Ricardo Stefanelli, Diretor de Redação de Zero Hora.
Há 20 dias acompanhando o trabalho da pequena força-tarefa reunida para esmiuçar um dos maiores escândalos das contas públicas gaúchas, me preparei para escrever neste domingo sobre a reportagem que trata da Companhia Estadual de Silos e Armazéns (Cesa). Gostaria de chamar a atenção do leitor para essa apuração capaz de expor com clareza como e por que o serviço público é, muitas vezes, desacreditado. Creio, porém, que os números apresentados, nas páginas 6 a 10 desta edição, têm força para falar por si. É uma pena ter chegado a isso.
Também fiquei tentado a escrever sobre a missão pouco delicada de produzir uma reportagem como a intitulada “A guerra em duas rodas”, a partir da página 29. Sei que o leitor consegue imaginar o quão difícil é procurar uma família que acaba de perder um filho em um acidente de moto. Nosso objetivo, nesse caso, é chamar – mais uma vez – a atenção para o flagelo que vem ocorrendo no trânsito para quem se locomove em duas rodas.
Mas resolvi, na verdade, contar a história de uma matéria que não está nesta edição dominical, porém expõe uma das funções de um veículo de comunicação.
Por volta das 8h de domingo passado, quando muitos de nós ainda dormíamos o sono reparador do final de semana, e a telefonista Carmen Maria Nunes, da RBS TV, quase encerrava seu plantão, ela recebeu uma ligação desesperada: no outro lado, falando desde São Paulo, a freira Eva Tereza de Sá. Ela procurava na RBS TV ajuda para uma sobrinha que precisava ser submetida a uma cesariana e não encontrava atendimento adequado.
À espera da equipe da RBS TV que não tardaria a chegar, mas sabendo que o próximo noticiário da emissora só ocorreria à noite, temendo pelo pior, Carmen ligou para a Redação da Zero Hora, procurando alguém do site, a porção 24 horas de nosso jornal. Foi atendida pela redatora Juliana Jaeger, a primeira jornalista a ouvir a história da servidora pública Elisiane dos Santos San Martin Naparo, 34 anos, grávida de sete meses, com gêmeos no ventre e a bolsa rompida desde a antevéspera. Só uma UTI neonatal, para dar suporte a prematuros, poderia salvar as vidas dos bebês e não colocar em risco a da mãe. Era uma corrida contra o tempo.

De plantão na Redação, o repórter Carlos Wagner achegou-se ao núcleo online com seu jeito agradavelmente tosco:
– O que que tá rolando?
Foi quando ouviu de Juliana que o problema era esse, não estava “rolando” o hospital necessário para uma gestante em apuros.
Wagner e Juliana acionaram a repórter de Pelotas, Joice Bacelo, posto mais próximo de Santa Vitória do Palmar, a longínqua cidade de Elisiane. Joice falou com a família San Martin, ligou, sem ser atendida, para a direção da Santa Casa de Santa Vitória – por coincidência, o hospital onde a jornalista nasceu, há 27 anos – e conversou com a médica que cuidava de Elisiane ao longo da gestação e com o secretário estadual da Saúde, Ciro Simoni. Com base nas informações dos diálogos telefônicos, enviou texto postado em zerohora.com às 12h45min.

Eram as primeiras 22 linhas de um caso que se tornaria emblemático a respeito da falta de pressa da saúde brasileira. Àquela altura, Elisiane já havia começado, numa ambulância comum (uma Saveiro sem UTI),

seu périplo de 530 quilômetros rumo ao Hospital Municipal de Novo Hamburgo, que a receberia e onde nasceriam os gêmeos à noite. É reconfortante – e de muita responsabilidade – saber o quanto as pessoas confiam na capacidade de mobilização dos veículos de comunicação. Um recado enviado pela tia de Elisiane na última sexta-feira nos sensibilizou: “Se eu não tivesse a ajuda de vocês, não sei o que seria dela. O que demoraram três dias para resolver, vocês resolveram em quatro horas”.
Tive receio de escrever sobre, pois até a madrugada de sábado, quando eu concluía este texto, mãe e filhos continuavam internados. Os boletins médicos, acompanhados pelo repórter Álisson Coelho, do Vale do Sinos, até então eram alvissareiros, diante de um quadro de aparente melhora. Mas essa operação jornalística, iniciada com
a telefonista Carmen, só ficará plena se conseguirmos estampar na capa, em breve, a foto dos gêmeos Guilherme e Gustavo, como sobreviventes da incompetência da saúde pública.