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Posts do dia 14 maio 2011

A sempre bem-vinda provocação de leitores

14 de maio de 2011 1

Por Ricardo Stefanelli – Diretor de Redação

É provável que Zero Hora tenha sido o jornal brasileiro que mais deu atenção ao Paraguai nas três últimas décadas. O que, do ponto de vista paraguaio, nem sempre se constitui numa boa notícia. A imprensa brasileira em geral – também ZH – costuma abordar assuntos desagradáveis ao país hoje governado por Fernando Lugo,  um bispo dispensado das funções na Igreja.

Contrabando, roubo de carros, tráfico de drogas, falsificações em geral têm, de fato, pautado a maior parte das coberturas. O mais lógico é depositar a culpa do viés negativo no próprio Paraguai e suas estripulias criminais, mas no início deste ano recebemos um e-mail que provocou reflexão interna e uma viagem. Vou reproduzir parte dele:

“... trata-se de um país que sofreu uma perda extraordinária não só no volume do seu território como na sua gente, dizimada com a guerra contra a Tríplice Aliança. Isso faz com que o ressentimento contra argentinos e brasileiros continue e seja agravado sempre que a imprensa brasileira publica notícias ruins. O Paraguai tem 6,5 milhões de habitantes, com aproximadamente 500 mil brasileiros de primeira, segunda e terceira gerações. Fechou 2010 com o maior crescimento de PIB da América Latina. Conta com duas das maiores hidrelétricas do mundo, com uma produção de grãos da ordem de milhões de toneladas, ganaderia (gado) de primeiríssima qualidade, com exportação de carnes para todo o mundo. Conta com empresas brasileiras do porte de Banco do Brasil, Itaú, Petrobras, Brahma, Cargill, distribuidoras de máquinas agrícolas, frigoríficos... Mais de 80% da produção agrícola é de brasileiros que para cá trazem maquinaria, tecnologia e sementes. Quando se fala em tráfico de drogas e contrabando de armas e cigarros, desconhece-se que a maioria desses delitos são praticados por brasileiros que se instalam ao longo da fronteira e que atuam em parceria com quadrilhas de São Paulo e Rio. Os brasileiros (98%) ‘conhecem’ o Paraguay através da Ciudad del Este. E desconhecem Asunción e o restante do país”.

O e-mail, que repete outros recebidos ao longo de anos, veio desta vez em portunhol, enviado pelo gaúcho José Otávio Alves de Souza, de Encruzilhada do Sul, radicado em Assunção há dois anos. A queixa se assemelha às de uma outra leitora habitual de ZH, Alicia Frutos Gomez, paraguaia cuja filha vive em Porto Alegre. Na última correspondência enviada, ela disse não entender por que o Paraguai costuma aparecer só sob esguelha negativa.
– Amamos o Brasil. Contrabando tem na Argentina, no Uruguai, na Colômbia, na Bolívia... Quantos trazem contrabando de Miami? – indagou Alicia.

Esse tipo de questionamento nos instigou e resultou na matéria que a repórter especial Marta Sfredo retrata na edição de hoje, depois de uma semana naquele país, onde deparou com agradáveis surpresas. Acompanhada do fotógrafo Ricardo Duarte, encontrou um país engalanado para as celebrações do bicentenário de sua independência, com empresas, prédios públicos – e até casas – decoradas em azul, branco e vermelho. Esse orgulho patriótico ganhou fôlego depois de o Paraguai ser confirmado como a segunda nação que mais cresceu percentualmente no mundo em 2010: expansão de 15,3%, contra 7,5% do Brasil.

A repórter, é verdade, conversou também com um povo ainda ferido – aliás, eternamente ferido. O que para alunos brasileiros significa uma vaga memória das aulas de história, para os vizinhos é uma chaga sem fim. “Falam de guerra, em especial a da Tríplice Aliança, como se tivesse sido neste século”, espantou-se Marta.
Mas um país mais vicejante dá, sim, seus primeiros passos. Na região entre os bairros de Recoleta (sim, como os portenhos, eles também têm uma Recoleta), Villa Morra e Carmelitas, o clima é cosmopolita. Prédios modernos, lojas requintadas, revendas de carros de luxo ajudam a abalar o tripé criminal: tráfico-contrabando-roubo de carros.  “E com presença forte de marcas brasileiras e gaúchas. Vi lojas Florense, Marelli e SCA na área mais elegante da cidade”, alegra-se a repórter.

A partir da página 16, prepare-se para uma boa surpresa: conhecer um Paraguai que tem dado muito certo.