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Pela mistura de torcidas! (um texto da década passada)

30 de julho de 2013 6

Por Sérgio Xavier Filho, gaúcho e diretor do Núcleo Motor, Esporte e Turismo da Editora Abril

Esse texto é de 2003 e foi publicado na Revista Superinteressante. Mas parece ter sido escrito hoje à tarde:

Corintiano odeia palmeirense, flamenguista quer matar vascaínos, cruzeirenses não suportam atleticanos. Inverta as sentenças, troque os clubes e chegaremos ao mesmo lugar: todos se odeiam e o futebol é um caldeirão sem fundo de violência e ressentimentos. Vira e mexe, lemos que mais um torcedor atirou no rival, que a gangue de determinado time encarou a adversária em batalha campal. Passado o horror, a vida segue. E o diagnóstico para o problema se mantém: a solução para a violência no futebol passa sempre por reforço no policiamento e pelo fim das torcidas organizadas. Mas será que a raiz do problema está realmente aí?

Minha impressão é que estamos muito longe da verdadeira questão. É evidente que polícia eficiente e fim da sensação de impunidade são armas poderosíssimas quando o assunto é uma contravenção qualquer. Mas a verdade é que, no futebol, o remédio para a violência só faz alimentar o ódio entre torcedores. Basta lembrar como o problema vem se avolumando nos últimos anos. No passado, a pancadaria ocorria dentro dos estádios, nas arquibancadas ou nas bilheterias. Em São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e em toda a parte, era comum vermos torcedores usando os mastros de suas bandeiras como armas. O que foi feito? Como na piada do marido traído que queima o sofá que acolheu a mulher e o amante, baniram-se os mastros das bandeiras e montaram-se operações militares de isolamento das torcidas.

De fato, os estádios ficaram menos violentos. Mas isso nem de longe traduziu-se em paz e tranquilidade para quem quer só ver o jogo. Apenas transferimos a arena. Onde acontecem brigas e mortes, hoje? Nos acessos de estádio, em algum ponto de ônibus da periferia, nas imediações do metrô. O torcedor é um cão raivoso preparado para atacar. Quando está no estádio, é acuado pelas grades e cassetetes dos policiais. Mas longe dele e sem coleira ataca sem piedade.

É a intolerância o combustível da violência no futebol. Não admitimos a diferença, não respeitamos a opinião contrária. E o que temos feito para acabar ou pelo menos reduzir essa intolerância? Nada. Pelo contrário. Ao estimular o confinamento de torcidas, estamos treinando as bestas. Estamos criando pitbulls e dobermanns do futebol, com dentes cada vez mais pontiagudos e com mais ferocidade. Só se aprende a respeitar o diferente quando se convive com ele, quando vemos que há algo de humano no sujeito que veste a cor adversária.

Utopia? Talvez, mas confesso que já vi a utopia de perto na minha frente. Quando criança, em Porto Alegre, fui a incontáveis partidas entre Grêmio e Inter. E lembro-me de caminhar lado a lado com torcedores rivais. É claro que havia deboche dos vencedores sobre os vencidos. Era chato perder o jogo, mas as provocações eram muito criativas. Nem todos encaravam a situação com o mesmo bom humor, mas ninguém batia em ninguém. Todos sabiam que era proibido agredir, não porque essa regra estivesse prevista no Código Penal, mas porque ela estava inscrita na mente das pessoas. Era uma regra social, e isso vale mais que a lei. Por que o mesmo sujeito que não joga papel no chão do metrô emporcalha as ruas do centro? Ora, porque o ambiente pode determinar comportamentos.

Na Copa da França, em 1998, presenciei ingleses e argentinos lado a lado. E esses, sim, têm bons motivos para se odiarem. Já se pegaram até em uma guerra de verdade, a das Malvinas. Pois na Copa as duas seleções se enfrentaram nas oitavas-de-final e as confusões foram mínimas. Detalhe: em mundiais, os ingressos são vendidos sem grandes divisões de torcidas e no estádio inteiro havia inglês sentado ao lado de argentino. Por que eles não se matavam? Na minha opinião, porque ao ver o “inimigo” ao lado comendo pipoca com o filho pequeno fica difícil odiar. Não faz sentido cantar um grito de guerra quando a vítima está tão próxima. Poderia ser diferente se ingleses ficassem de um lado e argentinos no outro. Quem sabe, depois de 90 minutos de incitações coletivas e mútuas, as duas torcidas não se encontrassem na saída e se pegassem?

