
Algo incomum aconteceu no final do dia de abertura da ExpoVinis Brasil 2010. Ao deixar a feira ao lado de Ademir Brandelli, diretor e enólogo da Don Laurindo, fui por três vezes confundido com um de seus filhos em menos de cinco minutos. O equívoco, que automaticamente virou piada, não me rendeu qualquer cota na herança, mas garantiu o convite para visitar a vinícola e participar de uma degustação de garrafas antigas da marca, verdadeiras relíquias guardadas com muito carinho por Brandelli.
A viagem ao passado começou pela safra de 1991 com um cabernet sauvignon, o primeiro vinho da cantina voltado ao mercado _ e não ao consumo de familiares e amigos. Para uma bebida com quase 20 anos e elaborada com técnicas bem menos apuradas do que hoje (vinhedos em latada, grande produção por planta, fermentação em pipas de madeira), foi impressionante ver sua conservação. O que mais denunciava sua idade era a cor, de bordas granada, e o aroma, que apontava redução, apesar de preservar notas de mentol e tabaco. Incrível mesmo foi senti-la na boca, onde se mostrou saudável, leve e agradável, com acidez ainda presente.
A segunda parada foi um tannat 1995, pioneiro no Brasil, segundo Brandelli. No nariz, lembrou couro e um herbáceo que poderia inclusive remeter a produtos jovens. Com o tempo surgiram chocolate e frutas vermelhas bem maduras. Ao primeiro gole, os taninos se mostraram extremamente redondos, proporcionando uma experiência pra lá de agradável. Isso que nem era um vinho de muito corpo, provavelmente por causa das já mencionadas técnicas mais rudimentares de elaboração (o mesmo foi observado na amostra anterior).
As melhores surpresas viriam com o merlot 1996 e o assemblage (40% merlot, 30% cabernet sauvignon e 30% tannat) 1999. Os dois traduziam perfeitamente a contribuição do tempo na enologia. O primeiro a demonstrou por meio de complexidade e elegância no olfato e no paladar. Sensações como um ataque doce na ponta da língua o deixavam ainda mais misterioso e divertido. Já o segundo foi revelando suas principais características conforme respirava. Sendo, até então, o único a passar por barricas de carvalho, trouxe aromas de geleia e baunilha, e na boca explodiu em equilíbrio de acidez e tanicidade.
Para fechar a programação oficial da noite _ outras garrafas viriam na forma de bônus _, chegou a vez de um vinho que nem foi lançado. Brandelli antecipou em primeira mão o rótulo que em 2011 vai comemorar os 20 anos da vinícola e os 80 de seu pai, Laurindo. Porém, tudo que o enólogo revelou é que é um corte de mais de três uvas, todas produzidas 100% pela cantina, está há um ano e meio engarrafado e foram feitas 1.850 garrafas. Pela degustação é possível especular que ancelota e tannat estejam lá. Mas até a próxima ExpoVinis a fórmula seguirá como um segredo de família _ e o fato de eu não saber prova de uma vez por todas que não sou filho do enólogo.
Comentários