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Das sombras da infância

14 de agosto de 2010 2

CARTA DO EDITOR

Por Ricardo Stefanelli

Enquanto o repórter Carlos Etchichury me descrevia, quinta-feira à noite, a reportagem que ele terminava de produzir para esta edição dominical, uma outra matéria, no mesmo tema, vinha à minha cabeça com todas as cores da época, início dos anos 90. Em meio à descrição de Etchichury sobre a relevância da iniciativa inédita do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), tema de três páginas nesta edição, saí daquela conversa em direção ao passado, onde adormece até hoje uma curiosidade. Ou um arrependimento, quem sabe.

Não lembro o nome, mas me recordo de seu sorriso permanente. Tinha cinco, seis ou sete anos, cabelos crespos em desalinho à tiara, e tão logo nos ouviu no pátio daquela casa da então Febem, se afeiçoou a nós, repórteres que tentávamos entender a existência de um ferro-velho de crianças.

Ao lado do fotógrafo Mauro Vieira, companheiro de inúmeras jornadas jornalísticas, passamos a manhã quente daquele novembro de 1992 numa das casas onde estavam abrigadas 47 crianças à espera de uma difícil adoção, por não serem recém-nascidas e não terem a cor branca de pele – infelizmente, uma preferência dos interessados em se tornar pais adotivos. Esta menina era branca, mas na sua idade já era considerada velha e, alertou o juiz Marcel Hoppe, conosco naquela missão, elas não estavam à espera apenas de pais. “Elas precisam de pais especiais”, explicou.

Uma delas se enroscava em minhas pernas, tentava impedir que eu conversasse com as monitoras da Febem, sorria o tempo todo e chamava a atenção. O gesto era recorrente, confidenciaram as monitoras da Febem. Achava sempre que o visitante ali estava para levá-la. Ela sonhava com um lar, só isso. Carinhosa, nos abraçava com uma ternura inesquecível, a ponto de, por semanas, questionar se eu não deveria ingressar com um pedido oficial para adotá-la.

Mauro e eu saímos destroçados daquela pauta, e tudo voltou na última quinta-feira, quando Etchichury narrava com empolgação o mutirão de um juiz, uma promotora pública e uma assistente social que visitam 130 casas-lares e abrigos para conhecer todas as 1,4 mil crianças e adolescentes hoje sob a guarda do Estado – só em Porto Alegre -, pois foram negligenciadas por seus pais. Na prática, me explicou o repórter enquanto eu esfumaçava os pensamentos, a iniciativa tem um objetivo principal: o de ouvir as crianças e os adolescentes. Elas querem opinar sobre seu destino, precisam ter a chance de levar sua versão a um juiz – e não apenas dependerem do parecer dos técnicos.

Não sei se me emocionei com a ideia do CNJ ou se com o resgate daquela história de 1992, ainda sem um ponto final. Gostaria de saber por onde andas hoje, se não for remexer num passado de dor. Se te identificares na foto, entra em contato, pois tu podes ser uma luz para as crianças ensombreadas nas páginas 24 a 26 desta Zero Hora dominical.

*

Leia abaixo, na íntegra, a reportagem publicada em Zero Hora de 18 de novembro de 1992

As crianças que ninguém quer

Quarenta e sete órfãos com mais de um ano, em geral negros, doentes ou grupos de irmãos, estão à procura de uma família *

Ricardo Stefanelli

Mal saiu da cama, no dia 3 de novembro, a franzina Camila, de três anos, estendeu uma fralda de pano por cima de um caixote, montou um bolo imaginário com potes de plásticos e puxou o Parabéns a Você. O canto, que surpreendeu os monitores da Fundação Estadual do Bem-Estar do Menor (Febem), foi encorpado pelo coro das demais crianças da casa, em especial por Zé Augusto, o irmão de Camila, que não lembrava que naquela data fazia aniversário, e a pequena Josiane, seis anos, a mais velha dos três. A comemoração engambelou temporariamente o drama do trio: perderam os pais legítimos e, pior, provavelmente jamais serão adotadas. Com apenas quatro anos de idade, Zé Augusto carrega o peso da idade e da companhia das irmãs.
Quarenta e sete crianças de Porto Alegre vivem esse drama duplo. Elas perderam os pais legítimos e têm pouquíssimas chances de serem adotadas. Estão catalogadas no Juizado da Infância e Adolescência na categoria de “difícil colocação” _ uma designação burocrática que identifica o grupo das crianças indesejadas. Elas sempre existiram, mas pela primeira vez o Juizado da Infância e Adolescência faz um esforço desesperado para desencalhá-las. “O reflexo dessa situação, no futuro, nós todos sabemos”, avisa o juiz Marcel Esquivel Hoppe. “Serão prováveis assaltantes, prostitutas ou assassinos”.
Fazem parte dessa categoria de rejeitados as crianças abandonadas com mais de um ano de idade, os grupos de irmãos, as negras, as doentes e os deficientes físicos ou mentais. Quanto mais se encaixarem neste perfil, menor são suas probabilidades de adoção. Em vários casos, as chances são iguais a zero.
Crianças do sexo feminino, recém-nascidas, de cor branca, são as mais procuradas. As demais são vítimas da idealização da paternidade. “Toda pessoa que pensa em adotar idealiza tanto quanto os pais que vão gerar”, compreende Jane Chachamovich, assistente social do Juizado. Os futuros pais moldam na cabeça a adoção de filhos sem histórias atrás _ quanto mais novinhos, melhor.
A opção pela cor branca da pele é esclarecida pelos números. Na fila de 100 pessoas habilitadas legalmente em Porto Alegre a se tornarem pais adotivos, 93 delas são de cor branca _ e 20 das 47crianças rejeitadas são negras ou mistas.

