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Artigo: Medicina em rota de colisão

19 de junho de 2012 23

Stephen Doral Stefani*

Eu costumo visualizar os avanços em Medicina como um grande transatlântico, em velocidade de cruzeiro, em alto mar. Impressiona pela tecnologia. Já os custos em medicina são facilmente representados como um iceberg. Dá para ver a ponta, mas a maioria dos gastos são uma incógnita. Seja porque são custos indiretos (como, por exemplo, do absenteísmo) ou porque são resultados de desvios e desperdícios. Não precisa ser muito criativo para ver onde isso vai dar. Transatlântico e iceberg: inevitável lembrar do Titanic.

Em 1995, foi publicado interessante ensaio sobre os dados estatísticos do desastre marítimo no Journal of Statistics Education. A taxa de mortalidade em passageiros de classes econômicas menores foi quase o dobro comparados as classes mais abastadas. Outro paralelo fácil de traçar com saúde. Há alguns dias a Organização Mundial de Saúde publicou dados que mostram que, apesar de ter aumentado em uma década, o Brasil gasta pouco com o setor em comparação com a média mundial. Enquanto o mundo gasta em média 14,5% do produto interno bruto (PIB) em saúde, o Brasil não chega a 6%. Países ricos chegam a 17% e países africanos 9,6%.

Cabe mencionar que aproximadamente 50% gastos em saúde no país são concentrados nos 20% de brasileiros que tem planos de saúde. Os outros 80% que só tem acesso ao Sistema Único de Saúde (SUS) utilizam a outra metade. A iniquidade impressiona. O número de leitos merece um capítulo. Enquanto os europeus tem 68 leitos para cada 10 mil habitantes, o Brasil tem 26. É certo que a população européia é mais velha e pode demandar mais utilização, mas a saúde no velho continente é praticamente socializada. No Brasil, a dificuldade de leitos é sistêmica mas muito mais grave no sistema público. Bom, feito o diagnóstico, o que pode ser feito? Definitivamente, não podemos nos dar ao luxo de usar energia e tempo arrumando as cadeiras no convés. A meta deve ser modificar curvas de aumento de custo e as diferenças entre o sistema público e privado, para que não tomem proporções oceânicas.

Análises de custo-efetividade e políticas de saúde devem refutar tecnologias que não agregam valor relevante. Reengenharia tributária a fim de desonerar a área médica deve ser considerada. Sofisticação e criatividade — feita por profissionais e não apadrinhados políticos — no controle de fluxos gerenciais são importante. E, principalmente — não só pelos recursos que se perdem, mas também pela indignação que gera — crimes e desvios devem ser punidos rigorosamente. Lutamos para evitar catástrofes e perdas de vidas mas, sem mudanças de rumo, a colisão é uma questão de tempo.

*Médico oncologista

Comentários (23)

  • Dinei diz: 19 de junho de 2012

    Dr Stephen Doral Stefani, é compreensivel tamanha demonstração dessa inquietação, que não somente a você, mas inferniza a maioria do povo. O descaso com a saúde no Brasil é sentida a tempos, mas vem arrastando se a décadas nas favelas de um País onde tem se como prioridade o CARNAVAL, o FUBEBOL e tantas outras coisas insignificantes, essa enfermidade estende se na segurança, no sistema educacional.

    Um antidoto eficaz, ou ao menos que iria aliviar dando ensejo a um infimo fio de esperança teria que emergir dos governantes, que, ao invés de usurparem o povo, burlando a confiança que um dia foi depositada no intuíto de que esse País que chamamos de PATRIA AMADA,que faça jus ao nome, que tenham senso ético e o usem, em benificio dessa debilitada e sofrida gente.
    Tantas carências minguando a nação e os olhos do governo preocupado com o G + 20.

  • Dinei diz: 19 de junho de 2012

    Dr Stephen Doral Stefani, é compreensível tamanha demonstração dessa inquietação, que não somente a você, mas inferniza a maioria do povo. O descaso com a saúde no Brasil é sentida a tempos, mas vem arrastando se a décadas nas favelas de um País onde tem se como prioridade o CARNAVAL, o FUBEBOL e tantas outras coisas insignificantes, essa enfermidade estende se na segurança, no sistema educacional.

    Um antídoto eficaz, ou ao menos que iria aliviar dando ensejo a um ínfimo fio de esperança teria que emergir dos governantes, que, ao invés de usurparem o povo, burlando a confiança que um dia foi depositada no intuíto de que esse País que chamamos de PATRIA AMADA,que faça jus ao nome, que tenham senso ético e o usem, em benificio dessa debilitada e sofrida gente.
    Tantas carências minguando a nação e os olhos do governo preocupado com o Rio + 20.

