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Posts na categoria "Direto do Washington Post"

Um terremoto na espera do furacão

23 de agosto de 2011 1

Por Larisssa Roso*

Estava chegando a um escritório no quarto andar de um prédio no centro de Washington, para uma entrevista, e comentava sobre o belíssimo dia lá fora com uma conhecida. E o dia lindo, de repente, comecou a tremer.

A espera do furacão Irene, considerado o mais forte dos últimos três anos, a Costa Leste dos Estados Unidos foi surpreendida por um terremoto de 5.8 na Escala Richter perto das 14h desta terça-feira.

Nunca tinha passado por um terremoto. Acho que ficamos uns 10 segundos nos olhando, sem dizer nada, talvez esperando que as coisas começassem a cair dos armários e das prateleiras para ter certeza do que estava acontecendo. Quando alguém deixou uma sala contando que via os prédios do outro lado da rua também sacudindo, corremos todos para as escadas.

Americanos estão acostumados a cumprir treinamentos de evacuação, especialmente depois dos atentados terroristas de 11 de setembro de 2001. Quem estava na área naquele dia — um dos aviões sequestrados foi jogado contra o Pentágono, que fica em Arlington, cidade vizinha a capital — relatou um comportamento semelhante hoje.

As ruas foram inundadas de gente atordoada com a “novidade” — tremores são frequentes na Costa Oeste, mas não por aqui —, tentando descobrir o que acontecia em celulares que não funcionavam. O trânsito ficou caótico, e muitos órgãos do governo dispensaram os funcionários. Museus fecharam mais cedo, trens do metro reduziram a velocidade para permitir inspeções.

Há pouco, um funcionário do setor de segurançaa do Washington Post mandou um email a todos os funcionários lamentando que o envio de um alerta tenha falhado, provavelmente devido a pane da telefonia. Salientou a possibilidade de novos tremores e explicou como proceder em situações semelhantes – o ideal é se abrigar debaixo das mesas, o que muitos colegas fizeram.

Nos arredores da Casa Branca — onde eu estava na hora do tremor e onde também trabalho —, os sobressaltos costumam ser mais intensos. É muito frequente ver ruas interditadas devido a pacotes suspeitos largados em algum canto, e a hipótese de bomba só é descartada depois de uma exaustiva inspeção. Esta tarde, o problema maior foi a sensação ruim de estar numa cidade que vive sob a tensão constante de ser um alvo em potencial. A alguns poucos dias de uma data tão emblemática para este pais, foi um susto e tanto.

* Larissa Roso é repórter de Zero Hora e está participando de um programa de formação no Washington Post.

Larissa experimenta terremoto nos EUA

23 de agosto de 2011 0


O forte terremoto que atingiu a costa leste dos Estados Unidos perto das 15h (horário de Brasília) desta terça-feira foi sentido pela repórter de ZH, Larissa Roso, que está estagiando no jornal Washington Post. Não há notícias sobre feridos.

As primeiras informações indicam magnitude 5,9 na escala Richter. Segundo a rede de TV CNN, o terremoto abalou prédios em Washington e foi sentido em Nova York, Detroit, Indianápolis, Atlanta e Boston.

Na Casa Branca com Barack Obama

03 de agosto de 2011 0

Por Larissa Roso*

A caminho do jornal, ontem pela manhã, vi mais uma vez o comboio de Barack Obama. Dois veículos pretos idênticos – para que ninguém saiba ao certo em qual está o presidente –, policiais em carros e motos e até um helicóptero. Pensei o que sempre penso desde que cheguei por aqui: “Não acredito que passo a maior parte dos meus dias a três quadras da Casa Branca e ainda não vi o Obama”.

Há tempo estava de olho na agenda do presidente-celebridade, divulgada todas as manhãs. O secretário de imprensa do governo, Jay Carney, recebe os repórteres pelo menos três vezes por semana, mas os pronunciamentos do presidente sao bem mais raros. Quando acontecem, nem sempre têm entrada liberada a todos os jornalistas cadastrados. Alguns eventos obedecem a um esquema de rodizio.

Ao chegar ao jornal, olhei o e-mail enviado pela assessoria e me surpreendi com a previsão de um pronunciamento marcado para as 12h15min. Feliz coincidência – eu já tinha acertado, na véspera, uma ida à Casa Branca com meu colega David Nakamura. “Será que eu tambem posso ver o presidente?”, perguntei a ele em um e-mail.

