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Artigo: Janelas da infância

12 de julho de 2012 8

Fernanda Bonorino Diatel*

Pedi à minha filha de oito anos: _ Abre uma janela aí, filha. 
Esperei.  Disse de novo: 
_ Abre uma janela aí, filha. 
Esperei novamente.  Quando vi, ela tinha aberto uma janela no Google Chrome.
Tenho pensado na diferença da infância dela para a minha. As crianças de hoje em dia não sabem o sabor de uma goiaba colhida do pé, do quanto é bom esperar os ventos de julho chegarem para correr, colher uma taquara, afinar ao máximo com uma faca duas ou três varetas, pedir pra mãe um pouco de farinha de trigo misturada com água pro grude, pegar o papel de seda do pão d’água, ajeitar uma camiseta velha para a cola e pedir ao tio fio do espinhel bem comprido para montar aquela pandorga. 
Depois sair pro meio da rua, é isso mesmo, bem no meio da rua de chão batido, se posicionar com o rolo – vidro de álcool – de linha na mão, esperar aquele vento bom chegar e correr, correr com todas as forças, como se fazer aquela pandorga voar alto fosse a coisa mais importante que tivesse que conseguir na vida. Fico pensando em como esta “pequena” brincadeira é hoje tão valiosa, pelo menos pra mim. 
Eu ficava horas sentada no chão batido da rua, olhando alto aquele pequeno pedaço de papel com algumas taquaras voando, às vezes quase se perdendo da minha vista, e quando perdia ela, eu olhava o céu e ficava ali esquecida do tempo. Fios? Na minha rua não tinha muitos, dava pra soltar as pandorgas sem problemas. Lembro muito e sinto imensa saudade do espetáculo que os vagalumes – pirilampos pros de menos idade – davam todas as noites no terreno em frente, eram tão lindos – que bichinho lindo, tchê! Eu sentava em frente à calçada de casa sozinha, só para ver aquele tanto de luzinhas brilhando, e ainda nem era Natal. 
Me causa estranheza e preocupação ver minha filha pesquisando e conhecendo em segundos pela tela do computador as muralhas da China como vi hoje, sem que pelo menos eu tenha que pegar da  estante do meu avô um livro enorme daquela enciclopédia antiga – se diz enciclopédia ainda ou está fora de moda? – fazer uma pequena história e entonar uma grande fantasia em cima desta pesquisa.
A sala do meu avô era de chão de cimento, havia um sofá velho e uma estante que tomava conta de toda uma parede da sala. Nela havia coleções muito boas e que poucas pessoas tinham na época. Minha mãe nos levava naquela sala e fazia daquilo uma festa. Era um acontecimento meu avô ter todos aqueles livros, como se, hoje em dia, mostrassem para nossas crianças o Tablet mais potente da atualidade. E na frente da lareira, perto da sala, ele contava as histórias dos livros, ou embaixo da parreira de uva, enquanto nos pedia para ajeitar os raminhos da parreira  que se enrolavam nos galhos.
Todos os dias penso nas nossas brincadeiras no meio da rua, nos dias subindo nas árvores e colhendo pitanga, amora, goiaba, ameixa, limão, laranja e comendo ali mesmo em cima da árvore. Minha filha não gosta de goiaba, mal conhece amora, mas amo contar pra ela enquanto escolho algumas goiabas no mercado do como era bom subir naquela árvore e escolher nossas próprias frutas, ter que nos equilibrarmos quando chovia porque goiabeira na chuva fica escorregadia, sabiam? Sorte ter aquela pitangueira no caminho para a casa da avó dela, onde ela para e colhe aquelas frutinhas faceira, e eu tenho uma baita paciência pra esperar ela colher e comer aquelas pitangas enquanto os carros voam sem parar no quebra molas que ali tem.
Estes dias,  contei a ela como fazíamos pesquisas para trabalhos da escola, depois da sala do meu avô, havia biblioteca em nossa escola e quando o livro não tinha na escola, íamos na Biblioteca Pública, você ia lá pegava seu livro, havia um lugar onde podia sentar e havia também um cartaz onde dizia “Silêncio”, que era pra poder escolher o livro ou até concluir seu trabalho lá. Hoje em dia não tem tanta importância o silêncio né, existem fones de ouvido.
Enfim, fico um pouco feliz por pelo menos ela ter eu, que posso contar tudo isso como uma história verídica, já daqui uns anos será tudo contado como uma estória e o sonho de cada criança a fantasia de cada uma vai ser, olhar pela janela de casa e poder enxergar luzinhas da natureza um céu azul e frutas que podiam dar em árvores imagina! Em um reino muito distante.