Trios e duplas

A cor e a faixa etária são dificuldades eliminatórias, mas há outras. Os irmãos precisam continuar juntos e são raríssimos os adotantes que querem duas ou mais crianças: no grupo dos rejeitados há cinco duplas, um trio, dois quartetos e um quinteto de irmãos. Diante da impossibilidade de mudar as crianças, o Juizado vem tentando mudar o desejo dos pais: nos últimos dois anos conseguiu diminuir a exigência do sexo e aumentar a faixa etária dos adotados.
Para carregar o estigma da “difícil colocação”, foram esgotadas uma a uma todas as tentativas de essas 47 crianças permanecerem no seio familiar. As mais insistentes investidas do Juizado são nos vínculos familiares biológicos. A explicação é simples. “Todo mundo se mobiliza com uma criança abandonada”, diz a experiência do juiz Marcel Hoppe. “Mas o sentimento mais comum, nesses casos, é o de piedade, um sentimento que invariavelmente não dá resultado positivo”, diz ele. Hoppe costuma chamar a atenção para o fato de que estas crianças são diferentes e, por isso, não precisam apenas de pais. “Elas precisam de pais especiais”, sentencia.

Espera por um lar não diminui afeto

O último sábado de outubro amanhecera com temperatura amena e a brisa entrava fresca pelas janelas da casa bem arejada. A cozinheira Teresa Noratto dormira bem a noite anterior, tomara tranquila o seu café da manhã e nem tivera problemas com a condução até o trabalho, numa das Unidades Residenciais Transitórias, casas montadas pela Febem. Mesmo assim, ela não suportava tamanha dor de cabeça. “Quando vi a Luciana partindo com sua mãe adotiva, faceira, abanando do carro, entendi minha dor”, conta Teresa. Espalhadas pelas casas e albergues, as crianças encalhadas estão longe de formar um ferro-velho da adoção. A carência parece que faz delas mais carinhosas, sorridentes e afetuosas.
A simpática Luciana, com apenas dois anos de idade, cativara a todos com facilidade. Frequentar um dos 15 lares da Febem é a melhor maneira de não entender o carimbo da rejeição. Frequentar uma das casas é também a melhor maneira de entender que é preciso ser realmente especial para levar para casa filhos diferentes.
Um deles, por exemplo, aos sete meses carrega o teste do HIV (vírus da AIDS) positivo. Os pais eventuais de Antônio Carlos precisarão acompanhá-lo três vezes por semana ao fisioterapeuta e mais uma ao fonoaudiólogo: aos três anos de idade, ele caminha com certa dificuldade, mal consegue falar e usa fraldas 24 horas ao dia.
O monitor Jorge Alberto percebe diariamente a falta de razão do preconceito. Para a beijoqueira Clarice, de três anos, Jorge Lopes é uma verdadeira mãe _ pelo menos é assim que ela o chama quando tem fome, sono ou quer colo. “No início tentei mudar, mas agora assumi a maternidade”, brinca o rapaz.
Mariana, de sete anos, carrega com graça os motivos que a levaram para o albergue. “Quando eu crescer serei policial”, sorri _ Mariana foi seviciada pelo pai legítimo quando era mais nova.
Alexandre, sete anos, é a solidariedade concentrada. “Quando for grande vou cuidar dos meus irmãos”, anuncia.

Arteiro e carinhoso

No Dia das Mães, Gustavo voltou da escola com um cartão entre as mãos escondidas às costas. “Adivinha o que eu trouxe para ti?”, dirigiu-se à Teresa Noratto. Ao abrir o envelope, a cozinheira calejada, mãe de dois filhos maiores de idade, foi atropelada pela emoção. “Tia, tu é minha mãe”, decretou o menino.
À fama de arteiro, o mulato Airtom costuma agregar a de carinhoso. Tem uma mania conhecida de morder todas as maçãs que desembarcam na cozinha do albergue, mas nenhum dos adultos consegue ultrapassar o território do primeiro xingão. “Ele abre um sorriso irresistível”, justifica a monitora Isabel Cristina de Melo.
Os gestos sinceros e marotos, porém, andam abreviados desde que a mãe legítima de Airtom visitou-o, depois de quase dois anos. O garoto não demonstrou afeto algum na frente da mulher, mas o novo sumiço dela, há 40 dias, se reflete numa agitação incomum que surge especialmente durante o sono.

* Os nomes das crianças, publicados nesta página, foram trocados.

Comentários (2)

  • Izane diz: 15 de agosto de 2010

    Editor, deve ser um arrependimento. Lendo tuas linhas, fiquei engasgada, acredite. Mas se vc quer, tem as condições, vá enfrente e adote, pois não é só um gesto bonito como dizem, é amor, é humano. Eu, em situações assim, fico de coração partido, pois não posso fazer muito. Algumas vezes quando estou no centro da capital e me deparo com as crianças pedindo, vendendo balas ou até mesmo sentadas nas calçadas, tentando se proteger do frio eu vou a uma loja compro meias e dou para elas agasalharem os pés. Não é nada, mas é o que posso fazer por elas.

  • mari fatima danelli stumm diz: 16 de agosto de 2010

    MEUS PARABÉNS A TODOS OS ENVOLVIDOS NESTE PROJETO, AS CRIANÇAS MERECEM SER OUVIDAS ELAS NÃO PEDIRAM PARA NASCER E NEM SEREM ABANDONADAS POR PAIS INRESPONSÁVEIS.

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