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Agora ficou mais fácil

19 de julho de 2010 5

Alguém aí gosta de viver? Pode parecer uma pergunta idiota, mas tenho certeza que todos que me lêem um dia já quiseram morrer. É claro, trata-se de um desejo momentâneo, que se racionalizado com maior minuciosidade, sucumbe. Explico-me: naquela bebedeira, quando a gente bebe "até morrer" e acorda parecendo que a cabeça foi atingida pela bigorna do pernalonga; ou então quando acontece aquele mico e todo mundo vê. Quem nunca passou por isso?

Semana passada eu passei por uma dessas. Sei lá por que acordei de manhã com uma diarréia muito forte e vômito, bastante vômito. Estou acostumado a ficar sem ar, ter problemas de pulmão, esses são "fichinha" para mim. Mas, confesso, viro um maricas quando tenho problemas gastrointestinais. Eu queria morrer! Eu confesso! Fiquei fraco, não conseguia levantar da cama, estava mais pro morto do que vivo. Porém, com essa minha nova saúde, dois dias depois eu já estava comendo até sola de sapato.

Brincadeiras à parte, confesso que um pouquinho da sensação do ano passado. Querer morrer era algo quase constante, tão constante que quase tinha se tornado comum. Eu nem ligaria se morresse. Paradoxal? Sim. No entanto, com outros olhos, olhando pra trás e vendo tudo que passei, me pergunto: como eu aguentei tantos perigos de morte, como se fossem tão comuns, tão corriqueiros? O que tenho eu no peito? Um coração de ferro pra aguentar isso tudo?

E me lembro que dei a resposta pro mesmo amigo que fez essas perguntas: instinto de sobrevivência. É bom estar vivo, nem que seja nas piores condições, principalmente sabendo que há esperança, e que as mudanças podem vir logo. E vieram, eu estou aí. Aguentei e consegui, e, por incrível que pareça, foi mais fácil que pensei e faria tudo de novo. Sou, de novo, filho, irmão, primo, neto, sobrinho, namorado, amigo, colega, conhecido e até desconhecido, mas que o meu exemplo sirva para que se mostre a vida de um outro ângulo, que ela sempre pode ser difícil.

De novo sou um bebê que completa um ano, e, por isso, convido todos que me lêem a comemorar essa nova fase, ou melhor dizendo, meu outro aniversário:

Quando? 22/07/2010
Onde? Matita Perê  - Rua João Alfredo, 626
Que horas? A partir das 19:30

Podem levar quem diabos quiserem. Até o mesmo o diabo, a gente enfrenta ele mesmo, até porque para mim sempre parecerá fácil viver.

O jogo do Brasil

25 de junho de 2010 0

Há dois meses marquei uma broncoscopia para o dia de hoje, 25/06/2010. Felicidade de passar quase dois meses do hospital, sem ter que ir a consultas e fazer exames. Nenhum contato com os ares de um lugar que eu passei mais tempo que a minha própria casa no ano passado. E que felicidades!

Para se ter uma ideia, quando apareço no bloco cirúrgico para fazer esse procedimento, uma espécie de endoscopia no pulmão, o pessoal faz festa lá, fico conversando com todo o pessoal, desde a faxineira até o cirurgião-geral, que fez o meu transplante, passando pelos técnicos em enfermagens, residentes e enfermeiras. E hoje não foi diferente. O pessoal me recebeu com o carinho que faz, paradoxalmente, o bloco cirúrgico do pavilhão Pereira Filho parecer uma segunda casa, uma espécie de Pasárgada, pois lá sou tratado como rei. Aliás, hoje foi diferente sim, esqueço que hoje foi muito diferente.

Abasteci minhas duas baterias do celular, pois ele tem tv, peguei o livro Lucíola, o qual estou relendo para preparar uma aula, e pensei comigo a experiência que iria passar: vou assistir o jogo do Brasil direto do bloco cirúrgico. E se conseguir assistir, se conseguir acordar da anestesia do procedimento.