  • Angela Maieski diz: 19 de junho de 2012

    Dr. Stephen, eu diria que o senhor é um otimista, a colisão já ocorreu e não há botes para todos, portanto, usam-se as macas nos corredores. O radar também não funcionou, talvez por estar estragado, não permitindo um bom raio-x do iceberg, paciente, a espera da resolução. Devios de verba, má administração, impostos que oneram a saúde, seja através de equipamentos, seja nos medicamentos, fatos que o senhor expôs em outras palavras. Enquanto isso, seres humanos sofrem com a epidemia, ou seria pandemia, causada pelos vírus da ineficiência e descontrole.

  • joao roberto diz: 19 de junho de 2012

    Ops; preocupação com o meio ambiente também é saudável. RIO+20, de verdade.

  • Paulo Bento Bandarra diz: 19 de junho de 2012

    Acho o título errado. Não é a medicina que está em colisão, mas o Governo que está em rumo de colisão com a população, o verdadeiro iceberg. A medicina tem respostas que não são colocados para acesso a população por culpa do governo e seu desgoverno crônico nos gastos. Saúde, educação e segurança só tem prioridades em palanques eleitorais, passada as eleições, nada é feito, a não ser para economizar para gastar em outras áreas. A assistência médica só não foi a pique porque grande parte da população paga duas vezes por ela. Paga os impostos altos e paga planos de saúde para ter alguma assistência quando necessitar. O governo promete agora cobrar dos planos uma terceira vez, quando o associado usar a rede pública de todos, que recairá no bolso do associado fatalmente.

  • josé luiz bicca heineck diz: 19 de junho de 2012

    Os 10 bi que o Brasil vai dar para o FMI daria para comprar vacinas contra a gripe A, tamiflu para contaminados e alcool gel para ser distribuido pelo país afora. No dia em que todos os brasileiros lavarem as mão e beberem água limpa a coisa melhora bastante. Os governos precisam investir em saneamento básico até por economia. Redes de esgoto com tratamento posterior, ághua limpa encanada e tratamento correto do lixo já um passo gigantesco a frente, é Rio + 30.

  • Alexandre Teles Paim diz: 20 de junho de 2012

    A História fala por si própria! É preciso uma profunda reflexão de atitudes e valores, senão...??? Fato! " A sociedade está gravemente enferma. Para os males sociais a escola é o médico, o aluno, o remédio." ( Dr Protásio Antônio Alves, 1859- 1933)

  • Abraham G. Etlis diz: 20 de junho de 2012

    Enquanto bato palmas a tão brilhante artigo, apenas agregaria que tambem e fundamental um pouco mais de humanidade nos professionais de medicina.

  • Beto Ribeiro. diz: 20 de junho de 2012

    Não confio muito em médicos....ainda mais agora, que fui fuçar e descobri pelo próprio Min.Saúde, que vão a óbito somente em torno de 900 fumantes ao ano, e mesmo assim, conforme me informaram, podem ter morrido por qualquer outra doenças, porém, na ficha internação eram fumantes. Então, cade as 200 mil mortes por ano, que os médicos me fizeram crer?? Também li em Cachoeira do Sul, um médico queria amputar a perna de uma senhora, e outro médico disse que não precisava amputar.....inumeros casos de diagnósticos errados pelo lado dos médicos.... olha...tá na hora de reverem conceitos...ou estudarem mais!!

  • martina wagner diz: 20 de junho de 2012

    Atualmente a medicina está para as pessoas de melhor poder aquisitivo(os estudantes de medicina e os usuários, como o Lula...) assim como a falta de médicos e assistência está para a saúde pública. Há médicos que têm nojo de pobres, só os ricos de berço fazem faculdade pública como a UFRGS, compram ou alugam apê em PoA, tem carro dado pelo papai e depois o papai monta um belíssimo consultório para o(a) filho(a), conheço vários casos. Trabalhar no SUS está fora de cogitação para estes riquinhos(as) de berço. Ouví uma estudante de odontologia falar, enquanto estava no banheiro com outras estudantes, que nunca iria tratar boca de pobre, estaria tudo sujo e podre, iria especializar-se em ortodontia(tratamento para os ricos de boca boa), foi chocante, eu é que fiquei com nojo desta estudante. Então, o problema está no início, quando o jovem vai estudar medicina e, em contrapartida, os governantes também nada fazem para melhorar a situação, porque olham só para os seus umbigos e deixam o restante do povo a mercê desta pauperização do sistema público de saúde. A Dilma deveria ir presa por repassar 10 bi do nosso dinheiro para o FMI, sem perguntar para o povo, que espécie de democracia é esta? Isto é uma ditadura, a presidente acha que pode fazer o que quiser com o nosso dinheiro, onde estão os homens deste país que deixam isto acontecer. Ah, assim fica muito difícil, só ficamos reclamando e não há ninguém neste país capaz de mudar esta situação? Desisto...

