Por RICARDO STEFANELLI, Diretor de Redação de Zero Hora
Com saudosas raízes no segmento rural, onde atuei nos primeiros anos da década de 1990, confesso um certo desconforto sempre que alguém propõe grandes reportagens sobre soja. O grão mais precioso do Rio Grande é tão valioso, que, parece, tudo já foi dito, e uma pauta sobre o assunto será apenas mais uma pauta sobre o assunto. Relevante, mas pouco interessante.

Sereno e imperturbável como sempre, o repórter Caio Cigana (na foto acima), 34 anos, aceitou a provocação e mostrou os perigos de preconceitos como esse. Uma semana depois de pautado, retornou à Redação com uma impressionante novidade, pelo menos à grande maioria dos gaúchos: o novo celeiro da soja, acreditem, está na terra da maçã e do rodeio, na região mais fria do Estado, onde a pecuária reinou, sozinha, por séculos.
O que me agrada na estirpe de profissionais como o santa-mariense de nascimento, mas caçapavano de coração, Caio é esta capacidade de surpreender, de saber que uma matéria jamais deve ser igual às anteriores e, por isso, não sai a campo sem antes vasculhar o banco de dados sobre o assunto.
Publicada no caderno Dinheiro, a reportagem "Celeiro de Cima da Serra" ocupa a área mais nobre da capa desta dominical, com histórias que estavam à espera de um bom repórter para serem contadas. Em quatro páginas, o texto mostra que, mesmo em proporções menores, ocorreu silenciosamente um fenômeno semelhante à saga dos gaúchos que migraram para o Centro-Oeste do país a partir da década de 1970.
Reparem na foto de capa como o produtor Valmir Minotto, mergulhado na soja, lembra o Tio Patinhas nadando em sua fortuna: é o que ele fez desde que deixou sua Sananduva para plantar em Vacaria, Lagoa Vermelha e Esmeralda.
Com 5,5 mil habitantes, Esmeralda tem, aliás, um nome sugestivo para abrigar o novo berço do grão dourado. A cidade, ainda sem acesso asfáltico, vê os primeiros acenos do progresso depois do desembarque da soja. O lugar é tão sossegado, com um eterno cheiro no ar de pão caseiro e pinhão assado, que até os donos da pousada pareciam assustados com a presença dos forasteiros Caio, da fotógrafa Adriana Franciosi e do motorista José Carlos Militão (autor da foto acima), que lá desembarcaram às 20h de uma sexta-feira, encontrando os pequenos empreendedores já de pijama e luzes apagadas.

A boa nova da agricultura gaúcha, que o caderno Dinheiro conta hoje, serve de pano de fundo para uma grande novidade de ZH: estreia nesta edição, com espaço cativo de segundas a sábados (a coluna de hoje é excepcional), o colunista Irineu Guarnier Filho. Aos 51 anos, jornalista viajado, Irineu acompanhou as transformações do campo nas últimas três décadas até se transformar num experiente profissional com atuação destacada em TV, internet, jornal e rádio. No seu blog no site do Canal Rural, analisa não somente as questões do campo, mas também se permite navegar pela aviação e pela literatura, duas de suas paixões.
Apresentador do programa Campo & Lavoura, da RBS TV, e principal âncora do Canal Rural, onde pode ser visto às 19h de segunda a sexta, no Rural Notícias, Irineu também é chamado a comandar outros programas e eventos rurais pela experiência e, em especial, por sua capacidade de análise do setor – um talento que passa a exercitar a partir de agora em ZH.