Era 10:00 em ponto, eu lendo e esperando na recepção do hospital, quando o recepcionista me manda subir ao segundo andar. Chego lá, sou recebido e me visto com uma roupa asséptica que me traz uma nostalgia. Pego o celular, o fone e a bateria reserva. Eu tinha uma esperança que, de repente, fizessem o procedimento depois da partida. Porém, a enfermeira foi logo me avisando, feliz, que não havia cirurgias naquele dia e que os procedimentos iam ser feitos rapidamente, todo mundo lá queria ver o jogo.

Fui para a sala de espera e não esperei nem quinze minutos, quando fui encaminhado para a sala de cirurgia. Deitei, fui puncionado, e fiquei conversando com o residente, um argentino de Córdoba. Discutimos as chances de Brasil e Argentina se encontrarem num confronto mais adiante na copa. Perguntei a ele se os brasileiros eram hostis em tempos de campeonato mundial: ele me respondeu que sim, e que os argentinos não eram assim. Lamentamos a ignorância do povo brasileiro. Conversamos sobre Argentina X México e um possível Brasil X Suíça ou Brasil X Chile. Foram as últimas lembranças que eu tive, pois enquanto eu falava que preferia o primeiro confronto, senti que a anestesia entrava na minha corrente sanguínea e eu começava a "viajar" loucamente.

Acordei muito sonolento na sala de recuperação. Era 12:15. Pedi, em meio a bocejos e espreguiços, para a enfermeira do setor que me alcançasse o celular. Coloquei o fone e acompanhei um segundo tempo enfadonho, que me fez sentir que não havia perdido nada. Na verdade, depois fiquei sabendo que perdi uma bola na trave do Nilmar e uma cabeçada perigosa do Luís Fabiano. Menos mal. Fiquei sabendo, também, que enquanto eu estava "viajando" (a partir do momento que eu não lembro mais nada), comecei a xingar o Maradona para o médico residente, dizendo que o Pelé era infinitamente melhor e que não fazia gol com as mãos, e que o time da Argentina iria "se afogar de tequilas" no jogo contra o México. Para a minha vergonha, dizem que adormeci sussurrando o hino nacional. Não adianta, está no inconsciente brasileiro a rivalidade. Ainda bem que eu não me responsabilizo e não posso julgar os meus atos quando estou "viajandão".

Mais uma história. Achei que seria uma ótima maneira de retornar ao blog. Quem é transplantado, sempre será, obviamente. Com jogo do Brasil ou não, a vida continua.

Postado por Luís Fernando

O caso das agulhas

18 de dezembro de 2009 0

Sempre achei que eu lia coisas muito macabras, sádicas, diferentes, etc. Trata-se de Nelson Rodrigues, Rubem Fonseca e outros autores em que o adultério rola solto, a violência é de todas as formas é bem comum. No início eu me achava um pouco estranho, como no dia, há alguns anos atrás, que eu lia um conto erótico do livro "As melhores histórias eróticas da literatura universal" no ônibus e ficava pasmo com a sacanagem que a narrativa trazia, ficava olhando pros lados pra ver se alguém se sentia ofendido.


Depois de algum tempo fui entender o porquê do meu fascínio por histórias assim. O estranho me fascina de algum modo que eu não sei explicar. É sentimento, não tem explicação. Me apego a uma frase que li esses tempos do Nelson Rodrigues, que diz que "O personagem vive a vida que devia ser nossa, que recusamos". Tendo as minhas limitações físicas, de repente a literatura é uma forma de sentir algo perigoso, sentir uma sensação de quem está fazendo um esporte radical, o que na teoria literária chamamos de "catarse".


