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Carta do Editor: conheça Fabiane, a vencedora do concurso cultural Primeira Pauta 2011

13 de agosto de 2011 2

A vida como pauta

Ricardo Stefanelli, diretor de Redação de Zero Hora

Para quem, como eu, discorda do discurso pessimista de que os jovens de hoje não leem ou têm pouco apego à literatura, tenho um bom motivo para celebrar neste domingo. Aproveito a Carta para anunciar que a grande vencedora da promoção Primeira Pauta, de ZH, chama-se Fabiane Paza, 21 anos, natural de Capinzal (SC), estudante da Universidade Federal de Santa Maria no campus de Frederico Westphalen. Fabiane tem inúmeras qualidades, mas se destaca por ser uma devoradora de livros – não por acaso, segundo os jurados, escreve bem.

Sempre que convidado a falar nas faculdades de Jornalismo, tenho expressado o meu pensamento: a garotada dos anos 2000 chega às Redações muito mais preparada do que as gerações passadas. Não sou saudosista e, portanto, não acho que tudo do passado era melhor – muito menos o Jornalismo.

Em casa, na Redação onde trabalho e nos inúmeros contatos que faço com jovens de 12 a 25 anos, vejo como a maioria deles é apaixonada por livros – mesmo que lidos na internet ou nos tablets. Não importa. Sempre me exibi que minha filha adolescente devorou os sete livros da série Harry Potter, todos em inglês e depois em português, calhamaços de 500 páginas em média. Se fosse só ela, eu seria apenas um pai exibido, o que é até um direito neste domingo especial. Mas a turma da escola tinha essa mesma saudável mania, de devorar livros, não apenas de J.K. Rowling, mas as Desventuras em Série, de Lemony Snicket (heterônimo de Daniel Handler), as obras de Jostein Gaarder (de O Mundo de Sofia e O Dia do Curinga) ou o universo de Philip Pullman.

Fabiane é dessa geração bem preparada e conectada. Filha do chapeador Volmir e da professora de Educação Infantil Adelaide, lê muito desde criança — Monteiro Lobato, Ziraldo e Mauricio de Sousa. A ponto de, aos 15 anos, ter acreditado que estava vocacionada para o Jornalismo.

— Sabia que viveria de escrever e percebi que dificilmente seria escritora, pois a realidade me atrai mais do que a ficção — disse.

Precoce em quase tudo o que faz, além das atividades do curso e do trabalho numa agência experimental de notícias, Fabiane se orgulha em ser a cozinheira oficial do apartamento dividido com três colegas de faculdade — suas especialidades são estrogonofe, panqueca e pizza. Para quem acha pouco, garante: no caso da panqueca e da pizza, ela faz questão de preparar inclusive a massa.

Selecionar esses talentos precoces, não nas artes culinárias, mas para o Jornalismo, é o objetivo do Primeira Pauta, nascido há dois anos. Mariana Müller, a vencedora de 2009, como prêmio acompanhou uma expedição de duas semanas na Lagoa Mirim e hoje atua — ainda como estudante — na equipe dos cadernos de bairros de ZH. Alvaro Andrade, o ganhador de 2010, testemunhou a histórica cobertura do resgate dos mineiros no Chile e já é conhecido entre os ouvintes da Rádio Gaúcha, onde está desde fevereiro último.

Fabiane, que se forma em dezembro, em breve estará conosco também a bordo de uma Grande Reportagem. Então, ela poderá colocar em prática o que escreveu na primeira bateria de testes a que mais de uma centena de jovens foi submetida ao longo dos últimos quatro meses. Ali naquele primeiro texto, em maio, ela começou a conquistar um espaço em Zero Hora, ao confessar:

“Quero ser jornalista porque quero ter a vida como pauta. Porque, mais do que contar histórias, é preciso ouvi-las, senti-las e torná-las interessantes”.

ricardo.stefanelli@zerohora.com.br


Confira a participação da vencedora

Aos 21 anos, a estudante Fabiane Paza, vencedora do Primeira Pauta, passou por três etapas de seleção. Na última delas, na Redação de ZH, foi entrevistada por editores do jornal e produziu o texto abaixo, um perfil do repórter especial Nilson Mariano.