David respondeu em segundos, pedindo que corresse para encontrá-lo em um Starbucks perto dali. Quando Obama fala, é preciso chegar com bastante antecedência. Nos dirigimos a um portão lateral da Casa Branca. Ganhei um crachá rosa – a cor identifica a necessidade de um funcionário me acompanhando até o interior do predio, já que estava lá pela primeira vez –, passei por um detector de metais, inspecionaram minha bolsa no raio-x.

A coletiva seria ao ar livre, debaixo de um sol cruel, que testava a maquiagem e o cabelo dos repórteres de TV. Um sistema de som orientava as dezenas que esperavam pelo presidente. Aguardamos primeiro em uma sala, depois em um acesso ao Rose Garden – Obama escolhe entre diversas locaçoes o cenário de cada pronunciamento. Um dia histórico para os Estados Unidos – pouco depois de o Senado ter finalmente aprovado a elevação do teto da divida, afastando a assombração chamada calote – parece tê-lo inspirado a buscar o sol e as flores do recanto centenário. A poucos metros do Salão Oval, o jardim foi remodelado pela ultima vez durante a administração de John F. Kennedy. A terça-feira luminosa de verão emolduraria o discurso do alívio – ainda que Obama já tivesse declarado, no domingo, que aquele não era o acordo que gostaria de assinar.

Encantada com a oportunidade, matava o tempo tirando fotos de tudo. Involuntariamente, chamei a atenção de um seguranca, que olhou para o meu crachá, fez cara feia e disparou:

— Você precisa de um acompanhante. Espere aqui.

Faltavam poucos minutos para o ultimo portão se abrir, e não queria acreditar que perderia a grande chance logo ali, tão perto das rosas de Michelle Obama. Meu colega explicou – e explicou, e explicou de novo… — que eu tinha autorização. O grandão me deixou passar, e eu resolvi guardar a câmera e dar uma escondidinha no crachá.

Um cordão de isolamento separava o numeroso grupo de jornalistas da tribuna, em frente a dois telões onde Obama leria o texto de oito minutos. As melhores posiçoes ficam com cinegrafistas e fotógrafos, e foi quase embaixo da aparelhagem de uma emissora japonesa, de joelhos, que encontrei uma vista desimpedida. Aguardamos por uns 40 minutos que pareceram infinitos naquele calor. Muitos procuraram a sombra das árvores, mas decidi garantir o lugar e não arredar pé – e, consequentemente, tomar um torrão do sol.

Os alto-falantes anunciaram quando faltavam 10 minutos e dois minutos para o início do discurso. Obama surgiu na porta, e não se ouvia nada além do zunido de centenas de cliques simultâneos das câmeras fotográficas. Falou do assunto que consumiu Washington nas últimas semanas e do que pode lhe custar a reeleição no ano que vem – o índice de desemprego hoje em 9,2%, o mais alto do ano.

Com tão pouco tempo disponível, eu não sabia se tirava fotos com a câmera ou com o celular, se gravava vídeo ou se me concentrava no pronunciamento. Não queria atrapalhar meu colega, que estava ali a trabalho, atentissimo a cada palavra para abastecer o washingtonpost.com. Mas David, no posto de setorista da Casa Branca há apenas três semanas, compartilhava comigo a empolgação. Deixou as anotações de lado e me cutucou:

– Levanta que vou tirar uma foto tua com ele!


Obama não abriu espaço para perguntas. Agradeceu e saiu, a tempo de ouvir – e ignorar – o que uma jornalista gritou lá do fundo:
– Sr. Presidente, o que gostaria de ganhar de aniversário?

O democrata que completa 50 anos nesta quinta-feira não respondeu. Talvez se contente com uns instantes de paz depois da crise. Deve partir em breve, com a mulher e as filhas, para férias na ilha de Marthas’s Vineyard, no Estado de Massachusetts.

Eu, que só faço aniversário em novembro, fui presenteada com uma oportunidade tão incrível que bem poderia estar embrulhada em papel colorido e fita. E está aí um dos grandes encantos da profissão de jornalista: ir a lugares e conhecer pessoas que, de outra maneira, não estariam acessíveis.


