por Ricardo Stefanelli
Acostumados a lidar com o público, que cada vez mais ajuda na produção do conteúdo, os veículos da RBS viveram uma tarde diferente na quinta-feira, quando o Rio Grande anoiteceu às 12h50min.
O coordenador de Jornalismo da Rádio Gaúcha, Cláudio Moretto, se preparou para mais uma cobertura de temporal em sua rotina, acionando como de hábito as equipes de reportagem. Não seria bem assim. Aos poucos, percebeu que a emissora ganhava uma ajuda externa mais encorpada do que de costume. O canal de voz com os ouvintes teve de ser ampliado em mais três ramais, tão logo foi aberto ao público. Os relatos chegavam com a mesma intensidade dos ventos. Por telefone, torpedos,
e-mails e Twitter. A intensidade exigia uma providência imediata:
– Temos de criar uma central do caos – propôs Moretto ao gerente de Jornalismo da emissora, Cezar Freitas.
Era preciso organizar e processar tantas informações. Enquanto repórteres e produtores telefonavam para polícias, bombeiros, hospitais e prefeituras, o público mostrava que, desde os locais mais atingidos, podia fornecer relatos mais fiéis. Com um microfone sem fio da Central do Caos, o apresentador André Machado repassava boletins ao vivo, alimentados pelos ouvintes.
Guiados pelos relatos, os repórteres se movimentavam pela Capital com agilidade e precisão. O GPS dos amadores facilitou a primeira incursão da estagiária Fernanda Wenzel, 20 anos. Integrada às pressas à força-tarefa de mais de 50 pessoas, a estudante fez uma estreia a fórceps. Apesar das pernas bambas, às 14h16min Fernanda respondeu ao chamado de Lasier Martins, com firmeza de profissional:
– A situação é muito complicada aqui, Lasier. Estou na Avenida Nonoai, perto do número 630, onde três árvores caíram, uma delas em cima de um carro…
Clique aqui e ouça a estreia de Fernanda na Rádio Gaúcha
Enquanto a novata engatinhava na profissão, aqui na Redação de ZH o site do jornal era abastecido por imagens e dados igualmente assustadores, quase todos vindos de leitores. Eram fotos, vídeos e textos em profusão, delimitando um novo marco na participação de ouvintes, leitores, internautas e telespectadores. O acesso ilimitado a novas ferramentas via internet estimulava a interatividade numa forma que nem nós conhecíamos.
Até mesmo Barbara Nickel, editora de Mídias Sociais da RBS, se surpreendeu com a avalanche de colaboração. Logo ao abrir à participação pública um Cover it Live – uma espécie de chat que permite a troca de mensagens instantâneas –, Barbara percebeu o tamanho da catástrofe que mataria sete gaúchos. As informações intermitentes partiam de todos os cantos do Estado, a ponto de impedir, por horas, que a redatora Leticia Pakulski, mediadora dos diálogos, pudesse se ausentar de sua mesa.
Árvores caídas, muros derrubados, telhas arrancadas, gente ferida ou morta compunham os registros, alguns consternados. Até a noite daquela quinta, mais de 22 mil pessoas haviam entrado no blog ao vivo para acompanhar o minuto a minuto e relatar dramas ou buscar de informações. Até então, a maior participação neste tipo de cobertura ao vivo de zerohora.com envolvera cerca de 8 mil internautas.
Pelo Twitter, ZH podia mapear os acontecimentos. Num deles, a leitora Tatiana Michelin de Freitas,
de Porto Alegre, enviou fotos de jovens surfando nas águas do Arroio Dilúvio, dando início à visibilidade de um ato inusitado e polêmico em meio à tragédia:
– Da janela do meu apartamento, vi aquele cara na água. Peguei minha câmera digital e, na mesma hora, mandei a imagem para o Twitter e para Zero Hora.
Também graças à internet e ao seu público, o Diário Gaúcho, a RBS TV e a TVCOM conseguiram ampliar o raio de cobertura.
– Mesmo com todas as nossas equipes na rua, nossa abrangência seria limitada – diz Gerson Cruz, chefe de Redação da RBS TV e da TVCOM. – Recebemos imagens de vários pontos aonde não chegaríamos.
Assim, o RBS Notícias usou pela primeira vez vídeos postados no site YouTube, a maior febre da internet. Também pela primeira vez, uma editora teve de ser escalada para monitorar vídeos na web. Coube a ela selecionar as imagens públicas para irem ao ar, ajudando os telespectadores a entender o que acontecia em tempo real. Era preciso dar sentido à avalanche de mensagens desencontradas.
Experientes jornalistas se impressionavam com a variedade de material disponível em meio à tormenta. Mais do que isso, as imagens em nada comprometeram os critérios de qualidade da RBS TV e da TVCOM. Uma delas, de Dois Irmãos, registrou o exato momento em que o temporal começou a varrer a região. Uma outra mostrou a arremetida de um avião de carga que tentara pousar no aeroporto Salgado Filho, onde os ventos chegaram a 96 km/h.
Só o público podia estar naqueles locais, naqueles momentos – e quem compreender e interpretar isso poderá oferecer um jornalismo cada vez mais amplo. Adaptando um conceito defendido pelo jornalista americano Carl Bernstein, notabilizado no Caso Watergate, não são apenas os bons repórteres que iluminam a cena: o público também.