
Lá fora está cinza. Eu também – vestida de bege, mas mais cinza do que o céu em cima do muro (no sentido figurado, mas também em cima do muro). Estou triste. Não vem ao caso como isso começou. Quando a gente está triste, busca mais tristeza com uma competência revoltante. Lembro que outro dia ganhei cravos ou cravinas, não sei. Vermelhos, plantados. Amei. Lembrei do meu avô, louco por cravos, há muito escondido no cinza, o meu avô. Meu marido trouxe o vaso, a pedido do amigo com o qual havia ido comprar mudas de limão-siciliano (meu avô tinha plantado um pé no quintal da nossa casa). Recomendou esse amigo que eu colocasse o presente em um cachepô. Afinal, o vaso era de plástico, preto. Peguei feliz as flores, aspirei (meu pai não deixava eu enfiar o nariz nas flores, tinha medo que um bicho enorme invadisse minhas narinas indefesas, mas isso foi há anos, antes que ele partisse muito cedo, cedíssimo, para o cinza do céu). Rumei para o fundo de um armário em busca do cachepô creme de porcelana facetada que ganhamos de presente de casamento e sustenta folhagens pendentes e flores fugazes há mais de duas décadas e meia. No fundo, resquícios da terra do último vaso e um lenço verde com uma imagem de Papai Noel amassada, contornos dourados desbeiçados. Pronto. Era o último lenço do último banho do Fred, nosso basset hound que partiu em novembro passado. Isso quer dizer que o tal lenço e seu último banho para o Natal tem dois anos. Sim, porque no Natal passado fugimos de casa, das lembranças daquele serzinho amado, quente, a pesar sobre nossos pés à frente da poltrona, enquanto abríamos os presentes do Papai Noel. Retirei o cachepô de lá do tal armário para colocar as flores, bem-mandada que sou. Mas desde então recomeçou o reflexo de procurar um pêlo no chão, um vulto sob a mesa de refeições, ao lado da minha cama. Ainda abro da rua a porta com cuidado para não empurrar nosso menino com força demasiada, deitado como uma pedra, a reclamar de nossos atrasos (só me perdoava se eu deitasse sobre ele por algum tempo, até um grumpf me alertar que bastava). A empregada voltou a virar o lixo de costas para prevenir estrepulias na área de serviço. Minha filha querida nunca suspendeu os suspiros pelo seu Fred. Não adianta nem sugerir um substituto. Meu marido não passa na frente da clínica veterinária sem lembrar do seu corpinho (ok, ele era grandão) ofegante e do seu pranto canino, enquanto eu suplicava que ele nos deixasse com tranqüilidade porque não suportaríamos a decisão de interromper a sua vida que tanto nos alegrou. Tal como ocorrera com a Liza, a primogênita cocker spaniel negra que dividiu seus últimos momentos de convívio familiar com o Fred, ele apagou naturalmente. É claro que eu acordei na hora, pouco depois das quatro da madrugada. Tudo parou. Não havia ruídos, vento, temperatura. Nada. Agora a matéria do Fred ainda aguarda na forma de cinzas o dia em que vai virar flor – quem sabe cravos? – depois que a família chegar a um consenso.
Desculpem o desabafo, mas fui muito apaixonada por essas duas criaturinhas peludas. Primeiro, a %22filha%22, e depois, o %22neto%22.Contei a história de amor do Fred e da Liza em ZH, há anos, e recebi muitos e-mails na época, o que me consolou e acho que aliviou a tristeza de outras pessoas. Ele cuidava dela, era um amor.
Ah, Márcio Pinheiro em seu blog, Jogo da Memória, conta o que ele e a Cássia Zanon passaram ao perder Floc, no post Um vazio do tamanho da minha dor. Aqui mesmo, em zerohora.com.
Postado por Eleone Prestes, do seu PC