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Artigo: O discurso e a prática frente às propostas de ensino

21 de julho de 2012 7

Samuel Hübner*

O ensino nas escolas brasileiras sempre foi alvo de tentativas. Muitas delas frustradas. Apesar de serem os professores que estão no dia a dia enfrentando a realidade escolar, as ideias de melhorar o ensino não partiram e nem continuam partindo desses profissionais. Oriundas de alguns especialistas que não conhecem com propriedade a realidade de uma sala de aula e, principalmente, por questões políticas, as reformas educacionais permanecem em contínuas mudanças. Entre elas, está a reforma do ensino médio, alavancada pela proposta do Ensino Médio Politécnico.
Essa nova proposta veio ao encontro das necessidades do mundo atual: aproximar os alunos ao mercado de trabalho com atividades voltadas aos seus interesses e expectativas pessoais. Dentre as mudanças nesse novo sistema, temas como a avaliação emancipatória e uma mudança curricular aparecem como um desafio a ser superado pelas escolas.
Sabendo-se que a avaliação emancipatória tem em sua essência valorizarmos e partirmos da realidade do aluno para que ele seja responsável pela sua aprendizagem e atue de forma crítica na sociedade, esse critério de avaliação vem sendo discutido efetivamente nas reuniões escolares. Não é uma tarefa fácil. Trabalhar com turmas totalmente heterogêneas e com as mais diversas ideias e opiniões de alunos acabam tornando um trabalho desafiador para os profissionais que estão inteiramente envolvidos.
Perante os desafios enfrentados pelos professores em suas rotinas, o que acabou gerando discussão nos últimos tempos foi o concurso público para o magistério estadual. Ao criarem uma prova extremamente extensa e com questões excessivamente complexas, percebemos que a própria banca de professores enfrentou dificuldades para avaliar todos os recursos. Em uma das questões do concurso, uma afirmação dizia que: "As escolas devem considerar o que há de mais comum na comunidade escolar, de modo a valorizar e refletir essa unidade identitária nos processos de aprendizagem".
Com uma prova que apresentava questões que tentavam "traduzir" o discurso do governo e toda a reforma do ensino médio, esta afirmação, de acordo com o gabarito divulgado, não estava correta. Ao consultar professores e especialistas no assunto, muitos não concordaram, resultando a uma reflexão: discurso e prática não foram e nem são condizentes. O governo tentou fazer a "sua parte" ao realizar um concurso para selecionar "professores qualificados". 
Acontece que, ou a prova não beneficiou a proposta formulada pelo governo ou as questões foram mal-intencionadas. (In)felizmente nós, professores, continuamos sendo os propagadores de "fórmulas mágicas" para ensinar e, se der certo, o mérito é do governo; se caso der errado, os professores não souberam atender as expectativas. Ao final das contas: o governo acaba mudando a cada quatro anos e as propostas também. Já os professores...

*Professor

Comentários (7)

  • alaiz dittberner diz: 21 de julho de 2012

    Cconcordo que as escolas são uma espécie de cobaias,porque entra governo,sai governo,as experiências continuam.Quando frustram,é culpa dos professores.É uma politicagem só.Não dá mais para aceitar apenas discursos.Como fica a questão do piso nacional e o tempo para planejamento previstos em lei.A educação precisa ser levada a sério aí sim podemos pensar em desenvolvimento.