Então, o que repugna aos outros, muitas vezes me atrai, principalmente por essa capacidade de promover catarse nos outros. Adoro ler coisas que escandalizam, e um dia serei um escritor desse tipo. Acho que a arte é uma forma de quebrar barreiras. Mas em alguns momentos, confesso eu, também fico horrorizado quando vejo nos noticiários situações em que só queria que tivessem acontecido em livros: semana passada um pai (ou padrasto) enfiou 40 agulhas em uma criança. 40 agulhas!


Eu, que passei por um transplante, que perdi as contas das agulhadas que já levei, faço de tudo para evitar um confronto com a "pontiaguda". Semana passada coloquei um "portocat", um dispositivo que vai embaixo da pele, perto da clavícula, que fica aberto para só colocar a medicação endovenosa. Tudo para evitar agulhas, evitar o sofrimento.  Imaginem então fazer isso com uma criança!


É desumano isso que aconteceu, lamentável, caso de literatura. Se fosse ficção, causaria catarse, pois torcemos para que aconteça com o personagem o que não queríamos que acontecesse conosco. Não podemos punir os livros, tendo em vista que o que ali é descrito é ficção, não acontece. Mas esse caso foi realidade, e esse pai (ou padrasto) deve ser bem punido.

Postado por Júnior

Um cordel para falar de transplante

01 de dezembro de 2009 1
Os versos acima são de um homem que conhece de perto a dor de quem necessita de um transplante. De um pai que viveu os piores momentos de sua vida quando assistiu o filho desenvolver uma insuficiência renal e depender da hemodiálise para sobreviver. De um médico que dedica a vida à saúde pública e que transforma suas rimas em informação. Daquelas que emocionam. E salvam. Os versos são de um cordel escrito por Ernando Alves de Carvalho, o pai de Ernando Filho, 37 anos, transplantado no dia 28 de abril deste ano. Pai, também, de Eduardo José, 31, o doador. Personagens de uma história rimada que recebeu o nome de Fila da esperança, título de uma reportagem sobre transplantes publicada no Diario de Pernambuco apenas dois dias antes da cirurgia que libertou Ernando Filho da diálise. E devolveu a paz ao pai que tanto sofreu.

Confira a animação do cordel

Nas estrofes, Ernando, o médico, conta uma saga. E deixa uma lição de solidariedade e, sobretudo, de amor. Em 1997, seu filho mais velho descobriuque tinha uma doença chamada glomerulonefrite, que pode fazer com que os rins percam gradativamente a capacidade de filtrar o sangue. Foi dado início a um longo tratamento conservador à base de remédios, na tentativa de controlar a inflamação dos rins. Sem sucesso. A função renal foi parando aos poucos e em junho de 2007 Ernando começou a apresentar sintomas que nunca tinha sentido antes: cansaço, náuseas, enjôo, dores na barriga, falta de apetite. "Passei quatro dias sem vontade de comer ou beber. Só queria ficar deitado", contou. Naquele mês, tiveram início as sessões de hemodiálise.

"Doar órgãos ou tecidos é grande prova de amor que vai salvar uma vida ou diminuir a dor de quem jamais desespera e na longa fila espera esse gesto salvador"
Trecho do cordel

Engenheiro mecânico e professor de duas escolas em Salgueiro, Ernando Filho teve que largar o trabalho. Sua agenda estava cheia. Tinha hemodiálise três vezes por semana, quatro horas por dia. Sem contar com a viagem de uma hora e meia entre Salgueiro e Barbalha, no Ceará, onde fez a maior parte das sessões. Foi assim durante mais de dois anos. Festas de Natal não eram mais as mesmas. Havias restrições por todos os lados e a hemodiálise nunca deixava Ernando ficar no Recife, com os pais, o tempo que quisesse. E como se não bastassem os incovenientes do tratamento, seu organismo ficou debilitado e surgiram complicações. Ernando teve um derrame pleural, que ocorre quando há acúmulo de líquido em excesso entre as membranas que recobrem os pulmões. Foram 40 dias de internamento e um outro obstáculo a vencer: a depressão.

