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Ameaça aos clubes brasileiros: pressionada pela Uefa, Fifa pode acabar com a venda de jogadores a investidores e a fundos de investimentos

25 de abril de 2013 1

Uma ameaça externa ronda os clubes brasileiros. Sobretudo aqueles que ainda têm na venda de jogadores um de seus principais ativos. Pressionada pela Uefa, apoiada pelas federações da Inglaterra e da França, a Fifa está realizando uma consulta global para saber se deve ou não acabar com os “fatiados”, aqueles atletas cujos clubes acabam vendendo partes de seus direitos econômicos a fundos de investimentos, investidores particulares e para os próprios agentes dos jogadores – e até mesmo cedem os direitos para os atletas, a fim de garantir a assinatura de contrato ou a renovação sem o pagamento de luvas. A partir da temporada 2014/2015, a entidade que dirige o futebol europeu pretende que nenhum de seus filiados utilize jogadores cujos direitos sejam repartidos com terceiros. O atleta precisará pertencer 100% ao clube. Ingleses e franceses já adotam tal prática há pelo menos cinco temporadas.

A realidade brasileira, porém, é bem diferente. O São Paulo talvez seja o único clube que não tem por hábito negociar percentuais de seus jogadores – ou dos que contrata – com terceiros. Já a dupla Gre-Nal se utiliza dessa prática há pelo menos 15 anos para financiar o futebol e até mesmo para pagar a folha. No Beira-Rio, o zagueiro Lúcio (hoje no São Paulo) desembarcou graças a um investidor, que financiou a compra junto ao Guará. Em troca, ficou com parte dos direitos econômicos, sendo remunerado quando da venda do zagueiro para o Bayer Leverkusen e, posteriormente, ao Bayern, de Munique.

No Grêmio, um investidor de Canoas detinha 10% dos direitos de Ronaldinho – além de ter uma participação nos direitos de Rodrigo Gral e de outros jogadores que acabaram não vingando. No Interior, o Juventude vem sobrevivendo das suas categorias de base. Na virada do ano, cerca de 20 jogadores deixaram o Alfredo Jaconi e rumaram para os CTs da dupla Gre-Nal. Informações do mercado apontam para um agravamento ainda maior da situação do Vasco, caso não possa negociar seus jogadores com empresários ou com fundos de investimentos. O Flamengo também pretende reerguer-se através de um plano de atração de investidores, podendo montar um fundo específico gerenciado pelo próprio clube.

- Os clubes pequenos serão os que mais sofrerão caso a Fifa decida abolir este tipo de negócio, na medida em que o sustento de suas atividades está fundamentalmente atrelado à venda de jogadores a outros clubes e à cessão de direitos econômicos a investidores. Esses clubes não possuem outras receitas significativas disponíveis às grandes equipes, como patrocínios e televisionamento – afirma o advogado do Inter Daniel Cravo (na foto), que integra uma comissão criada por clubes brasileiros, a fim de travar a ofensiva da Uefa e manter a viabilidade desse tipo de negócio no Brasil.

Entre as justificativas da Uefa para tal medida estariam a necessidade de evitar a lavagem de dinheiro em transações de jogadores e o temor que um mesmo investidor tenha diversos jogadores em clubes diferentes. Segundo alegação da União das Federações Europeias de Futebol, isso poderia gerar manipulação de resultados em partidas envolvendo essas equipes. Atrás dessa ideia, porém, poderia estar o interesse de pressionar os clubes sul-americanos, em especial os do Brasil e os da Argentina, a fim de facilitar a compra de jogadores desses dois mercados. Sem investidores que reforcem o caixa das equipes nacionais – muitas delas sem acesso a financiamentos bancários -, possivelmente elas seriam obrigadas a facilitar a saída de seus melhores jogadores por preços mais baixos do que os praticados atualmente. Neymar, por exemplo, seguiu atuando no Brasil devido a essa forma de negociação.

