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Artigo: Ensino Médio Politécnico, uma reflexão necessária

07 de março de 2012 13

Evandro Saldanha Jochims*

Faz doze anos que estou no magistério. Durante esse tempo, participei de vários cursos de formação, fiz minha especialização e pude testemunhar um bom número de propostas que viriam supostamente mudar a Educação para melhor. Os diversos problemas enfrentados pelos professores no cotidiano da sala de aula, com suas quase que infinitas variáveis, seriam resolvidos por meio do estudo de teorias e pela mudança das práticas pedagógicas. Sempre se falou que o processo levaria algum tempo, porém atingiríamos os resultados esperados.

Atarefados, estressados, cansados e pessimistas com tantas tentativas antes frustradas, os professores em geral recebem bem as novas propostas, pois acreditar nelas funciona acima de tudo como uma espécie de autoajuda, motivando e nos impulsionando a superar os obstáculos e seguir em frente de cabeça erguida. Somos levados a pensar que o fracasso de ontem pode se converter no sucesso de amanhã. E assim continuamos este trabalho tão sublime e ao mesmo tempo tão desafiador que é formar os jovens que serão a sociedade de amanhã, instrumentalizando-os para que tenham uma vida feliz num mundo cada vez mais competitivo.

No final do ano passado, mais uma vez nos foi apresentada uma nova proposta de mudança. O chamado Ensino Médio Politécnico surgia no horizonte como uma alternativa de superação deste modelo falido de ensino em que a escola se acha sufocada. Na escola de hoje, tal como há 200 anos, o professor transmite um saber engessado, fora de contexto e encaixotado em disciplinas separadas, como se a vida fosse assim, com os acontecimentos se sucedendo de forma organizada e bonitinha, como numa linha de montagem. Viver é complicado. Viver, muitas vezes significa administrar o caos. É preciso que se tenha a capacidade de resolver não um problema de cada vez, mas muitos ao mesmo tempo. Por isso, a escola precisa integrar saberes, misturar conceitos e multiplicar habilidades. Ao professor hoje não basta conhecer bem a sua disciplina. É preciso que conheça um pouco de todas, que tenha essa capacidade de opinar sobre assuntos os mais diversos e que o faça com propriedade.

A proposta do Ensino Médio Politécnico, tal como aconteceu com as Lições do Rio Grande, prega tudo isso. É um referencial teórico e metodológico razoavelmente bem organizado, que visa integrar as áreas do conhecimento e assim proporcionar uma formação mais condizente com a realidade atual. Durante os encontros regionais dos quais participei, uma série de inovações nos foi proposta, tais como aulas acontecendo em turno oposto, novas disciplinas agregadas ao currículo escolar e horas disponíveis para que os professores pudessem melhor preparar as suas aulas. Além disso, um professor de cada área atuaria como coordenador, integrando as áreas do conhecimento e contribuindo para a elaboração e execução de projetos interdisciplinares.

Pouco mais de duas semanas após o início das aulas, nada de turno oposto, nada mais de professor coordenador nem da disciplina de Linguagens e Tecnologias Aplicadas, que supostamente forneceria o suporte teórico para que os seminários e projetos funcionassem adequadamente, e isso para não falar aqui de outros entraves. Fica a lição: por mais que se tenha boas ideias, projetos maravilhosos e necessidade de mudança, é preciso planejamento, formação adequada, investimento em infra estrutura e valorização profissional. Na atual conjuntura em que o professor se acha inserido, não é desta forma que as coisas funcionam. Com a contínua desvalorização do professor tanto financeiramente quanto profissionalmente, implantar quaisquer mudanças se torna inviável. Se não há recursos sequer para que se pague o Piso Nacional do Magistério, como será possível a implantação de projetos de mudança tão impactantes? Como ter coordenadores de área e professores para atuar em salas de informática e bibliotecas, se nem para ministrar aulas se tem? Em muitas escolas faltam professores para uma ou mais disciplinas. Os alunos estão sem estas aulas.

Existe uma grande distância entre o que se propõe e o que efetivamente é possível implementar. Considero-me muito otimista em relação às novas propostas que surgem e às mudanças tão necessárias, porém vejo que somente otimismo ou idealismo não são suficientes. Se não houver comprometimento, coerência e investimentos adequados, o Ensino Médio Politécnico poderá cair no esquecimento, repetindo o que já ocorreu com outras tentativas de mudança e melhorias. Iniciei este ano de 2012 com grande empolgação ao entrar nas salas de aula e receber os alunos, hoje, porém, as perspectivas não são boas. Tomara que eu esteja errado.

*Professor

Comentários (13)

  • HENRIQUE diz: 7 de março de 2012

    Lamentavelmente, o professor que escreveu este artigo tem a mente engessada. O pensamento dele e as palavras que ele usou, todo o professor reproduz. É um bitolamento assustador. Se outros dez professores tivessem escrito este artigo, eles teriam usado 95% das mesmas palavras. Ou seja, a falculdade de educação e o meio em que vivem é completamente bitolante. Nao agrega nada. Mas isso nao é culpa deles.

