Ricardo Stefanelli, Diretor de Redação de Zero Hora.
Não acredito em repórter que não se envolva com a pauta e mesmo assim estou espantado com a editora Daniela Santarosa, autora da reportagem de capa da revista Donna deste domingo. Ela não é apenas a autora das seis páginas sobre corrida – hoje, mais do que um esporte, um estilo de vida. Daniela simplesmente correu os 82 quilômetros da travessia Torres-Tramandaí no domingo passado, o que torna ainda mais real a reportagem que retrata uma mania em crescimento no país.
Do tempo em que minha única preocupação na vida era produzir reportagens, trago as lembranças das dores de estômago. É no estômago onde ruminamos as apurações que ainda não foram para o computador. Da Veja, onde trabalhei no início de minha carreira, trouxe um ensinamento tatuado em seu Manual de Redação: “nenhuma matéria escrita sem sofrimento é lida com prazer...”
Na semana passada, contei aqui a história de Adriana Irion, gestante por mais de oito anos da reportagem "Meninos Condenados” que, publicada a partir do domingo retrasado, sacudiu o Estado, mas trouxe à sua autora um grande alívio, depois de noites maldormidas, crises de enxaqueca e de rinite.
– Estou me sentindo com cem quilos a menos – brincou a magrela Adriana.
Como Adriana ressaltou, a pauta não é um ente que fica na Redação depois de cumprido o horário de trabalho:
– É assim sempre, pois os assuntos – e as fontes – são dinâmicos e não param para descansar. Esse permanente estado de alerta dá prazer!
Uma outra repórter, Letícia Duarte, está neste momento em meio a uma situação parecida – ou pior. Ela monitora há dois anos uma pessoa que, pode ou não, ir a se tornar matéria, um dia quem sabe. Sem adiantar o tema da reportagem, deixo escapar essa dor no estômago de Letícia por eu estar, em alguns momentos, vivenciando a mesma cólica que ela:desde que me tornei editor, sinto também as dores alheias.
Daniela foi ao extremo disso. Desafiada a escrever a reportagem do Donna, ela conta ter sentido uma dupla motivação:a primeira, de falar sobre um assunto pelo qual é apaixonada; a segunda, de contar para os leitores – em especial para aqueles que não correm – o que passa na cabeça de um corredor e o quanto este esporte impacta em suas vidas.

Ao final de 82 quilômetros, a emoção de Daniela
A travessia de 82 quilômetros, cumprida com as unhas cuidadosamente pintadas de amarelo, como mostra a foto, foi planejada com meio ano de antecedência, aumentando a quilometragem e mudando a rotina de treinamentos, priorizando mais resistência do que velocidade. É como, ensina ela, produzir uma reportagem: para correr é preciso foco e paciência. É, praticamente, uma metáfora:
–Vencer é apenas uma consequência natural. Ao cruzar a linha de chegada eu não sei se sorri ou se chorei. Sei, no entanto, o que representou cumprir o objetivo.
Imaginar uma pauta, proceder a apuração, publicar a matéria, acompanhar suas consequências até pode ter data para acabar, mas tira o sono, gera desconforto físico e altera hábitos arraigados. Desde que foi nomeado editor de Copa de ZH, Rodrigo Müzell trocou livros de interesse geral e biografias históricas, suas preferências, por obras sobre futebol, estudos acadêmicos, pareceres técnicos e a "agradável” leitura de editais de obras. Tudo isso tem servido para ele enxergar Porto Alegre de outra forma nesse período profissional que considera o mais rico de seus 13 anos de jornalismo. Assuntos menores da cidade passaram a interessá-lo mais do que nunca:
–Ao esperar um ônibus, me imagino na pele de um turista que se vê sem qualquer tipo de informação. Ao pedalar na orla, imagino como o local será daqui a um ano, com a duplicação prometida da Avenida Beira-Rio e, ao cair num dos mil buracos da“ciclovia”próximo ao estádio, penso: é pauta.
Tudo é pauta, o tempo todo.