* Larissa Roso é repórter de Zero Hora e está estagiando no Washington Post, de onde envia notícias sobre a experiência nos EUA para o Blog do Editor. Para ler mais, acesse a categoria Direto do Washington Post

Peter, o anjo da guarda da Larissa

01 de agosto de 2011 0

* Por Larissa Roso

Como bolsista da Alfred Friendly Press Fellowships, programa que traz jornalistas estrangeiros para trabalhar em redações americanas, tenho um mentor no Washington Post.

Peter Perl e eu já vinhamos conversando por e-mail desde fevereiro, e naquele gelado 6 de abril, quando conheci a imensa redação que me receberia pelos próximos meses, ouvi o que me soou como a melhor das boas-vindas:

— Você pode fazer o que quiser aqui!


É com Peter (na foto acima) que discuto minha passagem pelo jornal, apesar de não trabalharmos juntos. Com 30 anos de casa no currículo, ele já não põe a mão em reportagem ou edição. Tem uma função mais ligada a recursos humanos e gerenciamento de pessoal. Não para quieto, sempre andando de um lado a outro, conversando com todos — algo bem de acordo com o cargo. Há pouco, um comunicado no mural pedia que interessados na vaga de correspondente no Iraque o procurassem. (Dado impressionante: desde o inicio da guerra, o jornal ja enviou quase 80 repórteres para lá.)

Se tenho dúvidas ou problemas ou se quero apenas bater um papinho, apareço em uma das salas junto a North Wall – a redação é tão grande que certos cantos tem nomes, um toque didático do projeto de uma recente reforma. Peter é meu anjo da guarda informal, e é sempre um prazer falar com ele.

— Até um jornalista americano, no teu lugar, começando a trabalhar aqui, enfrentaria dificuldades. Tenha paciência — disse-me ele um dia, quando “filosofávamos” sobre a grande aventura que esse período nos Estados Unidos representa pra mim.

Atencioso, Peter acolhe todos os meus pedidos e dispara e-mails minutos depois de eu dizer o que gostaria de fazer — acompanhar um dia de trabalho dos setoristas que fazem a cobertura do Capitólio, da Casa Branca ou da editoria de Polícia, por exemplo. Copia repórteres e editores, me apresenta, anexa uma foto (algo que facilita muito em uma redação de 600 pessoas, e todos sempre acabam me reconhecendo pelos óculos coloridos) e pergunta: “Quem pode ajudar a Larissa?”.

Em uma daquelas viradas imprevisíveis da vida, há pouco mais de um mês, Peter viu um de seus segredos mais bem guardados se transformar em notícia. Em um post anterior, contei como o ex-repórter e editor se tornou protagonista de um dos episódios mais comentados nos Estados Unidos este ano. Também no papel de mentor, ele sabia que o filipino Jose Antonio Vargas vivia e trabalhava no país – e no Washington Post – com documentos falsos. Na tentativa de evitar a implosão imediata de uma carreira que se ensaiava promissora, Peter não levou o caso aos seus superiores.
Com a história estampada em um longo depoimento no New York Times, abastecendo um tema delicado sempre em debate por aqui, a redação logo se dividiu entre aqueles compadecidos com o gesto protetor e os críticos do ato irresponsável que agora poderia custar a credibilidade do jornal.

Amparado por três decadas de trabalho e uma ótima relação com os colegas, Peter — contratado em 1981 pelo célebre Bob Woodward — percebeu que o grupo de apoiadores era bem mais numeroso, lotando sua caixa de e-mails com mensagens positivas. Levou um “tapa na mão”, definição que usou quando perguntei se sofreria algum tipo de punição por parte dos diretores. Enfrentou semanas difíceis. Além das incertezas sobre seu futuro na empresa, era assediado por repórteres de outros veículos atrás de entrevistas que revelassem mais sobre os bastidores do drama que compartilhou.
Agora, ele garante, está tudo bem. E não parece arrependido.

* Larissa Roso é repórter de Zero Hora e está estagiando no Washington Post, de onde envia notícias sobre a experiência nos EUA para o Blog do Editor. Para ler mais, acesse a categoria Direto do Washington Post

O drama de um repórter premiado e fora da lei

23 de junho de 2011 2

Por Larisssa Roso*

O Washington Post se viu ontem, contra a vontade, emaranhado na grande história que Jose Antonio Vargas resolveu contar — para o concorrente New York Times .