  • Henrique diz: 20 de junho de 2012

    Pois é, muito bom o comentário do Dr Stephani - que para quem estuda e conhece medicina sabe que é um profissional importante também no ensino médico - pena que algumas pessoas nao usem o comentario daqui para relacionar com o artigo, mas para atacar a profissão médica! Demonstra agressividade e total ignorância ao dizer que 02 médicos não podem ter opnião divergente sobre um mesmo caso, sem estarem errados!
    Na situação aventada, Sr Ribeiro, evitar de amputar perna de um paciente poderia incorrer em disseminar uma infecção e acabar por chegar ao obito; por outro lado, ao se lhe amputá-la, poder-se-ia estar removendo um membro que no final de muito tempo poderia se mostrar viável! Então, o que fazer? Se a paciente tivesse DM, ou outra comorbidade com alto risco de mal resultado com uso de antibiótico (se fosse o caso de infecção), a situação seria ainda mais complicada! Assim, percebe-se que o mais prudente seria discutir a situação com o paciente e dar sua opinião, como médico, sendo que (mais uma vez, dependendo do caso) poderiam estar os dois médicos que citaste, corretos! Para finalizar, muitas pessoas, por ignorantes que são em determinado assunto, deveriam abster-se de criticar o que não sabem, e elas sim estudar para melhorar na vida! É absurda a situação no Brasil, especialmente se comparada com países de 1o mundo: lá, confiam nos médicos piamente, aqui, além de nao pagarem nada ainda confiam menos nos médicos e mais em jornalistas - que querem vender jornal. Lamentável

  • DANTE diz: 20 de junho de 2012

    Bem povo da zero! a situação é pra la de delicada, o povo está com recusrsos esparsos,para não dizer pior,o médico ai em cima fala a verdade. A coisa mais medonha é que o dinheiro existe, mas até agora não consegui descobrir qual é a intenção do governo, pois cobra tanto imposto, e não devolve a populaçao nem o básico. Enfim, salve-se quem puder. Vamos assim aprendendo que voto é coisa séria.

  • Diego diz: 21 de junho de 2012

    Sr Beto! Entao continue fumando e na hora em que ficar doente procure um curandeiro! Mas certamente quando mais precisar, um MEDICO atencioso e qualificado atendera o Sr. Cada postagem impropria e dexcabida aqui, depois de tao brilhante artigo!

  • Beto ribeiro diz: 21 de junho de 2012

    Aos que me criticaram eu repito.......fiquei indignado com consulta ao Min.Saúde, DAtasus, onde me confirmaram que vãop a óbito somente em torno de 900 fumantes ao ano, e mesmo assim, podem ter ido a óbito por qualquer outra causa, porém na ficha eram fumantes. Quanto ao outro caso da perna, é simples, consultem o Jornal do Povo de Cachoeira do Sul. Agora, se voces querem que eu passe inverdades aqui, somente para agradar alguem, esqueçam. São dados reais. Ainda mais essa do cigarro, que me fizeram crer que morriam 200 mil ao ano, e o Min. Saúde desmente. Quero saber, a quem interessa inverdades e ou a não divulgação dessas coisas??

  • Paulo Bento Bandarra diz: 21 de junho de 2012

    Para pessoas que não confiam em médicos acho que o serviço atual está perfeito. A questão é para quem confia e precisa de ter acesso a eles. Outro absurdo de argumento é que pessoas pobres que se formam na medicina evitariam de melhorar de vida para trabalhar mal pagos para ajudar o SUS a não gastar o necessário para uma medicina decente. Entre os requisitos, a remuneração digna dos profissionais.

  • Ilmar diz: 21 de junho de 2012

    As pessoas que não acreditam em médicos, são no mínimo hipócritas, pois na hora do "aperto" irão procurar um médico. Falam sem ter conhecimento. Pesquisem o que faz a medicina em prol da saúde do ser humano. Bem diferente dos parlamentares, governantes e judiciário. Não comparem hipócritas com quem faz de verdade.

  • Ilmar diz: 21 de junho de 2012

    Atenção!!!!!
    As pessoas que não acreditam em médicos, são no mínimo hipócritas, pois na hora do "aperto" irão procurar um médico. Falam sem ter conhecimento. Pesquisem o que faz a medicina em prol da saúde do ser humano. Bem diferente dos parlamentares, governantes e judiciário. Não comparem hipócritas com quem faz de verdade.

