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Posts do dia 24 julho 2010

Um especialista no front

24 de julho de 2010 0

Por Altair Nobre

Quando o repórter Humberto Trezzi pisou pela primeira vez em uma favela carioca, o Brasil estava sob o impacto da chacina de Vigário Geral, ocorrida em 29 de agosto de 1993. O enviado especial de Zero Hora marcou sua presença na guerra do Rio com uma entrevista exclusiva com líderes do tráfico, relevante para a elucidação do massacre de 21 moradores em represália à morte de quatro policiais. Os entrevistados também eram alvos dos matadores e escaparam. Um novato naquele front ganhou a confiança deles. 

Era o batismo de um dos principais especialistas gaúchos em criminalidade. Pouco tempo depois, em outra viagem a Vigário Geral,  ele foi à procura das fontes. Algumas já haviam morrido. Foi informado disso por comparsas delas, desconfiados. Acompanhado do fotógrafo Ronaldo Bernardi, foi cercado, interrogado e ameaçado.

– O sotaque nos salvou – lembra o passo-fundense de 47 anos,  já com 10 incursões às conflagradas terras fluminenses. 

Em 17 anos, Trezzi soma centenas de horas de exposição a situações-limite, como a de ficar frente a frente com grupos armados e arredios à imprensa local. 

Sem descuidar da prudência – primeiro dever de todo correspondente de guerra –, Trezzi administrou momentos dramáticos. Assim, adquiriu experiência nesse laboratório da violência urbana brasileira. Natural que ele fosse o convocado, quando Zero Hora decidiu conferir os resultados das chamadas Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs). Implantadas em novembro de 2008, elas trazem um alento a cidadãos petrificados diante da rotina de homicídios, assaltos e delitos corriqueiros. Há, sim, maneiras de superar o crime, mesmo em lugares de extrema violência,  e devolver as comunidades para seus legítimos donos.

Trezzi comprovou isso entre os dias 12 e 15 deste mês, ao percorrer quatro favelas beneficiadas pelas UPPs. Evitou ir com os PMs, porque queria saber na prática se eram reais as mudanças alardeadas. Encontrou um ambiente transformado.

– É como se uma luz tivesse descido sobre uma longa escuridão – compara, emocionado, o repórter habitualmente avesso à poesia.

Antigamente, até os líderes de associações comunitárias pediam para ter seus nomes omitidos, sob o temor de represálias. Hoje, moradores comuns dão depoimentos sem medo.

– Homem armado por homem armado, a gente sempre teve aqui. Agora, pelo menos a gente tem aula – disse Angelita Carvalho, 52 anos.

Na emblemática Cidade de Deus, a dona de casa, no sonho de se tornar cantora, decifra notas musicais tendo como professor um soldado evangélico formado em piano.

Embora a ocupação das bocas de tráfico por policiais ainda seja restrita a 5% das favelas cariocas e falte muito para o Estado paralelo ser derrotado no Rio, Trezzi volta de lá com conteúdo aplicável à realidade dos gaúchos – felizmente, bem menos conflagrada. Uma das lições é fortalecer as iniciativas de policiamento comunitário: primeiro a polícia expulsa os criminosos, depois, implanta serviços e, a seguir, cultiva o entrosamento com as famílias. 

A busca de soluções contra a violência é a obsessão desse jornalista, sintetizada na seção “Sua Segurança”, que ele assina desde janeiro de 2007. Anunciado “com pesar” em uma Carta do Editor há três anos e meio, esse espaço para acompanhar “a insegurança nossa de cada dia” ocupa três páginas nesta edição dominical (de 4 a 6) para celebrar a vida dentro da lei e dar aos leitores a esperança de que, um dia, o Brasil não precisará mais se preocupar com segurança.