Jornalista filipino, 30 anos, radicado há 18 nos Estados Unidos, Vargas é um repórter bem-sucedido. Já ganhou um Pulitzer — com outros colegas do Post que participaram da cobertura do massacre na Universidade Virginia Tech, em 2007 —, escreveu para a revista The New Yorker o perfil do badalado Mark Zuckerberg, criador (pelo menos é o que ele alega) do Facebook, participou da cobertura de eleições presidenciais e frequentou a Casa Branca.

Confrontado com o rigor da lei, Vargas é também um criminoso. Fez tudo isso — além de concluir a escola e a universidade, ganhar bolsa de estudos, tirar carteira de motorista — com documentos falsos.

Vargas foi mandado aos Estados Unidos pela mãe, para que tivesse uma vida melhor. Aos 12 anos, acreditava estar viajando na companhia de um tio até então desconhecido. Era, na verdade, um coiote, que cobrou uma boa quantia para entrar no país com documentos falsos e entrega o menino aos cuidados dos avós, na Califórnia.

Desde os 16 anos, quando descobriu, por acaso, que era um imigrante ilegal, viveu amarrado a uma paranóia. Torturava-se por encenar uma farsa, temia ser descoberto a cada suspiro.

O repórter passou pelo Washington Post duas vezes. Fez um estágio no verão de 2003 e voltou no ano seguinte. Recorreu ao editor Peter Perl, funcionário da casa há 30 anos, seu mentor na época, quatro meses depois. Estava atordoado. Sentaram-se em uma praçaa, e Vargas contou tudo.

Perl — que hoje é tambem o meu mentor, colega que ajuda a planejar minha passagem por aqui e com quem converso quando tenho dúvidas e “inquietações” — sugeriu que ele esperasse, pois tinha acabado de chegar. Deveria mostrar serviço, depois pensariam no que fazer. (Prometo para breve um post sobre Perl — não conheço ninguém mais educado, gentil e atencioso nesta redação. E experiente, claro.)

Cinco anos depois, em 2009, Vargas partiu para o Huffington Post, em Nova York. Levou o segredo na mala, e Perl guardou com ele a porção que lhe cabia.

Desde março, Vargas negociava com o Post a publicação da sua confissão em 4 mil palavras. O jornal acabou desistindo, e os motivos, não muito claros, estão em uma reportagem publicada hoje. O longo texto do filipino de green card fajuto, divulgado ontem no site do jornal nova-iorquino, vai circular impresso no domingo, na prestigiada Magazine do New York Times. Trata-se de um desabafo sem freios, emocionante. Extrapola um dos temas mais inquietantes para políticos e eleitores americanos — como deter a ansia dos “sem documento” que querem se estabelecer aqui a qualquer custo — e encontra eco em uma audiência bem mais numerosa. É um drama universal, sem nacionalidade. Como Vargas.

Repórteres e editores do Post estavam surpresos ontem, chocados até. Dividiam-se, claramente, em dois grupos: os que aplaudiam o ex-colega e amigo, saudando sua coragem, compadecidos com anos de sofrimento, e os que o criticavam, atribuindo-lhe rótulos diversos. Entre eles, “marqueteiro”, “mentiroso”, um repórter apenas “mediano”.

— Como acreditar em uma única linha de tudo que ele já escreveu se mentiu sobre a própria identidade? Como um jornalista pode fazer isso? Por que então ele escolheu essa profissão? — discursava uma das colegas mais indignadas.

O episódio rendeu alfinetadas de ambos os lados. O New York Times comemora a sorte — Vargas foi bater lá naquela porta depois do “não” sentenciado aqui —  como um troféu.  O Post gaba-se de, pela primeira vez na historia, ter editado e checado exaustivamente uma reportagem que, no final, ganhou as paginas do maior concorrente.

Vargas, no dia mais temido e comentado da sua vida, formalizou a luta pela aprovação do Dream Act, lei que concederia residência permanente a imigrantes ilegais que chegaram aos Estados Unidos antes da maioridade. Em um vídeo no site Define American, segurando o choro, ele resume sua trajetória. E questiona: o que você faria?

* Larissa Roso é repórter de Zero Hora e está participando de um programa de formação no Washington Post.

A redação que recebe celebridades

06 de junho de 2011 0

Por Larissa Roso

O número 1.150 da 15th Street não deixa de ser um ponto turístico de Washington. Com frequência tem alguém parando para tirar fotos ou dar uma espiada no que está exposto aqui na frente. Atualmente, há algumas das imagens feitas no Haiti pelos três colegas que ganharam o prestigiado Prêmio Pulitzer, na categoria Breaking News, há algumas semanas.

