
Uma temporada diferente terá início para o Inter a partir de agora. Com a largada do Brasileirão, um período de mochilão nas costas, viagens e desgaste acima de todos os demais 19 adversários da competição se apresentará para a equipe de Dunga.
As dificuldades deverão começar logo após a Copa das Confederações, quando o calendário com 33 rodadas será espremido entre os dias 7 de julho e 8 de dezembro - mais as datas da Copa do Brasil, caso o Inter siga avançando.
Somando Gauchão, Brasileirão e pelo menos dois jogos pela Copa do Brasil (a vitória sobre o Santa Cruz mais o jogo contra o América-MG, pela terceira fase do torneio) o Inter já conta com 33 partidas asseguradas como "mandante inquilino", atuando em Caxias do Sul, Novo Hamburgo e Lajeado, em 2013. Poderá chegar a 37, caso avance à final da Copa do Brasil. Um episódio como esse encontra similaridade somente no Cruzeiro e no Atlético-MG de 2011. Sem o Mineirão nem o Independência durante todo o ano (bem como em parte de 2010 e parte de 2012), ambos fechados devido às reformas para a Copa do Mundo, a dupla de Belo Horizonte precisou atuar no Interior. E os dois despencaram no Brasileirão. O Cruzeiro fez uma Libertadores espetacular na primeira fase, foi o primeiro colocado geral e caiu nas oitavas para o Once Caldas. A Arena do Jacaré, distante 70 quilômetros de Belo Horizonte, não era a casa do time. No segundo turno do Brasileirão, a sequência de viagens e as 31 partidas como inquilino, em Sete Lagoas, Uberlândia e Ipatinga, cobraram o seu preço. Um elenco cansado e que não conseguia mais treinar ficou a dois pontos do rebaixamento.
- O segundo turno de 2011 nos destroçou - admite o zagueiro Léo, ex-Grêmio, e que se transferiu para o Cruzeiro em 2010. - Jogar em um estádio emprestado é perder a identidade. Por vezes, a torcida adversária era maior do que a nossa. E nós éramos os mandantes - acrescenta o defensor.
Léo recorda que a equipe despencou no Brasileirão a partir dos jogos às quartas e aos domingos do returno. O Cruzeiro não conseguia treinar mais. E os jogadores mal conseguiam ficar em casa.
- Um exemplo: jogamos domingo no Olímpico, voltamos no dia seguinte para Belo Horizonte, fizemos um treino leve na terça-feira à tarde e viajamos para Sete Lagoas, onde enfrentamos o São Paulo na quarta-feira. Passava muito mais tempo em hotel e na concentração do que na minha casa. Isso vai minando o seu psicológico e deixa o atleta ainda mais cansado - descreve Léo. - Acho que o Inter sofrerá muito no Brasileirão, pois Caixas do Sul é ainda mais distante de Porto Alegre do que Sete Lagoas é de Belo Horizonte (são 134km contra 70km) - emenda.
E há preocupação no Beira-Rio com o desgaste por estar permanentemente na estrada. Não será surpresa se o clube priorizar a Copa do Brasil em determinado momento. O departamento de fisiologia estará avaliando constantemente os 31 jogadores do elenco. Haverá maior zelo com o cansaço dos atletas e com a recuperação pós-jogo - uma vez que nem sempre será viável descansar por 24 horas depois das partidas.
- Toda a programação de treinos será subordinada às viagens - afirma o diretor de futebol Luis César Souto de Moura. - Estaremos atentos ao desgaste mental, emocional, social e físico que deverá afetar os jogadores. Será um período turbulento e de superação - atesta o dirigente.
- O prejuízo é muito grande. No início, tudo bem. Mas depois haverá situações em que precisaremos antecipar concentração. Mas como fazer? Estaremos engessados. Como antecipar concentração se o jogador já terá viajado muito? Mas não adianta, esse é o cenário que se apresenta e temos que encará-lo - corrobora Paulo Paixão.
Neste contexto, a Copa das Confederações parece surgir como um bálsamo para o Inter. Depois de enfrentar o Cruzeiro, pela quinta rodada, o grupo receberá 10 dias de férias. No retorno, intertemporada de 10 dias, focada na preparação física, o desembarque de pelo menos dois reforços de peso, mais um amistoso antes da retomada do Brasileirão.
- Esses cinco jogos iniciais serão importantes para testarmos e avaliarmos a equipe. Com o recesso virá também a abertura da janela para contratações - avisa Souto de Moura.
Mas Cruzeiro e Atlético-MG não sofreram apenas prejuízos técnicos com a perda do Mineirão e do Independência. O bolso dos dois foi afetado. Eduardo Maluf, diretor de futebol do Atlético-MG, lembra que o clube perdeu pelo menos R$ 13 milhões em renda em 2011. E, assim como Cruzeiro, quase foi rebaixado no Brasileirão.
- Jogamos o Campeonato Brasileiro inteiro como visitantes. O futebol mineiro foi o grande prejudicado com a Copa até aqui - diz Maluf.
Gilvan Tavares, presidente do Cruzeiro, mostra um quadro mais nebuloso. Ao contrário do Inter, que apesar de ter perdido as receitas de publicidade e de bares com o Beira-Rio fechado conseguiu manter o seu quadro social - em números oficiais, são 107 mil sócios, mas há 15 mil inadimplentes -, o Cruzeiro viu seus associados serem reduzidos para menos de 2 mil torcedores.
- Quase fomos à falência sem o Mineirão. Ficamos sem time e sem caixa, pois as despesas jogando em outras cidades o ano todo são altas demais. Dos 18 mil sócios que tínhamos, ficamos com 1,5 mil - conta Tavares. - E, dou para você um dado estarrecedor: somente nos cinco primeiro meses de 2013, arrecadamos R$ 8 milhões em bilheteria. Isso é bem mais do que arrecadamos em todo o ano passado, sem o Mineirão - acrescenta o presidente do Cruzeiro, afirmando que o clube hoje conta com 27 mil sócios.
Vida de inquilino
Como foram os mineiros em 2011, jogando como mandantes no Interior
Atlético-MG
30 jogos
17 vitórias
6 derrotas
7 empates
Aproveitamento: 64,44%
Cruzeiro
31 jogos
18 vitórias
5 empates
8 derrotas
Aproveitamento: 63,44%
Inter (até agora jogando Gauchão e Copa do Brasil como mandante, em Caxias do Sul, Erechim, Gravataí, Novo Hamburgo e Lajeado)
13 jogos
10 vitórias
3 empates
0 derrotas
Aproveitamento: 84,61%
O Inter percorrerá 56.521km somente em viagens para disputar os 38 jogos do Brasileirão (mais de uma volta ao redor da Terra, uma vez que seguindo a linha do Equador, a Terra tem pouco mais de 40 mil quilômetros).