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Foto polêmica de Barack Obama

26 de julho de 2009 0

Jason Reed/Reuters
Entrevista do jornalista Rodrigo Lopes com o fotógrafo Jason Reed da Reuters. Também neste post o comentário do editor de fotografia do jornal Zero Hora Ricardo Chaves sobre a polêmica foto envolvendo o presidente Barack Obama.

 

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Aos 38 anos, o fotógrafo Jason Reed, da agência de notícias Reuters, já cobriu a tragédia do furacão Katrina, em New Orleans, em 2005, o terremoto que atingiu a região de Gujarat, na Índia, em 2001, e esteve no Afeganistão e no Iraque. Mas nenhuma de suas imagens alcançou tanta repercussão quanto a que ele fez na última reunião do G-8, na Itália. Pelo visor de sua Canon EOS-1 Mk III, observou Barack Obama, Nicolas Sarkozy e Luiz Inácio Lula da Silva. Fez cerca de cem, talvez 200, imagens naquela manhã sem perceber nada diferente.

Horas depois, o olhar experiente do seu editor captou, dentre tantas fotos, aquela que ganharia o mundo e abriria uma polêmica: o milionésimo segundo em que Obama supostamente olha para o bumbum da brasileira Mayara Tavares Rodrigues. Há seis anos no seleto grupo de fotógrafos que cobrem a Casa Branca, Reed contou à Agência RBS como foi o flagrante:

Agência RBS – Como foi feita a fotografia?

Jason Reed – Era apenas mais uma das várias “fotos de família” dos líderes do G-8 reunidos. No final dos dois minutos que tínhamos, todos nós, cerca de cem fotógrafos, voltamos ao centro de imprensa. Entreguei o cartão da máquina ao nosso editor de fotografia, Mal Langson, um veterano da Reuters. Ele olhou as milhares de imagens que fizemos, e sua habilidade para fixar o momento é extraordinária. Deixei o cartão de memória com ele e fui fotografar outras dezenas de eventos. Aí recebi uma ligação de Mal, pedindo que o encontrasse. Ele queria me mostrar uma foto. Era uma imagem, uma fração de segundo em uma sequência tirada com a câmera programada para 10 fotos por segundo.

Agência RBS –Você percebeu o suposto olhar de Obama para a brasileira?

Reed – Quando eu estava fotografando, não percebi que havia aquele momento entre as cem, 200 imagens que fiz lá. Na hora de fotografar, eu não estava conscientemente observando Obama olhando para Mayara Tavares. Ele estava descendo um degrau, para ficar no mesmo nível de Nicolas Sarkozy. Se o presidente Obama está se movendo para qualquer lugar, tenho minha câmera apontada para ele. Estou sempre esperando qualquer coisa acontecer. Ele pode cair ou tropeçar, absolutamente qualquer coisa pode acontecer, e o meu trabalho é registrar isso.

Agência RBS – Você viu o vídeo que foi divulgado após a sua foto, em que Obama aparece ajudando uma mulher atrás dele e que, segundo muitos, mostra que ele não estaria olhando para a brasileira?

Reed – Assisti ao vídeo dezenas de vezes. Mal e eu não tínhamos o luxo do replay e, naquele momento, pensamos que a foto era um inofensivo e até divertido momento que poderia ter algum valor noticioso. A foto foi enviada para a rede de assinantes da Reuters no Brasil e em todo o mundo. Não sabíamos a identidade de Mayara até alguns clientes mais tarde nos contatarem, perguntando quem era a jovem. Eu voltei a olhar minhas fotos anteriores, na sequência, e vi que ela estava usava um crachá com seu nome.

Agência RBS – Você tem outras fotos daquele exato momento que não foram publicadas?

Reed – Existem apenas uma ou duas imagens daquela sequência em particular, nenhuma capaz de provar exatamente se Obama estava olhando para a jovem.

Agência RBS –Ao olhar pela primeira vez a foto, você pensou que a imagem teria a repercussão que teve?

Reed – Assim que vi a imagem pela primeira vez, na tela do computador de Mal, pensei que isso criaria alguma excitação, mas não na escalada que foi. Eu acho que foi engraçado, porque foi uma fração de segundo. Espero que Mayara se torne famosa no Brasil por todas as coisas boas que ela tem feito pelo seu país, como participar da cúpula do G-8, e não apenas por causa da publicidade de uma foto.

Agência RBS –Você teve contato com assessores de Obama após a foto?

Reed – Na manhã seguinte, estava um pouco incômodo para mim porque, na madrugada nos EUA e no Brasil, a foto foi vista em todos os lugares. Instantaneamente, tornou-se a foto mais vista e comentada no site Yahoo. O site americano Drudgereport.com a colocou no topo por mais de 24 horas. Eu sabia que esse tipo de fotografia iria me tornar impopular na Casa Branca. Perguntas do tipo “Como você pode tirar aquela foto?” e “Por que você está fazendo nosso presidente parecer tão mau?” me foram feitas. Mas eles continuaram permitindo que eu entrasse no Air Force One com o presidente para a viagem à África e depois ao voltar para Washington. Então, não foi tão mal. Eles são profissionais e sabem que, em uma imprensa livre, não há controle de imagem. Por outro lado, meus colegas estão chamando a imagem de foto do ano. No final do dia, a Reuters podia se orgulhar de ser uma organização de notícias independente. Nós não respondemos a nenhum governo ou outra organização. Essa foto reflete essa crença.

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  Nada será como antes

As aparências enganam. Foi o que me ocorreu nos últimos dias depois que surgiram questionamentos envolvendo imagens. Primeiro houve o episódio em que Barack Obama teria sido flagrado olhando para o bumbum de uma jovem brasileira. Depois, mais uma tentativa de “provar” que a famosa foto do soldado republicano sendo atingido durante a Guerra Civil Espanhola, feita por Robert Capa, é uma fraude.

Setenta e três anos separam a publicação das duas fotos. Nesse tempo muita coisa mudou. É possível que a imagem de Capa tenha sido “esquentada” pela legenda que recebeu na redação da revista Life: “A câmara de Robert Capa capta um soldado espanhol no instante em que era derrubado por uma bala através da cabeça…”. Dizem que o próprio Capa, quando perguntado sobre o assunto, parecia constrangido. Mas, agora, isso importa muito pouco. Nada fará com que essa foto deixe de ser o símbolo do sacrifício republicano e uma síntese desse fato histórico.

Já no recente episódio envolvendo o presidente americano, ficou claro a “forçação de barra” perpetrada pelo editor de fotos da Reuters. Um vídeo mostra claramente a intenção de Obama que, ao olhar para baixo, ajudava outra moça a descer um degrau em segurança. Para os observadores desconfiados de hoje, nada melhor que muitas lentes sobre um mesmo assunto – e a velha e boa credibilidade estará preservada. Para os que se preocupam com ela, é claro. Fotógrafos ou não.

RICARDO CHAVES* | *Editor de Fotografia de Zero Hora

Postado por Ricardo Duarte, de Floripa

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