livre para este domínio absoluto, e esta guerra que não irá se alastrar para fora das cercanias daquela parte da Ásia (Irã) e Oriente Médio, em consequência, não existirão sobressaltos em bolsas de valores ou quedas de moedas ou aumentos de dívidas de nações já comprometidas economicamente.
    Acredito que a Rússia já tenha percebido esta manobra sórdida sim, que concederá mais territórios a Israel, além daqueles que já tomou e não devolveu em guerras passadas, desobedecendo centenas de determinações da ONU.
    Desta vez não será tão fácil ampliar seus limites, justificados como de proteção necessária contra o terrorismo e segurança ao país.
    Penso que esse desdobramento irá derramar sangue na quantidade de petróleo contido nos poços do Oriente Médio.

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