Por Ricardo Stefanelli, diretor de Redação
No meu último dia de férias, na sexta-feira retrasada, ouvi pela Rádio Gaúcha os primeiros informes sobre a morte do secretário de Saúde, Eliseu Santos, no bairro Floresta. Tive a impressão de estar sob impacto das ficções que embalaram o meu período de descanso. Nos dias em que recarreguei baterias, fui apresentado ao texto da norte-americana Donna Leon, criadora da série policial do comissário Guido Brunetti, um investigador perspicaz que esclarece mistérios em Veneza, cidade onde a americana está radicada há 30 anos.
De sopetão, tinha lido as 300 páginas de Acqua Alta atendendo à sugestão do colega e cronista José Antônio Pinheiro Machado, que em uma tarde de conversa, no início do mês, provocou: “Compre um livro dela, sei que vais te apaixonar”. Pinheirinho, nosso nada anônimo gourmet, sabe que tenho apreço especial por histórias que insistem em não ser esclarecidas. Acqua Alta (nome do fenômeno conhecido da subida das águas do Mar Adriático, em Veneza) narra a elucidação da morte de uma arqueóloga espancada no apartamento em que vivia com a namorada, uma cantora lírica, às margens dos canais de Veneza. Aproveitando-se do charme da cidade-cenário, que ela escolheu para morar desde 1981, Donna pinta com brumas uma magnífica história policial.
Ainda impressionado pela narrativa da autora à qual tinha sido recém apresentado, fui surpreendido, também nas férias, pelo filme do argentino Juan José Campanella O Segredo dos seus Olhos, atraído ao cinema pelo fato de o argentino Ricardo Darín ser o protagonista. A película, que recomendo sem receio de decepcionar, conta a história de um investigador que, ao se aposentar, resolve escrever a história de um assassinato que ele tentou solucionar em meio à ditadura argentina. Assim, imerso nesse clima de roteiros policiais, fui recepcionado em minha cidade com um assassinato quase tão estrondoso como o Caso Daudt, o mais marcante da história policial gaúcha, 22 anos depois.
Como repórter dedicado ao caso entre 1988 e 1989, acompanhei em minúcias a tumultuada investigação da época. Passadas mais de duas décadas, desconfio de que todas as críticas que a polícia gaúcha recebeu desde então parecem ter valido a pena. Ajudaram a não repetir erros como aqueles. Desde os tiros que sacudiram o bairro Floresta na abafada noite do último 26 de fevereiro, a polícia gaúcha compreendeu a grandeza do crime que tinha de esclarecer.
Não conversei com os delegados que coordenaram a apuração do Caso Eliseu, mas creio que eles se inspiraram na literatura do Caso Daudt, um manual às avessas da boa apuração. Nunca mais a polícia gaúcha apagará a série de trapalhadas e omissões que permitiu ao mais rumoroso dos casos entrar para a história como um crime perfeito, sem culpados nem condenações, marcado por perícias tardias, testemunhas contraditórias e desavenças públicas entre investigadores. Mas 22 anos depois a polícia teve uma chance de se redimir e conseguiu, a se confirmarem os fatos esclarecidos até agora.
A forma como foi corretamente isolada a área logo depois dos tiros em Eliseu; a agilidade no alerta a hospitais em busca de possíveis feridos; a percepção da dimensão do crime; e o uso de técnicas apuradas de perícia mostram que todas as críticas da imprensa no Caso Daudt podem ter colaborado para uma sociedade melhor. Este é um dos papéis do jornalismo: o de ajudar a aperfeiçoar as instituições públicas.
Comparada à de 1988, Porto Alegre é uma cidade bem mais violenta e perigosa – e, se não for feita alguma tentativa semelhante às de Nova York ou Rio, em breve seremos Nova York e Rio, sem o charme das duas metrópoles. Mas não há dúvida de que a polícia de hoje é bem melhor do que aquela das confusões de 1988. E, deduzo, muito deve-se à desaprovação pública e à livre divulgação dos fatos que marcaram aquela investigação.
Vejo, porém, com preocupação esta tentativa cada vez mais comum de solicitar à Justiça sigilo nas investigações. Advogados, quando o solicitam, alegam proteger a imagem dos clientes. Promotores, quando pedem segredo, dizem que é para evitar publicidade aos passos da investigação. E qual o sentido, afinal, de manter o sigilo quando os suspeitos já tiveram prisão decretada e o mistério é considerado elucidado? Incompreensível. Soa como uma clara tentativa de afastar a imprensa e, nesse caso, cabem duas observações:
1) Pouco adianta. ZH, por exemplo, continuou antecipando os principais passos da apuração, apesar da concessão do sigilo judicial em um caso que interessa a todos os gaúchos.
2) Silêncio não melhora a sociedade.