  • Tiago José Fernandes diz: 21 de julho de 2012

    Definitivamente é preciso mudanças,entretanto,elas somente virão a partir duma consciência dos muitos problemas que enfrentam nossos educadores:insuficiência da rede física,deficiência do material escolar,precariedade das instalações das nossas escolas,situação aflitiva do magistério,falta de condições adequadas de alimentação,saúde dos estudantes,preparação insuficiente dos professores,falta de oportunidade de reciclagem,de treinamento e de especialização e também a situação aflitiva dos funcionários das nossas escolas,estes,com causa ganha na justiça,esperam há anos pelo pagamento de reposições e diferenças de piso herdadas desde o governo Brito.Estas questões precisam e devem ser resolvidas,porém não bastariam para garantir as reformulações necessárias da educação.A questão fundamental não passa apenas pelo atendimento aos problemas materiais e pelo ajustamento da programação as normas do planejamento.A questão fundamental da educação passa,necessariamente,pela redefinição dos objetivos que se pretende alcançar na formação do cidadão,o que,particularmente,desconfio que algum governo queira isso,mas a sociedade deveria querer e os professores,como classe,deveriam ser mais conscientes e unidos para alcançarem esta conquista.Compreendo o exposto pelo professor Samuel,mas aquilo a que ele se refere que o governo não faz,passa (só não vê quem não quer) pela fenda existente na classe,principalmente nos acordos alinhavados,onde os professores declinam das suas reivindicações por interesses políticos e partidários.Uma pena.Mas é preciso que a sociedade reivindique a sua participação nos processos decisórios no Estado e no País e reivindique também,claramente,a sua participação no âmbito das decisões educacionais,a partir da compreensão de que o processo educacional determina a formação do caráter do indivíduo.Isto significa a formação do cidadão consciente da sua qualidade de ser humano,das suas responsabilidades civis,do seu direito ao acesso,conservação,transformação e difusão dos bens culturais e valores da civilização.Aí sim conseguiríamos partir para a prática prezado professor.

  • Oclides de Paula diz: 22 de julho de 2012

    Mais uma vêz,debates e inumeras promessas em uma tentativa de encontrar soluções para a questão da educação.
    Só se faz educação com valorização dos professores e uma estrutura digna parta estes profissionais.

  • Mary diz: 22 de julho de 2012

    Entra governo, sai governo é tudo a mesma coisa, nada muda ,o dinheiro que eles investem nos projetos é praticamente rasgado,no governo anterior foram vários projetos adquiridos,mas pergunta qual deles está sendo aplicado? Os alunos e os prof.são simplesmente as cobaias ,se der certo o mérito é dos governantes,se não, é incompetência dos prof.E a farra continua.

  • Henrique Menezes Avancini diz: 22 de julho de 2012

    Concordo,que o ensino esta muito ruim mas acredito que falta vergonha na cara por parte dos governos em aplicar a verba que existe para a educação seja de fato para a educação ao inves de desviar e culpar as escolas e professores pelo pessimo ensino enquanto não tivermos politicas publicas de fato e de direito serias o carnaval na educação ira continuar,

  • Virgílio Melhado Passoni diz: 22 de julho de 2012

    Profisão de professores
    Não é facil essa missão
    Alem de passar sofuco
    Tem baixa renumeração.

    Entra governo sai governo
    Todos prometem aumento
    Porem são somente promessas
    Que são levadas ao vento.

    Ser professor no Brasil
    E mesmo um desafio
    Pra cumprir essa missão
    E necessário coragem e brio

  • Sandra diz: 23 de julho de 2012

    Bom dia, sou professora de História da Escola Técnica Frederico Guilherme Schmidt, em São Leopoldo. Uma excelente escola, que possui altos índices no ENEM (terceira escola estadual do RS por três anos seguidos) e uma taxa de reprovação e abandono de menos do que 10% no total de alunos. Nem por isso estamos a salvo dos desmandos do governo. Trabalho lá há doze anos e já mudamos nossa grade curricular cerca de cinco vezes, todas impostas pelo governo sem respeitar a LDB que determina que as escolas tem liberdade para montar sua grade. A última grande mudança, levada a cabo de forma totalmente ditatorial por este governo (no qual eu votei, inclusive) criou uma disciplina esquisita chamada de "Seminário" que terá a mesma quantidade de períodos que português e matemática, e que deve integrar todas as áreas de conhecimento... parece bom, mas fica a pergunta, qual professor domina a área das exatas, linguagens, humanas e biológicas? A segunda questão é que esta matéria deve ser o "fiel da balança" e pode mudar a nota das demais disciplinas, especialmente em caso de reprovação, ou seja, a partir de agora, está decretado que os alunos nao podem mais reprovar. Para bom entendedor, meia palavra basta. Além disso, nossa escola perdeu o exame de seleção, agora será sorteio (mais justo segundo a SEC, totalmente injusto segundo os professores e comunidade escolar). Em fim, ninguém foi questionado e nossa supervisora ainda ouviu um deboche da coordenadora do governo: "agora vamos ver se os teus professores são realmente tão bons assim...". Só que está cotidianamente exposto a essa tensão pedagógica, sabe do que estou falando... e dê aula com um barulho desses.

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