  • clovis de oliveira rocha diz: 7 de março de 2012

    Concordo em grande parte com o exposto pois sou professor e vivencio tais experiências.Nosso desafio além de conquistar o Piso está em manter nossa paixão pela profissão e fingir acreditar que o próximo governo não transforme tudo em Pó.

  • ELIEZER diz: 7 de março de 2012

    Colega Professor!
    Sinto-me exatamente igual a sua situação, pois após sermos enganados, no mês de dezembro; com 13 aulas p/20h, com 5h para coordenação de Área do Conhecimento, mais os ditos Seminários com os alunos, em turno oposto, hj, resumiu-se em 3 horas no total destinado a todas as 4 áreas de Conhecimento. Portanto, é uma falcatrua o que fazem conosco, e, além de tudo ouvir o André Machado, da Rádio Gaúcha comentar que os professores não aceitaram o piso de 1500 reais no outro Governo, por favor ele também precisa se informar melhor da nossa situação! Estou indignada.

  • Henrique Menezes Avancini diz: 7 de março de 2012

    Parabéns ,ao professor excelente texto exibiu a realidade nua e crua da nossa educação até quando como tudo nesta pais boas ideias mas pouco planejamento e comprometimento por parte de quem criou a ideia nenhum.Pobre de nossos filhos nesta verdadeira experiencia cientifica minha nossa até quando.

  • Carla B. Morais diz: 7 de março de 2012

    So esqueceram de ensinar na faculdade ou fornecer material para o professor se preparar nas férias, para ensinar agora o que nem mesmo ele sabe…. Nem o tema, nem o conteúdo. Pode isso ?
    Como o aluno vai ter uma disciplina de pesquisa, com a biblioteca interditada pois o telhado esta totalmente precario, chovendo no livros, escolha que não tem assinatura de jornais, que possui um laboratorio de informatica com apenas 10 computadores para turmas de 30 alunos, que não possui espaço para turno inverso e na qual os professores coordenadores não receberam nada, nem chamado pela CRE para saber do que trata o seminario, nem formação alguma, nem no site da SEDUC se informa nada sobre os conteúdos a serem trabalhados.
    Estamos 3 periodos em sala de aula com a disciplina “Seminario Integrado” enchendo verdadeiramente, “linguiça”. Como vou eninar meu aluno a pesquisar sem fonte de pesquisa disponivel? devo eu pesquisar entre uma aula e outra de matemática que dou 40hs ? Como vou ensina-los a fazer um projeto sem computadores e impressoras disponiveis num mesmo momento? Que troca faremos no seminario sem pesquisa, sem projeto? – Se alguem puder me salvar desta “deriva” por favor escreva-me.
    Att.

    Prof Estadual – Novo Esteio

  • José Antônio diz: 8 de março de 2012

    Não consigo mais entender os “professores”.

    Recebem um aumento que nenhuma outra categoria ganhou e do governo pelo qual tanto lutavam em gestões anteriores. O que fazem? Beicinho.

    Falam que a educação é velha, estanque e tudo o mais. O governo lança um projeto que tem seus avanços (e suas precariedades, como sempre vai haver). O que fazem? Corpo mole.

    Reclamam disso e daquilo. Em vez de fazer greve, então, fazem tricot em sala de aula.

    Lamuriam-se que a mídia distorce os fatos, mas nem leem nem ensinam então as crianças a lerem “corretamente” as notícias.

    O problema é que hoje os professores não sabem mais o que querem! São pessoas de nível político e cultural que não faria inveja a uma ditadura paupérrima, mas vivem com sonhos finlandeses.

    Professores, o problema não é o governo que sempre lhes quer fazer mal ou alunos que não querem nada com nada. O problema é essa vontadezinha não declarada, e explorada ideologicamente, de que as coisas não deem certo.

  • Evandro Saldanha Jochims diz: 8 de março de 2012

    Caro Henrique,
    já faz tempo que rotular o professor de “bitolado” virou “moda”. Se nosso pensamento ou nossa prática não agregam nada, como dizes, então por que será que todas as profissões necessitam obrigatoriamente de um professor para poderem ser postas em prática? Alguns de nós podem estar desatualizados ou mesmo cansados por estarem numa eterna areia movediça, sempre correndo atrás das perdas históricas que nossa categoria vem acumulando, porém estamos sim senhor fazendo nosso melhor, sempre buscando inovar nas nossas aulas, embora recebamos muito pouco apoio do poder público ou de pessoas como você, que gostam de menosprezar a profissão e de rotulá-la de “desnecessária” para a sociedade. No dia em que o professor deixar de existir, a própria sociedade deixará de existir.
    Não estamos recebendo o maior aumento da história, conforme apregoado, pois tal valor nem sequer atinge o Piso Nacional, reconhecido em Lei por um país que tenta resgatar do buraco a sua Educação, décadas atrás dos países desenvolvidos.
    Por fim, nossas preocupações e reivindicações não são lamúrias, são muito verdadeiras e retratam muito bem o cotidiano de uma categoria de profissionais que sabe das dificuldades e dos desafios que enfrenta a cada dia. Mesmo assim, entramos em sala de aula, saudamos os alunos com alegria e tentamos fazer com que aquela aula tenha algum significado para quem está sentado ali. É uma pena que muitas pessoas não nos vejam desta forma nem reconheçam a importância que temos. Modernamente, é comum que as pessoas considerem “criar” um filho como significando somente dar as necessidades mais básicas, como alimentação e vestuário. Todo o resto, bem, isso fica a cargo do professor. Um abraço a todos, e obrigado pelos elogios e pelas críticas também, elas me fazem ainda mais forte.

