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Informações do tempo, o tempo todo

13 de março de 2010 1

por RICARDO STEFANELLI, Diretor de Redação de ZH

Na rotina de deixar o filho de quatro anos na creche, todos os dias, a meteorologista Estael Sias costuma ouvir a mesma pergunta:

— Mãe, vai chover hoje?

No começo da semana, a pergunta feita pelo pequeno Heitor (foto ao lado) foi diferente:

— Mãe, por que tu tá tão preocupada? O que tá acontecendo?

O motivo da apreensão da especialista da Central de Meteorologia, que abastece os veículos da RBS, era a tranquilidade de todos nós. Estava preocupada com a aproximação de um raro ciclone da costa gaúcha e catarinense. Para que os moradores dos dois Estados pudessem encarar o alerta com serenidade, Estael e Leandro Puchalski, sediado em Florianópolis, trabalharam em média 20 horas por dia monitorando por computador o deslocamento do fenômeno no Atlântico. Sim, 20 horas.

O temor era de que ele pudesse ganhar força ao avançar em direção ao continente. Ambos – Estael no Rio Grande do Sul e Puchalski em Santa Catarina – dormiam perto da 1h e acordavam entre as 4h e as 5h. Para reduzir riscos, ainda combinaram com um colega de profissão para que ficasse de sobreaviso nesse período, estabelecendo um sistema de vigilância em rodízio.

Pela tevê, pelas rádios, pelos sites ou jornais do Grupo RBS, todos puderam acompanhar o que ocorria hora a hora. Os dados atualizados e o empenho dos profissionais neste episódio permitiram a Zero Hora, por exemplo, evitar o assunto na manchete (principal chamada de capa), abortando temor desnecessário, embora mantendo o tema na primeira página. Tudo o que queríamos era o contrário: fornecer todas as informações em detalhes, mas sem exagero. Equação difícil, que por isso mesmo exigiu esta carga excepcional dos meteorologistas.

Valendo-se de informações de outras regiões, a dupla também acompanhou o ciclone — que se transformou na tempestade tropical denominada Anita – por meio de imagens de satélites do serviço meteorológico dos EUA, da Nasa e da marinha americana disponíveis pela internet. Na última semana, Estael, 32 anos, ficou o tempo inteiro diante do computador. Saía apenas para ir ao banheiro, comer, tomar banho, dormir muito pouco e, claro, levar o filho à creche. A exceção à rotina ocorreu no final da tarde de quarta-feira, quando lembrou de verificar uma outra temperatura: a de Heitor. Febril e com amigdalite, o menino tremia a 40°C. De imediato, desde Santa Catarina, entrou uma mensagem nos computadores dos jornalistas da RBS:

"A Estael teve de levar o filho ao médico. Qualquer emergência me consultem, por favor", dispunha-se Puchalski, de pronto.

O meteorologista de 35 anos podia imaginar a inquietude da colega, pois teve de deixar para sua mulher a tarefa de dar banho, trocar fraldas e cuidar do bebê Joaquim, de quatro meses.

Graças a esse tipo de dedicação, ambos combatem velhas alegações de imprecisão e despreparo da previsão do tempo. Com empenho e diligência, driblam a inexpressiva estrutura oficial brasileira, carente de suporte tecnológico — não por acaso a maior parte dos dados e das imagens obtidos sobre o fenômeno veio de satélites americanos, redirecionados para o Atlântico Sul a fim de decifrar o que se passava em nossa região.

No final da tarde de sexta-feira, quando concluía esta Carta, conversei com Estael. Satisfeita pelo trabalho realizado, mesmo em meio às férias de seu colega Cléo Kuhn, e pela melhora da saúde do filho Heitor, sem querer ela confidenciou:

— O cansaço do ciclone bateu hoje. Parece que levei uma surra.

A estafa dela e de Puchalski significou bom sono para milhares de gaúchos e catarinenses.

Comentários (1)

  • Gilberto diz: 15 de março de 2010

    Descobri que o editor de ZH não lê a página da previsão do tempo do seu jornal, pois lesse e veria que ela jamais mencionou que existia um ciclone diferente no nosso litoral.

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