*Professora

Comentários (8)

  • Michel Müller diz: 12 de julho de 2012

    Muita coisa narrada já não pode ser feita, diriam os politicamente corretos.
    Criança subir em árvore? Não, vai car.
    Criança poratndo facas? Não, vai se machucar.
    Criança brincar na rua? Não, vai ser atropelada.
    Empinar pipa na rua? Não, cuidado com os fios.
    Comer fruta direto do pé? Não, vai ficar doente.
    A mídia – sim, a mídia é culpada nisso, amigos – montou todo um discurso histérico e neurastênico de que só estamos seguros em casa, com as luzes ligadas e na frente da televisão.
    É o contínuo discurso terrorista: nunca foi tão violento; nunca houve tantas doenças (a gripe H1N1 mata menos do que a gripe comum!); nunca se pôde confiar tão pouco em estranhos…
    (E assim vamos perdendo a humanidade, virando uns robôs, uns paspalhos;
    E a vida vai passando lá fora…)

  • luiz diz: 12 de julho de 2012

    Nasci e cresci na roça,lá tudo era permitido,rezava,trabalhava,estudava e dormia numa vasta cama sobre colchão de palhas de milho e penas de galinha.Pequenino ia para a roça com meu pai,vi-o semeando e colhendo,fui ao moinho de pedra moer o trigo por nós produzido,mamãe fazia o pão mais saboroso do mundo, punha-o sobre palha de milho para não queimar o fundo num forno aquecido a lenha.Ficava feliz em ir colher ovos nos ninhos espalhados pelo pátio,as galinhas eram livres,todos nossos animais eram livres como eu…quero volta pra lá…esse mundo que estou vivenciando não é real,definitivamente,uma pena!

  • ana vergara diz: 12 de julho de 2012

    Lendo este artigo não pude deixar de sentir uma imensa saudade. Saudades da minha infância que foi bem assim, e da qual tirei o exemplo da infância que pude proporcionar aos meus filhos. Embora envolvida na modernidade, procurei dar à eles aquilo que tive de melhor, a liberdade de correr na rua, de sentir o vento, de ser criança. E seguindo este exemplo minhas filhas criam assim meus netos. Embora tenham acesso a todos os confortos atuais, como tvs de plasma e computador, nada pode substituir o prazer da liberdade de correr na rua livre como uma pipa. Este é o fascinio da infância, pena que a vida seja tão corrida que não tenhamos mais tempo de lembrar de ser feliz.

  • Ines diz: 13 de julho de 2012

    Devemos tudo isto as nossas conquistas,a luta pelos nossos direitos.Evoluìmos e devemos ter presente que tudo é uma grande transformaçao a qual devemos acompanhar.
    Nada impede de voltarmos a viver no interior,para que nossos filhos possam fazer e ver tudo o que a autora descreveu acima.Mas impossivel termos tudo na vida.

  • Paula diz: 14 de julho de 2012

    Maravilhoso texto,muita saudade da minha amada infância !

  • Paula diz: 14 de julho de 2012

    Lindo, saudade da minha infância amada !

  • Helena Gutiêrrez dos Santos diz: 16 de julho de 2012

    Lindíssimo texto,emociona quem teve infância assim tão pura!!

  • Gilnei Fogaça diz: 18 de julho de 2012

    As vezes temos a felicidade de ler textos tão bonitos como esse, nos traz as lembranças passadas, da simplicidade de como as crianças brincavam, havia mais acompanhamento dos pais, sem muita interferência das mídias. Nós eramos felizes e não sabíamos.

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