Ja falei que o Washington Post deve grande parte da sua fama a Bob Woodward e Carl Bernstein, que forçaram a renúncia de Richard Nixon após a cobertura do Watergate,  no início da década de 1970. O filme Todos os Homens do Presidente – lançado em 1976, com Robert Redford e Dustin Hoffman interpretando a dinâmica dupla de repórteres – teve locações aqui. Hoje em dia, é claro, a redação está muito diferente. Há pouco, passou por uma grande reforma para integrar as equipes responsáveis pelas edições impressa e online.

O vídeo promocional do aplicativo para iPad do jornal, divulgado no ano passado, contou com duas das maiores estrelas da casa: Woodward e Ben Bradlee. Na época do Watergate, Bradlee – vivido no cinema por Jason Robards, em papel que lhe rendeu o Oscar de ator coadjuvante – era editor-executivo. No filminho, Woodward se mostra intrigado com a novidade que mobiliza os colegas do jornal. Na vida real, o veterano repórter já esta bem entrosado com seu brinquedinho: gosta de ler o Washington Post e o New York Times no tablet da Apple.

Conversando com uma colega, descobri que visitantes ilustres também gostam de dar uma passadinha por aqui quando estão em Washington: o ator e eterno galã Brad Pitt e o líder da banda U2, Bono Vox, já estiverem na redação. Confesso: estou na torcida para encontrar alguma celebridade pelos corredores antes de voltar ao Brasil.

Ainda estou devendo uma foto minha dentro da redação. Por enquanto, aproveito para enviar esta, na entrada principal do jornal. O prédio fica no centro de Washington, a três quadras da Casa Branca.



Foto: Evelio Contreras - The Washington Post


Na sombra de Clarence, um repórter policial

27 de maio de 2011 0

Por Larissa Roso

Alem de trabalhar como repórter, tenho aproveitado para acompanhar o dia a dia de colegas que atuam em áreas que me interessam. A atividade aqui se chama “shadowing”, que vem de “shadow” — “sombra” em inglês. Significa isso mesmo: fazer sombra, ir atrás.

Primeiro passei uma tarde e uma noite inteiras no encalço de um dos repórteres de polícia, Clarence Williams. Uma figura. Clarence trabalha dirigindo o próprio carro, o que é bem comum (e o jornal reembolsa o valor gasto em combustível). Enquanto falava sobre os preparativos para o casamento, na Jamaica (sai mais barato do que fazer uma festa nos Estados Unidos), me levou para um tour pelas áreas mais perigosas da capital americana. Escolhi acompanhá-lo numa sexta-feira, pensando que seria um dia agitado.

Nas palavras dele, Washington melhorou muito na última decada. Em 2010, foram 120 homicídios na cidade, de 600 mil habitantes.

— Há cinco anos, era o dobro ou o triplo disso — contou.

A tarefa que mais ocupa o tempo das autoridades: apreensão de armas e drogas (principalmente maconha e cocaína). Naquela tarde, acompanhamos dois policiais que cortaram as ruas da cidade em uma viatura a mais de 100 km/h, sirene a mil, como se estivessem na iminência de prevenir o apocalipse. A missão: apreender uma única arma.

O sudeste concentra o maior número de ocorrências. Uma região mais pobre, distante do centro. Para quem vem do Brasil e está acostumado a ver todo tipo de barbárie no noticiário, o relato de Clarence não impressiona. Ele apontava ruas e casas que, em Porto Alegre, caberiam perfeitamente em um bairro de classe média. Contava o que já tinha visto de ruim por ali. Valor dos imóveis? Alguns custando até US$ 60 mil — e eu imediatamente pensei no meu apartamento de um quarto no Menino Deus e fiz as contas de quanto ainda devo pelos proximos 11 anos de finaciamento no banco.

Crianças pulavam corda em uma calçada por volta das 22h. Nada indicava que fossem extremamente pobres (o que é muito difícil de se ver por aqui), mas Clarence balançava a cabeça e lamentava o pouco caso dos pais com aqueles filhos que andavam soltos por aí aquela hora da noite. “Ainda nem devem ter jantado”, preocupava-se.