Mas o drama finalmente teve um final feliz, como diz o pai do professor no seu cordel. Sem doador cadáver, a solução veio da maior fonte de força e esperança de Ernando Filho: sua família. "Logo que os rins dele paralisaram, a família decidiu que alguém ia ser o doador", contou Ernando, o pai. E assim, foi. Eduardo, o caçula, deu sua maior prova de amor pelo irmão mais velho. Se antes, quando eram crianças, eles dividiam o mesmo quarto, hoje, partilham um bem muito mais valioso. A vida. Ernando Filho voltou a trabalhar neste mês. Eduardo, que seguiu a carreira do pai, retomou suas atividades cerca de cinco semanas apósa doação. Hoje, os dois levam uma vida normal. Como era antes.

"Este belíssimo gesto / por meu filho praticado / de doar pra seu irmão / o rim que foi transplantado / foi grande prova de amor / que tem bastante valor / e deve ser imitado", diz outro trecho do cordel, um símbolo da alegria e da necessidade de um pai (ou seria de um médico?), de, por meio da sua história, sensibilizar as pessoas para uma causa tão nobre. É o desabafo de um homem que não conteve as lágrimas quando viu seus dois filhos entrarem na sala de cirurgia. Um com a missão de dar nova vida ao outro. E a solidariedade de um homem que imprimiu e distribui gratuitamente 1 mil exemplares do livreto, dando continuidade à missão que assumiu quando se formou médico. A de salvar.

Para saber mais, clique aqui.
Fonte: Diário de Pernambuco

Postado por Júnior

Brasil estuda mudar legislação de doação de órgãos

28 de novembro de 2009 1

O ano de 2010 pode ser de avanço para a ampliação das doações e transplantes de órgãos no Brasil. Técnicas de remoção depois de o doador sofrer parada cardíaca podem ser adotadas no país, de acordo com Valter Duro Garcia, presidente da Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO).

De acordo com o atual regulamento do Sistema Nacional de Transplantes, podem doar órgãos e tecidos apenas pacientes que sofreram morte encefálica "Para fazer o procedimento após ocorrer uma parada cardíaca, não exclusivamente pela morte encefálica, será necessária uma mudança na legislação brasileira", afirmou Garcia.

Espanha, Holanda, Inglaterra, França e Estados Unidos usam técnicas para retirar órgãos após a parada cardíaca por causa do baixo número de mortes encefálicas. "Pela qualidade de vida, há poucos derrames. Também houve queda nas mortes violentas. Geralmente, a morte encefálica ocorre em pessoas idosas, cujos órgãos não serão adequados para uma criança, por exemplo", disse.

 

O procedimento consiste em fazer massagem cardíaca no paciente por 40 minutos para tentar reanimá-lo. Caso não reaja, outra equipe faz nova massagem por mais cinco minutos para manter a viabilidade do funcionamento dos órgãos. No paciente, é colocada uma máquina extra-corpórea que bombeia sangue por duas horas pra todo o corpo para manter os órgãos vivos. Outra possibilidade é a implantação de um catéter no coração que joga solução gelada no organismo.

 

Se a família autorizar a doação, os órgãos são retirados. "Isso exige mais agilidade e equipamentos mais avançados", avaliou Garcia. "Essa discussão deve começar no ano que vem no Brasil. A implantação dessas novas técnicas seria gradual. Nos primeiros dois anos, apenas três ou quatro hospitais mais capacitados do país poderiam implantar esse método", afirmou.

 

Segundo Garcia, novos marcadores de doação e transplantes serão implantados um Brasil a partir de 1º de janeiro de 2010. Para uniformizar o padrão de classificação dos doadores no mundo, a OMS (Organização Mundial da Saúde) elaborou uma nova metodologia de análise do processo de doação e deve implantá-la a partir de março de 2010 na rede de saúde mundial.

 

Para saber mais, clique aqui.

