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Artigo: Tucanos, ameixas e Democracia

28 de agosto de 2012 0

Sidinei Cruz Sobrinho

Quantos de vocês moram numa cidade grande e consegue passar a manhã observando tucanos comerem ameixas na frente de casa? Posso imaginar a maioria das respostas: “Moro em apartamento.” “Não existem árvores na frente da minha casa”, “Tucanos? Só no zoológico”. “O máximo que vejo são pardais.”… Algumas gerações de adolescentes são capazes de nunca terem visto um tucano livre e solto saboreando ameixas. Pois eu vejo essa cena muitas vezes e tem mais: lagartos comendo com meu cachorro no pátio, gralhas aqui e acolá, e outras espécies, tudo ali, no pátio da minha simples casa. Vão e voltam quando querem, não temem minha possível ação predatória.
Minha sobrinha perguntou: “Tio, por que não os prende na gaiola?” Respondi: Porque eles não nasceram em gaiolas como nós. Percebem isso? Os apartamentos são gaiolas amontoadas com os mais suspeitos moradores. Casa sem árvores no pátio é uma gaiola que caiu do monte. Zoológicos são ideias nostálgicas da ignorância predatória. Pardais, pobres, passarinhos sem graça, cinzas como a poluição da cidade e que já esqueceram o que é uma sinfonia canora. Adolescentes modernos: sinceramente, salvas exceções, prefiro observar os tucanos e os lagartos.
Gosto da cidade, das criações tecnológicas e as regalias que me permite desfrutar. Mas quando se esquece do que é simples tudo vira complexo. As relações se esgotam num amontoado de regras que a “sociedade” criou e que devo aceitar.
Passo na rua e as coisas da rua passam por mim. Época de eleições, a rua está minada de pessoas balançando bandeiras. Vejo aquilo e fico feliz: Viva a liberdade democrática. Paro e pergunto a um indivíduo gritando enlouquecido o nome do seu candidato: “O que é democracia?” Responde que “é o direito de votar em qualquer um”. Saio de cena sem nenhuma felicidade, deixo aquele ser que se move sobre a terra saracoteando sua bandeirola e a certeza de que o governo será mesmo de qualquer um, mesmo que seja um deus ou um demônio.
Volto pra casa, cansado, pesado, nauseado. Tiro os sapatos e piso a grama verde e úmida, olho a ameixeira e lá está o pássaro, colorido e majestoso bem diferente da coisa fria política que vi estampada numa bandeira na praça. Aos poucos a terra leva meus males do mundo urbano e mesmo dentro de toda essa urbanidade encontro um pouco de silêncio gritante conversando com minha simplória reflexão.  Ao menos morrerei depois de ter visto um tucano livre comendo ameixas e espero morrer bem antes que eles fiquem cinza como os pardais e sem linguagem como o humano que me explicou o que é democracia.

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