Fernando Lúcio da Costa, diretor técnico do Inter, mal pôde curtir as curtas férias em família, na Flórida. Levaria os filhos à Disney. O trabalho acabou transformando a viagem aos EUA em um pequeno passeio. Em Miami ocorreu a liberação de Dagoberto em janeiro, após um encontro casual de Fernandão com Milton Cruz, espécie de gerente de futebol informal do São Paulo. A contratação de um zagueiro e as reuniões para a projeção de 2012 têm tomado o tempo do capitão do Mundial de 2006. Dirigentes não tiram férias. Sobretudo quando há uma perigosa pré-Libertadores logo ali à frente. O seu iPhone recebe mais de 50 telefonemas diários. Mais da metade são de empresários oferecendo jogadores. A maioria dos nomes são anotados e guardados para futuras investidas. Na terça-feira, esteve reunido com Dorival Júnior, em Florianópolis, onde o treinador tem residência. A temporada toma corpo. Fernandão só pensa no Once Caldas, o mata-mata que definirá boa parte do ano. "O Once Caldas é o grande risco do semestre", diz o diretor. Confira os principais trechos da entrevista de Fernandão a ZH.
Zero Hora _ Você tornou-se dirigente há menos de seis meses. Já está acostumado à função?
Fernandão _ Estou muito feliz com o trabalho e, principalmente, em um clube que amo. Tem sido um aprendizado diário. Sempre tive boa relação com o mercado, sei lidar com as pessoas, e quase sempre cuidei pessoalmente das minhas negociações. O principal nestes primeiros meses foi ganhar o respeito do vestiário. Não queria chegar fazendo mudanças e ser visto como "o inventor". Agora, me sinto mais confortável.
ZH _ Você é o executivo do futebol. Como toma as suas decisões?
Fernandão _ Sempre em colegiado. Quando era o capitão do time, chamava o Ceará, que era o líder dos evangélicos, o Edinho, que tinha muita moral com a molecada, Iarley e Clemer. Nos reuníamos e tomávamos as decisões. Aqui, tenho feito assim também. Converso com Élio Carravetta (coordenador de preparação física), André Döring (auxiliar técnico), Flávio Soares (preparador físico) e com o Adriano Loss (responsável pela logística). Na base, quero formar o colegiado com Jorge Macedo (diretor das categorias de base) e com o Ortiz (responsável pela formação de jogadores). Tenho minhas convicções, mas não tomo decisões sozinho.
ZH _ O que falta para fechar o grupo de 2012?
Fernandão _ Dois ou três jogadores (um zagueiro, que poderá ser Henrique, do Palmeiras, ou Manoel, do Atlético-PR, e o lateral-direito Douglas, do Goiás, que será reserva de Nei). Temos um grupo excelente para a temporada. Confio demais em nossos jogadores. Gente que sei que renderá, como Jô e Ilsinho, por exemplo. Tenho convicção que o nosso time precisa jogar tudo o ano todo. Foi assim em 2006, quando vencemos Libertadores e Mundial, mas o time principal também atuou no Gauchão e no Brasileirão. Jogador tem que jogar.
ZH _ Com Dagoberto, o Inter mudará a sua maneira de jogar? Será um time mais ofensivo?
Fernandão _ O Dorival é um cara ofensivista. Teremos um time mais ofensivo, mas com compactação defensiva e que tenha condições de marcar o adversário lá em cima, desde a saída de bola. Porque Libertadores não se ganha marcando 10 gols em uma partida.
ZH _ Mas é possível "compactar a defesa" quando se projeta um meio-campo leve, com Guiñazu, Tinga, Oscar e D'Alessandro?
Fernandão _ Mas também teremos volantes como Bolatti, Elton e Josimar (que estava emprestado à Ponte Preta) para compensar, para pegar mais pesado no setor. O segredo da compactação está nos volantes. O Sandro (ex-volante do Inter, vendido ao Tottenham) surgiu da necessidade. Vejo o Elton assim. Oscar pode ser um terceiro jogador de meio-campo, pode recompor, como o Alex fazia no Inter.
ZH _ O que você já sabe do Once Caldas?
Fernandão _ Ainda não tive tempo para analisar o relatório do Maurício Dulac (o espião do Inter, que assistiu à final do Campeonato Colombiano. Sei que eles têm atacantes perigosos e que voltarão aos treinos no dia 9 de janeiro.
ZH _ O Inter voltará antes, dia 4, isto é uma vantagem?
Fernandão _ Não. Voltaremos aos treinos após 30 dias de férias. Eles, depois de 18 dias. E isto faz diferença. Em 10 dias, eles estarão em um patamar físico bem superior ao nosso. Nós sairemos do zero para uma condição física razoável apenas. O Once Caldas é o grande risco do nosso primeiro semestre. Se não passarmos por eles, restará apenas o Gauchão.
ZH _ Como ocorreu com o Corinthians eliminado na pré-Libertadores de 2011 pelo Tolima (também colombiano).
Fernandão _ E o Corinthians é o nosso melhor exemplo. É como dizem: "o burro não aprende, o inteligente aprende com os próprios erros, e o sábio aprende com os erros dos outros". Precisaremos encaminhar a vaga no jogo de ida, no dia 25 de janeiro, no Beira-Rio. Por isso ainda estamos pensando como utilizar os titulares no começo do Gauchão (a tendência é estrear com o time principal, no dia 18, e depois, preservar a equipe para o mata-mata com o Once Caldas).
ZH _ Tens jogado bola?
Fernandão _ Não jogo há sete meses, o púbis ainda dói. Tenho jogado tênis. Só para brincar.