  • Silvio Jr. diz: 21 de junho de 2012

    Parabéns ao Ilmo. Dr. Stephen Doral Stefani, ótimo artigo.
    A Saúde deve ser prioridade para a população brasileira! Mas a população em geral só pensa em saúde, quando está enfermo ou com algum familiar mal, sabendo disso, as pessoas deveriam por exemplo, nas votações do orçamento participativo colocar a saúde em primeiro lugar.
    Vejam o caso do município em que resíduo São Leopoldo / RS que colocou a saúde em 4º lugar e este ano o único hospital da cidade (Hospital Centenário) quase fechou por determinação do CREMERS em resposta aos poucos investimentos por parte do Prefeito Ari Vanazzi. Se não houvesse a intervenção do Estado na figura do então "Governador Tarso" nas negociações, "possivelmente o Centenário fecharia" e a população leopoldense seria regulada para a capital, segundo a Resolução N°112/2010 CIB/ RS.
    Outro dado que vale mencionar é o baixo investimento em saúde por parte do governo que investe "produto interno bruto (PIB) em saúde, o Brasil não chega a 6%", e que deveria fazer valer a Lei LC N° 141/2012, que firma o valor 12% do PIB em investimentos em saúde, ou seja, o dobro do valor.
    Dica para os demais leitores; Vamos priorizar o que nós temos de melhor... Saúde.
    Administrador Hospitalar Silvio Loeser Junior.

  • Anelise D’Avila diz: 21 de junho de 2012

    Gostei do texto, bom assunto pra trazer em pauta. Gostaria apenas de acrescentar que muitos de nós também somos responsáveis por este caos na saúde, seja o paciente que vai ao médico só pra conseguir um atestado, a clínica ou hospital que frauda o plano de saúde ou o governante que embolsa o dinheiro e não investe. Nós como povo, somos responsáveis por que somos egoístas e fizemos da saúde apenas um negócio lucrativo.

  • Antonio diz: 22 de junho de 2012

    Sugiro alguns nomes par resolver os problemas crucias do Brasil. Pessoas com experiência administrativa comprovada, peritos em governança corporativa e com sucesso reconhecido no pais. Sr Carlos Cachoeira e o Presidente da Liga das Escolas de Samba do Rio de Janeiro(não sei quem é atualmente). Poderiamos acrescentar ainda os dirigentes da CBF apoiados pelo dirigentes da FIFA. Com um time desses no comando o Brasil sairia da condição de Transatlântico p/ AirBus 720.....

  • Paula Caste diz: 22 de junho de 2012

    Excelente artigo. Toca um alguns pontos importantíssimos.. especialmente no fato de que o rumo que estamos tomando - com crescimento de tecnologias médicas sem respectivo aumento de orçamento - pode ser incompatível em pouco tempo.... pode ser tarde para uma solução adequada.... Pena que se discute este tema tão pouco. Parabéns Dr. Stefani

  • Vilma Suely Lopes Campos diz: 29 de junho de 2012

    Dr. Stephen, seu artigo "Medicina em rota de colisão" é uma metáfora muito bem elaborada sobre um tema já discutido entre os gestores na área de saúde, mas muito necessário ainda no meio político. Lamentável o desvio ocorrido nos comentários.
    Abraços,
    Vilma

  • Rogerio Tincoco Brandão diz: 6 de julho de 2012

    Dr. Stafani é contraditório em suas opiniões. Em sua clinica privada, pratica medicina de alto nível e extremamente onerosa, mas que inegavelmente se reverte em benefícios para os pacientes. Como auditor de empresas de saúde, bloqueia estes mesmos tratamentos para os demais médicos, o que é no mínimo um grande conflito de interesse. Os problemas de custos são inegáveis, porem muitos maiores são os problemas de desvios e gerenciamento do sistema de saúde. O Brasil investe per capita em saúde muito menos que a Argentina, Chile e Uruguai, só para citar países sulamericano. O SUS está muito distante de oferecer o atendimento igualitário que tanto apregoa e os pacientes nele tratados, recebem apenas os tratamentos possíveis dentro dos custos previstos nas APACs e não o que efetivamente necessitam, de acordo com a evolução da medicina. Mas a comparação com iceberg é certo: Na superfície, estamos nós, médicos e pacientes, tentando dar o máximo com o mínimo que temos. Sob a água e escondido, o "monstro governo" com todos os problemas de gerenciamento, favorecimentos, desvios e políticas equivocadas.

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