Meu pensamento ia e voltava entre os dois países, tentando comparar aquelas que são as piores realidades de cada lugar. Contava para ele o que, infelizmente, já estamos tristemente habituados a testemunhar no Brasil. Era como se falasse de um livro de histórias, quase uma obra de ficção. O nosso conceito de “ruim” é muito pior do que o deles. Tenho certeza de que Clarence, há 10 anos na editoria de Polícia de um dos maiores jornais do mundo — experiente, cheio de fontes, conhecendo cada canto escuro desta cidade — ficaria estarrecido se passasse alguns dias entranhado nas favelas do Rio ou nas zonas mais hostis de tantas outras das nossas capitais. Como explicar para ele? Estranho detalhar e quantificar isso, como se pedir que alguém que mora num país rico se contente com estatísticas que poderiam ser bem piores.

Perto da meia-noite, quando chegamos a um restaurante para jantar com uma das fontes de Clarence — um delegado de homicídios —, a única notícia daquela sexta-feira apareceu: um jovem assassinado em uma daquelas regiões “tumultuadas” de sempre. Rendeu uma nota para o site. E foi tudo o que fizemos.



Dias depois, passei uma tarde com o time do Post que faz a cobertura do Capitólio, onde estão o Senado e o equivalente a nossa Câmara dos Deputados. Os grandes jornais do país e as mais importantes agências de notícias ( AP, AFP, Reuters) têm “cantinhos” na Galeria de Imprensa. Na foto acima, três dos meus colegas que são setoristas por lá. Washington, coração político dos Estados Unidos, dá muito trabalho pra eles, que quase todos os dias assinam reportagens na primeira página do jornal.

Enfim, Bob Woodward

18 de maio de 2011 0

Larissa encontra o repórter do Watergate


Por Larissa Roso

Bob Woodward é um nome indissociável da história do Washington Post. Imensa parcela do prestígio do jornal se deve a ele e a Carl Bernstein pela cobertura do caso Watergate, que resultou na renúncia do presidente Richard Nixon. A dupla conquistou um Prêmio Pulitzer em 1973 — na categoria Serviço Público, a mais importante — e imprimiu para sempre sua assinatura na galeria dos grandes nomes do jornalismo.

Antes de chegar aqui, brincava com meus amigos dizendo que tomaria cafezinho no bar do Washington Post com Woodward (Bernstein já deixou o jornal e hoje vive em Nova York).
Para minha surpresa, logo descobri que ele está afastado do dia a dia da redação. Continua ligado à empresa, conversa com repórteres e editores que precisam de orientações, mas tem curtido a vida em casa, no bairro de Georgetown, o mais nobre da cidade. Escreve esporadicamente — na semana em que a morte de Osama bin Laden monopolizou o noticiário, Woodward presenteou os leitores com uma reportagem deliciosa, repleta de detalhes até então inéditos, que foi manchete do Post em 7 de maio.

Conhecê-lo pessoalmente era um dos meus grandes “projetos” para esta temporada de seis meses por aqui (o outro é tirar uma foto com o presidente Obama — será, evidentemente, mais trabalhoso, exigindo logística bem mais elaborada). Não demorou a surgir uma oportunidade para encontrá-lo. Nesta terça-feira, participei de um ciclo de debates promovido pela emissora árabe Al Jazeera no Newseum, o deslumbrante museu da notícia, que já visitei três vezes nas minhas duas passagens pela capital americana. Woodward e o escritor Jon Lee Anderson, da badalada revista The New Yorker, eram os principais convidados.
— Ele derrubou um presidente e até hoje continua sendo convidado a visitar a Casa Branca — anunciou o apresentador, chamando ao palco o “repórter mais famoso do mundo”.

Woodward falou, claro, da reportagem mais importante de sua vida, de seu relacionamento com as fontes, do site Wikileaks, do que costuma ler em seu iPad, de encontros com Obama e com o ex-presidente George W. Bush para checar informações antes do lançamento de seus livros — que, invariavelmente, transformam-se em best-sellers.

— Obama disse que as minhas fontes são melhores do que as dele — divertiu-se Woodward, comentando a conversa com o democrata ao finalizar Obama’s Wars.

O jornalista, habilidoso no marketing pessoal e no trato com a plateia, também respondeu questões do público. O tema Bin Laden já havia surgido, e um senhor pediu a palavra para expor seu descontentamento:

— O presidente Obama falou por uma hora ao 60 Minutes (um dos programas de TV mais assistidos e prestigiados dos Estados Unidos, produzido pela rede CBS) e não respondeu essa pergunta. Então eu gostaria de fazê-la ao senhor, Mr. Woodward: aquela operação foi legal?

