Micheli Cristiane Biek*
Uma pergunta muito comum nas entrevistas de emprego, em praticamente todas, é a seguinte: qual é a sua pretensão salarial? Se eu respondesse a minha pretensão salarial, a verdadeira pretensão, seria eliminada da seleção imediatamente. Pois acredito que para ter um salário que possa ser chamado de decente, ele deve satisfazer requisitos básicos, como: alimentação (saudável e de qualidade), vestuário (incluindo roupas e calçados que durem mais de um mês), moradia e lazer. Sim, lazer, pois necessitamos disso. Alguém sabe dizer o valor de um salário que satisfaça esses requisitos básicos?
Fazer essa pergunta a uma mãe que deixou de estudar para ajudar os pais, que já eram pobres, que agora têm três filhos e está pagando as contas da casa sozinha é uma afronta, pois certamente ela não receberá um salário que satisfaça as necessidades de sua família.
Por isso acredito que essa questão esteja um tanto deslocada, pois, sendo você um jovem de classe media baixa, que completou o segundo grau recentemente, com pouca ou nenhuma experiência, necessitando ajudar nas despesas da casa, vai trabalhar pelo salário que a empresa indicar, não que faça diferença responder essa questão de forma honesta. Num país onde o salário mínimo é sinônimo de miséria, uma pergunta dessas é uma ofensa, uma falta de consideração, quase um tapa na cara.
Penso que essa pergunta deveria ser substituída pela seguinte: quanto você acredita que mereça ganhar hoje? E os valores a serem colocados ainda seriam considerados exorbitantes pela maioria das empresas.
Na verdade, o que se quer saber com essa pergunta não é quanto você realmente deseja ganhar, pois mesmo que o valor não esteja tão fora do padrão, padrão esse relacionando ao nosso país, o que se quer é que você adivinhe o valor que receberá pela função e que se mostre satisfeito. Pois assim, estará completando o ciclo de uma nação, trabalho em dobro por salário pela metade, típico de um país que gosta de manter a população miserável e de uma população que aceita, por pura acomodação, a miséria oferecida, tanto financeira quanto culturalmente.
*Estudante