  • O TEXTO DA ÚLTIMA ETAPA DO CONCURSO

Nilson Mariano: do gibi ao jornal, jornalismo humano e cidadão

Fabiane Paza

Ele é repórter especial, mas se esquiva da condição quando perguntado do peso dessa especialidade: “sou repórter, estou sempre aprendendo, deixa o especial de lado”. Nilson Mariano é um jornalista consagrado e atua hoje na editoria Geral do jornal Zero Hora.
Filho do bancário Nilson Alves e da dona de casa Jandira, Mariano nasceu na pequena Candelária (RS), onde teve uma típica infância à lá anos 50: com muita bola de gude e histórias de gibis. Foi nessa apreciação pelos super-heróis dos quadrinhos que Nilson imergiu no mundo da leitura e da escrita, “fui alfabetizado por gibis”. Ele preferia a companhia dos livros que retirava da biblioteca da escola à televisão, naquela época insossa e em preto-e-branco.

O gosto pelo jornalismo não tardou a aparecer, aos 14 anos ele conta que “já estava direcionado” para a reportagem. No Jornal de Lajeado, Nilson exerceu suas primeiras pautas. Aos16 anos trabalhava como repórter, sem qualquer formação e na ilegalidade, já que na época o diploma era exigido para o exercício da profissão. Nessa altura, o garoto introspectivo já não tinha dúvidas de que seu futuro seria na reportagem. A formação veio aos 22 anos, na PUCRS.

A excelência nas coberturas que realiza é consequência de aptidões que desenvolveu nos 30 anos de profissão, e engana-se quem pensa que ele faz o tipo de repórter agitado e tagarela. “Não sou um perguntador”. Nilson, na sua quietude, ressalta a importância da observação e da audição na sua prática jornalística: “o olhar do repórter é insubstituível”. Deve ser por isso que ele fala o necessário. Agregando a observação categórica à obstinação, criou sua fórmula do sucesso profissional, aos 53 anos — comemorados no dia do repórter — acumula mais de 50 prêmios por reportagens realizadas, que vão de ARI e ESSO a Vladimir Herzog.

Nilson Mariano dedica boa parte do dia para a reportagem e não nega o gosto pelo que faz: “é a essência do jornalismo”. Chega à Redação por volta das 11h e termina o expediente às 20h, “variando, é claro” conforme a pauta. As ferramentas de trabalho mudaram ao longo do tempo, o telefone analógico e a máquina de escrever foram substituídos pelo celular e computador. A tecnologia é companheira de trabalho. Os tradicionais blocos de anotações e as canetas “Bic”, carrega sempre consigo. “Levo duas canetas, vai que uma falha, né?”. A precaução é evidente e complementa outra característica dele: a busca pela perfeição. Carlos Wagner, amigo e colega de trabalho há 27 anos confirma: “é excessivamente metódico”. Além disso, é concentrado. Os fones de ouvido que ficam junto ao computador não servem pra ouvir nada, mas pra abafar as conversas e ruídos constantes na redação.

O armário onde guarda seus pertences denuncia sua segunda paixão: a história. Ali ficam blocos já preenchidos e pastas com documentos coletados durante anos. Mestre em História e curioso pela ditadura, Nilson comenta que “só o jornalismo é muito superficial”. A parceria entre as duas áreas lhe rendeu trabalhos memoráveis, como o livro Operação Condor — que trouxe à tona um pacto secreto entre as ditaduras do Cone Sul.

Ele é casado com Suzana há 27 anos, com quem teve Felipe, ambos na carreira jurídica. Além de jornalista, pai e marido, exerce a cidadania através das suas pautas, que lhe renderam o título de Cidadão Emérito de Porto Alegre e de Jornalista Amigo das Crianças. Certamente os super-heróis dos gibis que leu quando criança ensinaram Nilson muito mais do que a ler e escrever, mas ele é modesto demais para admitir.

  • O TEXTO DA SEGUNDA ETAPA DO CONCURSO

Nada se perde, tudo se transforma

Fica numa propriedade rural da Linha Boa Esperança, interior do município de Frederico Westphalen, uma chama que não se apaga. Ela queima o gás metano, produzido dentro de um tanque coberto por uma lona gigante, através da fermentação de toneladas de dejetos suínos que ficam ali depositados.

Trata-se de um biodigestor, alternativa de produção de energia limpa e aproveitamento de matéria orgânica, utilizada como alimento por microorganismos que fazem a sua biodigestão.