Na resposta, o jornalista-celebridade de 68 anos largou uma pista do que deve ser sua próxima empreitada:

— Estou trabalhando nisso no momento. Prometo a você que vou examinar profundamente todas as questões.

Torcendo pela oportunidade de falar com ele e pedir um autógrafo, levei um livro na bolsa. Saí do auditório antes do final da palestra e esperei na porta. Me apresentei como colega do Washington Post (que honra!) e consegui bem mais do que o planejado: a dedicatória, sim, mas também a foto abaixo que ilustra este texto.

Enquanto isso...nos EUA

09 de maio de 2011 0

Depois da euforia, a ressaca

* Por Larissa Roso, repórter de ZH e bolsista do Alfred Friendly Press Fellowships, trabalhando no Washington Post

Washington ainda respira Osama bin Laden.

Passados oito dias do anúncio da morte do terrorista e também (do início) da festa que tomou as ruas, com uma multidão entorpecida pelas primeiras notícias que chegavam do Paquistão, o principal assunto dos jornais e dos programas de TV continua o mesmo. O que talvez surpreenda é o rumo que o desenrolar de alguns fatos tomou durante a semana. Aclamado como herói em 1º de Maio, o presidente Barack Obama, junto do seleto grupo envolvido na operação, teve de dar mais explicações do que provavelmente poderia supor ao final daquela noite de domingo.

A partir de quinta-feira, a imprensa começou a questionar a reação dos americanos. Deve-se comemorar a morte de alguém, mesmo quando se trata do mentor intelectual do mais letal atentado da história do país? Saber que o expoente máximo da Al-Qaeda foi abatido, após uma busca obsessiva de quase uma década, não revolve memórias dolorosas demais?

O Metro, jornal gratuito publicado pelo Washington Post e distribuído no metrô, ofereceu a pergunta impertinente na manchete do dia 5, estendida sobre uma foto da multidão barulhenta que tomou a frente da Casa Branca depois do pronunciamento de Obama: “Too much?” (demais? Exagero?).

Trata-se de um daqueles debates que nunca vai encontrar meio-termo duradouro. De um lado, quem se sente vingado e não poupa na euforia – já há adesivos e camisetas brincando com a similaridade entre os nomes dos dois protagonistas, e uma das frases mais populares é “Obama got Osama” (Obama pegou Osama). No outro extremo, aqueles que sentiram o gosto ruim da ressaca já na manhã seguinte, condenando-se pelo júbilo público da véspera. Para familiares e amigos muito próximos de vítimas dos ataques de 11 de setembro de 2001, falar em Bin Laden será, eternamente, remexer uma dor sem remédio. “Hoje sinto falta do meu irmão como sentia em 12 de setembro de 2001”, disse uma entrevistada, em lágrimas, na TV.

No Washington Post, o assunto ainda ocupa boa parte da primeira página todos os dias. A reunião de pauta da manhã avalia quantos cliques cada uma das principais reportagens atraiu no site, um bom termômetro para decidir os temas que concentrarão esforços de editores e repórteres. Para dar conta do apetite insaciável por detalhes que inundou a cidade e o país, a redação de 600 jornalistas se desdobra. Na quinta-feira, uma extensa matéria avaliou minúcias de todos os elementos possíveis da foto, já famosa, retratando a equipe do presidente no ápice da tensão, no aguardo do desfecho da operação em Abbottabad. Do conteúdo dos copos sobre a mesa à decoração da Situation Room, dos trajes de cada integrante do governo ao significado da linguagem corporal.

Até o crítico de gastronomia deu palpites no menu escolhido por Obama, Robert Gates, Hillary Clinton e companhia. Mas é pouco provável que alguém tenha conseguido beliscar batatinhas fritas naquela noite.

Morte de Bin Laden: repórter participa direto dos EUA

02 de maio de 2011 0

A repórter de ZH Larissa Roso, que está estagiando no Washignton Post e abastecendo o Blog do Editor com suas experiências dentro de um dos maiores jornais do mundo, está se desdobrando na cobertura sobre a morte de Osama Bin Laden. Além da reportagem especial, assinada na edição de hoje em Zero Hora, a guria entrou várias vezes ao vivo na Rádio Gaúcha.

Confira a cobertura da repórter desde Washignton:

Bom Dia, Segunda-feira



Gaúcha Hoje



Chamada Geral – 1ª edição