É sempre bom ver o vinho ganhando espaço na academia, com cursos de formação e linhas de pesquisa que contemplam a vitivinicultura nacional. No final do ano passado, uma dessas iniciativas foi apresentada no 2º Seminário de Patrimônio Agroindustrial: Lugares de Memória, realizado em São Carlos (SP). Com a participação de universidades de todo o Brasil e do Exterior, o evento recebeu uma representante da Serra. A arquiteta Marilei Piana Giordani apresentou a pesquisa O Vinho e seus Lugares de Memória em Bento Gonçalves - RS, sobre como a cadeia produtiva da uva influencia a identidade da cidade.
Ao saber disso, encomendei a Marilei um artigo que resumisse as linhas de seu estudo. O texto abaixo sobrevoa os temas abordados por ela, como terroir, patrimônio cultural, enoturismo, tecnologia, etc. Boa leitura.
Vinho & Identidade
Arq. Urb. Marilei Piana Giordani - Especialista em Patrimônio Cultural Urbano
O vinho é um produto cultural que tem a capacidade extraordinária de levar consigo informações da terra, como e por quem foi produzido. Tudo isto fechado em uma garrafa, que tocará as mais distantes e diferentes pessoas, sem a necessidade um tradutor para se fazer entender.
Vinho e identidade é a base da minha pesquisa, um assunto que não é comumente abordado em nosso mundo do vinho, mas que faz parte de meu trabalho tanto de pesquisa acadêmica /estudo no mestrado acadêmico quanto de consultoria. Como observar e identificar o vinho como um produto identitário, que expressa as suas características, não somente propriedades organolépticas - como a cor, o brilho, o sabor e a textura - e o que difere um dos outros?
Cada vinho diz respeito às pessoas e às técnicas utilizadas, aos seus saberes, às urbanidades criadas pelos habitantes do lugar, à paisagem cultural que resulta do plantio e de suas vivências e, neste contexto, estão inseridas suas memórias. Todos estes fatores resultam no produto final que encanta gerações há milênios, sendo na maioria dos casos uma tradição familiar , e que ao longo do tempo tornou-se um fator econômico relevante na Serra Gaúcha, compondo um território de referência. Para isto não bastam expressar informações no rótulo, é necessário que o todo demonstre a identidade de onde e por quem foi produzido e elaborado, juntamente com a qualidade técnica.
Apresentando artigos em Congressos internacionais, e pesquisando em áreas vitícolas da Itália , observei a multidisciplinaridade nas Denominações de Origem que não são só áreas geográficas , mas o aporte do embasamento de Patrimônio Cultural que se fazem presentes. Não bastam só técnicas de plantio e elaboração e um território de pessoas apaixonadas pela produção vitícola, se não houver respeito aos atores deste lugar e às suas tradições.
Esqueçam as idéias errôneas e pré-concebidas de que tudo o que é patrimônio cultural (material e imaterial) é velho, sujo e não serve pra nada.... Por exemplo, o patrimônio cultural imaterial só é considerado como tal enquanto é praticado, vivenciado e transmitido. Existem várias maneiras de demonstrar corretamente a cultura e identidade inseridas em um produto , e o fazem pessoas com o olhar treinado para isto.
O entendimento cultural identitário se faz necessário porque irá refletir também diretamente no turismo. Estes que nos visitam, que escolhem conscientemente o destino turístico, querem conhecer lugares e territórios reais, não maquiados nem montados, mas lugares onde vivem e trabalham as pessoas que produzem o seu vinho, e que mostram a identidade do lugar. O manejo da produção vitivinícola e seus produtos paralelos - riquezas invisíveis em sabores, aromas e ambiências associadas à fruição de um bom vinho - são vivências que encantam o viajante.
Referenciando a importância da identidade do vinho, em recente visita à Serra Gaucha no final do ano passado os jornalistas e escritores ingleses especialistas em vinho Jonathan Ray e Charles Metcalfe, depois de visitar várias Vinícolas, descreveram o espumante como símbolo do Brasil. Frisaram a necessidade de se encontrar um nome para o espumante brasileiro, que deverá representar um todo, a sua paisagem cultural de produção, e não somente as varietais e a forma como foi elaborado.
Os desafios do clima e inovações tecnológicas que se fazem presentes hoje na elaboração dos vinhos não devem pautar o aniquilamento da identidade e memória do lugar, invisibilizando as pessoas que ali vivem ou viveram, mas sim agregar valor ao produto. É Justamente esta identidade que se fará presente no produto final e que o diferenciará dos demais, mesmo quando produzido com as mesmas varietais.



Comentários