Fonte: eBand

Postado por Júnior

Nem com hipnose

26 de novembro de 2009 1

Parece que a vida está voltando ao normal. Me dei conta disso hoje, quando estava no corredor da faculdade, saindo da aula, conversando com a minha namorada. Parei, olhei pra ela e disse:


"Não te deu conta?"

"Do quê, Luís Fernando?"

"Estamos saindo da aula, caminhando, estou com a minha mochila nas costas, com um pão de queijo na mão, um cafezinho na outra, subindo as escadas, comendo e ainda por cima conversando. Coisa que seria impensável alguns meses atrás, estaria com o pulmão lá nas costas."


Rimos e fomos felizes, quem sabe nem demos tanta importância quanto deveríamos. Às vezes acabo me cobrando por parecer não dar tanto valor, a vida voltou tanto ao normal, tanto trabalho na faculdade, tantas revisões de trabalhos acadêmicos que estão surgindo pra mim (o que significa trabalho e $$$), tantos cuidados que tenho que ter com a saúde que o transplante às vezes parece uma coisa que foi distante. Mas uma coisa tão necessária para essas coisas que eu estou vivenciando que me pego de repente na escada, na esteira, comendo, e outros momentos pensando em como as coisas estariam se eu ainda estivesse esperando o transplante.


***


Ontem, como em toda zona norte de Porto Alegre, faltou luz durante mais de meia hora aqui em casa. Como somos totalmente dependentes da eletricidade, fiquei sem o que fazer, não podia assistir tv, acabar de corrigir os trabalhos no computador, nem tomar banho podia! Pensei em ler um pouco, aproveitar esse tempo, mas não tínhamos vela nem lanternas.


Aí gritei brincando: "mãe, vê aí o cilindro de oxigênio reserva". Fui xingado por fazer brincadeiras de mal gosto, mas cheguei à conclusão que existem coisas que a memória não consegue apagar, e não vai conseguir. Passei por momentos tão fortes que nem com hipnose para fazer eu esquecer. Por mais trabalhos, estudos ou tarefas que eu tenha, tenho certeza que sempre vou parar por aí e relembrar aqueles momentos que eu estava ligado a um tubo de oxigênio. E que isso não pareça algo ruim, porque faz eu dar muito valor à situação que eu me encontro agora. O mal de antigamente foi necessário para que eu desse valor agora. E eu sempre vou dar, por mais que pareça que não.

Postado por Júnior

Quase um mês

20 de outubro de 2009 3

Estou há quase um mês internado aqui no hospital. Nesse meio tempo não consegui fazer nada, a não ser ler alguns livros. A rotina do hospital é muito desgastante. A recuperação, no entanto, está sendo boa, quem sabe ainda recebo alta essa semana. Aí então volto às atividades normais aqui no blog, afinal tenho algumas histórias legais para contar.

Postado por Júnior

Teledomingo

29 de setembro de 2009 3

A pedidos de quem não viu, segue abaixo minha reportagem no programa Teledomingo:

Postado por Júnior

Dia de São Cosme e Damião

27 de setembro de 2009 7

Quando eu tinha sete anos, tempos difíceis, ganhei da minha mãe uma imagemzinha de São Cosme e Damião. Não foi à toa que ela me deu, a data deles é 27/09, justo o dia do meu aniversário. Outra coincidência seria dizer que são eles  os responsáveis pelo primeiro transplante (bíblico), um transplante de pé. Também não é por acaso que hoje foi escolhido como dia Nacional da Doação de Órgãos. Justo no dia em que nasci, há 23 anos.

Quando recebi aquela imagem da minha mãe, já era eu um predestinado a receber dois pulmões? Eu estava prestes a ter uma pneumonia que me deixou com sequelas respiratórias, as bronquiectasias, que me acompanharam até a troca de órgãos. Mas eu tinha vida normal, como criança qualquer, adorava o Batman, os Changemans, tive um atari e gostava de comer chiclete ping-pong. Aliás, tinha problemas terríveis nos ouvidos, assistia televisão no último volume ou colado no alto-falante. Daí fiz várias cirurgias e consegui corrigir os problemas, apesar de ter ficado com perdas e usar aparelhos auditivos.