Na Europa, o Porto surge como a principal voz dissonante – e tem apoiado a ação brasileira. Com condições financeiras bem menores do que as equipes de ponta da Inglaterra, Espanha, França, Alemanha ou Itália, os portugueses se valem dos “fatiados” para montar equipes minimamente competitivas e fazer frente a clubes milionários. Como a Uefa exclui das competições aqueles filiados que gastam mais do que arrecadam, o Porto teme ficar alijado de qualquer chance de título continental, caso a lei aplicada a ingleses e a franceses seja estendida para todos os demais países.

- Entendo que essa discussão possa aprimorar esta modalidade de negócio (cessão de direitos econômicos), que obviamente tem sendo praticada com alguns abusos. A busca de maior transparência, por exemplo, me parece essencial. Porém, se seguirmos o desejo da Uefa, simplesmente vedando tal prática, com certeza muitos clubes poderão fechar suas portas – adverte Cravo.

Como a CBF ainda não se posicionou sobre o tema, os clubes passaram a liderar o debate. Além da dupla Gre-Nal, integram a frente a dupla Ca-Ju, Santos, Portuguesa, Botafogo, Fluminense, Flamengo, Náutico, Vasco, Cruzeiro, Vitória, Palmeiras, Avaí, União São João, Desportivo Brasil e América-RN.

- A utilização racional da cessão de direitos econômicos de jogadores foi um dos fatores que contribuíram para o protagonismo do Inter nos últimos anos. Ela é, sem dúvida, umas das ferramentas de financiamento mais importantes dos clubes brasileiros – diz Daniel Cravo.

Caso Tévez e Mascherano
Tévez e Mascherano precipitaram as novas regras da Uefa, sobretudo na Inglaterra. Comprados pela MSI, do iraniano Kia Joorabchian, e colocados no Corinthians – que havia se transformado no principal braço da empresa na América do Sul -, eles tinham os direitos econômicos vinculados à empresa, não ao clube – o que é irregular. Em 2006, após conquistarem pelo Corinthians o polêmico Brasileirão dos jogos anulados devido ao escândalo da arbitragem, ambos foram vendidos ao modesto West Ham. A transação, na casa dos 60 milhões de libras (algo como US$ 115 milhões, à época), levou a Uefa a investigar a falta de transparência na negociação. A entidade desconfiou de lavagem de dinheiro, que Joorabchian (seria um laranja do russo Roman Abramovich, dono do Chelsea) estaria querendo comprar o clube e que o West Ham serviria como ponte para que os argentinos fossem revendidos a grandes clubes. Em 2007, Tévez foi negociado ao Manchester United, Mascherano foi para o Liverpool. E as regras do jogo mudaram na Premier League: desde então, somente os clubes podem ser donos dos direitos econômicos dos jogadores.

A ameaça interna
Mesmo antes do lobby europeu, o Ministério do Esporte também pretende o fim dos “fatiados”. Na semana passada, a pasta acrescentou ao anteprojeto de lei que trata da negociação das dívidas dos clubes com o governo federal um parágrafo prevendo que somente os clubes podem deter os direitos econômicos dos jogadores. O projeto, que ainda não foi à votação na Câmara, prevê a extinção do modelo atual no futebol brasileiro e passaria a vigorar a partir de 2016. Conforme a justificativa do ministério, as equipes terão tempo suficiente para se adequar à nova legislação.
Além de lutar contra o inimigo externo, na pele da Uefa, os clubes brasileiros que pretendem manter a exploração dos direitos econômicos precisam se proteger de um surpreendente inimigo na trincheira: o Ministério do Esporte.
Nesse contexto, o deputado federal gaúcho Afonso Hamm (PP) surge como um aliado dos clubes. Vice-presidente da Comissão de Turismo e Desporto, ele já assegurou uma audiência às principais equipes do país, a fim de tentar modificar o anteprojeto de lei.
- É preciso ouvir todos os clubes, desde os grandes até os pequenos. Estamos construindo uma nova legislação para deixarmos um legado para o futebol brasileiro. E, por isso mesmo, precisamos conhecer as necessidades dos nossos clubes – afirma Hamm.

Comentários (1)

  • Aldo diz: 25 de abril de 2013

    Sendo assim, um Clube também não poderia pertencer a um dono, como é o caso do PSG e muitos outros clubes europeus, estes sim servindo de fachada para lavagem de dinheiro da máfia.

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