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Feiras, livros e vaidades

31 de outubro de 2011 1

Marcel Citro*

Entre a feira do livro de Porto Alegre e a feira de Frankfurt, na Alemanha, existe uma distância muito maior do que os 10 mil quilômetros que os aviões comerciais percorrem em uma dúzia de horas. A feira europeia, terminada no último dia 16, é um encontro editorial de proporções gigantescas, o maior do mundo. Nela, foram comercializados os títulos que seremos instados a adquirir em 2012. Sim, porque as escolhas literárias, nesse mundo midiático, também pertencem apenas em parte ao leitor.

Já a feira do livro de Porto Alegre é um espaço tradicional para onde convergem as atenções dos leitores e livreiros locais. Foi um evento mais valorizado na era pré-shopping, antes das promoções diárias e do ar-condicionado perfeito; e principalmente na civilização pré-internet, antes que pudéssemos comprar e postar a informação da compra em dois clics. Apesar disso, é um espaço ainda presente no coração e na mente do escritor iniciante.

O autor esperançoso, com os originais debaixo do braço, enxerga a miríade de pontos-de-venda e escuta o alarido no pavilhão de autógrafos perguntando-se quando chegará a sua vez. Traz na cabeça o caminho a ser percorrido: ser recebido por um editor de ponta, publicado, lido, admirado; para em seguida receber elogios da crítica e vender mais e mais livros. Nos seus sonhos mais recônditos, chega a pensar no impensável: ganhar algum dinheiro com a literatura.

Tenho uma coisa a dizer a você, escritor iniciante de todas as idades (algo que as vezes tenho que repetir em voz alta!): guarde o seu melhor amor para os filhos, o cônjuge, ou mesmo o gato. Não se apaixone por sua obra, por melhor que lhe pareça, nem gaste o seu verbo bradando contra a profusão de títulos estrangeiros que abarrotam as bancas e subtraem o seu espaço. Em economia, não existe almoço grátis, e literatura, em última análise, também é business. Publicam-se autores estrangeiros em detrimento dos locais porque já foram testados e aprovados nos seus países de origem (basicamente Estados Unidos e Europa Ocidental), e o editor brasileiro prefere investir numa tradução que pode lhe render um novo Dan Brown a garimpar talentos em oficinas literárias ou em sua própria pilha de originais não lidos. Calculam-se riscos, projetam-se ganhos. É o capitalismo.

Para nós, iniciantes contumazes, sempre existirão as obras coletivas, as edições sob demanda e os concursos literários. A esperança de que um dia alguma porta se abra. E a certeza de que a literatura, como diriam os estancieiros do lado de cá do rio Uruguai, é tal qual uma amante argentina: exigente, vaidosa, imprevisível. Podemos entregar-lhe o corpo, quiçá a mente, mas a alma só deve ser ofertada após inequívocos sinais de reciprocidade.

* Escritor, vencedor do Prêmio Açorianos de Criação Literária 2010

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Comentários (1)

  • Joao Batista Junior diz: 1 de novembro de 2011

    É impressionante como essas palavras me convencem, aprecio muito a arte de literar, e sempre pensei assim: apenas guarda-las para futuras nostalgias. Por que o verdadeiro valor dessa arte só é atribuido por nós mesmo, os proprios autores, e esse nao é monetário, mas muito maior, pois , cada palavra, encontra-se no âmago de nossa essência.

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