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O não leitor

16 de junho de 2012 6


Marta Gleich

Diretora de Redação

O exemplar de Zero Hora que você tem em mãos será lido neste fim de semana por mais de 1,4 milhão de pessoas. Algo como lotar o Beira-Rio e o Olímpico por 13 jogos.
Há um problema, porém: o personagem principal desta edição, Felipe, não vai ler a sua própria história, porque é analfabeto. Nada mais simbólico.

Por mais de três anos, com autorização do Juizado da Infância e da Juventude, a repórter Letícia Duarte seguiu os passos de Felipe (o nome está trocado em respeito ao Estatuto da Criança e do Adolescente), numa das reportagens de maior fôlego já realizadas por Zero Hora, para mostrar como nasce um menino de rua.

Foi uma difícil caminhada. Dúzias de vezes, Letícia e o fotógrafo Jefferson Botega saíram às ruas, ora com a mãe de Felipe, ora com um conselheiro tutelar, ora sozinhos, tentando encontrar o menino. “A busca da mãe era também a minha busca”, lembra Letícia. “Nunca sabia se iria encontrá-lo.” O projeto da reportagem, aprovado em 2008 pelo então diretor de Redação, Ricardo Stefanelli, teve viradas dramáticas, quase naufragou e, por fim, encontrou o seu próprio rumo.

Em maio de 2009, quando a reportagem estava pronta para ser publicada, uma guinada dolorosa na vida de Felipe: ele foi queimado na rua e, depois de ficar hospitalizado, voltou – infelizmente por pouco tempo – para junto da mãe. Não era mais um menino das esquinas, portanto. Qual seria o desfecho? Ele conseguiria se integrar a uma escola? Deixaria definitivamente a rua dali por diante?

“O que a gente previa lamentavelmente aconteceu: ele voltou para a rua. Em vários momentos achávamos ‘agora, vai’, ele vai tomar prumo. O Felipe tinha cinco anos quando começou a sair de casa. Ninguém – nem a mãe, nem a rede de proteção oficial – conseguiu segurar uma criança. Foi uma tragédia anunciada. É como se estivesse todo mundo vendo o menino na beira do abismo, todo mundo alertando ‘ele vai cair’, ‘ele vai cair’. E ninguém conseguiu segurar. Agora, Felipe já está no caminho do crime”, relata a repórter.

Letícia Duarte, 31 anos, é uma jornalista diferenciada. Em 2002, ganhou o Prêmio Esso, o mais importante do país, como repórter do jornal Pioneiro, do Grupo RBS, com a série “Adolescência Prostituída”. Detalhe: ela ainda não havia se formado em Jornalismo na Universidade de Caxias do Sul, o que ocorreria um mês depois. Desde então, vem colecionando distinções, em reportagens como “Herdeiros da aids” e “Mulheres marcadas pelo câncer”. “Histórias sociais, histórias de dor”, como ela mesma define.

As últimas semanas foram duras para Letícia. Ainda sem filhos, andava pela Redação ansiosa, dizendo sentir “as dores do parto”. Ao dar à luz o caderno Filho da Rua, que gestou durante tanto tempo, tirou uma cópia na impressora e apressou-se em fazer uma visita necessária. Pegou um carro do jornal e dirigiu-se à Vila do Esqueleto, onde mora a mãe de Felipe. Queria que ela tivesse a dimensão da reportagem e do impacto que a publicação poderá ter na vida deles.
Comovida, a mãe de Felipe leu as páginas dizendo “mas é a minha vida, como num livro!”.
As 16 páginas desta reportagem não tratam somente da vida de Felipe e de sua mãe. Tratam, de forma simbólica, da existência dramática de tantos brasileiros excluídos. E não deixam de ser parte da vida de todos nós, corresponsáveis pelas aventuras e desventuras deste menino.
Zero Hora publica esta história por vários motivos. Porque a função de um jornal é contar histórias. Porque a função de um jornal também é causar desconforto e emoção, para que as coisas mudem. E porque, às vezes, a função de um jornal é contar uma história para que ela não se repita.

