Entrevista:
Joesley Batista, presidente da holding J&F
Por Carolina Bahia
O homem que negocia a compra da construtora Delta e que deseja reerguer a Doux Frangosul no Estado é viciado em trabalho. Joesley Batista, o presidente da holding J&F não tem hobby, não vê televisão, não vai ao cinema ou se dedica a outra leitura além dos relatórios das companhias que compra. Dono da JBS, maior empresa de produção de proteína animal do mundo, com faturamento de R$ 60 bilhões anuais, agora se arrisca no mundo das empreiteiras. Aos 40 anos, está no olho do furacão de um dos maiores escândalos do país porque resolveu fazer mais um negócio. A compra da Delta, a principal empreiteira do PAC, envolvida no escândalo do bicheiro Carlinhos Cachoeira, vai depender se a empresa for considerada inidônea ou não. Por enquanto, é o responsável pela gestão dos contratos e faz questão de negar interferência do governo Dilma. Joesley mora em São Paulo, na cobertura de um condomínio de luxo. No andar superior, guitarras, bateria e brinquedos revelam o lugar favorito dos três filhos e do recém-chegado netinho Joesley Neto. Foi nessa cobertura que recebeu ZH, mas a conversa continuou a bordo de um Mercedes-Benz. Enquanto checava mensagens, recebeu recados do ex-ministro da Agricultura Wagner Rossi e do presidente do conselho da J&F, o ex-presidente do BC Henrique Meirelles. A seguir, os principais trechos da entrevista.
Zero Hora – A JBS arrendou as unidades da Doux em Montenegro e Passo Fundo. A empresa pretende comprar definitivamente as unidades?
Joesley Batista – O primeiro passo foi arrendar, mas a ideia é efetivar a compra. Vamos investir no setor a partir do Rio Grande do Sul, que tem vantagens competitivas.
ZH – Do que depende a compra?
Batista – É uma ótima empresa, tem tecnologia, know how e profissionais de alta qualificação. Mas é controlada pela Doux francesa, que, devido à crise na Europa, enfrenta dificuldades. A solução que achamos foi arrendar as unidades enquanto a empresa, com calma, negocia dívidas. Se o tamanho da dívida for equivalente ao patrimônio, temos a opção de comprá-la pela dívida.
ZH – O senhor se incomoda com críticas à presença do BNDES na JBS?
Batista – Me incomoda por vários aspectos. Nossa empresa é modelo no mundo todo, menos no Brasil, onde é criticada. O BNDES é sócio de uma empresa de capital aberto, listada na bolsa. Pode comprar e vender ações livremente. O banco é sócio da JBS por única e exclusiva decisão dele, apoiou o desenvolvimento de uma empresa brasileira.
ZH – Qual é o peso político do governo nos negócios da JBS?
Batista – Nenhum. A BNDESPar é sócia de mais de 500 empresas e tem 30% da JBS. A discussão de misturar investimentos do BNDES com questões políticas é descabida.
ZH – O que levou a JBS a se interessar por empresa que está envolvida com CPI e pode ser considerada inidônea?
Batista – A JBS é a nossa empresa mais importante. Mas a controladora é uma holding chamada J&F. Então, quem fez esse negócio não tem nada a ver com a JBS, nada com o BNDES. E a holding não comprou a Delta nem assumiu passivo, fez um acordo de gerenciamento por meio da sua gestora. Nós temos uma gestora de fundos e estamos gerindo um fundo que é proprietário das ações da Delta. A nossa holding já vinha estudando o setor de infraestrutura, e o que fizemos foi identificar na Delta uma empresa de grande porte, a sexta maior do país. Estamos lá fazendo o mesmo trabalho da Controladoria Geral da União (CGU), que é olhar contrato a contrato. Não posso julgar uma empresa de 35 mil funcionários baseado na atitude de dois ou três dirigentes. A Delta tem mais de 200 contratos. Se for considerada inidônea, nossa auditoria chegará a essa conclusão.
ZH – Se chegarem a essa conclusão, vocês se retiram?
Batista – Seguramente. Nós nos interessamos por uma empresa que funcione de forma saudável e que seja operacional.
ZH – A missão é salvar obras do PAC?
Batista – Não temos compromisso com o PAC ou com contrato A, B ou C. O compromisso gerenciar e auditar. Nossa meta não é salvar nada, é entender a empresa. Caso fique provado que teve problema isolado com dirigentes, já afastados, temos interesse.
ZH – O interesse por uma empresa construtora veio após o início da CPI?
Batista – Não, não foi. Desde que saí da presidência da JBS e fui presidir a holding, fizemos um plano de investir em empresas em setores nos quais o Brasil tem vantagens competitivas e planos de desenvolvimento.
ZH – Qual a participação do ex-presidente Lula nesse negócio?
Batista – Nada, eu não conheço o Lula. Na verdade, conheço, mas ele não me conhece. Não só ele, como a Dilma. Eu os conheço, mas eles não me conhecem. Talvez dos jornais. Isso é uma tentativa de achar algo mirabolante em comum. Eu não vou dar um passo antes de ter certeza. A CPI só diz respeito ao passado. Seria um prazer recuperar mais essa empresa.
ZH – O governo Dilma deu o aval para fechar o negócio?
Batista – Isso é outro devaneio de pessoas que querem achar algo. Não preciso de aval para fazer negócio, sequer pensaria em pedir. Por que pedir aval para comprar ou vender uma empresa? Eu não comprei e sequer vendi.
ZH – E a declaração do seu irmão, Junior? Ele disse: “imagina se o Henrique Meirelles vai fazer um negócio que o governo não quer”.
Batista – Foi uma infelicidade do Junior. Há mais de sete anos ele não participa da empresa. Não é que ele disse o que não podia, ele disse o que não sabia. Ele mora em Goiânia, e não em São Paulo. Quem administra a empresa sou eu, que sou presidente da holding. Não passou de uma opinião pessoal dele. Ele, como todo mundo, achou que tinha governo no meio.
ZH – Vocês entraram no negócio sem colocar um centavo, como foi isso?
Batista – Temos a opção de compra. Se nós verificarmos que é uma empresa sustentável e resolvermos exercer a opção de compra, o pagamento será feito com a distribuição de lucros futuros. Vamos pagar através do resultado.
ZH – O senhor negociou com Fernando Cavendish (antigo proprietário da Delta)? Antes ou depois do nome dele ser relacionado com Cachoeira?
Batista – Sim, eu e ele fizemos o acordo. Eu não conhecia a Delta, achava que era uma empresa pequena de Goiás com suspeita de envolvimento com esse Carlinhos Cachoeira, de quem não tinha ouvido falar.
ZH – Vocês são de Goiás e não conheciam o Cachoeira?
Batista – Nós moramos muitos anos em Brasília. A nossa relação sempre foi mais com Brasília do que com Goiás. Aos sete anos, eu saí de Formosa e fui morar em Brasília. Meu pai, nos anos 50, morava em Anápolis, mas acho que nessa época o Cachoeira nem existia. É coincidência a JBS ser de Anápolis, meu irmão Junior e o Cachoeira também. Tem todos os ingredientes para uma imaginação fértil florescer.
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