Quando eu tinha sete anos, tempos difíceis, ganhei da minha mãe uma imagemzinha de São Cosme e Damião. Não foi à toa que ela me deu, a data deles é 27/09, justo o dia do meu aniversário. Outra coincidência seria dizer que são eles os responsáveis pelo primeiro transplante (bíblico), um transplante de pé. Também não é por acaso que hoje foi escolhido como dia Nacional da Doação de Órgãos. Justo no dia em que nasci, há 23 anos.
Quando recebi aquela imagem da minha mãe, já era eu um predestinado a receber dois pulmões? Eu estava prestes a ter uma pneumonia que me deixou com sequelas respiratórias, as bronquiectasias, que me acompanharam até a troca de órgãos. Mas eu tinha vida normal, como criança qualquer, adorava o Batman, os Changemans, tive um atari e gostava de comer chiclete ping-pong. Aliás, tinha problemas terríveis nos ouvidos, assistia televisão no último volume ou colado no alto-falante. Daí fiz várias cirurgias e consegui corrigir os problemas, apesar de ter ficado com perdas e usar aparelhos auditivos.
Foi tornando-se parte da minha rotina, aos poucos, durante a adolescência, não poder correr, ter dificuldade para jogar futebol ou qualquer atividade física que exigisse esforço. Lembro que notei que havia algo errado num dia de sol, em Capão da Canoa, em que fomos à orla para jogar um futebolzinho. Eu tinha 14 anos. Acho que joguei não mais que dez minutos e bufei, mas isso era normal. Até os meus amigos já estavam acostumados. Mas dessa vez eu senti muita dor de cabeça, não entendi o porquê. Parei, diminui o ritmo e aos poucos foi passando. Mas logo que eu acelerava o passo minha cabeça latejava. Anos mais tarde fui descobrir que era falta de oxigenação do cérebro, que foi bom eu ter parado ou se não iria parar desacordado na areia.
Entretanto isso não foi páreo para minha adolescência. Fui um aluno aplicado, participei do Grêmio Estudantil do meu colégio e sempre gostei de ter meus amigos em volta. Bebi (e bastante), fiz festa e toquei em banda, tudo sempre com a capacidade limitada, cada vez tossindo mais. Por ser progressiva, cada vez que eu tinha infecção o pulmão piorava. Chegou ao ponto de eu não conseguir mais subir lombas, sofrer para subir um lance de escadas, ter que evitar certos caminhos para não me cansar tanto. Só que foi tudo aos poucos, eu nunca soube o que era respirar bem. Então não fazia sentido, eu não reclamava, sempre achei que a vida era respirar pouco mesmo. Ao longo de 23 anos eu sempre tentei levar uma vida normal, só que foi ficando cada vez mais visível que estava mais difícil respirar. Tanto que no último ano antes de entrar pra lista de espera e usar oxigênio eu era companheiro inseparável da bombinha, não podia ficar sem, tinha sérias crises de falta de ar se fizesse esforço. Isso já era em 2007, já estava na faculdade e dando aulas em pré-vestibular. Alunos meus ficavam apavorados com minha falta de ar quando eu falava, achavam que eu ia passar mal. Mas, por incrível que pareça, continuei minhas atividades até o momento que não aguentei mais, não estava conseguindo ter caminhar direito, dar aula, tomar banho e comer. Tive que me mudar para um lugar que tinha elevador porque não conseguia subir as escadas do meu prédio. Larguei minha banda porque não conseguia mais nem carregar meu teclado. Eu estava cansado e com 43 kg, sem nenhuma
qualidade de vida. Meus pulmões não estavam mais dando conta, eu respirava somente 13 %.
Com isso tudo o médico deu o veredicto final: a única solução viável era o transplante. De lá para cá esses dois meses de espera foram angustiantes, porque a doação não dependia de mim, nem dos meus pais, nem dos parentes, nem de ninguém. Só do doador, que também não sabia que seria. Portanto, nesses últimos dois anos e um mês de espera fiquei indo e vindo ao hospital, podendo receber a ligação na semana seguinte ou três anos depois, podendo sobreviver (minha doença estava progredindo) mais dois ou três anos ou quem sabe uma semana, com a vida "quase parada".
Enfim os órgãos vieram e tudo isso ficou para trás, ficou só na memória como aprendizado. Hoje, um pouco mais de dois meses do transplante, ganhei uma nova imagem de São Cosme e Damião. A minha, que eu ganhei há muito tempo, já estava velhinha. É um compromisso que tenho, agora mais do que nunca, com a doação de órgãos. Eles estão ali pra sempre me lembrar disso, de que eu nunca iria imaginar que estaria numa lista de transplante, me submeter a um procedimento tão radical assim. E por isso eu digo que temos que ser doador, se queremos receber, temos que pensar na possibilidade de doar. Sim, é fato que ninguém sabe a hora que vai morrer, obviamente, é muito drástico ter morte encefálica. Aliás, se eu soubesse quem foi meu doador antes de ele doar seus dois pulmões para mim eu convidaria-o para tomar uma cerveja bem gelada num boteco (se isso fosse materialmente possível). Pena que a vida não é assim e transplantado não pode beber. Cosme e Damião me olhariam de cara feia.
Postado por Júnior