Pular a barra do clicRBS e ir direto para o cabeçalho.
 

Pelo toma lá dá cá, aliados param país

26 de março de 2012 0

Por Kelly Matos

O motim deflagrado pelos partidos aliados expõe uma resistência à tentativa da presidente Dilma Rousseff de romper com sistema que há décadas norteia as relações entre o Congresso e o Planalto.

Inflexível na disposição de não mais trocar apoio às votações de interesse do governo por cargos ou liberação de recursos, Dilma criou um impasse que paralisou a Câmara e assusta os articuladores políticos da Presidência.

– Essa queda de braço não é boa. Ou o governo percebe que tem de dialogar e fazer concessões ou a guerra vai piorar – avisa um dirigente do PMDB, principal sócio da coalizão governista, mas que tem insuflado a rebelião.

Ao trancar a pauta de votações em repúdio à postura de Dilma, os deputados querem forçar um recuo do Planalto. Não há argumento, contudo, que convença a presidente a aceitar as barganhas. Na quarta-feira, após ser informada de que o consórcio governista iria obstruir a votação da Lei Geral da Copa, Dilma reagiu com indiferença.

– Eles querem obstruir? Que obstruam. Ninguém vai morrer se não votar agora – sentenciou a presidente.

Na ocasião, a ministra das Relações Institucionais, Ideli Salvatti, havia sugerido a Dilma que estabelecesse uma data para votar o novo Código Florestal, em troca da aprovação da Lei Geral da Copa. O acerto já havia sido costurado com os partidos da base, mas Dilma manteve-se irredutível. No mesmo dia, ela aproveitou a posse da diretora-geral da Agência Nacional de Petróleo, Magda Chambriard, para mandar um recado explícito ao Congresso.

– Não tenho nenhuma dúvida de que a maioria dos brasileiros cansou de conviver com a nossa fama de país do “jeitinho” – discursou.

Desde o primeiro ano de governo, a presidente já havia dado sinais de que não manteria o estilo despojado do antecessor. Enquanto Lula recebia líderes partidários, promovia jantares no Palácio da Alvorada e aceitava indicações para cargos estratégicos, Dilma sempre demonstrou falta de traquejo para a política varejista. Por sugestão de Lula, porém, ela estava disposta a promover em 2012 uma série de ações na tentativa de se aproximar dos aliados.

Uma atitude vista pelo Planalto como uma provocação dos senadores, contudo, levou a presidente a endurecer o jogo. Há duas semanas, a petista estava discutindo um cronograma para liberação das emendas quando soube que o Senado havia vetado a recondução de Bernardo Figueiredo, seu amigo, à direção da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT).

– A presidente engoliu em seco, mas avisou: eles vão pagar caro por isso – revela um assessor palaciano.

Desde então, a situação se agravou. Sem consulta aos partidos aliados, Dilma substituiu os líderes do governo na Câmara e no Senado, congelou as negociações para a troca dos ministros do Trabalho e dos Transportes e cancelou a organização de encontros com as bancadas. O troco não tardou. Os deputados votaram a demarcação de terras indígenas à revelia do Planalto e convocaram a depor os ministros da Fazenda, Guido Mantega, do Planejamento, Miriam Belchior, e o presidente da Comissão de Ética, Sepúlveda Pertence, que investiga supostas irregularidades envolvendo o ministro do Desenvolvimento, Fernando Pimentel.

– O governo quis pagar pra ver e o resultado esta aí: uma derrota avassaladora – provoca um graduado peemedebista.

Com elevados índices de aprovação popular, Dilma, que ontem se encontrou com empresários (veja reportagem na página 22), pretende se valer da popularidade para dobrar os congressistas, passando à opinião pública a imagem de que não se intimida com chantagens e traições. Assessores próximos à presidente, contudo, estão preocupados com a falta de soluções para o impasse em prazo curto.

– Vamos ver se o humor dela muda depois da Índia. Quem sabe se inspira no Gandhi e volta mais tranquila – afirma articulador do Planalto.

Envie seu Comentário