Tive contato com a alma da casa da reportagem de capa de Casa&Cia desta semana. Preciso dizer: sinto prazer em publicar, por meio da arquitetura, um pouco da história do nosso Rio Grande nas páginas do caderno, e agora na revista Mais Casa para tablet. Pois nesta terça soube que conhecia uma personagem que trouxe ainda mais vida ao casarão pelotense revigorado e que desde fevereiro foi convertido em uma loja de moda – veja só. Isso pelo projeto do arquiteto Rudelger Leitzke, morador de Pelotas, que cria um anexo recuado, em uma das laterais.

Abaixo, transcrevo os sentimentos da "neta da casa", a Annita Garcia, hoje com 43 anos.

(Fotos arquivo pessoal)
Deixo agora a palavra com ela.
Félix da Cunha, 719.
Quando peguei o caderno Casa&Cia desta semana e olhei sua capa tive uma grata surpresa. A casa do meu avô Dirceu estava ali. Isso bastou para reavivar muitas recordações.
É difícil eu não olhar o passado com saudades. Saudades de um tempo em que tudo era diferente. Um tempo em que as casas eram o esteio das famílias, e seus cheiros, histórias e sonhos ainda povoam minhas lembranças.
Meu pai Othello tinha 7 anos quando em 1947 meu avô Dirceu Moreira Fabião comprou da família Kramer de Oliveira a nova casa na Félix da Cunha, esquina Voluntários, em Pelotas. Meu pai conta que foram anos maravilhosos. Na casa, ele viveu a infância, a adolescência e a idade adulta. Saiu de lá somente quando se casou, vindo para Porto Alegre.
Lembro da casa desde não sei quando. Parece que ela sempre existiu. Meu pai é filho único e por isso viajávamos muito para Pelotas, para ver meus avós. Lembro que meu pensamento mais remoto era de como a casa era grande, tanto de tamanho quanto de altura, nunca vi um teto tão alto. Passei nela alguns aniversários, datas especiais e comemorativas, além de férias.

Annita é a menina de azul
Na foto da página 6 do caderno aparece a fachada lateral da casa (foto). A primeira janela da esquerda para direita era o escritório do vozinho Dirceu, território proibido para mim e minha irmã. A segunda era o quarto dele e de minha avó. A terceira, uma das salas de visita, mas que sempre era convertida em quarto quando estávamos lá. Tinha uma salamandra antiga, que nos aquecia nas noites geladas e úmidas de Pelotas. Tinha também um quadro enorme, pintado a óleo. Só há poucos anos descobrimos que era o bisavô do meu pai. Ele parecia olhar para mim todas as noites. Eu não gostava daquilo.

(Foto Marcelo Ruschel, Divulgação) Esta imagem é da lateral da casa de esquina. A fachada principal da época em que era uma residência fica à esquerda, de frente para outra rua
Minha avó Angelita era bordadeira habilidosa e fazia doces como ninguém. Me adorava e fazia todas as minhas vontades, para a loucura de minha mãe. Todas as noites, por volta das 21h, a minha vó servia para o vôzinho café preto com bolachas Zazá, de massa folhada com açúcar. Ela trazia para mim e para minha irmã também. Eu devia ter uns 5 ou 6 anos quando fui iniciada nessa tradição. Da minha avó guardo a lembrança de aprender a bordar e costurar, na sala da terceira janela. De comer bolos, tortas, bolachas e tomar café. Muito café.
De meu avô, tive o presente do amor e um legado de história. Ele era um homem culto, lia muito, sobre tudo. Desde pequenina ouvia suas histórias, sempre ao cair da tarde, quando ele chegava do café Aquário. Ele plantou em mim a semente da inquietação pelo conhecimento e a curiosidade.
Parece que foi ontem. O vozinho Dirceu faleceu em 1989, com 86 anos. Pediu a meu pai que quando morresse minha avó ficasse na casa até a hora dela. E assim foi. Numa manhã de dezembro de 2007, minha avó fechou os olhos para sempre na sua própria cama, dormindo e em paz. Tinha 99 anos. Meu pai cumpriu sua promessa. Quando vendemos a casa, foi triste para todos, mas, como é tombada pelo Patrimônio Histórico, a gente sabia que sempre estaria ali.
Escrevo tudo isso para dizer que as pessoas que viveram ali foram felizes. Fizeram conquistas, tiveram seus sonhos e os realizaram, criaram um filho, tiveram duas netas e envelheceram como a vida pede. Foi no escritório do meu avô, na primeira janela, que encontrei muitas respostas para perguntas que nunca foram feitas, quando limpava as gavetas para deixar a casa, após a venda. Descobri ali o quanto ele ainda estava vivo. E que a casa seguiria comigo para sempre, no meu coração.