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Posts na categoria "Memória de repórter"

Vida de repórter: veja depoimento de jornalista sobre o crime na Redenção

24 de julho de 2014 0

O repórter de ZH, Maurício Tonetto, conta como foi a experiência de fazer a reportagem “Da brutalidade à esperança”, que conta como está a situação de José Augusto Amorim, o advogado que foi agredido na Redenção em 2013 e sofreu sequelas graves. Leia a matéria aqui.

 

Memória de repórter (3)

20 de janeiro de 2011 0

Com histórias do cotidiano jornalístico e emoções vividas na Redação — ou fora dela — , a série Memória de Repórter relembra momentos especiais, reportagens e cenas não esquecidas por jornalistas de ZH.


Devoto de Sepé

Por Carlos Etchichury

Em abril de 2006, o fotógrafo Emerson Souza, o motorista Cristiano Pacheco Maciel e eu deixamos Porto Alegre em direção ao pampa gaúcho e argentino, numa viagem que se estenderia por 10 dias. Era a primeira etapa de apurações da série de reportagens O Novo Retrato do Pampa, que seria publicada em julho daquele ano.

A etapa seguinte seria realizada pelo repórter Nilson Mariano, meu colega de editoria de Geral e também integrante do projeto, em parceria com o mesmo Emerson. Eles viajariam no mês seguinte pelo extremo sul do Estado e pelo território uruguaio.
Cruzamos a ponte do Guaíba com o objetivo de mostrar as modificações em curso na Fronteira Oeste e na pampa argentina. Buscávamos revelar o impacto no Rio Grande profundo da revolução provocada pela pecuária de ponta. Em meio a metamorfose, também entrevistaríamos domadores, peões de estância, carreteiros, benzedeiras, cultuadores de santos populares — tipos característicos do pampa, cascos de nossa história, homens e mulheres que resistem à modernização.

E foi em busca deles que travei um diálogo improvável, uma conversa que só a estrada oferece aos repórteres. Num final de tarde, buscávamos um devoto de Sepé Tiaraju, um santo popular adorado pelo autêntico pampiano.

Em Caiboaté, distrito de São Gabriel, onde uma cruz gigantesca lembra o local em que o índio guarani tombou contra espanhóis e portugueses, no século 18, encontrei o peão Eder Mazoni Silva da Silva, que tocava a cavalo um rebanho de hereford, com o filho Lucas, quatro anos, montado na garupa.

A foto era ótima: fim de tarde, cavalo, peão, gado, criança. Restava apenas um detalhe: Silva seria devoto de Sepé?
Após as tradicionais amenidades de um começo de conversa, fui ao ponto:
— O senhor é devoto de Sepé Tiaraju?
— Não — devolveu Silva, meio desconfiado.

— E o senhor conhece alguém seja devoto de Sepé aqui na região — insisti.
— Não! — continuou Silva, num tom mais alto e meio desconfiado com forasteiro curioso.

Já sem esperança, fiz a pergunta que deveria ter feito desde o começo do diálogo:
— O senhor conhece alguém que reze para Sepé aqui na cruz?

Silva, então, abriu um sorriso e anunciou:
— Eu mesmo rezo aqui!

Surpreso, ponderei:
— Mas o senhor acabou de dizer que não era devoto de Sepé…

Silva respondeu com uma pergunta desconcertante, mostrando que clareza, objetividade e, sobretudo, simplicidade, antes de balizar o texto de um repórter, devem nortear a condução de uma entrevista:
— E eu vou saber o que é devoto?


A série

Memória de repórter (2)

Memória de repórter (1)

Memória de repórter (2)

29 de dezembro de 2010 0

Com histórias do cotidiano jornalístico e emoções vividas na Redação — ou fora dela — , a série Memória de Repórter relembra momentos especiais, reportagens e cenas não esquecidas por jornalistas de ZH.

ZH no Alto Xingu

Por Lúcia Pires

Na categoria reportagem inesquecível, o projeto Xingu é insuperável na minha lista. Em 2004, sugeri à direção que ZH participasse da cerimônia do Kuarup, o ritual indígena celebrado no Alto Xingu, no meio do Brasil.

A resposta veio em poucos dias: não vamos.