Foi tornando-se parte da minha rotina, aos poucos, durante a adolescência, não poder correr, ter dificuldade para jogar futebol ou qualquer atividade física que exigisse esforço. Lembro que notei que havia algo errado num dia de sol, em Capão da Canoa, em que fomos à orla para jogar um futebolzinho. Eu tinha 14 anos. Acho que joguei não mais que dez minutos e bufei, mas isso era normal. Até os meus amigos já estavam acostumados. Mas dessa vez eu senti muita dor de cabeça, não entendi o porquê. Parei, diminui o ritmo e aos poucos foi passando. Mas logo que eu acelerava o passo minha cabeça latejava. Anos mais tarde fui descobrir que era falta de oxigenação do cérebro, que foi bom eu ter parado ou se não iria parar desacordado na areia.

Entretanto isso não foi páreo para minha adolescência. Fui um aluno aplicado, participei do Grêmio Estudantil do meu colégio e sempre gostei de ter meus amigos em volta. Bebi (e bastante), fiz festa e toquei em banda, tudo sempre com a capacidade limitada, cada vez tossindo mais. Por ser progressiva, cada vez que eu tinha infecção o pulmão piorava. Chegou ao ponto de eu não conseguir mais subir lombas, sofrer para subir um lance de escadas, ter que evitar certos caminhos para não me cansar tanto. Só que foi tudo aos poucos, eu nunca soube o que era respirar bem. Então não fazia sentido, eu não reclamava, sempre achei que a vida era respirar pouco mesmo. Ao longo de 23 anos eu sempre tentei levar uma vida normal, só que foi ficando cada vez mais visível que estava mais difícil respirar. Tanto que no último ano antes de entrar pra lista de espera e usar oxigênio eu era companheiro inseparável da bombinha, não podia ficar sem, tinha sérias crises de falta de ar se fizesse esforço. Isso já era em 2007, já estava na faculdade e dando aulas em pré-vestibular. Alunos meus ficavam apavorados com minha falta de ar quando eu falava, achavam que eu ia passar mal. Mas, por incrível que pareça, continuei minhas atividades até o momento que não aguentei mais, não estava conseguindo ter caminhar direito, dar aula, tomar banho e comer. Tive que me mudar para um lugar que tinha elevador porque não conseguia subir as escadas do meu prédio. Larguei minha banda porque não conseguia mais nem carregar meu teclado. Eu estava cansado e com 43 kg, sem nenhuma
qualidade de vida. Meus pulmões não estavam mais dando conta, eu respirava somente 13 %.

Com isso tudo o médico deu o veredicto final: a única solução viável era o transplante. De lá para cá esses dois meses de espera foram angustiantes, porque a doação não dependia de mim, nem dos meus pais, nem dos parentes, nem de ninguém. Só do doador, que também não sabia que seria. Portanto, nesses últimos dois anos e um mês de espera fiquei indo e vindo ao hospital, podendo receber a ligação na semana seguinte ou três anos depois, podendo sobreviver (minha doença estava progredindo) mais dois ou três anos ou quem sabe uma semana, com a vida "quase parada".

Enfim os órgãos vieram e tudo isso ficou para trás, ficou só na memória como aprendizado. Hoje, um pouco mais de dois meses do transplante, ganhei uma nova imagem de São Cosme e Damião. A minha, que eu ganhei há muito tempo, já estava velhinha. É um compromisso que tenho, agora mais do que nunca, com a doação de órgãos. Eles estão ali pra sempre me lembrar disso, de que eu nunca iria imaginar que estaria numa lista de transplante, me submeter a um procedimento tão radical assim. E por isso eu digo que temos que ser doador, se queremos receber, temos que pensar na possibilidade de doar. Sim, é fato que ninguém sabe a hora que vai morrer, obviamente, é muito drástico ter morte encefálica. Aliás, se eu soubesse quem foi meu doador antes de ele doar seus dois pulmões para mim eu convidaria-o para tomar uma cerveja bem gelada num boteco (se isso fosse materialmente possível). Pena que a vida não é assim e transplantado não pode beber. Cosme e Damião me olhariam de cara feia.

