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Daquilo que dói e deixa saudade

27 de janeiro de 2013 18

A jornalista Bruna Scirea narra os bastidores da cobertura do incêndio na boate Kiss, em Santa Maria, que vitimou mais de duas centenas de pessoas na madruga deste domingo.

É dos furos que nenhum jornalista quer dar. É das notícias que nenhum repórter se orgulha em narrar. São números que têm rosto. E que vão deixar saudade.

Na madrugada deste domingo, foram pelo menos 233 vidas abreviadas por um incêndio na boate que reunia centenas de jovens em Santa Maria, no Rio Grande do Sul. E nessa mesma madrugada, esta foca, como se chama uma jovem repórter no jargão jornalístico, cobria, sozinha, o plantão do jornal Zero Hora.

A primeira ligação veio por volta das 4h. Havia fogo na boate Kiss, no centro da cidade universitária. Em seguida, chegava a dolorosa contagem: seriam pelo menos 30 mortos. A estimativa, muito aquém do que iria se confirmar mais tarde, já se firmava como uma das maiores tragédias vividas pelo povo gaúcho.

Editores informados, repórteres e fotógrafos acionados, equipamentos separados: iniciávamos a cobertura mais chocante dos últimos tempos. Daquelas pelas quais desejamos nunca mais passar. E em poucos minutos o desespero se multiplicava: 50, 70, 90, centenas de breves vidas tristemente ceifadas.

Na Redação, os telefones tocavam sem parar, vários ao mesmo tempo. As informações chegavam e, ainda que atropeladas, queriam dimensionar a tragédia. As vítimas haviam se empilhado dentro do banheiro, acreditando que aquela era a porta de saída. Do lado de fora, os que se salvaram usavam marretas tentando abrir buracos de fuga nas paredes do estabelecimento.

O que se viu e teve de ser engolido com lágrimas foi uma sequência de erros graves, entre os quais estavam dois inadmissíveis. O primeiro deles foi a causa: o show pirotécnico da banda, cujas faíscas associadas à espuma de isolamento acústico, no teto, causaram o fogo. A segunda é ainda mais lamentável: a casa noturna tinha o plano de prevenção de acidentes vencido e contava com apenas uma saída de emergência para um público estimado em mais de mil pessoas.

A notícia acordou o mundo. Virou manchete e capa de jornal dos veículos mais distantes que se possa imaginar. Mas de todas as páginas de impressos, sites, telas de TV e timelines de redes sociais que estampou, a mancha maior é aquela que se reflete na ausência dos que se foram. Na dor afogada no sentimento vazio dos que ficaram.

Todos já sabiam, mas ninguém queria e nem podia acreditar. Por isso, celulares vibravam insistentemente juntos aos corpos ainda estirados no chão. Eram pais, familiares e amigos imersos em uma remota esperança. Um sentimento que não obteve resposta. Eram ligações que jamais seriam atendidas. Os tantos pais, que não dormiam enquanto o filho não voltasse para casa, foram obrigados a acordar com o choque de reconhecer o corpo de quem tinha ainda tanto a viver.

Em Porto Alegre, as horas seguintes foram de solidariedade com as famílias. Feridos chegavam a todo momento, transportados em ambulâncias e helicópteros. E a todo instante, medicamentos e profissionais daqui partiam até o centro do Estado.

Depois de mais de oito horas de cobertura, de adrenalina saindo pelos poros, um tweet vindo de um colega do Grupo RBS arrancou o que restava de mim. E o desabafo foi inevitável.

“Um bombeiro apanhou um daqueles celulares que tremiam no chão. O aparelho registrava 104 chamadas. Na tela: MÃE”.

Comentários (18)

  • Maria Teresa Tellez diz: 27 de janeiro de 2013

    Muito bom forças

  • Marilice Costi diz: 27 de janeiro de 2013

    Seria um texto para ganhar um concurso, não fosse tanta a dor!
    Você me fez chorar mais uma vez!
    Cuide-se você também.

