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“O desafio é levar a ciência a todo o país”

29 de janeiro de 2012 0


















29 de janeiro de 2012 | N° 16962

ENTREVISTA  Marco Antonio Raupp, ministro da Ciência e Tecnologia

Por Fabiano Costa


Há 50 anos longe do Rio Grande do Sul, o novo ministro da Ciência e Tecnologia, Marco Antonio Raupp, ainda cultiva as tradições gaúchas. Nascido em Cachoeira do Sul, o doutor em matemática pela Universidade de Chicago gosta de vestir bombacha nos finais de semana para assar churrasco e sorver mate com os oito filhos no sítio da família, em Minas Gerais.
Aos 73 anos e com longa trajetória em pesquisas, o ex-presidente da Agência Espacial Brasileira desembarca no primeiro escalão do governo Dilma Rousseff com o respaldo do meio científico. Sétimo ministro gaúcho ou com vínculos com o Estado, defende um mutirão para qualificar mão de obra. A síntese da entrevista:
Zero Hora – A presidente Dilma o incumbiu de alguma missão específica à frente do ministério?
Marco Antonio Raupp – Como integrei a equipe anterior como presidente da Agência Espacial Brasileira, minha gestão será de continuidade. A presidente me pediu para dar prosseguimento aos projetos da pasta e também para tentar não mexer muito na estrutura atual. Não pretendo fazer nenhuma reestruturação. Minha missão é fazer a roda girar mais rápido.
ZH – Qual será sua prioridade?
Raupp – Pretendo estabelecer dois pilares. Um deles é fortalecer a base científica e de pesquisa no país. Elas são matrizes de todas as atividades produtivas. É crucial ampliar e qualificar o número de profissionais, a infraestrutura dos laboratórios, os equipamentos, além de aumentar a capacidade de produção de conhecimento. Também é imprescindível melhorar o ensino técnico e universitário do país. O meu segundo pilar será levar a ciência para os parques industriais e apoiar a modernização do serviço público. Enfim, temos de valorizar e qualificar cada vez mais a infraestrutura da ciência e colaborar para o desenvolvimento das atividades produtivas.
ZH – Como conciliar desenvolvimento tecnológico e sustentabilidade?
Raupp – Temos o desafio de levar a ciência a todo o país, com sustentabilidade. Por exemplo, a ocupação da região amazônica tem de ser feita com conhecimento científico, para não corrermos o risco de dilapidar nosso patrimônio da biodiversidade. A ciência serve para equilibrar a utilização dos recursos naturais, explorar sem destruir. É uma preocupação que vale também para a exploração dos recursos do pré-sal em mares profundos.
ZH – Qual é o setor brasileiro mais defasado tecnologicamente?
Raupp – A área de tecnologia industrial é um desafio que temos de atacar, juntamente com o setor produtivo. A Confederação Nacional da Indústria tem se envolvido com o governo para tentar solucionar esse gargalo. Por outro lado, há setores industriais com um bom nível de desenvolvimento tecnológico, como o petrolífero e de aviação. O agronegócio também é um setor moderno e competitivo. Alcançamos nesse mercado o nível tecnológico de países desenvolvidos.
ZH – A recente parceria entre Embraer e Telebrás para gerenciar o Satélite Geoestacionário Brasileiro será replicada em outros projetos do governo?
Raupp – Sem dúvida. O setor produtivo tem de participar e investir mais no desenvolvimento tecnológico. As próprias empresas irão se beneficiar, capacitando-se para a competição global. Essas parcerias são fundamentais para a iniciativa privada. Estamos vivendo um bom momento do país e temos de aumentar o investimento privado na ciência nacional.
ZH – Como o senhor pretende contornar a falta de mão de obra especializada no país?
Raupp – Pretendo trabalhar afinado com o Ministério da Educação, abrindo novos cursos técnicos e investindo na formação de engenheiros e cientistas. Contudo, não é algo que será resolvido em três anos, afinal, é um problema histórico. Precisamos implementar uma política que ultrapasse vários governos. A ação tem de ser de longo prazo, com muito investimento na educação básica. Não existe desenvolvimento cientifico sem educação de qualidade. Por isso, a presidente celebrou durante a minha posse o casamento da Ciência e Tecnologia com a Educação. Segundo ela, as duas pastas têm de atuar em conjunto.
ZH – O déficit de profissionais especializados, especialmente na área de engenharia, compromete de alguma forma nosso desenvolvimento tecnológico?
Raupp – Não digo que comprometa, mas atrapalha muito. Estamos fazendo um grande esforço para recuperar terreno. Não é à toa o grande investimento do governo em educação nos últimos anos.
ZH – Mas mesmo com o aumento dos investimentos, ainda há um abismo entre os gastos do Brasil e de outros países emergentes, como China e Coreia do Sul. Quanto tempo levará para alcançarmos um nível semelhante?
Raupp – Faz cinco décadas que a China faz um esforço massivo em educação. Queremos alcançar esse grau de investimento, mas não é tão fácil fazer um mutirão em um país com uma diversidade tão grande como a nossa. Não é só questão de dinheiro, é mobilização das mentes. O governo tem que atender muitas demandas, e as crises econômicas que ocorrem ocasionalmente acabam afetando as políticas públicas.
ZH – Criado há 11 anos, o Ceitec produziu seus primeiros chips em volume comercial em 2011. Na sua gestão, qual vai ser o foco da estatal?
Raupp – Estou me atualizando agora sobre a situação do Ceitec. Até então, não acompanhava o desenvolvimento da planta de chips gaúcha. Na minha avaliação, o Ceitec tem de ser uma fonte de pesquisa para a indústria, inclusive, desenvolvendo produtos. Porém, industrialização massiva é função do setor privado.


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