  • José Antônio diz: 9 de março de 2012

    Caros professores

    O dia em que lágrima for dinheiro, nenhum professor vai se preocupar com o piso.

    Se está tão ruim assim, por que não vão fazer outra coisa?

    Poucos professores merecem mais que o piso. A sociedade paga na exata medida do produto que recebe. Se esse produto é ruim e ainda vem banhado em lágrimas, por que pagar caro?

    Um abraço e um toque do José Antônio para o movimento docente

  • Débora diz: 10 de março de 2012

    Tenho 25 anos e sempre quis ser professora porque tive ótimos mestres. É bem verdade que nem todos eram excelentes, mas aprendi muito com cada um deles. Aprendi com uma outra colega que é preciso ter “brilho no olho”, ou seja, paixão. Nesta semana ouvi comentário muito parecido com o teu. Se sabe que está ruim porque vão para esta profissão? Honestamente, não aconselho nenhum dos meus alunos a fazê-lo. Hoje me vejo apaixonada por uma profissão que não me dá retorno financeiro desejado e me questiono: devia fazer uma coisa que dá dinheiro? mas e se eu não tiver mais “brilho no olho”? será que a saída para a iniciativa privada seria a solução? Não tenho a resposta destas perguntas, mas tenho a convicção de uma coisa: enquanto a educação pública de qualidade não for a luta de uma sociedade nada do que está aí vai mudar. Concordo quando dizem que há vários professores que não merecem ser chamados de profissionais. Há outros tantos que perderam o “brilho no olho”. E a pergunta que me faço: será que um salário melhor não estimularia talentos juvenis a investirem na carreira do magistério? ou será que esta máxima de que melhores salários atraem melhores profissionais não é válido para o ensino público?

  • Elisandro Saldanha Jochims diz: 13 de março de 2012

    Em resposta ao que disse o Sr. José Antonio tenho a dizer que de falácias o mundo está cheio, mandar procurar outra coisa pra fazer é conversa de político que não quer pagar o que ESTÁ NA LEI. Antes de dizer que a sociedade retribui o valor aos maus serviços prestados pelos professores, deveria colocar a sua profissão em cheque, para que pudéssemos também tecer nossos comentários. Qual é a sua profissão Sr. José? Será que o Sr. tem merecido realmente seu salário?

  • Gilberto Sidnei dos Santos diz: 22 de fevereiro de 2013

    O Professor Evandro está certo no que diz, mas entendo que o problema é muito maior.Nós , profissionais do ensino e da educação temos servido de marionetes dos governos, pois eu pergunto: Qual o projeto e desenvolvimento do nosso país e que coloca o Ensino e a Educação como base para concretizaçao deste?Nenhum e nós professores, alunos, comunidade ficamos sendo usados por diferentes IDEOLOGIAS POLÍTICAS, não para resolver os problemas desta área, mas sim “enfiar guela a baixo” seus pensamentos.Hoje é Marx, amanhã será quem? Deveríamos orgaizar um Fórum de debate sobre este e outros temas.

  • Cristina Chiaramonte diz: 13 de agosto de 2013

    Prof. Evandro, sou professora e “embarquei” na mesma ideia. Na teoria uma conquista fascinante, na prática o “caos”. Alunos descontentes, confusos, colegas tão perdidos a ponto de deixar os períodos reservados aos seminários como momento de descanso onde os alunos brincam com seus celulares, escrevem “poeminhas” nas mesas com corretivo…dormem. Gostaria de ter respostas, gostaria de estimular meus colegas, mas ainda não encontrei o argumento, ainda não consegui entender como passar muitas horas “descansando” vai ajudar a desenvolver meu aluno ou como criando um plano de “recuperação” que aprove a todos independente dos méritos vá contribuir para melhoria da qualidade de ensino.Estamos fazendo estatística…isto não é ensinar, nem preparar um indivíduo para a vida, é passar o tempo, fingir.
    Alguém poderia me auxiliar a encontrar um caminho?

  • Cristina Chiaramonte diz: 13 de agosto de 2013

    Sr. Gilberto, concordo plenamente.
    Os professores desconhecem seu poder.
    Com tanta comunicação através das redes sociais, nos mantemos calados. Vamos usar nossa arma mais poderosa.Professores falem!!

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