Pego o exemplo da Copa e trago para o Brasil. Uma arquibancada que alternasse palmeirenses e corintianos ensinaria algo. Se aceitamos o rival lado a lado no estádio, por que bater nele na estação de metrô? Haveria discussão? Claro, é da alma do futebol provocar, tripudiar e debochar. Mas, com treino (até humanidade precisa ser praticada), quem sabe não aprenderíamos a conviver com a diferença e até rir? E talvez, em lugar de uma bordoada, daríamos uma sonora gargalhada.

“Ao confinar as torcidas, estamos treinando as feras”

Comentários (6)

  • Eduardo diz: 30 de julho de 2013

    É o que acontece com a Geral, está cada vez mais animalesca, mais violenta, as barras formam verdadeiros currais, são touros bravios detidos por frias barras de aço.
    Certo estava o Koff quando deu seu primeiro depoimento logo depois do acidente da avalanche, ele declarou “o melhor seria colocar cadeiras e manter o preço”, acho que a OAS não gostou da ideia.
    A Geral é tratada como gado e é assim que ela age, instintivamente, ao primeiro estouro.

  • André diz: 30 de julho de 2013

    Parabéns ao autor. Ótimo texto.

  • Rafael diz: 30 de julho de 2013

    Concordo totalmente. Já havia até comentado isso com amigos. No campeonato brasileiro deste ano, por exemplo, teve flamengo e vasco com torcidas misturadas em brasilia, flamengo e botafogo no maracanã, também com torcidas misturadas e não tivemos registro de brigas. Acho que o que evitaria os confrontos seria justamente os amigos gremistas e colorados irem juntos ao estádio, no mesmo carro, no mesmo ônibus, todos misturados, com maior quantidade de ingressos para a torcida rival, e não só 10%. Isso, na minha opinião resolveria o problema e teriamos paz nos estádios. Sou colorado e fui na Arena no jogo do Zidane com minha camisa do Inter, junto com minha esposa com sua camisa do Grêmio, e sentado na arquibancada estava rodeado de gremistas, não tive sequer um xingamento direcionado a mim, isso que comemorei o gol do damião como se fosse do Inter.
    Repito, na minha opinião, seria a solução do problema.

  • Juliano diz: 31 de julho de 2013

    Belo texto, mas muito pouco pratico. Não é justo chamar de paliativas as atitudes tomas pelas policia para diminuir a violência, vou estadio a 15 anos e já foi muito, mas muito pior.
    Usar de exemplo a copa de 98 na França esta longe da realidade do Grenal em 2013, onde o publico é outro, os ingresso são muito mais baratos e existe financiamento de torcidas por parte dos clubes. Torcida é algo que da dinheiro, por isso das brigas entre eles.
    Deveríamos seguir o caminho da Inglarterra quando banirão os rulligans. Enquanto existirem clubes financiando torcidas, não haverá termino da violência.

  • Jefferson diz: 31 de julho de 2013

    Uma medida que deveria ser tomada é reservar um espaço na arena de “TORCIDA MISTA”. Além da torcida gremista e colorada, teríamos a mista, que nesse primeiro grenal poderia ser de 2 mil lugares, bem pequena, e aos poucos ir aumentando. Até que se chegue ao ponto de termos nas laterias do campo somente torcida MISTA, e atrás das goleiras a torcida de cada time.

  • Véio Zuza diz: 31 de julho de 2013

    Mista, até criarem uma “geral” e uma “popular” dentro da “mista”… idéias de jirico e demagogia pura, os males do Brasil são…
    Sigam essas bobagens e deixem o IML de plantão…
    Esse negócio do “sou do tempo” está e enchendo o saco… e daí?
    Houve um tempo em que carro ficava na rua, as casas não tinham grade, os bancos não tinham detector de metais, as empresas jornalísticas não precisavam da Brigada na porta… foi há muuuuuito tempo, numa galáxia muuuuuito distante…
    “Depois do malfeito, chorar não é proveito…”

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