  • Flavia diz: 27 de janeiro de 2013

    Isso é de doer na alma…O problema maior é as pessoas que ficam, são mais de 200 famílias sofrendo nesse momento, e que não existe gesto, nem ação, nem palavra alguma que amenize esse sofrimento.
    Eu acredito que um dia nosso mundo deixará de ser de dor e sofrimento, para ser um mundo de alegrias..eu acredito

  • Bianca diz: 28 de janeiro de 2013

    Doeu em minha almaaa…

  • Fernanda diz: 28 de janeiro de 2013

    Pois se a casa tinha um alvará vencido, sinal de que mesmo com apenas uma saída de emergência, o plano de incêndio foi aprovado para abertura. Esse sim é o maior erro. Não quero defender a casa noturna, mas a data do alvará não teria mudado nada. Tinha que ter sido impedido desde o início abrir as portas um lugar com essa capacidade e apenas uma saída de emergência. Uma tragédia é sempre feita da soma de vários erros e acho que não há lugar ou equipes preparadas para situações como essa, não tem como prever, não tem como saber o que se passou na hora, não tem como tomar melhores decisões. O erro imperdoável e o maior de todos foi a estupidez de alguém de ligar sinalizadores num ambiente fechado! É preciso colocar em prático um plano de segurança nacional, estadual, geral, não sei, mas que permite que jovens continuem a sair e se divertir sem ter que pensar que algo possa acontecer.

  • Jéssica Gomes diz: 28 de janeiro de 2013

    Escrevo com lágrimas escorrendo em meu rosto, sinto muito por tudo isso.
    Fico sem palavras para escrever o tanto é a dor que estou sentindo.
    sei que tanto familia, amigos prescisam de forças, mas há muitas pessoas igual a mim que não tem nenhum vinculo as essas pessoas, esta sentindo tanto e tanto.

    “Um bombeiro apanhou um daqueles celulares que tremiam no chão. O aparelho registrava 104 chamadas. Na tela: MÃE”.

  • Ana Paula diz: 28 de janeiro de 2013

    Faço das palavras de Marilice Costi as minhas.

  • Iza diz: 28 de janeiro de 2013

    Não tem palavras para dizer o quanto isso foi triste, tudo o que foi contado na midia, uma comanda vale mais de 231 vidas. Como pode? Onde fomos parar? Q mundo cheio de pessoas sem coração e sem Deus. Deus esteja com todas as familias, que Ele cuide do coração de cada um.

  • Julia diz: 28 de janeiro de 2013

    Foi um dos textos que li que mais senti o que foi vivido. Parabéns pelo texto e pela força de ser profissional num momento de desespero!

  • elza lopes diz: 28 de janeiro de 2013

    Quem é mãe sabe o que é isso…escrevo isso com lagrimas no rosto…Que Deus dê conforto a essas familias.Esse texto foi um dos mais emocionantes que li em meus 66 anos de vida.

  • Bruna M. Cabral diz: 28 de janeiro de 2013

    É impossível conter as lágrimas, mesmo não tendo nenhum conhecido na tragédia… são jovens como eu, que sei o quanto lutei por um diploma, e que as vezes reclamamos pelas dificuldades encontradas no caminho.
    Muito conforto de Deus na vida dos familiares.

  • Rejane Araújo diz: 29 de janeiro de 2013

    Não há o que dizer, só lamentar e sofrer com todas essas famílias. Como Mãe, sei quanta tristeza e dor esses pais e familiares estão sentindo. Que Deus console cada coração neste momento tão terrível.

  • André diz: 29 de janeiro de 2013

    Linda declaração. Assim como o é a função social do jornalismo.
    Agora mais claramente: parabéns :)

  • Jonatas de Faveri diz: 29 de janeiro de 2013

    Em reflexo a essa trajédia, espera-se que muitos desses empresários inercrepulosos que acham que seus empreendimentos são somente para tirar dinheiro, se preocupem um pouco com a prevenção de acidentes e incendio, como a segurança de seus clientes.

  • Elisabete Flora de Jesus diz: 29 de janeiro de 2013

    Essa sua dor é porque além de jornalista, você é um ser Humano. Parabéns pelo texto, pela bela profissão e por ser quem é. Que Deus te abençoe sempre.

  • Max diz: 30 de janeiro de 2013

    Mais do mesmo…

  • Bennet diz: 1 de fevereiro de 2013

    Eu li o seu texto 2, 3 vezes.
    Nas 2, 3 vezes eu arrepiei insistentemente no final. E chorei, chorei de verdade, a única vez, porque por mais que minha Minas Gerais seja longe do vosso Rio Grande do Sul, a distância multiplica a dor. Ainda mais porque eu sou jovem como eles eram. Ainda mais porque minha mãe sempre me liga quando eu demoro.

    “Um bombeiro apanhou um daqueles celulares que tremiam no chão. O aparelho registrava 104 chamadas. Na tela: MÃE”.

  • Joao Fernando Menezes diz: 2 de fevereiro de 2013

    Realmente Bennet. O texto acima pra mim descreveu o papel do jornalismo, com profissionalismo e sensibilidade… Parabéns, Bruna Scirea

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