Recebi aquele não tranquila. Foi como se tivesse certeza de que as coisas seguiriam o rumo que tomaram. Dois dias após cancelar os assentos no Bandeirantes da Funai, o então diretor de Redação, Marcelo Rech, chega de uma viagem, passa por minha mesa e pergunta:

— E aí? Já voltou do Xingu? Como foi lá?

Recomeça então a correria. Tanta, que só em Brasília encontrei o fotógrafo Tadeu Vilani, um apaixonado por índios, que me acompanhou na pauta-aventura. De lá, partimos para a aldeia. Eu levando um saco de dormir e Tadeu, uma rede.

Naquele ano, o Kuarup chorou a morte de um homem branco: Roberto Marinho. E a entrevista com Aritana Yawalapiti (o mais respeitado entre os índios do Xingu) foi disputada pela imprensa. Tadeu, além das belas fotos para a reportagem, me pegou na fila, literalmente “de boca aberta” para o que estava ouvindo ali.

Fluente nos 10 idiomas xinguanos e no português, o cacique impressionou. No meio do ritual aparentemente insano para nós, que incluiu lutas, cachimbo da paz, banhos noturnos no rio, troncos enfeitados como se fossem homens mortos, Aritana falou da poluição das nascentes e temas importantíssimos para o povo local e para o planeta.

Em seu território, o cacique já recebeu o rei Leopoldo III, da Bélgica, as rainhas Sofia, da Espanha, e Sonja, da Noruega, e presidentes brasileiros. Naquele ano, reclamou a falta de Lula.

Descendente de Mavutsinim, o Deus supremo, Aritana foi criado para ser chefe. Para isso, não foi para a escola. Na adolescência, passou cinco anos sem sair de casa, aprendendo a ser índio.

Na tribo Kamayurá, as cenas de uma espécie de Debut, onde as meninas, depois de meses sem ver o sol, saem quase cegas para serem apresentadas de casa em casa, foram marcantes. Assim como a liberdade das crianças soltas no terreiro, a vaidade dos homens…

…, a submissão das mulheres, a ingenuidade, a curiosidade pela vida do homem branco e a vontade de ser índio. Traços de uma cultura incrível que pude detalhar aos leitores de ZH em duas páginas de uma edição dominical, e que vou contar a vida inteira. Uma história pessoal e também a de um grande jornal.

Memória de repórter (I)

22 de dezembro de 2010 0

Eu conheço este guri

Por Nauro Júnior, fotógrafo de ZH

O ano era 1998, o século ainda era outro. Eu já era profissional, ele ainda tentava sair das categorias de base, o treinador do meu time era o Klécio Santos, o treinador que queria transformar Ronaldinho em profissional era o Sebastião Lazaroni. Estávamos os dois no Exterior, para a partida final do Mundialito Sub-20 de Futebol, entre Brasil e Argentina. Eu como fotógrafo titular, escalado pela Zero Hora para cobrir aquele jogo ao lado de feras, como os fotógrafos do Clarín e do Olé. Ele no banco de reservas, pois tinha sido suspenso em uma partida onde se destacou fazendo três gols contra a Espanha, levando a Seleção Sub-20 à final do campeonato. A grande estrela daquela Seleção era Fabio Pinto, então jogador do Inter, ele era a surpresa, a promessa.

Conheci Ronaldinho naquela noite, chorando, depois de assistir do banco de reservas do Estádio de Maldonado, em Punta del Este, aos argentinos ganharem a partida por 3 x 2 e ficarem com a taça. Os gols argentinos foram de Peralta, Arcamone e Rivarola, os gols brasileiro foram de Eriberto e do jovem zagueiro argentino Milito, que marcou contra. No final da partida, ali mesmo no moderno Estádio de Maldonado, nos falamos pela primeira vez, eu, ele e o Klécio. Foi logo depois da constrangedora entrega da medalha de vice-campeão. Enquanto os argentinos festejavam o título, marcamos de nos encontrar na manhã seguinte, no Hotel San Marcos, em Punta.

Foi lá que fizemos as fotos abaixo. O menino ficou super-receptivo e humildemente nos agradeceu, disse que a matéria o ajudaria a realizar o sonho de jogar no time titular do Grêmio.