Selso Zonta e Vanderlei Zonta são agricultores que aderiram ao sistema. Utilizam o gás gerado pelo biodigestor para ferver a água que higieniza o material para a ordenha de vacas e também numa pequena indústria de suco de uva, onde o gás aquece e vaporiza a água que auxilia na extração do líquido da fruta. Além disso, a massa que sobra do processo de fermentação serve como adubo para a pastagem que alimenta o rebanho da propriedade.

“A economia é enorme, o gás serve para nossas atividades e sobra, por isso ele fica queimando o tempo todo, senão a lona não suportaria”, comenta Selso. Os números são expressivos, em um ano a economia gira em torno de 13 mil reais entre o gás e os fertilizantes artificiais que deixam de ser comprados.

Além da redução no bolso, o biodigestor reduz a emissão de gases tóxicos e causadores do aquecimento global, como o ácido sulfídrico e a amônia. “A popularização desse tipo de mecanismo é importantíssima para a preservação e sustentabilidade”, reforça o Engenheiro Sanitarista Pablo Sezerino, pois os biodigestores aliam o conforto ambiental à produção de alto teor energético.

Boa esperança é aquela que não termina, como a chama acesa na propriedade do Sr. Selso, mantendo viva a preocupação com o meio-ambiente para que ele, de fato, nunca morra.


  • O TEXTO DA PRIMEIRA ETAPA DO CONCURSO

Em resposta à pergunta “por que quero ser jornalista?”,
Fabiane enviou o  seguinte texto:

Quero ser jornalista porque quero ter a vida como pauta. Porque, mais do que contar histórias, é preciso ouvi-las, senti-las e torná-las interessantes aos demais. Porque nesse ir e vir entre personagens reais, ser jornalista é ser investigador na apuração de quem é mocinho e quem é vilão. E nessa busca, ser jornalista é ser prudente para que cada um dos lados da história seja representado com fidelidade.

Quero ser jornalista para formar e transformar opinião, já que mudar o mundo não é um papel individual. Quero ser jornalista porque a hora certa é chegar primeiro e o lugar certo é qualquer lugar, pois o fato não escolhe onde, ele simplesmente acontece.

Quero ser jornalista porque não importa o que, quem, quando, como nem onde, o importante é responder a todas as perguntas.

Quero ser jornalista para ter como ferramentas de trabalho a ousadia da provocação, a ética da veracidade da informação, a responsabilidade da exatidão dos dados e a humildade de quem nunca sabe o bastante. Quero ser jornalista porque não há deadline que supere a emoção de ajudar a escrever o passado, vivendo o agora, com os olhos voltados para o instante que está por vir.


A estudante no arquivo de fotos dos jornais do Grupo RBS

O registro acima, feito durante o teste da terceira etapa do Primeira Pauta, não foi o primeiro de Fabiane a constar do arquivo de fotos do Grupo RBS. Aos 15 anos, ainda no Ensino Médio, a estudante venceu o concurso Jovem Cronista, do Diário Catarinense. Um tempo em que já sonhava em ser jornalista.


Comentários (2)

  • Cassia Zanon diz: 15 de agosto de 2011

    bá, ricardo, como eu queria ter um pouco do teu otimismo… quando começamos a conviver com gente de fora do nosso círculo (de redações e jornalistas), a realidade em relação à leitura infelizmente é bem diferente. as pessoas “lá fora” veem a leitura como algo “utilitário” e não como algo que faça parte da vida.

  • Rogério de Souza diz: 17 de abril de 2012

    Bom dia!
    Parabenizo a Zero Hora pela iniciativa e, em especial, a linda menina Fabiane Paza.
    A Fabiane é um exemplo a ser seguido pelos jovens. Zero hora deve divulgar mais as trajetórias profissionais de todos os ganhadores da Primeira Pauta como incentivo a todos os “leitores” do Rio Grande Sul e do Brasil.

    Ler é uma aventura a cada letra e a cada frase. Agora há pouco, comecei a ler os livros da série Pearcy Jackson, incentivado pela minha neta que tem menos de 10 anos. E estou me divertindo muito.

    Parafraseando a linda menina Fabiane: “………quero ter a vida como pauta. Porque, mais do que contar histórias, é preciso ouvi-las, senti-las e torná-las interessantes”. Sucesso a você, Fabiane.
    Um forte abraço a Fabiane, Sr. Ricardo Stefanelli e equipe.
    Rogério

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