Postado por Júnior

Faltam médicos capacitados

21 de setembro de 2009 0

De cada seis potenciais doadores de órgãos no Estado de São Paulo apenas um é identificado, segundo dados da Secretaria Estadual de Saúde. Ao contrário do que se possa imaginar, o aumento da doação de órgãos não acontece por resistência das famílias, mas pela falta de preparo dos médicos em identificar os possíveis doadores.

“Hoje, aproximadamente 70% das famílias autorizam o transplante. Mesmo em um momento de luto, as pessoas são extremamente solidárias”, afirma Sonia A. Coria, da Central Estadual de Transplantes.

Segundo informações da Secretaria de Saúde, o Estado de São Paulo registrou um crescimento de 61% na doação de órgãos de janeiro a agosto de 2009 frente ao mesmo período de 2008. Foram 430 pessoas que tiveram pelo menos um dos órgãos aproveitados, contra 266 do ano anterior.

O número ainda pode aumentar substancialmente nos próximos anos. Mas, para isso, segundo especialistas ouvidos pelo Último Segundo, é preciso investir na formação dos profissionais da área de saúde.

A falta de critérios é o principal empecilho para o crescimento. “Temos muitas notificações [avisos de órgãos para doação], mas que são contraindicadas assim que chegam porque os médicos simplesmente acham que não servem”, critica Reginaldo Carlos Boni, coordenador da Central de Transplantes do Estado e diretor de captação de órgãos da Santa Casa de São Paulo. “Alguns médicos chegam a dizer às famílias para não doar porque é complicado”, acrescenta.

Segundo Boni, ainda há resistência no diagnóstico da morte encefálica – que permite a doação do maior número de órgãos – porque, culturalmente, ela não é bem aceita na sociedade. Pelo fato do coração bater, acredita-se que o paciente esteja vivo. “O cérebro morreu, mas o paciente continua quente, corado. É difícil para a família entender”, acrescenta Leonardo Borges, Coordenador da Organização de Procura de Órgãos do Hospital das Clínicas.

A Finlândia foi o 1º país a reconhecer a morte encefálica como outra morte qualquer, em 1977. No Brasil, porém, apenas com a resolução 1480, de 1997, a morte encefálica foi equiparada à morte clínica.

Segundo Borges, o assunto precisa ser tratado com mais rigor também nas universidades. “Os alunos têm aula de morte encefálica, mas não entendem o processo como um todo”, diz. “É essencial que eles saibam como funciona do início ao fim - desde o diagnóstico, até a entrevista familiar e o transplante”, afirma.

A falta de profissionais preparados para atender essa situação não é um problema só do Estado de São Paulo. A secretária Luciene Aparecida Lajes, de 28 anos, de Belo Horizonte (MG), conta que teve dificuldades para doar os órgãos do filho Matheus Henrique, de 8 anos, que morreu após um acidente de carro em março de 2007.

“Depois que aceitei a doação, ninguém nos deu atenção. A gente que tinha de ligar para saber como estava o processo”, afirma ela, explicando que seu filho morreu em uma terça-feira e os órgãos só foram retirados na madrugada de quinta-feira.

Mesmo assim, ela diz que não se arrependeu do ato e aconselha outras famílias a tomar a mesma decisão. “É muito difícil fazer isso em um momento de perda, mas deixar que seis pessoas renasçam é uma forma de acalento”, diz. “Hoje, sei que tenho seis filhos espalhados por esse mundo”.

Para saber mais, clique aqui.

Fonte: Último Segundo - http://ultimosegundo.ig.com.br

Postado por Júnior