A última lembrança que eu tenho do Scliar é a imagem dele "em mangas de camisa" em tons de bege e marrom (como diziam lá em São Borja, na minha infância, sobre os homens vestindo camisa esporte de mangas curtas, sem gravata) sentado meio na diagonal, de pernas cruzadas, em um pequeno estofado preto no bar da Zero Hora. Lembro bem porque ele estava absorto em sabe Deus quais pensamentos um imortal poderia ter e eu passei por ele sem dar bom dia porque seria inútil. Sim, porque ele era delicado, educado e sempre conversava conosco, comuns mortais, ao ser interpelado a respeito de qualquer assunto no balcão do bar, entre um café e um engana-fome.
Escrevo ouvindo ele, o Moacyr, falando na Globo News, sobre a paixão incurável pelas palavras. Há um tempo ele nos deu o prazer de falar conosco num momento muito bem denominado de imperdível, neste caso, para toda a redação de Zero Hora. Recordo que ele contou sobre uma pergunta que haviam feito há algum tempo sobre como ele dava conta de escrever tantas colunas e livros, sem falar na sua carreira de médico. Ele simplesmente disse que sentava e escrevia. Isso me ajudou muito naqueles momentos em que parece que não daremos conta das tantas tarefas que desejamos, mais do que precisamos, cumprir e bem.
Acho que todos estão ainda naquela fase de incredulidade sobre a morte de Moacyr Scliar, mesmo tendo transcorrido tempo de internação e agravamento dos problemas de saúde do imortal. Depois de mencionar esse clichê, relaciono a figura de Scliar com a de meu pai, igualmente elegante e falecido aos 43 anos, com 20 anos menos do que o escritor doutor imortal.
Lembro de outra colega jornalista e escritora de Zero Hora que se retirou deste mundo antes da hora para nós. Eunice Jacques quando faleceu era editora de Opinião de Zero Hora e não tinha idade para morrer, como o meu pai, não que alguém tenha esta idade fatídica, mas estava naquela faixa etária que redobra a incredulidade quando ocorre uma coisa dessas. Espero que Eunice tenha recepcionado Scliar à altura.