Comentários (6)

  • Silvana diz: 17 de junho de 2012

    Parabenizo a equipe do ZH que aceitou o desafio de colocar em pauta jornalística um tema vivenciado diariamente por tantos brasileiros. Parabéns a reporter Letícia e sua equipe, pois de fato é um longa metragem (acompanhando há tanto tempo) contado em menos de 10 minutos. Envio apenas, uma sugestão...se pudesse ter legenda em português ou a janela com intérprete de língua de sinais essa reportagem teria um alcance ainda maior, especialmente, para comunidade surda que sem esses meios não consegue acompanhar algo narrado apenas em português oral. No mais, parabéns mais uma vez a equipe. Um abraço
    Silvana

  • Urutora Sebun diz: 17 de junho de 2012

    Parabéns aos idealizadores por este verdadeiro e elaborado retrato da nossa sociedade.

    Documentário curto porém direto e objetivo, boa fotografia e perspectiva.

    No aguardo do próximo.

  • Rosane Deicke diz: 17 de junho de 2012

    Prezados senhores: mais uma vez o ZH se supera, com o caderno especial "Filho da Rua", começando pela capa que mostra de cara a realidade de muitos jovens gaúchos e brasileiros; a falta de estrutura familiar e a rejeição da sociedade.Trabalho maravilhoso da direção e equipe do ZH. A contra capa traz um alerta a sociedade, mostrando de que maneira nós podemos e devemos ajudar, não podemos fechar os olhos e ouvidos a essa
    triste realidade. Parabéns...

  • Catarina diz: 17 de junho de 2012

    Penso que num caso desses, a família deveria ser amparada pelo Estado e a pessoa doente ser responsabilidade da própria família, que deveria ter autoridade sobre o(a) doente. Penso que os programas oferecidos hoje pelas entidades oficiais e as ONG's falham, porque falta um ingrediente indispensável: O AMOR QUE DEVERIA EXISTIR na família de cada um. Duvido que exista remédio melhor do que amor de mãe e apoio familiar! Como um doente pode ter liberdade de decidir o que quer para si, se não tem autonomia sobre si? A sociedade precisa deixar de hipocrisia e olhar para os seus iguais com mais igualdade. A família está fragmentada e se existisse uma forma de ajudar aos menos favorecidos não existiria tanta barbárie. Ainda a pouco li neste jornal, sobre um pai em SL que trocou a cadelinha dos filhos por droga. Teria também levado a mulher dele para a boca de fumo. Pergunto: Qual será o futuro dos filhos desse casal se outros familiares não intervirem. Além de olhar os "doentes" vítimas de drogas, nossos governantes deveriam olhar e fortalecer laços de família, e isso poderia se dar nas escolas. Educação, informação e amparo, na minha visão é o que falta. O resto é demagogia, corrupção, poucos ricos cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres. Deveríamos dar atenção para que os pequenos tenham condições de "SER" gente, humanos, pessoas que possam criar e vivenciar seus valores tendo consciência de que somos todos membros de uma mesma sociedade que pode se construir ou se destruir conforme dita o livre arbítrio de cada um.

  • Jairo Moraes diz: 18 de junho de 2012

    Prezados...venho por meio deste comentário Parabenizar a equipe que idealizou este lindo projeto, e claro a reporter que teve esta dura e longa tarefa de acompanhar e visualizar de perto toda situação. Acredito que para ela tambem nao tenha sido facil realizar este trabalho pois apenas na leitura que realizei, tocou de mais, meche com emocional e Leticia que este proximo e algumas vezes dentro da situação e do contexto, acredito que a tarefa nao foi facil.
    Obrigado por nos trazer materias e assuntos realmente importantes, que nos causam impactos e nos façam repensar em muitas atitudes e olhar estes problemas com olhos de buscar as soluçoes nao apenas criticas.
    Parabenss!! Exelente trabalho, por isso tem uma curta mas ja vitoriosa carreira!

  • miguel angel diz: 18 de junho de 2012

    Hola desde España. Edito La Buena Prensa, un blog con ejemplos de buen periodismo. Me ha encantado la información "A história de Felipe, o menino de rua que Zero Hora acompanhou por três anos". Me gustaría poder mostrar las 16 páginas en mi blog. ¿Podrían enviarme los pdfs de las páginas? Muchísimas gracias. Un abrazo, MAJ

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